sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Da vagabunda ao poliamor

Quando eu era criança, me lembro de ouvir as incríveis histórias da minha avó materna. Tinha espeial admiração e prazer em ouvil-la contar de seus namorados simultâneos e seus casos paralelos. Embora eu me identificasse na infância mais com minha avó paterna (não sei bem porquê), a ideia de parecer com ela no quesito relacionamento me causava muito estranhamento, já que ela se casou com um homem que mal conhecia, que tinha "se apaixonado" por ela depois de ver sua foto, linda que era minha avó paterna. Coisa estranha.

Passei boa parte da infância brincando de namorar. Sempre tinha um namoradinho. Tive um desses que durou 3 anos, e acabou quando um dia eu achei aquela coisa de ganhar presentinhos e não dar beijo na boca algo para lá de chato, o que aconteceu ao mesmo tempo do que veio a seguir.
Na adolescência, porém, depois de uma pré-adolescência conturbada, cheia de tesão e liberdade reprimida (em nome da minha segurança física e psicológica, é claro), paixonites gigantescas e platônicas e, o pior de tudo, muito assédio sexual que sofri de meus colegas de escola (pois é, o tiro de segurança restringindo liberdade saiu pela culatra, como sai qualquer segurança que parta de um princípio heterônomo), a ficha caiu e eu saquei: sim, eu sou muito parecida com minha avó materna. Inclusive em uma certa porra louquice, eu diria, particular.

Graças a minha mãe eu ouvia alguns discursos meio anti machistas e socialistas em casa. Combinados com os ideais implantados pelo meu pai, de cristianismo em suas leituras mais a la gauche(ao menos foi isso que absorvi)- igualdade, amor ao próximo e a si mesmo, divisão do pão e do peixe, o que me fez sair correndo rapidinho do catolicismo quando soube o que era a Inquisição - eu fui me tornando uma figura meio braba, e sempre meio questionadora, mesmo antes de saber fazer as perguntas certeiras. Como quando tinha 2 anos, e sem saber falar, desafiava meu pai a me mandar dormir, um homem de mais de cem quilos, a frente de uma menina que nem 1 metro tinha, na porta de meu quarto.

E além de ter na adolescência passado a me identificar cada vez mais com a minha avó, eu me entendia cada vez menos.

Primeiro, eu tinha interesse mesmo, tesão de verdade, em alguns caras que quase nunca eram os que "me respeitariam" - quando eu achava que respeito era algo oposto a desejo. E isso obviamente não é uma leitura só minha: existe um cisma em nossa cultura de que respeito é inverso a desejo. Ou seja, relações de amizade são de respeito, e relações em que há desejo já tem em si um pressuposto desrespeitoso. Pois é, passei por maus bocados nessas: o cara da minha primeira vez, por quem eu ardia de tesão até o último fio de cabelo, foi comigo um típico babaca, contando por aí que eu era uma vagabunda. E eu mesma acreditava nisso. Mal sabia eu que era sim a primeira, mas não seria a última vez que eu passaria por isso.

Demorou para que eu de fato tivesse qualquer contato sexual com alguém além dele. E quando tive, advinha a fama? O caso foi muito grave para minha socialização com o mundo três vezes: em uma, perdi qualquer diálogo sincero com as pessoas com quem fazia teatro, que me olhavam torto. Na outra, fui humilhada com meu nome em portas de banheiro, nas piadas das pessoas, quase ninguém se manteve meu amigo, eu ouvi risadas por muitos meses ao passar na rua,  tive que me explicar para pelo menos umas 5 ou 6 pessoas que viriam a ser amigas minhas me perguntando se "as coisas horríveis eram verdade" - foi horrível, passei 1 ano vagando sozinha e me perguntando por que eu não ia embora de vez dali. O último me rendeu uma série de violências sexuais - porque se vc acha que aquele seu comentário maldoso sobre a menina que, em tese, "deu para todo mundo" não fez mal a ninguém e/ou ela merecia, vc não tem ideia do que isso legitima em termos de violência, vc não faz nem nunca fará ideia do que é ter alguém penetrando seu corpo contra a sua vontade dizendo que vc mereceu - e humilhações públicas por meses, e olha que nesse eu nem fiz nada tão absurdo assim, apenas trepei com o cara errado, na casa errada. Pelo menos tivesse desfrutado de mais corpos. Teria sido melhor.

Nessas, eu tentei por algum tempo me apaixonar por caras decentes, tipo os meus melhores amigos. Eles me inspiravam tanto desejo quanto um javali, e se interessavam tanto por mim quanto se interessariam por suas irmãs. Passei um tempão morrendo de ciúmes e desejando loucamente que eles fossem meus, meus, MEUS, achando que querer um cara com quem eu teria filhos e que jamais me estupraria ou me humilharia publicamente era abdicar daquele prazer com o qual eu sonhava no fundo do meu inconsciente, aquela volúpia que me fazia sentir o sangue correr nas veias....Ah, que força tem o tesão.

