sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Astrologia em tempos de ceticismo

Esses dias conversava eu com Bernardo, que nem adianta taguear porque não vai ver, sobre astrologia - ele, que sempre foi até chato no seu ceticismo, tem começado a se interessar mais(é o ascendente em Aquário, derretendo a pedra taurina de seu ser com a passagem do tempo, chegando cada dia mais perto dos 28 anos).
Acontece que astrologia não é uma invenção baseada em imaginação inventada há 100 anos por meia dúzia de adolescentes bobonas, como adoram pintar por aí. É um daqueles conhecimentos mágicos de mundo - claro que não é ciência, nem quero colocar como se fosse, como adoram os religiosos de hoje em dia, até porque eu nem acho que ciência seja o único conhecimento válido que existe - forjados há mais de 3mil anos atrás, com observações minuciosas sobre a posição dos astros e o impacto da natureza sobre as pessoas. Porque, embora as pessoas hoje se esqueçam disso, quem define nosso calor escaldante de região tropical em janeiro e o frio dos países nórdicos, que não vêem o sol por meses é exatamente a posição do planeta em relação ao Sol - angulação, rotação e translação da Terra, o fato de ser elipse.
As constelaações são apenas uma coincidência, mas não só uma coincidência com datas de aniversário, e sim com determinadas estações do ano. As estações determinam muito a nossa volta e sempre definiram, mesmo em tempos de capitalismo e industrialização: se não definem mais o que comemos de maneira tão direta, com as frutas da época e os animais disponíveis para carne, ao menos ainda definem o calor e a umidade do ambiente.
Astrologia é um jogo complexo de arquétipos, que foi criado na regiao da Pérsia. Claro que muito mudou de lá para cá, e muito muda se mudamos de hemisfério, mas cabe a nós observar essas mudanças e adaptar leituras, entendendo suas limitações.
Este complexo jogo de arquétipos jamais se colocou como definidor de personalidades e de caráter, ela apenas correlaciona aspectos observados das pessoas com a natureza.
Acho curioso como em tempos de tanta ciência e psicanálise a gente não conceba que as primeiras sensações fora do corpo da mãe, tão exploradas em relação a ausência ou presença materna, não tenham a ver também com as primeiras sensações de calor e frio, umidade/secura, vestimentas ou nudezes. Que nao tenham a ver com os alimentos que nossa mãe come quando nascemos, comprovadamente tão influentes em nossos hábitos alimentares. Acho interessante como nos colocamos como seres tão descolados de toda a natureza e do ambiente que está a nossa volta, colocando toda a nossa formação apenas na relação que temos com outros seres humanos, e não com o todo em volta de nós. E nesse sentido a astrologia foi reduzida a uma babaquice para adolescentes.

Não se trata de acreditar em astrologia ou não. Mas de respeitá-la, como talvez uma das poucas vozes que ainda ligam nossos comportamentos aos nossos corpos, nossos corpos ao nosso habitat.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Pela maternidade (e paternidade) liberta

Dizem que a maternidade tira a liberdade da mulher.

Por muitos anos, as mulheres foram escravizadas por serem mulheres, simplesmente. Por muitos anos, não houve saída.
Um dia, nos cansamos das correntes. Precisamos concentrar as forças em quebrá-las. Fortalecemos nossos músculos para não usar os sutiãs queimados, colocamos calças, cortamos os cabelos. Primeiro nós precisamos de fato nos espelhar no masculino para provar que não eram nossas bucetas que nos proibiriam de ser capazes. Sentamos no banco do motorista, aprendemos a escrever e ler, aprendemos a lutar, e concentramos toda a força nisso.
Precisamos para isso, parar de carregar nossos bebês - que carregávamos aos montes, sem vontade, por aí. Arrastávamos junto com eles, também oprimidos pelo patriarcado, nossa dor, projetamos e reproduzimos isto neles. Precisamos por nós e por eles parar de carregá-los.

E aí começamos a ser vistas como seres que poderiam, sim, que eram capazes, que talvez pudessem ter alguma liberdade,

Mas agora, por nossa liberdade e pela liberdade da infância, nos falta quebrar essas correntes que nos colocam quando nossos úteros começam a crescer, nos falta dizer não às correntes que dizem que a maternidade é o fim da liberdade feminina.
Por nós, para que possamos escolher QUALQUER COISA, inclusive a maternidade, sem abrir mão da nossa liberdade, nós precisamos negar e bater o pé quando nos tentarem amarrar no parto. Que não nos amarrem nem em nossas tetas leiteiras, ou em nossas estrias da barriga.
Está na hora de mostrar para o mundo que nós mulheres podemos e seremos livres com nossos filhos nos braços, que eles não serão o que nos impedirá de amar livremente, gozar loucamente, lutar bravamente. Que nós ensinemos pelo que somos às nossas crias que a liberdade não tem preço e é o pressuposto para a felicidade. Por nós e por eles.

Está na hora de libertar os homens da cruz em que se meteram, de imaginar que não podem ser bons pais porque o trabalho é incompatível com os filhos. Está na hora deles entenderem que o amor é faculdade humana, que lutar, gozar e amar são possíveis também na paternidade responsável, que carinho, colo e amor também se faz com a barba, que as mãos grandes e fortes também servem para trocar fraldas e acalmar a cólica.
Está na hora de fazer da maternidade e da paternidade uma opção de vida tão livre e feliz quanto qualquer outra.

Está na hora também de construir um conceito de liberdade que não seja fiado no consumo e no mercado. Que não seja só sair a noite para tomar cerveja a hora que quer, ou comprar o carro do ano com o dinheiro que vc usaria em fraldas. Está na hora de ensinarmos ao mundo que liberdade começa dentro de si mesmo, e se expande pelo seu exercício, pela constante reflexão.
Está na hora de nos libertar da ideia do filho como um calvário que se carrega, da maternidade e da paternidade como um padecimento no paraíso, como se um filho fosse uma desgraça na vida das pessoas. Está na hora de libertarmos nossos filhos das escolhas que fizemos e das mazelas das nossas vidas.

Por um conceito de maternidade e de paternidade para além das amarras. Sim, é possível ser livre e ter filhos.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sobre conhecimento, cocô e a pós-modernidade.


Um cano x estourado, e nós, de uma das gerações que mais discutem freud, nietzche, marx, nanotecnologia, transgenia, carros de 200km/h e a relação disso tudo com a morte e vida severina, mas cada vez menos sabemos limpar o próprio cocô, somos colocados em nosso devido lugar: o de alienados da própria matéria. Completamente alienados porque não temos ideia de como se constroi uma casa, como se faz uma rede de encanamento, como se virar sem uma descarga em casa.

