terça-feira, 25 de setembro de 2012

Brisa cabalística-feminista


Brisa cabalística – feminista

O primeiro homem que tive contato foi meu pai. Meu pai no meio de 3 mulheres fortes e de mim, que sempre o enfrentei – posso ter muitos defeitos, mas nunca fui de manter a cabeça abaixada. Meu pai foi criado no meio de seu pai, seu irmão e sua mãe – mulher que vale por 2, nas piores características que nos são ensinadas. Seu pai, o típico “bom moço”, e seu irmão, o típico “ressentido”, por ter frustrado os pais em seu sexo, seus pais que queriam uma menina. Meu pai era homem no seu sentido mais bom moço, o homem romântico, de emprego bom, ciumento, bom pai, que “ajudava em casa” e protegia sua família, sua posse. Mas fora a sua criação, ele estava cercado por nós, mulheres.

Outro homem que eu tive contato que fora cercado por homens foi o meu irmão de coração gêmeo. Mas esse irmão, por quem eu quis muito me encantar ou me encantei, não sei, em seu aparente “bom mocismo”, como se isso negasse minha natureza vadia, vive se cercando de mulheres para suas amigas, amigas desintessantes para ele em suas diversas belezas.

Homens encantadores eu conheci, e os que tive contato profundo, sempre se cercavam de muheres – não no sentido de trepar com elas só, mas de se identificarem com algo, seja no desejo por serem penetrados, seja no desejo pelos cheiros e feromônios que exalam outras barbas, seja na sensibilidade, em se permitirem chorar, seja em se entregarem aos amores, seja por serem criados por mulheres muito fortes e homens muito fracos... mas quase todos eles tinham algo de feminino que os fazia reconhecer minhas dores de mulher, os fazia me dar razão, os fazia completar algumas de minhas indignações com sua culpa no cartório. Muitas vezes esses homens reconheciam suas dores de serem moldados nesse mundo sexista, mas isso não era tão pulsante, porque no fim, eles não se reconhecem tão fortemente como homens.

Mas em julho eu conheci um homem diferente. Um homem encantador, mas bem masculino, criado por homens, claramente mais íntimo em amizade com os homens que o cercam. Pela primeira vez eu realmente consigo me tocar por um homem que marca muito sua posição de homem, suas dores de homem, a defesa de sua classe, como ele mesmo disse uma vez, sua classe de homem. Pela primeira vez eu encontro um homem que consegue ver essas coisas de maneira tão forte sem culpar as mulheres o tempo todo, sem ser surdo, sem ser cego ao machismo e ao sexismo que o criou assim e que cria o mundo que o cerca e o pressiona. Esse homem, marrento e bravo, de barba e ombros largos, de braços fortes e mãos habilidosas, marcadamente hetero e buscando a transcendência da dicotomia “bom moço/cafajeste”, consegue como ninguém me fazer refletir. Refletir sobre o significado de ser homem dentro do machismo, o que é lidar com o desejo feminino tolhido, a expectativa que o mundo tem dele por ser homem, o impasse de não ter muito por onde escolher quando será pai – e de isso não ser nem posto em pauta - , a obrigação de ser um trabalhador compulsivo...

Essa exposição que faço aqui é um início de reflexão, também na busca de sair da visão infectada pelo próprio machismo, de que mulheres são frágeis e homens são fortes, e por isso, os homens ocupam uma posição invejável perante as mulheres, de algozes eternos frente a mulheres sempre só violentadas, e nunca violadoras; de homens felizes dentro do padrão que os colocam, como se felicidade fosse atingível por ocupar uma posição cômoda. Acho que não tinha momento melhor para conhecê-lo, afim de transpor minhas próprias questões com o feminismo.