quinta-feira, 7 de junho de 2012

Terrenos rubros

Era uma tarde de domingo. Vestia uma calça tipo algodão cru com uns desenhos bonitinhos e discretos em vermelho, meio infantil, e uma blusa vermelha que eu adorava. Usava uma bolsa em conjunto com a calça. O perfume se chamava "insensatez", do meu corpo e daquele dia. Sim, para sempre uma insensata.

Cheguei na casa dele no meio da tarde. A garantia para minha mãe de controle sobre o meu corpo, sua propriedade, era de que os donos do outro corpo também estavam ali, a proibir portas fechadas...Ah, a inocência! Inocência que os pais acham que nós temos, e que só a cegueira deles é que tem.

Então os donos dele saíram e nos mandaram sair. Nós saímos, demos uma volta, e voltamos, já que tínhamos a chave. Ah, a inocência dos adultos, que bonitinhos! No caminho de volta ele me dizia o plano de sua cabeça, e eu fiquei bem animada, óbvio, com o plano de ficarmos sozinhos. Eu sabia que era ele, eu sabia que estremecia de tesão com ele, eu sabia que era uma questão de pouco tempo, e agora, era uma questão de minutos...

Chegamos na sua casa. O sofá nos convidou primeiro. E nele nos deitamos a nos beijar, as mãos livremente brincavam sobre nossos corpos, tateando, sentindo, descobrindo. Nem tudo era novo, mas quase tudo sim. A nudez foi algo novo, e tinha algo de vergonha, mas muito mais de excitação, e lá estava eu de pernas abertas no chão da sala, aberta de sensações, de vontades, descobrindo sensações, línguas, levitando de um jeito muito novo, realizando enfim o que por tanto tempo imaginei...

Ah, quando se levita, para que se quer pernas? Elas fugiram, tiraram greve, tremiam pela falta do sangue que povoava outros lábios. Sem picos ainda de levitação, mas já muito melhor que nos meus solitários devaneios com as mãos...

Ainda sem pernas, chegaram os donos dele. Correu ele (e eu me arrastei) pras roupas, pro quarto, pro violão e guitarra a encenar as aulas de música - embora eu estivesse tendo grandes ataques de riso com aqueles acordes.

A noite, sonhava em voar pelas árvores num lindo dia de sol, nos arredores de sua casa... E foi assim que tudo começou. Foi assim que começou a dúvida, o segredo, o medo de ginecologista, foi assim que começou a culpa, a indignação, o questionamento, foi assim que começou a putaria, o prazer, o tesão - e foi disso tudo que começou a minha busca por libertação. A menina no mundo cor de rosa que eu era, ansiosa e curiosa por terrenos mais rubros, começou a caminhar por esses terrenos. E depois desses 10 anos, mulher, liberta já de muitas coisas, ainda tenho muito a trilhar nesses caminhos de pedras que levam às mais belas praias de ar puro e límpido, areia rubra e céu azul, as praias da liberdade...

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