Quando eu dei aula no Zumbi dos Palmares, assentamento do MTST - que estruturalmente era como uma favela - eu me dei conta disso, já que meus alunos sabiam muito mais sobre casas do que eu poderia sonhar saber. Não só sabiam, como hackeavam - usando um termo tão lindo de uma cultura presente na classe média, para algo que parte, no caso deles, da sobrevivência mais intrínseca - em cima do pouco que tinham para construir alguma coisa. Como pode ser tão difícil para nós, da ponta do trabalho intelectual, perceber que somos completamente alheios de todo o lado material da produção, e que isso nos torna dependentes em tudo das classes mais pobres, que são pobres exatamente pela desvalorização de seu precioso trabalho? E não venham me dizer que um engenheiro sabe mais que essas pessoas - não, não sabe, porque eu quero ver se um engenheiro se vira com 10 folhas de madeirite e umas telhas de amianto, sem banheiro para aliená-lo do próprio cocô.

E não só de casas entendem meus alunos, entendem de árvores de café, cavalos, plantações, móveis, cozinha e, bom, claro, limpeza. Entendem e eu me sinto uma aluna aprendiz com a Clei aqui em casa, ela que é uma mestra nas artes da limpeza e da organização - e em algumas outras. Eu, como alguém que se esforça em driblar a preguiça e a frescura de intelectualóide, tento aprender, mas sou ainda sou alfabética-silábica nestas artes. Ainda me é difícil pegar na vassoura para riscar esse caderno que é o chão de minha própria casa, ainda me sinto cansada pelas primeiras panelas que lavo...Nessas artes, mal leio um livro de 30 páginas.

Tudo o que é sólido desmancha no ar, e nós, das castas alfa e beta desse Admirável Mundo Novo, estamos aqui sofrendo o esvaziamento da matéria, "vencendo" - ou melhor, cortando a cabeça dos - os limites dela, para depois procurarmos eternamente a cabeça desse espírito humano, que é o trabalho. E dá-lhe SOMA para permanecer na Utopia do consumo....

terça-feira, 16 de julho de 2013

De uma educadora para os médicos

Uma amiga minha ontem me disse "mas você está bolada com esse negócio dos médicos, né?".
Sim, eu estou. Tenho muitos amigos médicos, não só na timeline do Face mas na vida, e os amo de paixão. Resolvi então explicar porque esse mimimi todo me irrita tanto.

Sou educadora popular há 7 anos - 3 anos em um cursinho popular que se transformou e bem que podia ser um belíssimo curso de Ensino Médio, 2 anos num projeto de educação de Jovens e Adultos, como alfabetizadora, e 2 anos em um projeto de extensão tocado por estudantes, que se propuseram a alfabetizar jovens e adultos em uma ocupação do MTST - vulgo favela com reivindicações, em termos de estrutura física. Há 8 anos eu faço disciplinas na Faculdade de Educação da Unicamp, sempre empenhada em entender esse fenômeno no país, porque há 8 anos eu decidi ser professora (na química eu fazia licenciatura). Mesmo no curso de química, que eu me empenhava pouco, eu não perdia uma aula sequer das matérias da Educação, e li quase tudo o que me mandaram ler, e estudei bastante nos projetos de educação dos quais fiz parte.
Embora tanto tempo trabalhando nisso e me empenhando , nunca recebi um centavo sequer pelo meu trabalho. NUNCA. Nada, nadica, e ajudei muita gente a aprender a ler. Meu pagamento era o seu Quirino sainda da sala e lendo na porta "Sala 3", ou a Clei escrevendo um bilhete para a patroa. Algo imensurável de delicioso, mas certamente nunca me ajudou a por o pão na mesa. Eu fiz esse favor ao Estado brasileiro, de tentar reparar um dano causado por séculos de exploração e elitismo, por simples senso de justiça.

O primeiro projeto em que trabalhei, quando eu entrei, funcionava em salas alugadas como um favor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Até que eles eram legais com a gente, mas era a sala e eventualmente o auditório, para algumas aulas especiais. Saímos de lá quando trocou a direção, que nos deu condições absurdas de funcionamento para continuarmos... E assim ficamos alugando salas do IFCH, como alunos, e eventualmente sem ter onde dar aula, usamos os corredores do prédio e as mesinhas da Arcádia, espaço de convivência do IEL. As provas que fazíamos e atividades que requeriam cópias, conseguíamos fazer na conta do Diretório Central dos Estudantes. Tínhamos uns 100, 200 reais por mês que, se não me falha a memória,e eram dados por Centros Acadêmicos da própria Unicamp. Locação de filmes para passar, por exemplo(naquela época não era trivial ainda baixar filmes na internet), saíam desse dinheiro, quando tínhamos, ou mesmo do nosso bolso. Os materiais para nossas atividades de laboratório e coisas do gênero vinham de pedir uma mangueira daqui, ver o que tinha em casa, comprar do nosso bolso.... O projeto ia lindo em 2007, reformulado e incrível, mas no final do ano uma bomba veio sobre ele: a maioria de nós, professores, não teria como dedicar mais  tanto tempo porque tinha atrasado o projeto de mestrado/doutorado, ou simplesmente precisaria ganhar algum dinheiro para continuar. Um a um, resistimos enquanto pudemos, até que sobraram tão poucos de nós que, mesmo com a experiência e o tesão absurdo em fazer isso, o projeto acabou.

O segundo lugar em que atuei tinha mais estrutura: é tocado pela Sonia Giubilei, professora aposentada da Faculdade de Educação. Funciona até hoje no COTUCA, mas claro: só podíamos usar do COTUCA as salas e os banheiros, nada de internet e coisas assim como já pedimos uma vez. O Projeto Educativo de Integração Social desembolsou em 2010 o dinheiro para comprar um computador. E os estudos do meio sempre estavam perigando na vontade dos diretores da Faculdade de Educação, à qual o projeto é vinculado, como se fosse um favor para nós. Alguns professores eram estagiários nas matérias da FE, outros voluntários e outros eram bolsistas trabalho - o que gerava um problema de compromisso por parte dos professores, e veja, uma bolsa trabalho é abaixo do salário mínimo. E bom, assim continua até hoje o projeto, que tem uns 30 anos quase nas costas e já alfabetizou e ajudou a formar muitos adultos da cidade, mesmo funcionando só aos sábados.

