terça-feira, 16 de julho de 2013

De uma educadora para os médicos

Uma amiga minha ontem me disse "mas você está bolada com esse negócio dos médicos, né?".
Sim, eu estou. Tenho muitos amigos médicos, não só na timeline do Face mas na vida, e os amo de paixão. Resolvi então explicar porque esse mimimi todo me irrita tanto.

Sou educadora popular há 7 anos - 3 anos em um cursinho popular que se transformou e bem que podia ser um belíssimo curso de Ensino Médio, 2 anos num projeto de educação de Jovens e Adultos, como alfabetizadora, e 2 anos em um projeto de extensão tocado por estudantes, que se propuseram a alfabetizar jovens e adultos em uma ocupação do MTST - vulgo favela com reivindicações, em termos de estrutura física. Há 8 anos eu faço disciplinas na Faculdade de Educação da Unicamp, sempre empenhada em entender esse fenômeno no país, porque há 8 anos eu decidi ser professora (na química eu fazia licenciatura). Mesmo no curso de química, que eu me empenhava pouco, eu não perdia uma aula sequer das matérias da Educação, e li quase tudo o que me mandaram ler, e estudei bastante nos projetos de educação dos quais fiz parte.
Embora tanto tempo trabalhando nisso e me empenhando , nunca recebi um centavo sequer pelo meu trabalho. NUNCA. Nada, nadica, e ajudei muita gente a aprender a ler. Meu pagamento era o seu Quirino sainda da sala e lendo na porta "Sala 3", ou a Clei escrevendo um bilhete para a patroa. Algo imensurável de delicioso, mas certamente nunca me ajudou a por o pão na mesa. Eu fiz esse favor ao Estado brasileiro, de tentar reparar um dano causado por séculos de exploração e elitismo, por simples senso de justiça.

O primeiro projeto em que trabalhei, quando eu entrei, funcionava em salas alugadas como um favor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Até que eles eram legais com a gente, mas era a sala e eventualmente o auditório, para algumas aulas especiais. Saímos de lá quando trocou a direção, que nos deu condições absurdas de funcionamento para continuarmos... E assim ficamos alugando salas do IFCH, como alunos, e eventualmente sem ter onde dar aula, usamos os corredores do prédio e as mesinhas da Arcádia, espaço de convivência do IEL. As provas que fazíamos e atividades que requeriam cópias, conseguíamos fazer na conta do Diretório Central dos Estudantes. Tínhamos uns 100, 200 reais por mês que, se não me falha a memória,e eram dados por Centros Acadêmicos da própria Unicamp. Locação de filmes para passar, por exemplo(naquela época não era trivial ainda baixar filmes na internet), saíam desse dinheiro, quando tínhamos, ou mesmo do nosso bolso. Os materiais para nossas atividades de laboratório e coisas do gênero vinham de pedir uma mangueira daqui, ver o que tinha em casa, comprar do nosso bolso.... O projeto ia lindo em 2007, reformulado e incrível, mas no final do ano uma bomba veio sobre ele: a maioria de nós, professores, não teria como dedicar mais  tanto tempo porque tinha atrasado o projeto de mestrado/doutorado, ou simplesmente precisaria ganhar algum dinheiro para continuar. Um a um, resistimos enquanto pudemos, até que sobraram tão poucos de nós que, mesmo com a experiência e o tesão absurdo em fazer isso, o projeto acabou.

O segundo lugar em que atuei tinha mais estrutura: é tocado pela Sonia Giubilei, professora aposentada da Faculdade de Educação. Funciona até hoje no COTUCA, mas claro: só podíamos usar do COTUCA as salas e os banheiros, nada de internet e coisas assim como já pedimos uma vez. O Projeto Educativo de Integração Social desembolsou em 2010 o dinheiro para comprar um computador. E os estudos do meio sempre estavam perigando na vontade dos diretores da Faculdade de Educação, à qual o projeto é vinculado, como se fosse um favor para nós. Alguns professores eram estagiários nas matérias da FE, outros voluntários e outros eram bolsistas trabalho - o que gerava um problema de compromisso por parte dos professores, e veja, uma bolsa trabalho é abaixo do salário mínimo. E bom, assim continua até hoje o projeto, que tem uns 30 anos quase nas costas e já alfabetizou e ajudou a formar muitos adultos da cidade, mesmo funcionando só aos sábados.

O terceiro, do qual sou uma das fundadoras, aprendeu tudo na raça. A nossa sala de aula era de madeirite, e bastava uma chuva de verão para levar teto e parede embora, e nós, professores e alunos, reconstruímos e organizamos um sem número de vezes....A mesa para nossos alunos estudarem foi construída com as nossas mãos e de nossos alunos, os cadernos foram doação de uma diretora de São Paulo, do CIEJA- Campo Limpo, e as cadeiras foram pedidas numa escola ali perto, que nos doou as que estavam piores. Trabalhamos assim por um ano, e alfabetizamos uma galera. Ficamos imensamente felizes quando conseguimos num edital a incrível verba de 8 mil reais para um ano de trabalho - veja, 8 mil para o projeto todo, e sem sobrar um centavo para nós, que com alguma sorte, pelo menos pagamos a gasolina para irmos dar aula, ou seja, não pagamos para trabalhar.
E quando íamos trabalhar, passávamos ali do ladinho do tráfico de drogas, vimos gente ser morta no meio da rua em plena luz do dia, vimos gente morrendo de fome, doente, e ouvimos as incríveis recomendações e diagnósticos absurdos dos médicos da região, isso sem contar no que eles mesmos entendiam quando vocês mandavam que eles tomassem um remédio de 8 em 8 horas...No verão o cheiro do lado da sala era horrível por causa de um monte de lixo jogado no terreno ao lado, e não tínhamos banheiro na nossa sala de aula. Agora, vamos dar aula na Flaskô, uma fábrica ocupada, e estamos felicíssimos porque pelo menos não teremos que reconstruir nosso espaço a cada verão, não teremos tanto contato com o tráfico e - olha que mágico - ganhamos 22mil reais para um ano de trabalho, o que daria, dividindo entre nos remunerar e material para o grupo todo uma remuneração fantástica de 70 reais por mês. E estamos felizes com isso!!!

