quinta-feira, 19 de julho de 2012

Indústria de alimentos e alimentação infantil

Faz tempo que quero escrever sobre esse tema, que me parece fundamental na criação de nossos filhos.

O Pietro, filho de dois gordinhos que adoram comer, é um bebê magro. BEM magro: ele está na curva dos bebês mais magrinhos desde sempre. Simples assim. Não é tão fã de comer como nós - na verdade, está virando mais fã agora, com dois anos. E é um apaixonado por frutas e vários legumes e verduras. Bananas? Adora. Manga, mamão, abacaxi, abacate? Sabe o nome de TODOS, e pede, viu? Brócolis? Chora por, acorda pedindo. Couve Flor? Hum, delícia. Vagem? Ontem fiz, e ele só quis comer vagem, comeu um pratinho de criança cheio!

No supermercado, levo ele no carrinho. Sessão hortifruti tem que ser a última, porque ele não vai ter paciência de esperar pagarmos para comer a mexerica. A primeira palavra que ele aprendeu sem ser papai e mamãe foi "nana", que é banana. Em época de pêssego, o menino pira! Logo que começa, compro uma caixa, chego em casa e precisa ver o sorriso do moleque!

Quantas vezes não ouvi: "que sorte você tem, né, uma criança que gosta de frutas..." SORTE É O ESCAMBAU. Não tenho sorte, tenho cuidado.

Desde que ele estava na barriga, comecei a me preocupar com isso, porque eu sempre sofri com a balança, comer frutas sempre foi para mim um tanto difícil, aprender a gostar delas de verdade, só depois de virar vegetariana. E isso tem a ver com a educação alimentar que tive (no meu caso, um misto de uma paranóica que não me deixava comer doces nunca e de um gordinho filho de italiano que comia tudo o que via pela frente - e muitas vezes me usava para comprar porcarias sem levar bronca da mulher). Estudei muito sobre amamentação e alimentação infantil. E quando ele nasceu, botei o máximo que pude em prática(o máximo que pude foi amamentação exclusiva até os 6 meses e mantida até hoje, não dar doces com menos de 1 ano, sem leites fora o leite materno, sem mamadeiras e chupetas).

Quando acabaram os seis meses de amamentação exclusiva, comecei a oferecer as coisas: devagar e sem pressa de que ele aceitasse, cozinhando coisas diferentes de todos os grupos de alimentos. Foram 4 meses de bebê comendo pouco, em geral só frutas, e 4 meses ouvindo os mais absurdos comentários, do tipo "claro que ele não quer, tem que pôr açúcar/sal/pimenta/carne", ou "bate no liquidificador que ele vai tomar tudo", e, óbvio, "pára de amamentar/amamenta com horário que ele vai comer mais. Aí eu pergunto algumas coisas:

Se eu misturo tudo numa grande papa e bato no liquidificador, como ele vai conhecer cada alimento quando for maior? Como vai saber que aquela fruta que não vem no saco com bichinho desenhado era aquela coisa gostosa que ele comia? Como ele vai reconhecer que aquele legume verde ali era o que dava aquele gostinho diferente no meio do feijão e do arroz? Como ele vai achar graça nas frutas quando elas estiverem sem açúcar? E o mais importante, se eu o empanturro hoje, ao invés de respeitar o quanto ele quer comer, como ele vai saber como se sente quando está saciado, e comerá só o quanto realmente precisa?

Fico pensando em papinhas que vejo o pessoal fazer e comprar por aí: elas são pastas que não tem cara das coisas que a compõe...Parecem tanto todas as porcarias que compramos no supermercado, espessadas e coloridas com aditivos químicos que nos fazem um imenso mal, mas são vendidas com suas embalagens chamativas, coloridas, cheias de bichinhos bonitinhos...Se vc não conhece a fruta que comeu, se não a vivenciou em sua cor, em seu cheiro, claro que o bichinho do Fandangos vai te seduzir antes. Olhe para o supermercado: todas as porcarias alimentares para crianças estão embaixo, bem na altura delas. Uma das razões pelas quais o Pi sempre vai "brincando de carrinho" é essa: quanto mais no alto ele está, com menos publicidade de porcarias ele é bombardeado. Porque ele, mesmo não acostumado, quando vê o menino do Kinder Ovo, o vermelho do Doritos (mentira, esse ele provou cedo, porque nós adoramos doritos - embora eu tenha diminuído mais ainda a frequência que comprava, depois que colocaram o T de transgênico), o colorido cintilante do Menthos, os ursinhos na lata de Mucilon, ele pede. E eu não dou, óbvio (só de vez em quando compramos um desses salgadihos porcaritos, ou um chocolate). Mas o grande negócio é que a indústria de alimentos é cheia de artimanhas de publicidade para nos fazer consumir um monte de porcarias que não queremos e não precisamos - e as crianças são as mais afetadas por isso. O que fazer para brigar com isso?

Para mim o truque é a sedução. As frutas, os legumes e as verduras podem ser bem sedutores para o seu filho por si sós: apresente-os em sua forma, em sua cor, em seu jeito e seu sabor - ainda que amargo ou azedo (o Pi toma suco de limão sem açúcar até hoje, e gosta) antes de apresentar as porcarias (que ele também vai comer, eventualmente, e vai gostar - mas não precisa preferi-las, né?). Pense: nossa espécie come porcarias desde quando? O gosto infantil por cores pode ser uma predisposição nossa a comermos frutas mesmo, coloridinhas e doces.

Açúcar, frituras, porcarias, papinhas: Será que precisamos mesmo delas?
Será que precisamos daquele bebê ultra gorducho? Será que se o bebê não quer comer, ele realmente precisa comer aquilo?

Delimitar regras para o consumo dessas "drogas" também pode ser bem mais efetivo que proibi-las...Até porque, sempre vai ter aquele tio, aquela vó, aquele amigo seu que vai oferecer a porcaria. E se você proibir mas outro adulto liberar, não se engane, sua autoridade será abalada. Quando estamos com meus sogros, eles nos dão um monte de guloseimas deliciosas, especialmente pro Pi. E ele come a ponto de ficar claramente abalado pela quantidade de açúcar que eles dão. 3, 4 dias com eles, depois nada de açúcar: faz parte da festa de ver os avós. Ritual deixa a coisa não cotidiana, torna uma coisa "especial"- e que, portanto, não pode acontecer todos os dias.











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