O terceiro, do qual sou uma das fundadoras, aprendeu tudo na raça. A nossa sala de aula era de madeirite, e bastava uma chuva de verão para levar teto e parede embora, e nós, professores e alunos, reconstruímos e organizamos um sem número de vezes....A mesa para nossos alunos estudarem foi construída com as nossas mãos e de nossos alunos, os cadernos foram doação de uma diretora de São Paulo, do CIEJA- Campo Limpo, e as cadeiras foram pedidas numa escola ali perto, que nos doou as que estavam piores. Trabalhamos assim por um ano, e alfabetizamos uma galera. Ficamos imensamente felizes quando conseguimos num edital a incrível verba de 8 mil reais para um ano de trabalho - veja, 8 mil para o projeto todo, e sem sobrar um centavo para nós, que com alguma sorte, pelo menos pagamos a gasolina para irmos dar aula, ou seja, não pagamos para trabalhar.
E quando íamos trabalhar, passávamos ali do ladinho do tráfico de drogas, vimos gente ser morta no meio da rua em plena luz do dia, vimos gente morrendo de fome, doente, e ouvimos as incríveis recomendações e diagnósticos absurdos dos médicos da região, isso sem contar no que eles mesmos entendiam quando vocês mandavam que eles tomassem um remédio de 8 em 8 horas...No verão o cheiro do lado da sala era horrível por causa de um monte de lixo jogado no terreno ao lado, e não tínhamos banheiro na nossa sala de aula. Agora, vamos dar aula na Flaskô, uma fábrica ocupada, e estamos felicíssimos porque pelo menos não teremos que reconstruir nosso espaço a cada verão, não teremos tanto contato com o tráfico e - olha que mágico - ganhamos 22mil reais para um ano de trabalho, o que daria, dividindo entre nos remunerar e material para o grupo todo uma remuneração fantástica de 70 reais por mês. E estamos felizes com isso!!!

Na educação, o dinheiro que recebemos do PIB não vai todo para a educação pública. Se a saúde recebe uma porcentagem menor, pelo menos é melhor repassada entre seus profissionais: não é porque a verba que vai para a educação é maior que é bem distribuída, ela vai para a educação privada, para a compra de apostilas babacas para crianças de 4 anos dos empresários da educação, para consultorias horrorosas feitas por engenheiros que não fazem ideia de como alfabetizar uma pessoa, ou para a compra de milhares de computadores que ficam travados em salas de informática sem pessoal capacitado. Os professores são amordaçados em suas greves, temos a pior remuneração entre as profissões de Ensino Superior no país, se está formando professores a distância em 2 anos, que chegam despreparados para trabalhar numa escola que não facilita em nada sua vida... As reformulações curriculares no Brasil tiveram também participação de pessoal do exterior, mas não dos cubanos com seus índices excelentes em provas internacionais, e sim de espanhóis, que nos venderam uma metodologia e perspectiva pedagógica ultrapassada no país deles há mais de 10 anos (as tais competências e habilidades, no governo FHC).

Existem escolas públicas que funcionam bem? Existem. O CIEJA- Campo Limpo é um exemplo, atende 1500 jovens e adultos no município de São Paulo, dentre eles mais de 300 alunos com deficiências de todo o tipo, da "simples" cegueira à paralisia cerebral grave, que nem andam e pouco falam. Existe o Âncora, em Cotia, com parceria com a Secretaria Municipal de Educação de lá. Existe o Agostinho Páttaro em Barão Geraldo, que é lindíssimo em termos de estrutura e funciona bem. Em todas essas escolas, porém, nenhum professor ganha mais do que 2,5/ 3 mil reais. Nenhum, e no Âncora alguns são voluntários, inclusive. Em todas essas escolas, as verbas para manutenção e compra de materiais são poucas, e acaba que suas diretoras/coordenadoras aceitam verbas de empresas particulares, que se aproveitam do espaço para publicidade barata; ou pior ainda, tiram dos bolsos dos professores ou do bolso dos pais de alunos um dinheiro a mais para funcionar.... Isso sem contar na prática de guardar canudinhos do lanche e restos de papel por aí afora para ter material para as aulas de artes. E o povo pira achando lindo o trabalho com sucata.... Seria lindo, se não viesse do migué das políticas públicas.

E mesmo quando eu finalmente ganhar na minha profissão, vou ganhar como máximo o mínimo salário de vocês - 3 mil reais - e ficar felicíssima.

Depois de tudo isso, vejam como eu me sinto quando vocês, médicos, reclamam de ter o curso aumentado em 2 anos para trabalhar remuneradamente, o que eu amaria que acontecesse com os cursos de Pedagogia, ter 2 anos de trabalho remunerado com vínculo com a Universidade; vejam como eu me sinto quando vejo que os melhores profissionais da saúde do meu continente, que sem toda a parafernalha tecnológica conseguem manter os melhores índices de saúde pública mesmo tendo um PIB ridiculamente inferior ao nosso, estão vindo para cá e vocês bradam seus gritos - elitistas e sim, racistas - contra a vinda deles, ainda mais depois de saber que vcs mesmo recusam trabalhar em lugares "sem recursos" por 10mil, 15 mil, 25mil- sem recursos ou sujinhos, que vão sujar as roupinhas brancas de vocês com esse nojo todo de pobre?

E o mais impressionante: todo esse mimimi depois de aprovarem o Ato Médico, que lhes dá super poderes, como se entender da fisiologia humana sob a perspectiva ocidental fosse tudo o que há para se entender da saúde desse ser complexo que é o ser humano. Lamentável, eu diria.

Então pensem bem nas reclamações de vocês, e venham reivindicar coisas melhores do que o que vem reivindicando, e terão, assim, o apoio massivo da população.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Amor não é bossa nova

O amor não é uma bossa nova, nem uma ideia calcada em palavras bonitas,
O amor é o suor compartilhado em cada tijolo empilhado.
O amor não é um carinho, um toque suave,
O amor é o som dos martelos batendo nos pregos, levantando as paredes.
O amor não é um abraço e um beijo vazio,
Nem o fogo que cresce das entranhas,
Nem o calor úmido de um orgasmo sequer,
Embora ele até possa nascer disso...
Nem tampouco passar a mão na cabeça,
Um afago falso, que vê a frente o abismo do outro mas não puxa sua mão.
O amor é a matéria, a construção,
Edificada coletivamente, levantada com as mãos.
O amor é a divisão igual do trabalho,
É levantar o outro cansado com o próprio corpo,
É segurar aquele que cai, ainda que isso lhe doa,
É honrar o compromisso que as entranhas prometeram na paixão.
Amar é ser companheiro no que se constrói do mundo,
E extrair do concreto, das vigas e do metal
Todo o sentido de se viver.
E as palavras de amor só tem valor e sentido de fato,
Se vierem do trabalho coletivo,
E aí puderem representar seu prazer.

