domingo, 4 de novembro de 2012

Documentarista?


Lá estávamos nós. Câmera emprestada, tripé emprestado, e uma ideia na cabeça: a de registrar uma humanidade inteira dentro de cada uma daquelas pessoas. Por trás de uma condição material de privação, da dominação cultural que nos cerca e tenta massacrar aquelas pessoas, por trás de toda exploração e toda dificuldade para se ter o mínimo, lá estão aquelas pessoas e sua humanidade, sua subjetividade, seus gestos e seu ser a ser registrado, gravado, revelado ali para nós, em nossa frente.

Nas narrativas de cada uma daquelas pessoas, existem histórias de fundo que se relacionam numa intersubjetividade maior. Se não a história daquele lugar, de como se formou enquanto assentamento, enquanto movimento social, enquanto favela, uma história do menino que morreu na cruz. A religião é uma narrativa, que tece uma ligação entre homens e mulheres - talvez a isso se refira o religare, à história que nos liga como coletivo. Quem sabe um dia a História, construída a muitas mãos e registrada a muitas mãos, um dia não possa bastar para nos religar enquanto seres humanos.

A cada porta na cara que tomamos para gravar, um monte de sentimentos e medos nos brotavam. O quanto faz sentido estarmos ali, o quanto não invadimos da privacidade daquelas pessoas, ao mostrar sua cara, sua voz, sua casa e sua vida? Mas a cada porta aberta - e comida, e refrigerante, e pipoca, e sorvete, e o melhor de tudo o que eles tinham - nos sentimos como velhas comadres daquelas pessoas, e ao mesmo tempo, como enfim alguém "importante" que se dispõe a ouvi-los, como se fôssemos algo além do que eles são.

E abrindo os ouvidos a essas histórias, a gente entende a História pelas línguas de quem a voz é repetidas vezes silenciada, calada. Ouvindo essas histórias a gente se reconhece nesse outro que está ali, na nossa frente, essas pessoas que sempre imaginamos como uma massa de gente igual entre si mas tão distinta de nós...E de repente eu sinto o mesmo que aquele pai, o mesmo que aquela senhora, de repente eu percebo que aquela pessoa respira tanto quanto eu, simboliza tanto quanto eu, reflete tanto quanto eu.

Me perguntei já se documentário é arte. Pois eu digo que é. É, porque minha inspiração em fazê-lo era de criar um simbolismo, tocar o coração das pessoas no que me toca; e nós planejamos e pensamos em como fazê-lo, posicionamos a câmera, recortamos a imagem. E se a minha tela foi a câmera, a tinta foram aquelas histórias, que querem revelar o que eu mais me encanto em meu trabalho como professora de adultos: a humanidade que nos permeia, que permeia a mim e a ti que me lê, que permeia cada uma daquelas pessoas, que permeia cada um de nós.

domingo, 21 de outubro de 2012

Trabalho feminino - A Bela da Tarde

A profissão que escolhi, de professora, não tem lá umas perspectivas muito boas. Desde que a profissão virou marcadamente feminina no Brasil, existe uma desvalorização constante, sentida tanto no prestígio de dizer "sou professora"(o que vira nos ouvidos das pessoas "sou espera-marido"), como no salário; quanto mais subimos na etapa de escolarização,  maiores os salários e mais homens na docência. É uma das profissões de Ensino Superior com menor salário no Brasil. Somos responsabilizadas (em contraponto ao machismo linguístico, como somos uma enorme maioria feminina, usarei sim o feminino para concordância aqui) pelo fracasso das escolas brasileiras, e de quebra, nada do que dissermos a repeito de educação tem muito valor - economistas, médicos, jornalistas, qualquer profissional parece ter mais bagagem para falar sobre educação. Nossos baixos salários nos obrigam a  um acúmulo de salas e lugares para dar aula, somos super exploradas pelo Estado e pelas escolas particulares, e isso se sente em nossos corpos - quem trabalha com educação infantil vive com dores nas costas por carregar 10 mil crianças todos os dias, quem trabalha no fundamental têm problemas de voz por conta dos gritos, problemas nos ombros por conta de escrever na lousa, isso sem contar em quem não aguenta e se deprime  com o difícil tranco de educar uma juventude numa época em que se passou o autoritarismo do professor para o aluno, numa crítica necessária porém mal feita, sobre autoritarismo na escola.

Quase ninguém hoje escolhe ser professor: por ser um dos cursos mais baratos e rápidos de Ensino Superior - é possível ser pedagogo ocupando só os sábados durante dois anos, por 200,00 -, muita gente que busca ascensão social vê esta como uma das únicas saídas e possibilidades. É gritante a insatisfação geral de quem é professor, a quantidade de afatamentos por saúde, a desesperança e desistência numa das profissões mais fundamentais ao crescimento do país.

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Quase toda mulher que se casa vira dona de casa em alguma medida. Se o casal não tiver grana suficiente para pagar uma empregada , o marido até "ajuda", mas quem vira dona de casa é sempre a mulher. Casar pressupõe uma série de coisas e expectativas em relação a mulher: é ela quem vai manter arrumada e limpa a casa, quem fará a comida, quem lavará a roupa, e qualquer coisa fora do lugar já é motivo para sogros desagradados e um monte de gente criticando a mulher. E isso muitas vezes é tido pela própria mulher como sua obrigação; muitas vezes ela até gosta desses afazares domésticos. O gostar é uma construção que vem desde a infância, nas vassourinhas, panelinhas e ferrinhos de passar com os quais brincamos. E por isso desvalorizamos seu gosto por isso?

