quarta-feira, 28 de março de 2012

Romantismo

Acordei com o despertador antes da hora, o Pi mamando.
"Capi, desliga!"
"que saco, já?"
"Depois vc volta a dormir..."
Levanto, tomo café e banho, eles dormindo. Paro para vê-los dormir na mesma posicão. Dou um beijinho em cada um e sussurro no ouvido do maior:
"Feliz aniversário de casamento!"
Vou trabalhar. Volto possessa com certas folgas burguesas, atrasada para encontrar meu parceiro de dar aulas, que me esperava em casa com meus dois amores.
"Que saco, amor! Esses burgueses pensam que não temos nada para fazer além de servi-los. E ainda vem chorar miséria!!"
Faco a reunião, intercalando olhares cuidadosos na cria com ele.
O Dudi vai embora. O Pi dorme. ENfim, sós!
"Sabia que estamos nas bodas de algodão? Ano que vem são as de couro, isso promete...heheh...Pena que de 6 anos é de acúcar, e eu quase diabética...bubu"
Ah, como vc é lindo...estamos sozinhos, hum....
Doce ilusão, barato cortado pelo choro...Droga!
Pedimos uma comida gostosa. Enquanto esperamos, vou dar uma volta com o pequeno rebelde...Rebeldia de dente...
Chegou. Comemos compartilhando preocupacões.
"Não vamos dar conta desse aluguel e desse ritmo"
Ligo para a professora. Uma meia verdade não faz mal a ninguém....
Tudo pronto para sair, o temporal.
"Que saco, que saco que saco!"
"Eu fico com o Pi p/ vc ir, não dá para tirar ele de casa com essa chuva"
"Eu queria levar ele..."
Lá vou eu, com medo do carro boiar. Me atento à aula, monitora mais falante do que devia. Saio.
Vou atrás do remédio do bebê. Nada feito.
Dou carona pro Ruy e venho falando com ele sobre educacão, sobre dentes de criancas.
Chego em casa e me lembro:
"O pagamento!"
Vamos os três buscar.
Seu Tião me diz para buscar azeite e óleo na volta.
Voltei. Esqueciiiiiiiiiiiiiiiiii...
Cuido do Pi, enquanto ele trabalha. Meus pés crescem como pães, junto com minha dor de cabeca.
"Isa, pára de enrolar e vai ver esse exame de diabetes logo!"
E enfim o Pi dorme, eu leio milhões de emails atrasados, venho pro quarto e digo:
"Tenho uma coisa muito romântica para te dizer"
"O que?"
"Vamos dobrar essas roupas que tirei do varal?"
"Putz, tenho outra coisa romântica: preciso por as fraldas para bater"
"Se eu dobrar tudo, vc tira tb meu chinelo que eu deixei de molho e esqueci de tirar?"
"Tiro"
"Mas tô falando sério, acho muito romântico isso: ter uma vida junto"
"Sabe que eu tava pensando nisso hoje?"
Sento para escrever. Ele volta com meus chinelos.
"Limpinhos, ó! Mas o de palha estragou, ficou tempo demais. Vou tomar um banho"
"Ah, então eu vou com você."
E o fim da noite vai ser arrumar o lencol na cama e dormir de conchinha, como o cotidiano.

Assim, sem jantar a luz de velas, sem motel caro, sem pirotecnias, sem presentes. Só companheirismo.


Capi, não importa em que sala de jantar estejamos, não importa as correntes que nos prendam: quando olho para você, eu tenho certeza de que podemos transformar em balões as salas de jantar, de que temos toda a força para quebrar qualquer corrente...=)
Te amo!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Vivências matemáticas precárias

Queridos,
Eu tô numa brisa nos últimos tempos, sem tempo de escrever aqui mas com muita vontade.
Minha brisa é sobre conhecimento popularX científico, produção de conhecimento científico por quem, onde e com quais recursos, e o papel da educação nisso tudo.
Aí vai o primeiro texto sobre isso, para a disciplina de Escola e Cultura Matemática.