domingo, 16 de junho de 2013

Armário

A distância que tomo de ti me dói a cada segundo.
A falta que vc me faz, do seu cheiro que remete ao conforto primordial do ser....
Chorei cada ausência toda a minha bebezice, e a choro novamente agora, pelos quilômetros e pelo silêncio que nos separa de ser inteiras, uma para a outra...
E me dói que eu mesma coloque essa distância, mas me seria insuportável permanecer perto sem ser livre, e mais ainda me doeria que a distância fosse para sempre, pelo amor que vc deixaria de ter por mim se me conhecesse racionalmente por inteiro.
Quando você ataca meus iguais, quando age com eles como os meus inimigos agem perante a mim, eu sinto uma dor de rejeição que não sei explicar, uma tristeza profunda por saber que é preciso manter a distância. Eu me encho de esperança tantas e tantas vezes de que isso vai mudar, e quem sabe seja isso que me move a escrever, de que eu poderei ser livre e ser próxima de você, sentir seu abraço e seu cheiro mais vezes, mas a cada comentário seu contra meus iguais, eu me calo e lamento a nossa distância, eu choro mas tento secar minhas lágrimas...
A distância que faz o conflito se calar, a distância da minha covardia, do medo enorme que tenho de te perder, o medo por não saber se aguentaria essa dor.
Às vezes eu tento pensar que vc superaria até os milênios de opressão que se sobrepõe sobre nós pelo que sente por mim, o amor viceral que a maternidade traz, às vezes eu tento pensar que com certeza a minha liberdade te faria muito bem, às vezes eu acho um absurdo de minha parte não confiar no seu amor...Mas eu tenho medo de te perder, porque eu não suportaria que você odiasse minha forma de ser, minha natureza.
E me vem a boca uma vontade de te pedir perdão por ser quem sou de fato e não quem tu querias que eu fosse, e ao mesmo tempo uma revolta imensa por tamanha traição a mim mesma.
E assim fico lacrada neste armário, do qual saí para o mundo todo, menos para ti, porque a dor de te perder seria com certeza muito maior do que a dor de perder o mundo inteiro...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Um presente de Dia dos Namorados

Eu tenho a sorte de um amor tranquilo,
Com sabor de fruta mordida....
Como eu sempre quis.
Meu amor com sabor de fruta mordida, amor morno de vermelho bordô, com a calma que a paixão consolidada e saciada tem, o sexo em sua forma completa, que gera outro ser.
Ser teu pão, ser tua comida,
Sem anular todo amor que houver na minha e na sua vida,
o pão e a comida que alimentam e sustentam a liberdade que criamos todos os dias um com o outro, destruindo as travas e entraves de nosso super ego de oprimidos.
E por acharmos nossa fonte escondida, nos alcançamos em cheio, mel, e ferida, do corpo e da alma, e limpamos e curamos nossas dores com gemidos de prazer, a sedução que liberta, a liberdade conquistada, a liberdade do outro que faz crescer a minha.
Embora os trocados para dar garantia sempre nos fujam, e isso nos corroa às vezes, nada como um bom veneno antimonotonia para aliviar o peso dos dias e das coisas que ainda não conseguimos transformar.

Meu amor com sabor de fruta mordida,
Meu melhor amigo,
Esse é meu presente para ti hoje.

Suor

De bobeira estava eu, esperando por um fim de uma conversa para falar com a figura. Na compulsão hiperativa que me acomete, a fixação pelo tempo útil, peguei meu celular e resolvi apagar as mensagens antigas...
Topei com nossas mensagens antigas e comecei a ler uma infinidade de mensagens suas, declarações de amor, poemas, o desespero erótico da paixão. As palavras que marcaram nosso amor ali, na minha frente, e de repente eu fechei os olhos, a cadeira me remeteu à pressão dos pulsos, dos tornozelos, à sensação úmida e jorrante do meio das minhas pernas, e de repente me dou conta que estou com o mesmo vestido preto daquele dia.
Sentindo um lapso da mesma emoção de antes, uma pulsação de extase, eu me pergunto onde foi que perdemos isso, e porque eu me lembrei disso hoje, sem que eu possa sentir sua pele contra a minha...

***

Eu fechei meus olhos, no cansaço dos dias, e Morfeu me levou até você.
Eu sentia sua pele, seu corpo, eu quase senti seu cheiro, eu senti seu gosto na minha boca, a sensação tátil na língua da água que escorria do seu corpo nos dias de calor, eu te tragava, nós tremíamos, ardíamos, declarávamos pelo corpo a paixão.
Quando abri meus olhos, pensei em te ligar. Não sei por que não o fiz.
Acho que é porque te quero mas quero jurar para mim mesma que não.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Pietro

Você começou com uma brincadeira maluca entre os seus pais e o fogo nas víceras que nos retorcia e exigia a materialidade da paixão...
Surgiu de um tesão absurdo, um desejo louco, um apreço pelo desafio, entre esses dois ares que somos eu e seu pai.
Cresceu dentro de mim e foi me despertando milhões de perguntas, sobre o mundo, sobre a vida, me revelando para mim mesma quem eu era, abrindo caminhos para muito além da minha consciência.
Tudo muito forte e intenso, e há 3 anos, nós dois nos atiramos na loucura de te colocar para fora, de te dar o ar. Foi uma viagem louca para dentro de mim o parto, revelou dores muito profundas, trazidas a tona num orgasmo invertido, em dores vicerais e caladas.... Quando eu me libertei dos medos e me entreguei à dor alucinante, abriu-se para ti o caminho, e na tua passagem pelas minhas víceras abertas já não doía mais nada em mim - ao contrário, era uma sensação quente, uma sensação divinamente profana, deliciosa, sentir ali o teu corpo passando, a cabeça grande passando, e eu ali aberta a tudo aquilo que vinha com você, você ali surgindo para a luz, para o ar... E quando saíram teus pés, quando te colocaram na minha barriga do lado de fora, quando eu vi seus olhões abertos e seu corpinho roxinho, eu entendi do que é feito o amor, essa força viceral que move o que há de mais humano em nós... E nessa hora eu, aprendendo ainda o que era ser mãe, ouvi a voz daquelas mulheres deusas doulas brilhantes dizendo: "massageia as costinhas", e obedeci, e te vi aprender a respirar, ainda ligado a mim, cuspindo a água que te sustentava para deixar entrar o ar que te tornaria um ser menos dependente de mim, o primeiro passo na tua longa caminhada de se tornar livre...
E você mamou em mim pela primeira vez, e eu te olhava com os olhinhos agora sonolentos, e meu coração não cabia em mim.... E eu via teu pai ali do meu lado, também entendendo o mundo todo diferente, segurando minha mão, beijando minha boca...
E logo chegaram as pessoas todas, a deusa-mãe que ajuda tantas mulheres nessa jornada louca do parto, chegando como um sol leonino no quarto, chegaram aqueles amigos lindos, e logo estava teu avô caboclo como a terra, plantando um lindo jardim para ti, chegaram teus tios e tias, tua madrinha, teus avós paternos e tua avó materna a se espantar junto comigo com o reencontro com meu pai que você significou, e todo mundo estava em festa por te receber, uma festa colorida, e enquanto uns me davam comida e banho, outros cozinhavam para nós, e outros lavavam as águas e o sangue que tinham inundado o quarto e os lençóis na tua chegada ao mundo...E seu pai estava ali, encantado com a sua presença e enfim se sentindo pai, e adormeceu olhando para seus olhinhos fechados em repouso, e ali dormiu a noite toda te segurando no colo...
E seu cheiro estava espalhado no ar, aquele cheiro de amor viceral de parto...
Nenhum nome seria mais próprio a ti, Pietro, pedra nossa, que segura o furacão que eu e seu pai somos, e nos dá a terra necessária a materializar a transformação, construir pedra dobre pedra algo novo, algo que revolucione um pouco esse mundo...
E a cada ano que passa dessa loucura toda, eu me sinto feliz em te ver crescendo e virando uma pessoinha livre, cada dia mais autônoma, cada dia mais livre...E cada dia que passa você me desafia a pensar algo novo, agir diferente e transformar alguma coisa, e por isso, a cada dia, eu sou mais e mais lliberta....
Feliz Aniversário, meu pequenino....


