sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"Eu não estou aqui só para transar com você."

Ouvi a frase do sujeito ali, em cima da pick up, amarrando a coisas que sobraram da minha mudança, depois do milésimo pedido de desculpas que eu fiz naquela última meia hora. Desculpas por achar que eu tinha falhado ao não terminar as intermináveis coisas que tinha p/ fazer antes dele chegar, e enfim ter "liberado o tempo para ficar com ele". Desculpas porque, no fim, eu tenho ainda um monte daquela doença cardíaca de nossa juventude: o medo de amar.

A frase foi uma bomba deliciosa. Passei o resto do dia pensando, afinal, no que é isso que tenho vivido com esse homem novo na minha vida, que chegou de um jeito um tanto inesperado. Começou sim numa brincadeira de adultos que mal se conheciam, mas foi tomando uma outra proporção - deliciosamente leve, como uma manga doce e madura, mas intensamente gostosa e de rápido envolvimento.

Pois bem, a frase marca o que talvez me assuste e me fascine: sim, há sentimento, e há um sentimento para além do "estar apaixonada" que eu senti esses 3 anos em que me permiti, enfim, me envolver afetivamente de maneira múltipla. De repente, eu começo a me envolver de uma maneira um pouco além com essa criatura. Participar da vida do outro vai além do comer fora-motel-trepar por um dia loucamente; participar da sua vida é esperar o outro trabalhar, é me ver cuidar do meu filho, é ajudar na mudança, é discutir política, é falar do teatro dele, é lavar a louça.

Participar da vida. Algo que eu sinto vontade, mas que eu tive tanto medo de mostrar e de sentir mesmo, e que dessa maneira tão explícita me deixou boquiaberta e saltitante.

Participar da vida do outro é encará-lo como e com verdade. Verdade sem a qual amor nenhum se sustenta. Verdade que às vezes inclui sair dos armários, quando possível. E sair do armário para um poliamorista é, no fim, dizer ao mundo que não há traição (não essa aí, pelo menos) nem "o outro", "o Ricardão" entre nós. Verdade que quebra com a moral do forte e do fraco, com a ideia de trouxa e canalha.

No fim, amoralidade começa com amor. Porque em nossa moral, essa moral que me educou e educa minha juventude sob o medo de se envolver, não tem nada de amor.