segunda-feira, 18 de junho de 2012

No currículo, o sentimento

Inicio transcrevendo um trecho do Snyders.
O grande momento da unidade entre o intelectual e o afetivo seria um amor que não temesse “submeter-se ao trabalho da reflexão” e ao qual o amante somente deixaria “o campo livre após a experiência do pensamento”.
Tive, principalmente durante a minha adolescência, um enorme problema com a naturalização dos sentimentos. Minha revolta com isso teve muito a ver com a escola: as meninas que, como eu, não estavam nem tão próximas do padrão de beleza para ser um sonho intocável, nem tão longe para não serem desejadas, sofriam sistematicamente abuso sexual dos colegas meninos. A isso, a escola cegava, os pais, e até nós, pela vergonha, calávamos. São crianças, diziam as pessoas, mas eu não me sentia criança. Os hormônios, claro, os hormônios, sempre a desculpa dos hormônios para se calar sobre a questão, e o misto de culpa, vitimização e um certo prazer (afinal, se nunca posso dizer sim e só tenho uma experiência sexual não solitária, ainda que não seja a que quero, é a única que tenho) que eram inconfessáveis de nossa parte, nada disso era tratado na escola, pois ela é lugar de conhecimento, certo? E sentimento é natural, é acidente, é praticamente um pesadelo. Isso que durante tanto tempo marcou minha vida e doeu bem fundo, esse caminho de reflexão sobre o sentir que eu tive que fazer praticamente sozinha para me libertar, me trouxe um ódio terrível da educação sexual (mecanicista, nada afetiva) que temos. E por isso eu destaco uma das coisas que eu mais gosto no CIEJA, e certamente o que eu mais gosto na Juliana, professora que acompanho: a educação afetiva.
O exemplo que usarei aqui para abordar a questão será o caso do Christiano. Relembrando o trecho do caderno de estágio em que eu tive contato com a questão pela primeira vez:
Enquanto eles(os alunos) chegavam (todos correndo), o Billy, professor dos especiais, deu um grito, chamando o Christiano (um dos alunos da sala) para conversar, muito bravo. Então ficou todo um rebuliço, boa parte dos alunos chegou atrasada, tinha um clima meio tenso no ar. A Juliana foi ver o que tinha acontecido, (a diretora) chamaram o Christiano para conversar. (ela volta, e começa a aula...) Chega o professor da Educação Física. Então saem os especiais e a Juliana me pede que fique na sala regular, e ela e a Sônia saem, conversam com o Christiano, e quando ele vai para a educação física, elas vão conversar com a diretora.(...) Quando deu meio-dia, elas dispensaram os alunos, menos o Christiano. A Juliana conversou com ele, e eu estava junto na conversa: ele estava apaixonado por uma aluna, que não está interessada nele. Aí ele fica nervoso quando a vê, e saiu correndo, atingindo o Billy sem querer. Mas parece que esses surtos tem sido bem comuns. Ela novamente foi fantástica: explicou para ele que isso acontece, que todo mundo tem um amor não correspondido de vez em quando (ainda falou que teve alguns, me perguntou se eu tinha tido, dando exemplos para ele), mas que não podíamos agir assim, que ele tinha que tomar cuidado e se controlar, que esse tipo de atitude não pode acontecer na escola e ele precisa mudar para continuar estudando. Também o incentivou a pedir desculpas pro professor Billy. Ele a todo momento se escondia (é um dos alunos que fica se escondendo, fala pouquíssimo, e foi durante muito tempo mantido longe da sociedade), e ela disse que ele não precisava se esconder. Fenomenal, muito melhor que a postura permissiva e/ou repressora da maioria das pessoas com alunos que tenham necessidades especiais, principalmente deficiência intelectual. Não permissiva porque coloca e cobra o cumprimento às regras sociais, e não repressora porque não coloca o problema na sexualidade dos educandos.
Em outro dia, descobri que na verdade o Christiano queria que o professor Billy conversasse com a Bárbara por ele porque ele tinha muita vergonha, e que o atingiu de propósito. Então a Juliana disse que era ele próprio que precisava conversar com ela, porque não é possível conquistar alguém sem nem ao menos conversar com a pessoa.
O comovente da situação entre o Christiano e a Bárbara é que isso não era visto como um problema individual dele(s) pela escola: era uma questão do coletivo, de ajudá-lo no seu problema, ensinar as regras do convívio social, entender e aprender a lidar com os próprios sentimentos. Ou seja, a importância da afetividade e da educação dos sentimentos não está só no plano da retórica politicamente correta: faz parte da prática e do “conteúdo” da escola.
Existia a preocupação de que ele fosse agressivo novamente, com ela inclusive (já que o tinha sido com o Billy), o que é uma preocupação muito legítima, mas isso não passa simplesmente pelo processo de exclusão do aluno que ainda está “fora das regras do convívio social”. Sempre que discuto sobre a inclusão de quem tem necessidades especiais, aparece a questão dos “especiais agressivos” como argumento para que estes continuem excluídos da escola. Essas pessoas não só tem o direito irrevogável de participarem da sociedade, mas também já estão na sociedade, é possível verdadeiramente excluí-las a priori, sem lhes dar a oportunidade de aprender?
Independente de ser uma pessoa com deficiência intelectual, todo mundo pode ter comportamentos agressivos. Mas a solução para os comportamentos agressivos é ignorar e excluir quem os tem da instituição que concentra em si o papel de formadora dos cidadãos? Será que isso resolve a questão? Porque me parece que a escola sempre se esquiva de sua responsabilidade sobre a educação dos sentimentos, e quando a agressividade vira violência e já não é mais possível ignorá-la, então ela é tratada como doença, como corpo estranho, como se agressividade e sentimentos não fossem passíveis de ser educados – como se não fossem educados. A convergência entre o “especial agressivo” e o estuprador é que os dois não são produtos da loucura, da biologia, da doença – são produtos de uma sociedade que se nega a assumir sua responsabilidade sobre a violência dos seus cidadãos, que se nega a perceber que o pessoal é político, e o sentimental é currículo.

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