Mas depois de ser muito, muito humilhada, e de tantos conselhos bem intencionados - mas opressores - de minhas amigas, de tantos caras que disseram me amar, sempre com um ar de "apesar de vc ser assim, meio vagabunda", eu decidi: Se eu precisaria "largar essa vida" ou ia ficar para sempre na insegurança da solidão, eu escolhi ficar sozinha. Entre liberdade e segurança, depois de tanto abuso que passei mesmo com tanta segurança, que me custou tanta liberdade, eu jamais escolheria a segurança. E fui ser feliz com outras coisas, fui entender o mundo, fui viajar, fui, sei lá, plantar batata e pensar noutra coisa. Desencanei do príncipe no dia que escolhi ser livre ao invés de ter alguém que está comigo por algo que não sou. Pois se eu era uma vagabunda, eu ia fazer o quê?

E o desejo? Ah, esse eu ia saciando com homens que eu fiz de objetos meus. E me sinto triste até hoje pelos 3 ou 4 que não agiram e nem agiriam assim comigo jamais. E me sinto triste por ter achado que liberdade sexual era o que o capitalismo prega: consumo de pessoas.

Um dia, porém, me apareceu uma figura com jeito meio perdido. E no jeito perdido, no entrave - incrível entrave - da língua, ele não sacou meu saco cheio depois de nosso sexo na grama, sob as estrelas - a primeira vez que eu claramente distingui um orgasmo - em terras mais livres que aqui. E ele se encantou pelo que todos lamentaram: que mujer libre eres tu. E eu experimentei algo que me era inteiramente novo: de repente, eu fui amada pela minha natureza. Eu fui pela primeira vez amada por ser uma vagabunda. Uma perfeita vagabunda. Amada por ter prazer, por me entregar, amada no meu corpo imperfeito, amada por desejar, amada pelo sexo. De repente, sexo e amor não pareciam coisas distantes, de repente eu olhei para alguém que me arrepiava todos os pelos do corpo e poderia ser o pai dos meus filhos. Foi uma mudança de paradigma, e foi também como se aquele amor próprio que eu comecei a cultivar no dia em que escolhi a liberdade estivesse ali, despontando da terra e encontrando o sol. E aí ele só cresceu.

Mas, embora amasse minha liberdade, ela ainda o ameaçava. E ao querer uma vagabunda só para ele, ao tentar infringir minha natureza de novo, eu visitei a culpa, a tristeza, e a prisão. E isso me desgastou, isso me corroeu no mais intrínseco da minha natureza. E eu de novo conheci a humilhação de ser subjugada, de ser fisicamente invadida, eu novamente pensei que merecia. Eu tinha medo que ele fosse embora, porque eu jamais achei que alguém mais no mundo poderia amar uma vagabunda como eu. Até que um dia outras diferenças entre nossas naturezas desfizeram nossa virtual união. E assim eu chorei, eu até pensei que o amor estava desfeito de novo, mas enfim, entre chorar e ser livre, eu ia fazer o quê?

E o mundo me aguardava muitas surpresas, é claro. Um dia encontrei um maluco de cabelo bagunçado que era um vagabundo também. A identificação nos tornou amigos, a amizade nos tornou mentalmente afinados, tão afinados que a mente só não dava conta.... Os corpos se uniram em uma bombástica e explosiva união. Dois vagabundos a potencializar a liberdade. Logo viramos 3. E foi com essa figura que, além de muitas outras pazes, eu entendi que minha vagabundagem, pela qual eu e minha avó tanto sofremos, era nada mais, nada menos que uma inaptidão inata para o padrão social de relacionamento: a monogamia. E foi com essa figura que eu entendi que eu e ele somos, na verdade, uma outra versão de amor, o poliamor. E de repente, desejo e respeito fazem parte de um pacote indissolúvel. Amor e sexo são formas extrapoladas um do outro. Liberdade já não é mais oposto a segurança. E foi assim que conhecemos a nós mesmos muito mais, e eu conheci de novo o sabor de andar de cabeça erguida. Eu tive o prazer, esse muito novo, de não me sentir em dívida com o mundo - ao menos não neste aspecto.

E depois disso tudo, vieram alguns outros amores que eu amei e amo muito, que eu quero muito bem. Que assumiriam meus filhos, que me fazem arder de paixão, que poderiam ao mesmo tempo brincar com cordas e cozinhar para mim no jantar, e que jamais tocariam em mim sem meu consentimento. Que jamais me julgariam vagabunda, ao menos não achando nisso algo de ruim.

Quando soube que teria um filho, eu tive muito medo. Eu me lembrei de cada violência que passei, cada dor, cada desvalorização que me imputaram e eu só tive como lamentar. Mas hoje eu percebo, depois de tanta coisa, de tantos caras incríveis que conheci, de tantos caras subjugados pelo patriarcado que em tese os favorece, que mais do que algo inato ao pinto, o machismo e o patriarcado que me subjulgou tantos anos por minha natureza é algo construído, talhado com violência no coração das pessoas. E eu me acalmei: a liberdade, por fim, há de desviolentar o mundo e curar suas feridas.