quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Dos frutos que não imaginamos


O valor do educador inclui, mas está muito além da técnica da escrita, da cultura erudita: está na valorização da humanidade, no crescer da voz, na libertação pela comunhão entre as pessoas.

Hoje tive uma colheita que não esperava: em meio a uma situação triste de risco iminente de despejo da comunidade em que trabalhei todo o ano passado, quando perguntamos à comunidade com o que podíamos ajudar, ao invés de barricadas, posts pedindo solidariedade e apoio na internet, cartas à prefeita, fogo em pneus, eles nos pediram que fizéssemos dentro do assentamento saraus, levássemos filmes, circo, atividades com as crianças, pois isso levantaria a bola, plantaria uma semente de otimismo, porque as pessoas já estavam desistindo e desmontando seus barracos.

E essa é a beleza e principal função da arte, da cultura: nos nutrir de narrativas, de vida, de esperança, de entendimentos e de humanidade.
Impossível não lembrar da Michele Petit.

No meio da tristeza de pensar para onde vai aquela gente se rolar um despejo, eu vejo um fruto do trabalho que, mesmo lendo muito Paulo Freire, eu nem imaginava que tinha tido: não só nós, educadores, nos fizemos e nos percebemos mais humanos, mas a comunidade que nos cerca também se sentiu assim. E isso me dá uma alegria, uma emoção profunda, uma felicidade infinita e inexplicável.

Hoje eu botei mais fé no meu trabalho, hoje eu tive certeza pela milésima vez do que eu já sabia: é na educação que quero ficar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Militantes: a liberdade é corpórea


Cada vez mais acredito que os males pelos quais passamos hoje vem do corpo. Não no sentido de que tudo se resolve dependendo só da sua vontade, do que vc come, etc, mas no sentido de que a opressão que nos assola tem um lado material e corpóreo que frequentemente ignoramos. Estamos brigando contra um sistema que está instalado em nossos corpos, mas ignoramos isso. Ignoramos que a globalização, em especial dessa medicina calcada no uso excessivo de medicamentos alopáticos e consumo de "alimentos" extremamente tóxicos sem controle, está nos escravizando e matando por dentro.
O ativista, o militante, entorpece o corpo com o café excessivo, com o cigarro que nos deperta para tirar o sono e ter o pique que nos roubaram. Toma o analgésico para tirar a dor de cabeça constante, o antiinflamatório e o antibiótico para combater aquela infecção que sempre vem...Come açúcar para silenciar a revolta e conseguir se divertir, planeja o grande golpe sob o efeito entorpecente da cerveja, precisa do baseado para dar risada....
E ninguém pára para pensar como diminuir isso, sem ser pelo discurso moral "eu tenho que parar com isso porque dá tal doença", não conseguimos pensar que não é por acaso que essas coisas nos atraem. Estão nos envenenando por dentro duplamente: primeiro pelo que nos faz sempre cansados, depois pelo que usamos para ignorar esse cansaço.

Quando vamos perceber que a saúde é um pressuposto primordial para nossa força? Como vamos pegar em armas sem corpos fortes?

E sob outro viés, agora constato novamente que a liberdade é corpórea.;

Militantes: a liberdade é corpórea


Cada vez mais acredito que os males pelos quais passamos hoje vem do corpo. Não no sentido de que tudo se resolve dependendo só da sua vontade, do que vc come, etc, mas no sentido de que a opressão que nos assola tem um lado material e corpóreo que frequentemente ignoramos. Estamos brigando contra um sistema que está instalado em nossos corpos, mas ignoramos isso. Ignoramos que a globalização, em especial dessa medicina calcada no uso excessivo de medicamentos alopáticos e consumo de "alimentos" extremamente tóxicos sem controle, está nos escravizando e matando por dentro.
O ativista, o militante, entorpece o corpo com o café excessivo, com o cigarro que nos deperta para tirar o sono e ter o pique que nos roubaram. Toma o analgésico para tirar a dor de cabeça constante, o antiinflamatório e o antibiótico para combater aquela infecção que sempre vem...Come açúcar para silenciar a revolta e conseguir se divertir, planeja o grande golpe sob o efeito entorpecente da cerveja, precisa do baseado para dar risada....
E ninguém pára para pensar como diminuir isso, sem ser pelo discurso moral "eu tenho que parar com isso porque dá tal doença", não conseguimos pensar que não é por acaso que essas coisas nos atraem. Estão nos envenenando por dentro duplamente: primeiro pelo que nos faz sempre cansados, depois pelo que usamos para ignorar esse cansaço.

Quando vamos perceber que a saúde é um pressuposto primordial para nossa força? Como vamos pegar em armas sem corpos fortes?

E sob outro viés, agora constato novamente que a liberdade é corpórea.;

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Prato político


Estamos num mundo completamente alucinado.
Se de um lado temos uma miséria alastrada, de gente que passa fome por não ter o que comer, do outro temos uma multidão de pessoas que comem demais, e por isso passam fome o tempo todo.
O consumismo, em especial o do nosso prato, o do supermercado, tem nos matado todos aos poucos, numa falta de saciedade completamente estapafúrdia e desnecessária.

Nessas minhas duas semanas de desintoxicação, depois de matar bichos que me comiam por dentro, desinchar e emagrecer, perder celulite aos montes, ter bom humor quase o tempo todo de novo e disposição para viver, a sensação que tenho é de uma saciedade feliz e nutrida. Fazem 2 horas que comi e não tenho fome. E não terei fome até voltar da natação.

E minha fome se vai na comida que eu vou ingerindo devagar, sentindo a comida mudar de gosto enquanto é digerida lentamente pela boca, treinando minhas mandíbulas de mamadeira. Ao final da refeição, uma saciedade leve, sem aquela ressaca de estufamento horrível, sem o sono mortal de antes...

Comendo menos, como orgânico, sobra dinheiro para eles, para os integrais, para as castanhas... Cozinhando-os, produzo e por isso reflito sobre a produção, que nada vem de um lugar mágico onde entrego papéis e recebo coisas como o consumismo nos faz imaginar: tem suor de muita gente no prato que está a nossa frente, tem trabalho, tem mãos, tem terra.

E assim eu combato o consumismo que me falta: o do prato.

E é assim que o meu prato faz política.