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Amor nos tempos do cólera

Que porra de sociedade doente a gente está agora, em que o amor é um problema? E os amores que irradiam do corpo, do corpo trêmulo e orgástico para o lado de dentro, por que não podem se anunciar por aí, por que no mundo eu não posso dizer eu te amo para todo mundo que de fato amo, ou amei por um dia que fosse? 
Quando o amor virou um problema, quando o amor foi contaminado pela marca da posse e do medo? Por que a gente tem tanto medo de amar, por que amar dá tanto medo?

Quando foi que nos treinamos a não sentir, a não amar, a não nos entregar ao outro e criar um nós sólido, corpóreo e livre? Por que lacramos os corações e os corpos, afinal, e cultivamos relações distantes e "seguras"? Quando foi que a inveja e a competição começou a ter mais valor que o amor e a paixão?

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Para além da perspectiva do monstro

Há alguns meses atrás, em um grupo de amigos que eu gosto muito e que sempre teve uma perspectiva anti-machista, ao menos em tese, um episódio dividiu águas e rachou o grupo todo: um dos casais de namorados, que tinha um relacionamento que todos sabiam que era tenso, terminou depois que a moça fez um BO denunciando a agressão física que do rapaz. Todo mundo ficou meio besta com o fato. Veio a tona muita coisa, inclusive o fato de que a agressão não era uma novidade na relação dos dois.
Isso acaba de se repetir em outro grupo de amigos em que estou, com um rapaz que confessou ter estuprado sua namorada, e ter sido este o motivo do fim do relacionamento deles.

Como o caso se repete, vou contar o primeiro que acompanhei mais de perto

O grupo se dividiu: uns a favor dela, pois se ele bateu nela, é um grande monstro agressor, uma figura desprezível no mundo, e outros em favor dele, justificando a agressão (entre dizer que ela tem um gênio muito forte e até a dizer que ele apenas revidou uma agressão que partiu dela - ignorando que aconteceram diversas agressões antes da gota d'água que gerou o BO) - e às vezes até questionando o fato de ela ter feito um BO, de como isso destruiria a carreira dele...

Para mim, seria até dispensável dizer que é absurdo culpabilizar a vítima por uma agressão, e que eu particularmente achei horrível ver argumentos feministas, como "as mulheres precisam se vitimizar menos" para justificar sua tomada de posição em favor do amiguinho agressor. Terrível, tive vontade de vomitar ouvindo isso.

Mas, infelizmente, eu devo dizer que a constatação à qual cheguei foi que, embora ambos os "lados" se dissessem rivais e tenham discutido muito sobre quem tinha mais razão, quem caracterizava o fulano como monstro ou como brother (e esses, caracterizando a moça como monstro), na verdade partem de um princípio comum entre eles muito complicado e individualista: o de quem quem agride é um monstro. Pois bem, sinto-lhes dizer que o fenômeno da agressão é institucionalizado na nossa cultura, e que na verdade, todos nós estamos nessa mesma barca. Eu não acredito, sinceramente, que qualquer homem inserido nessa nossa cultura machista não tenha jamais sido assedioso ou agressivo com uma mulher por ela ser mulher, não acredito nem nos homens mais incríveis que conheço. Tampouco acredito que alguma mulher em sua vida não tenha, em algum momento, sido conivente com isso - inclusive reiterando e justificando o assédio, o estupro e a violência. E isso, independentemente de sermos feministas ou não.

E aí está: quando você esquece disso, e coloca quem é violento e estuprador como um monstro, há duas vias de ação para uma figura que está materialmente do seu lado, ali, quando é alguém que vc conhece e sabe, ou pelo menos já achou, que é uma pessoa: uma é repelir o cara que teve esse comportamento, tratá-lo como monstro mesmo, ou como doente, o que fecha as possibilidades da pessoa pensar na imensa merda que fez e tal, e outra é relativizar a culpa dele por não reconhecer que um igual a você também pode ser um monstro - e nessa perspectiva, eu sinceramente nunca vi ninguém que caiu sem culpabilizar a vítima, o que é absolutamente grave.

Nos dois casos, se individualiza o imenso fenômeno social da violência decorrente da opressão, e revela-se uma noção de nós e outro. O monstro é alguém sub-humano, que não tem capacidade de aprender a ser diferente, não tem subjetividade. Muito fácil acreditar nisso quando o estuprador e o violento é alguém que não conhecemos, uma abstração de ser esférico no ar, mas quando a coisa fica perto, hum, aí a gente vê quem realmente entendeu o que é a situação de opressão no contexto social.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Dos amores que não dão certo


Carta a um amor que certamente deu muito certo:

Sabe, eu tenho umas coisas para te dizer:

Acho tudo isso muito interessante. Acaba-se em pleno fim do ano astrológico, e de um jeito lindo, como sempre.

