segunda-feira, 27 de maio de 2013

Pietro

Você começou com uma brincadeira maluca entre os seus pais e o fogo nas víceras que nos retorcia e exigia a materialidade da paixão...
Surgiu de um tesão absurdo, um desejo louco, um apreço pelo desafio, entre esses dois ares que somos eu e seu pai.
Cresceu dentro de mim e foi me despertando milhões de perguntas, sobre o mundo, sobre a vida, me revelando para mim mesma quem eu era, abrindo caminhos para muito além da minha consciência.
Tudo muito forte e intenso, e há 3 anos, nós dois nos atiramos na loucura de te colocar para fora, de te dar o ar. Foi uma viagem louca para dentro de mim o parto, revelou dores muito profundas, trazidas a tona num orgasmo invertido, em dores vicerais e caladas.... Quando eu me libertei dos medos e me entreguei à dor alucinante, abriu-se para ti o caminho, e na tua passagem pelas minhas víceras abertas já não doía mais nada em mim - ao contrário, era uma sensação quente, uma sensação divinamente profana, deliciosa, sentir ali o teu corpo passando, a cabeça grande passando, e eu ali aberta a tudo aquilo que vinha com você, você ali surgindo para a luz, para o ar... E quando saíram teus pés, quando te colocaram na minha barriga do lado de fora, quando eu vi seus olhões abertos e seu corpinho roxinho, eu entendi do que é feito o amor, essa força viceral que move o que há de mais humano em nós... E nessa hora eu, aprendendo ainda o que era ser mãe, ouvi a voz daquelas mulheres deusas doulas brilhantes dizendo: "massageia as costinhas", e obedeci, e te vi aprender a respirar, ainda ligado a mim, cuspindo a água que te sustentava para deixar entrar o ar que te tornaria um ser menos dependente de mim, o primeiro passo na tua longa caminhada de se tornar livre...
E você mamou em mim pela primeira vez, e eu te olhava com os olhinhos agora sonolentos, e meu coração não cabia em mim.... E eu via teu pai ali do meu lado, também entendendo o mundo todo diferente, segurando minha mão, beijando minha boca...
E logo chegaram as pessoas todas, a deusa-mãe que ajuda tantas mulheres nessa jornada louca do parto, chegando como um sol leonino no quarto, chegaram aqueles amigos lindos, e logo estava teu avô caboclo como a terra, plantando um lindo jardim para ti, chegaram teus tios e tias, tua madrinha, teus avós paternos e tua avó materna a se espantar junto comigo com o reencontro com meu pai que você significou, e todo mundo estava em festa por te receber, uma festa colorida, e enquanto uns me davam comida e banho, outros cozinhavam para nós, e outros lavavam as águas e o sangue que tinham inundado o quarto e os lençóis na tua chegada ao mundo...E seu pai estava ali, encantado com a sua presença e enfim se sentindo pai, e adormeceu olhando para seus olhinhos fechados em repouso, e ali dormiu a noite toda te segurando no colo...
E seu cheiro estava espalhado no ar, aquele cheiro de amor viceral de parto...
Nenhum nome seria mais próprio a ti, Pietro, pedra nossa, que segura o furacão que eu e seu pai somos, e nos dá a terra necessária a materializar a transformação, construir pedra dobre pedra algo novo, algo que revolucione um pouco esse mundo...
E a cada ano que passa dessa loucura toda, eu me sinto feliz em te ver crescendo e virando uma pessoinha livre, cada dia mais autônoma, cada dia mais livre...E cada dia que passa você me desafia a pensar algo novo, agir diferente e transformar alguma coisa, e por isso, a cada dia, eu sou mais e mais lliberta....
Feliz Aniversário, meu pequenino....


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Amor nos tempos do cólera

Que porra de sociedade doente a gente está agora, em que o amor é um problema? E os amores que irradiam do corpo, do corpo trêmulo e orgástico para o lado de dentro, por que não podem se anunciar por aí, por que no mundo eu não posso dizer eu te amo para todo mundo que de fato amo, ou amei por um dia que fosse? 
Quando o amor virou um problema, quando o amor foi contaminado pela marca da posse e do medo? Por que a gente tem tanto medo de amar, por que amar dá tanto medo?

Quando foi que nos treinamos a não sentir, a não amar, a não nos entregar ao outro e criar um nós sólido, corpóreo e livre? Por que lacramos os corações e os corpos, afinal, e cultivamos relações distantes e "seguras"? Quando foi que a inveja e a competição começou a ter mais valor que o amor e a paixão?