Na educação, o dinheiro que recebemos do PIB não vai todo para a educação pública. Se a saúde recebe uma porcentagem menor, pelo menos é melhor repassada entre seus profissionais: não é porque a verba que vai para a educação é maior que é bem distribuída, ela vai para a educação privada, para a compra de apostilas babacas para crianças de 4 anos dos empresários da educação, para consultorias horrorosas feitas por engenheiros que não fazem ideia de como alfabetizar uma pessoa, ou para a compra de milhares de computadores que ficam travados em salas de informática sem pessoal capacitado. Os professores são amordaçados em suas greves, temos a pior remuneração entre as profissões de Ensino Superior no país, se está formando professores a distância em 2 anos, que chegam despreparados para trabalhar numa escola que não facilita em nada sua vida... As reformulações curriculares no Brasil tiveram também participação de pessoal do exterior, mas não dos cubanos com seus índices excelentes em provas internacionais, e sim de espanhóis, que nos venderam uma metodologia e perspectiva pedagógica ultrapassada no país deles há mais de 10 anos (as tais competências e habilidades, no governo FHC).

Existem escolas públicas que funcionam bem? Existem. O CIEJA- Campo Limpo é um exemplo, atende 1500 jovens e adultos no município de São Paulo, dentre eles mais de 300 alunos com deficiências de todo o tipo, da "simples" cegueira à paralisia cerebral grave, que nem andam e pouco falam. Existe o Âncora, em Cotia, com parceria com a Secretaria Municipal de Educação de lá. Existe o Agostinho Páttaro em Barão Geraldo, que é lindíssimo em termos de estrutura e funciona bem. Em todas essas escolas, porém, nenhum professor ganha mais do que 2,5/ 3 mil reais. Nenhum, e no Âncora alguns são voluntários, inclusive. Em todas essas escolas, as verbas para manutenção e compra de materiais são poucas, e acaba que suas diretoras/coordenadoras aceitam verbas de empresas particulares, que se aproveitam do espaço para publicidade barata; ou pior ainda, tiram dos bolsos dos professores ou do bolso dos pais de alunos um dinheiro a mais para funcionar.... Isso sem contar na prática de guardar canudinhos do lanche e restos de papel por aí afora para ter material para as aulas de artes. E o povo pira achando lindo o trabalho com sucata.... Seria lindo, se não viesse do migué das políticas públicas.

E mesmo quando eu finalmente ganhar na minha profissão, vou ganhar como máximo o mínimo salário de vocês - 3 mil reais - e ficar felicíssima.

Depois de tudo isso, vejam como eu me sinto quando vocês, médicos, reclamam de ter o curso aumentado em 2 anos para trabalhar remuneradamente, o que eu amaria que acontecesse com os cursos de Pedagogia, ter 2 anos de trabalho remunerado com vínculo com a Universidade; vejam como eu me sinto quando vejo que os melhores profissionais da saúde do meu continente, que sem toda a parafernalha tecnológica conseguem manter os melhores índices de saúde pública mesmo tendo um PIB ridiculamente inferior ao nosso, estão vindo para cá e vocês bradam seus gritos - elitistas e sim, racistas - contra a vinda deles, ainda mais depois de saber que vcs mesmo recusam trabalhar em lugares "sem recursos" por 10mil, 15 mil, 25mil- sem recursos ou sujinhos, que vão sujar as roupinhas brancas de vocês com esse nojo todo de pobre?

E o mais impressionante: todo esse mimimi depois de aprovarem o Ato Médico, que lhes dá super poderes, como se entender da fisiologia humana sob a perspectiva ocidental fosse tudo o que há para se entender da saúde desse ser complexo que é o ser humano. Lamentável, eu diria.

Então pensem bem nas reclamações de vocês, e venham reivindicar coisas melhores do que o que vem reivindicando, e terão, assim, o apoio massivo da população.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Amor não é bossa nova

O amor não é uma bossa nova, nem uma ideia calcada em palavras bonitas,
O amor é o suor compartilhado em cada tijolo empilhado.
O amor não é um carinho, um toque suave,
O amor é o som dos martelos batendo nos pregos, levantando as paredes.
O amor não é um abraço e um beijo vazio,
Nem o fogo que cresce das entranhas,
Nem o calor úmido de um orgasmo sequer,
Embora ele até possa nascer disso...
Nem tampouco passar a mão na cabeça,
Um afago falso, que vê a frente o abismo do outro mas não puxa sua mão.
O amor é a matéria, a construção,
Edificada coletivamente, levantada com as mãos.
O amor é a divisão igual do trabalho,
É levantar o outro cansado com o próprio corpo,
É segurar aquele que cai, ainda que isso lhe doa,
É honrar o compromisso que as entranhas prometeram na paixão.
Amar é ser companheiro no que se constrói do mundo,
E extrair do concreto, das vigas e do metal
Todo o sentido de se viver.
E as palavras de amor só tem valor e sentido de fato,
Se vierem do trabalho coletivo,
E aí puderem representar seu prazer.