Se me perguntarem, e vão fazê-lo, porque afinal a mononormatividade do mundo ansiava por ver um fim a essa liberdade assustadora, por que não deu certo, tenho a mais absoluta segurança e tranquila certeza em dizer que este foi um dos relacionamentos que tive na minha vida - entre amorosos ou não - que mais deu certo. 
Do começo ao fim, nos respeitamos enquanto pessoas, respeitamos os limites um do outro (e de quem nos cercava também), trepamos deliciosamente, aprendemos muito um com o outro sobre milhões de assuntos, de facas a Brecht, de Paulo Freire a Kantor, discutimos política de monte, nos divertimos muito e nos quisemos demais. 
Nem no fim, que veio pelas necessidades de um de nós, isso foi diferente. Nem no fim se perdeu de vista que o outro é um universo para além do universo que eu sou, e que é urgente que isso se respeite, e que não é uma afronta a mim a sua necessidade.
Mesmo no fim dissemos "eu te amo", e não se perdeu em nenhum ponto a sinceridade, que foi um dos pilares para a maior das lições que extraio dessa história toda: a importância de se manter a leveza, o quanto nos alimentamos dessa leveza das relações, leveza possível quando se tem a clareza de manter o próprio eixo...

E quando eu te dei tchau hoje de manhã, eu virei as costas e chorei as lágrimas mais felizes da minha vida. Lágrimas que vinham de uma saudade, saudade de se ter vivido algo lindo que talvez não volte, e no meio dessas lágrimas eu ria de me lembrar do que vivemos juntos, do quão improvável e inimaginável era tudo isso quando saí de casa para te encontrar pela primeira vez, naquele posto, da impressão que tive naquela tarde de você... Eram lágrimas felizes porque não sofriam, eram lágrimas não de mágoa, de desamor, ou de ofensa: eram lágrimas de amor.
O que eu tenho a te dizer é simplesmente muito obrigada, por tudo. 
E de verdade, conte comigo para o que precisar.
Eu acho que precisarei de um pouco de distância por agora, eu preciso disso para processar o fim, marcar para o coração o que a cabeça entendeu.
Mas isso é temporário, eu não quero te perder de vista!
Independente disso, eu te levo no meu coração.
Beijo:)
Te amo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Remoendo...


Na boa, como vcs, pessoas normais que tem relacionamentos baseados em joguinhos, mentiras, romantismo bobo e meias palavras conseguem sobreviver e não enlouquecer?
Psicólogos? Psiquiatras? Quanto de drogas farmacêuticas vocês precisam?
Ou de açúcar?
Ou até mesmo de coisas mais ilícitas?
Como eu mesma aguentei essa perspectiva por tantos anos?
Esperar por uma conversa sincera já me machuca demais, eu já fico enlouquecendo juntando cacos e migalhas de sentido, imaginando e malucubrando, doida por um cigarrinho a mais que me relaxe as tensões...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Dos frutos que não imaginamos


O valor do educador inclui, mas está muito além da técnica da escrita, da cultura erudita: está na valorização da humanidade, no crescer da voz, na libertação pela comunhão entre as pessoas.

Hoje tive uma colheita que não esperava: em meio a uma situação triste de risco iminente de despejo da comunidade em que trabalhei todo o ano passado, quando perguntamos à comunidade com o que podíamos ajudar, ao invés de barricadas, posts pedindo solidariedade e apoio na internet, cartas à prefeita, fogo em pneus, eles nos pediram que fizéssemos dentro do assentamento saraus, levássemos filmes, circo, atividades com as crianças, pois isso levantaria a bola, plantaria uma semente de otimismo, porque as pessoas já estavam desistindo e desmontando seus barracos.

E essa é a beleza e principal função da arte, da cultura: nos nutrir de narrativas, de vida, de esperança, de entendimentos e de humanidade.
Impossível não lembrar da Michele Petit.

No meio da tristeza de pensar para onde vai aquela gente se rolar um despejo, eu vejo um fruto do trabalho que, mesmo lendo muito Paulo Freire, eu nem imaginava que tinha tido: não só nós, educadores, nos fizemos e nos percebemos mais humanos, mas a comunidade que nos cerca também se sentiu assim. E isso me dá uma alegria, uma emoção profunda, uma felicidade infinita e inexplicável.

Hoje eu botei mais fé no meu trabalho, hoje eu tive certeza pela milésima vez do que eu já sabia: é na educação que quero ficar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Militantes: a liberdade é corpórea


Cada vez mais acredito que os males pelos quais passamos hoje vem do corpo. Não no sentido de que tudo se resolve dependendo só da sua vontade, do que vc come, etc, mas no sentido de que a opressão que nos assola tem um lado material e corpóreo que frequentemente ignoramos. Estamos brigando contra um sistema que está instalado em nossos corpos, mas ignoramos isso. Ignoramos que a globalização, em especial dessa medicina calcada no uso excessivo de medicamentos alopáticos e consumo de "alimentos" extremamente tóxicos sem controle, está nos escravizando e matando por dentro.
O ativista, o militante, entorpece o corpo com o café excessivo, com o cigarro que nos deperta para tirar o sono e ter o pique que nos roubaram. Toma o analgésico para tirar a dor de cabeça constante, o antiinflamatório e o antibiótico para combater aquela infecção que sempre vem...Come açúcar para silenciar a revolta e conseguir se divertir, planeja o grande golpe sob o efeito entorpecente da cerveja, precisa do baseado para dar risada....
E ninguém pára para pensar como diminuir isso, sem ser pelo discurso moral "eu tenho que parar com isso porque dá tal doença", não conseguimos pensar que não é por acaso que essas coisas nos atraem. Estão nos envenenando por dentro duplamente: primeiro pelo que nos faz sempre cansados, depois pelo que usamos para ignorar esse cansaço.

Quando vamos perceber que a saúde é um pressuposto primordial para nossa força? Como vamos pegar em armas sem corpos fortes?

E sob outro viés, agora constato novamente que a liberdade é corpórea.;

Militantes: a liberdade é corpórea


Cada vez mais acredito que os males pelos quais passamos hoje vem do corpo. Não no sentido de que tudo se resolve dependendo só da sua vontade, do que vc come, etc, mas no sentido de que a opressão que nos assola tem um lado material e corpóreo que frequentemente ignoramos. Estamos brigando contra um sistema que está instalado em nossos corpos, mas ignoramos isso. Ignoramos que a globalização, em especial dessa medicina calcada no uso excessivo de medicamentos alopáticos e consumo de "alimentos" extremamente tóxicos sem controle, está nos escravizando e matando por dentro.
O ativista, o militante, entorpece o corpo com o café excessivo, com o cigarro que nos deperta para tirar o sono e ter o pique que nos roubaram. Toma o analgésico para tirar a dor de cabeça constante, o antiinflamatório e o antibiótico para combater aquela infecção que sempre vem...Come açúcar para silenciar a revolta e conseguir se divertir, planeja o grande golpe sob o efeito entorpecente da cerveja, precisa do baseado para dar risada....
E ninguém pára para pensar como diminuir isso, sem ser pelo discurso moral "eu tenho que parar com isso porque dá tal doença", não conseguimos pensar que não é por acaso que essas coisas nos atraem. Estão nos envenenando por dentro duplamente: primeiro pelo que nos faz sempre cansados, depois pelo que usamos para ignorar esse cansaço.