Beijos!


As “Vivências precárias”
Disse o grupo que complementou nossa questão acerca da tendência etnomatemática: “se o professor se restringe exclusivamente às vivências do aluno, e esse apresenta vivências precárias, o professor acaba contribuindo para a manutenção do aluno na condição de detentor apenas de saberes populares.”
Me parece que há aqui dois problemas: um de entendimento sobre a própria crítica que faz o texto à essa perspectiva, e um de fundo ideológico, que se manifesta num discurso nas entrelinhas, que soa bastante preconceituoso.
Em primeiro lugar, o problema dessa perspectiva segundo o que o próprio texto diz, se refere a um fetiche do “mundo real” e do “dia-a-dia”, esquecendo-se da formalização da matemática em si. Em nenhum momento se referiu a alguma vivência de algum grupo em específico como sendo matematicamente “mais rica” ou “mais pobre”. Sim, existe um eurocentrismo na matemática escolar, mas não dar acesso ao conhecimento dessa matemática é excluir o educando do mundo em que estamos que ainda é o mundo capitalista e nada liberto, é excluí-lo da universidade, do concurso público, da linguagem da ciência, da medicina, da tecnologia, etc. É exclui-lo também da grande conquista da ciência, ainda em andamento, da observação sistematizada e registrada, que nos permite uma visão mais ampla e fundamentada acerca dos fenômenos que nos cercam.
Mas o próprio Paulo Freire, em seu livro “Extensão ou Comunicação?” falará sobre a importância de mover do “pensamento mágico” do mundo para um conhecimento sistematizado e científico. No primeiro capítulo, ele descreve diversas populações com conhecimentos ainda “mágicos” do mundo, e toda a sua implicação desse tipo de pensamento, desde o reforço de preconceitos até a perda de uma safra inteira de alimento. Portanto, se há este fetiche da cultura popular e da vivência for a da escola, isto vem de uma má leitura acerca do Paulo Freire, que é bastante conveniente à manutenção da opressão – e nisso concordo em gênero, número e grau com o texto. Além disso, no imaginário das pessoas, existe uma cultura escolar que ultrapassa seus muros, e muitas vezes é exigida pelos próprios educandos, até mesmo para quem está em projetos de educação fora da escola – sendo esta já uma boa brecha para pensarmos com a perspectiva da etnomatemática sobre a matemática escolar.
O problema principal da afirmação de meus colegas, porém, está longe de ser o descrito acima. Me incomoda que se fale em “vivências precárias”. O que é uma vivência não precária em matemática? É a vivência do filho do burguês, exclusivamente escolar? É a vivência da mulher proletária que tem que transformar um salário mínimo em casa, comida, roupa e transporte? É a vivência do indígena que pesca peixes para sua aldeia toda? Existe algum sentido em denominar esta ou aquela vivência como culturalmente superior, para podermos falar em vivências precárias? Nas entrelinhas, há um discurso, este bastante prejudicial ao educador, um discurso que se funda na crença da própria superioridade de seu conhecimento, e portanto de sua posição. O conhecimento matemático que o educador tem a obrigação de passar é de que natureza? A meu ver, qualquer conhecimento é uma ferramenta, uma tecnologia, criada pelo homem. Existe hierarquia entre ferramentas? E, num mundo dominado pelo branco, pelo capitalismo, a tecnologia do conhecimento matemático a ser passado na escola tem que ser focada nesta eurocêntrica, pois é esta que vai nos dar possibilidade de compreender e lutar contra a opressão hoje, através da apropriação da ciência pelo povo, não só em seus resultados, mas em sua produção. Só assim, também conseguiremos transpor uma ou outra cultura matemática, pois para uma ciência apropriada pelo povo, surgirão novas matemáticas.

Bibliografia extra:
FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? 8ªedição. Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1983.