Quando vamos perceber que a saúde é um pressuposto primordial para nossa força? Como vamos pegar em armas sem corpos fortes?

E sob outro viés, agora constato novamente que a liberdade é corpórea.;

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Prato político


Estamos num mundo completamente alucinado.
Se de um lado temos uma miséria alastrada, de gente que passa fome por não ter o que comer, do outro temos uma multidão de pessoas que comem demais, e por isso passam fome o tempo todo.
O consumismo, em especial o do nosso prato, o do supermercado, tem nos matado todos aos poucos, numa falta de saciedade completamente estapafúrdia e desnecessária.

Nessas minhas duas semanas de desintoxicação, depois de matar bichos que me comiam por dentro, desinchar e emagrecer, perder celulite aos montes, ter bom humor quase o tempo todo de novo e disposição para viver, a sensação que tenho é de uma saciedade feliz e nutrida. Fazem 2 horas que comi e não tenho fome. E não terei fome até voltar da natação.

E minha fome se vai na comida que eu vou ingerindo devagar, sentindo a comida mudar de gosto enquanto é digerida lentamente pela boca, treinando minhas mandíbulas de mamadeira. Ao final da refeição, uma saciedade leve, sem aquela ressaca de estufamento horrível, sem o sono mortal de antes...

Comendo menos, como orgânico, sobra dinheiro para eles, para os integrais, para as castanhas... Cozinhando-os, produzo e por isso reflito sobre a produção, que nada vem de um lugar mágico onde entrego papéis e recebo coisas como o consumismo nos faz imaginar: tem suor de muita gente no prato que está a nossa frente, tem trabalho, tem mãos, tem terra.

E assim eu combato o consumismo que me falta: o do prato.

E é assim que o meu prato faz política.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

CHUPETAS E MAMADEIRAS SÃO DESNECESSÁRIOS

Em uma festa de família essa semana, uma das pessoas da família, que tem um filho mais ou menos da idade do Pi, com sua chupetona na boca(e o desespero de todo mundo por tirá-la), quando fui amamentar o Pietro virou em choque para mim e disse "ele ainda mama no peito??????????" e eu respondi "mama", e virei a cara, para cortar logo o papo antes que eu lançasse um "e ele chupa chupeta??????????????????".... Só faltou ela me perguntar como eu fiz para tirar a chupeta. Simples, não dei.

Achei esse artigo incrível, bem resumido, sobre o uso de chupetas e mamadeiras em crianças normais. Aí vai!

Mas como sempre, tudo muito bonito na ciência, mas na hora de passar para uma prática de política pública, fica longe, longe....


Coleção Amiga
CHUPETAS e MAMADEIRAS: malefícios comprovados

Mamadeiras e Chupetas são
desnecessárias.

Embora utilizadas pela maioria das crianças, mamadeiras e chupetas podem
causar inúmeros danos e serem transmissores de germes e vermes. Por isto,
uma série de recomendações e normas estão sendo criadas para desencorajar o
uso e controlar a publicidade destes produtos, até então inocentes símbolos da
infância.

O passo 9 para o sucesso do Aleitamento Materno adotado pela Iniciativa Hospital Amigo da Criança
da OMS/UNICEF estabelece que não deve ser dado ao lactente chuquinhas ou chupetas mesmo sendo
ortodônticas. O uso de bicos artificiais leva ao fenômeno "confusão de bicos", isto é, uma forma errônea
de recém nascido posicionar a língua e sugar o seio, levando-o ao desmame precoce. O recém nascido
(RN) nasce com o reflexo de sugar e deglutir que permite, quando bem posicionado por sua mãe, à uma
pega correta dos seios, ou seja, envolvendo o mamilo e a aréola. Numa boa pega, a língua fica por baixo
(no assoalho da cavidade oral) para pressionar o osso de palato, formando um movimento peristáltico,
ritmado, como uma onda. Desta forma ele consegue ordenhar os ductos ou ampolas lactíferas, esvaziando
os seios e satisfazendo-se. Na posição errada (má pega) o RN só abocanha o mamilo, não conseguindo
esvaziar os seios, causando dor, fissuras, tensão materna, fome, choro e insatisfação do bebê.

Na mamadeira ou na chuquinha, o RN empurra a ponta da língua contra o palato para deter o fluxo
do leite artificial, da água ou do soro glicosado (que são dispensáveis) e não suga, mas apenas engole
passivamente o alimento.

Um estudo realizado no Rio Grande do Sul e publicado internacionalmente constata que o risco de um
lactente ser desmamado era maior para os usuários dos bicos artificiais e chupetas do que para os não
usuários. Além do bebê ficar viciado com uma pega inadequada, o fato dele sugar menos o peito, faz com
que a sua mãe produza menos leite.

Os recém nascidos que usam chupetas geralmente sofrem de Moniliase Oral (Candidíase ou o
famoso "sapinho") e as chuquinhas ou mamadeiras são veículos de contaminação, porque os líquidos
ou leites artificiais podem ser preparados de forma não higiênica e atrapalham a proteção imunológica
fornecido pelo Leite Materno.

CÁRIE DE MAMADEIRA

No Brasil, 11,7% das crianças até 2 anos têm a chamada cárie de mamadeira. Segundo a odontopediatra
Marcia Eduardo, especializada em tratamento de bebês, a cárie é uma doença contagiosa que pode ser
passada de mãe para filho. Beijar o bebê na boca, soprar seu alimento ou limpar a chupeta com a própria
saliva são hábitos pouco higiênicos, mas ainda muito comuns, que transmitem a bactéria da cárie.

CHUPETAS SÃO "CALA A BOCA"

Nos EUA as chupetas recebem o sugestivo nome de "pacifiers", que significa "pacificadores", ou "me
deixa em paz". O lactente no seu primeiro ano de vida está na fase oral do seu desenvolvimento psico-
sexual e a Amamentação em livre demanda (sem horários) é capaz de suprir por si só esta necessidade de
sugar, a chamada "sucção não nutritiva".

AMAMENTAÇÃO EVITA HÁBITOS ORAIS VICIOSOS

Esta é uma das conclusões da tese de mestrado "Aleitamento, hábitos orais deletérios e má-oclusões:
existe uma associação ?" da professora Júnia Maria Chein Serra Negra, de Odontopediatria da
Universidade Federal de Minas Gerais. Ela investigou práticas orais de 357 crianças de 3 a 5 anos, em 4
escolas de classes sociais diferentes de Belo Horizonte, constatando a hipótese de que os lactentes que
não foram aleitadas ao seio, ou o foram por curto período, desenvolvem hábitos orais viciosos.

A chupeta foi o mal hábito que mais prevaleceu, chegando a 75% dos casos. Ao mesmo tempo, 62%
das crianças com respiração bucal tomaram mamadeiras por mais de 1 ano e as crianças com maus
hábitos orais apresentaram 4 vezes mais a chance de desenvolver a mordida cruzada. A pesquisadora
lembra ainda que, ao nascer, o recém nato tem o queixo pouco desenvolvido, (retrognatismo fisiológico)
exatamente para facilitar o encaixe de sua boca no seio da mãe e que o forte movimento de sucção ao
seio vai estimular o crescimento dessa estrutura, projetando-a para frente. Além disso, a amamentação
implica na sincronicidade dos movimentos de sucção, deglutição e respiração, auxiliando a coordenação
da respiração evitando o hábito da respiração bucal, que favorece a instalação de alergias e amigdalites.

A maior incidência de hábitos viciosos foi registrada no grupo de filhos caçulas. Segundo a professora,
isto acontece pelo estímulo que recebem para manterem um comportamento infantilizado.

A Dra. Gabriela Dorothy de Carvalho, especialista em cirurgia buco-maxilo-facial e diretora do Centro
de Estudos Avançados em Odontologia e Fonoaudiologia afirma que a Amamentação é a: - prevenção
da "Síndrome do Respirador Bucal"; - profilaxia das patologias do aparelho respiratório; - forma de evitar
a deglutição atípica; - prevenção da mal-oclusão; - profilaxia das disfunções crâneo-mandibulares; - e a
melhor maneira de prevenir as dificuldades da fonação.

Excepcionalmente, quando por alguma razão médica o bebê não pode ser amamentado ou sua mãe aleitar,
utilizamos copinhos ou xícaras para a administração de leite materno ordenhado.

VEÍCULO DE TRANSMISSÃO DE ENTEROPARASITOS E COLIFORMES FECAIS

Acaba de ser publicado mais um trabalho científico (Pedroso & Siqueira, 1997) que descobriu cistos de
protozoários, larvas de helmintos em chupetas. Ovos de Ascaris lumbricóides, Enterobius vermiculares,
Trichuris trichiura, Taenia sp e larvas de Ancylostomatídae foram encontrados em 11,63% das chupetas
examinadas. Neste artigo os autores afirmam que as mães não tem conhecimento da importância da
higienização e do papel que as chupetas desempenham como disseminadoras de infecções. Observam
também o percentual elevado de sua utilização (na faixa etária de 4 e 5 anos são utilizados por 50 % das
crianças estudadas).

Já havia relatos que a utilização de chupetas aumentam o risco de Otite Média Aguda (Niemela et cols.,
1995), de episódios diarréicos infecciosos (Laborde et cols., 1993), de má oclusão dentária (Niemela et
cols., 1994) e de contaminação de coliformes fecais em 49% das chupetas examinadas (Tomasi E et al,
1992) o que mais uma vez reafirma a necessidade de abolirmos seu uso.

INMETRO REPROVA CHUPETAS

Análises laboratoriais realizadas em abril de 1996, pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e
Qualidade Industrial indicam que estes produtos estão oferecendo riscos ao consumidor mais vulnerável.
Uma dezena de marcas foram testadas em vários itens como: embalagem, material, construção e ensaios
físicos (tração e fervura) e o resultado é que apenas uma marca teve aprovação em todos os quesitos. O
Ministério da Indústria e Comércio junto com o Ministério da Saúde estão criando um regulamento de
Certificação de Chupetas.

A "Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes" (CNS, 1992) deixa bem claro
que os rótulos de mamadeiras, bicos e chupetas devem conter a seguinte mensagem:

"A criança amamentada ao seio não necessita de mamadeira e de bico".

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



Newman J. : "Breastfeeding problems associated with the early introduction of bottles and
pacifiers" J of Human Lactation 6 (2): 59-63, 1990.



Victora CG, Tomasi E, Olinta MTA, Barros, FC: "Use of pacifiers and breastfeeding duration"
The Lancet, 341: 404-406, 1993.



Tomasi E, Victora CG, Olinto MT et al.: "Uso de chupetas em crianças: padrões de uso,
contaminação e associação com diarréia". II Congresso Brasileiro de Epidemiologia. Programa e
resumos. BH, 1992: 173.



______. : "Padrões e determinantes do uso de chupetas em crianças". Jornal de Pediatria 1994;
70: 167-73.



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teats". Am J dis Child 1982; 136: 672-4.



Mathur GP, Marthur S, Khanduja GS: "Nonnutritive suckling and use of pacifiers". Indian
Pediatr 1990, 27: 1187-9.





Pedroso RS, Siqueira RV: "Pesquisa de cistos de protozoários, ovos e larvas de helmintos em
chupetas de crianças de zero a sete anos". J pediatr (Rio J.) 1997; 73:21-25.

Lang, S; Lawrence, CJ & Orme, RLE: "Xícara: um método alternativo para alimentação
infantil". Archives of disease in childhood 71: 365-369, 1994.



Niemela M, Uhari M, Hannuksel A,: "A pacifier increases the risk of recurrent acute otitis media
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Niemela M, Uhari M, Hannuksel A: "A pacifier and dental stricture as risk factors for otitits
media".



Inter J pediatr Otrohinolarygol 1994; 29:121-7.





Pontes da Silva, GA: "O uso de chupetas contribui para uma maior ocorrência de
enteroparasitoses ?".
J pediatr (Rio J) 1997; 73:2-4.



Valdés V; Sánchez, AP & Labbok: "Manejo clínico da lactação - assistencia à nutriz e ao
lactente"
Ed. Revinter, RJ, 1996.

Prof. Marcus Renato de Carvalho - IBFAN Rio
Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFRJ

Diretor da Clínica Interdisciplinar de Apoio a Amamentação
Rua Carlos Góis, 375, s. 404

Leblon

22440 040 Rio de Janeiro – RJ

BRASIL

http://www.aleitamento.com/a_artigos.asp?id=x&id_artigo=285&id_subcategoria=2