Essa exploração da mulher não está só no seu tempo encurtado e na constante crítica que recebemos, mas também no seu corpo: serviço de casa é coisa pesada e interminável, cansa demais fazê-lo, dá uma dor nas costas filha da mãe ficar num tanque esfregando roupa; cozinhar no calor é torturante.

Pior, nunca recebemos um tostão por fazê-lo, nunca - trabalhamos dentro de casa e não ganhamos nadica por isso. Se não trabalhamos fora também, o fato de não recebermos muitas vezes nos coloca numa condição de dependência do homem, o que o coloca numa vantagem enorme, pois se ele violenta sua mulher, bate nela, grita com ela, ou não lava um copo, ela simplesmente não tem condições de se separar e buscar outra vida. Se ficamos doentes, não temos licença médica, pois a casa nunca dá descanso, a menos que você tenha condições de chamar uma empregada, o que, em geral (mas nao sempre), é transferência de opressão: vc chamará uma empregada para pagar muito pouco e exigir dela uma limpeza tão criteriosa como exigiam de você. De quebra, a dona de casa que é exclusivamente dona de casa tem sido cada vez mais desvalorizada, chamada muitas vezes de "exploradora do homem" por não trabalhar fora, de "burra" por não procurar "coisa melhor", ou por alguns feminismos, como o atestado de "mulher condizente com a opressão". Se a dona de casa é também qualquer outra profissional, ela ouve críticas do tipo "nossa, mas não dá conta da casa?", "não cuida direito do meu filhinho", "não cuida dos filhos", etc etc etc.

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Pois bem. Dois casos de trabalho feminino super explorado, em termos de grana, de corpo, de moral, a professora e a dona de casa. Há um contexto histórico enorme para isso, de desvalorização da mulher e de seu trabalho. E ainda assim há mulheres que escolhem essas posições. Eu escolhi ambas, escolhi ser professora e escolhi casar, mesmo com essas condições todas de desvalorização e opressão, porque eu gosto. Simples, eu gosto da vida de casada e gosto demais de ser professora; mesmo sabendo que meu salário vai ser muito curto e sentindo que a casa consome boa parte do meu tempo livre, em que eu podia estar aqui escrevendo pra vocês, lendo livros, trepando, conversando com amigos, e estou lá, lavando louça, roupa, varrendo o chão... Quase ninguém questiona a decisão de uma mulher de se casar, ou a decisão de ser professora (pelo menos, não a nível coletivo). Não ouço as vozes revoltadas dizendo "isso é reprodução do machismo!", ou "isso é imoral", não tramita na câmara ou no senado um projeto de proibição às donas de casas e às professoras, nem de punição dos alunos e maridos...

Pois então me digam, por que diabos proibir a prostituição? Trabalho marcadamente feminino - mas não só, viu? -, desvalorizado, que expõe a mulher (e os homens, e travestis) que o fazem a grande possibilidade de violência, de clientes e da polícia, mas ainda asim mais bem remunerado que o meu trabalho como professora e como dona de casa, com uma enorme carga moral de discriminação social; ok, concordamos até aqui.

Mas afinal, quem somos nós para proibir a prostituição? Há uma ideia de que este é um trabalho não necessário, mas isso é uma mentira: o tesão está por toda parte. Por que eu posso ter garantido o consumo de um chocolate quando me bate uma vontade louca e não posso ter garantida uma trepadinha naquele dia que tô subindo pelas paredes e meu companheiro não quer, ou estou sem companheiro e sem sorte na noite?

Há quem questione se existiria a prostituição numa sociedade fora do patriarcado, e eu digo que poderia existir sim, e bem mais frequente do que é hoje, bem mais igualitária - eu, mulher, poderia cismar que quero trepar num dia que meu marido não quer, e ao invés de me resignar sem sexo se ele estiver cansado, eu pago. Qual é o problema de resolver o tesão? Eu não tenho dúvidas que isso seria bem mais igualitário do que um marido obrigar sua mulher a trepar com ele. Me parece ser bem claro que isso resolveria boa parte dos casos de violência sexual, especialmente a conjugal, que é a mais comum. Sexo deveria ser direito nosso, não obrigação de uns e privilégio de outros.

E por que essa sacralização do sexo? Quando um babaca de um político aí, que não me lembro qual, falou que professor não pode trabalhar pelo dinheiro, tem que trabalhar por amor, todo mundo ficou revoltadinho(inclusive eu); mas por que a gente não pode admitir que se pode fazer sexo por dinheiro, que tem que ser sempre com amor? Isso é uma bobeira; sexo é necessidade corpórea para boa parte da população (tem a galera assexuada, que tem seu direito de viver assim, assim como tem gente que não come por opção, ok, pessoas que não comem por opção não são argumentação para proibirmos distribuição igualitária de alimentos, né?), qual o problema de saciar essa vontade? Vendemos até água, tem gente morrendo de sede por isso e não vemos mal moral nisso. Por que @ prostitut@ não pode vender sexo?

E quem disse que só tem coisas desmoralizantes em ser prostituta? Quem disse que só pessoas trogloditas as frequentam? Tirar do cliente a roupagem de algoz é fundamental para tratarmos a profissão um pouco melhor. No filme da Bruna Surfistinha, em algum ponto ela cita uma passagem bonita em que diz que conhece o ser humano de outro jeito, como se o conhecesse por dentro. E eu mesma conheço poucos homens que disseram nunca ter ido numa prostituta, inclusive entre meus amigos libertários. E quem disse que eles necessariamente trataram mal suas prostitutas?

A prostituição é uma profissão como outra qualquer, tão explorada como as outras, porque nós vivemos num modelo social de exploração chamado CAPITALISMO. E sinceramente, perante algumas profissões, ela é bem mais vantajosa: prostitutas ganham mais que professoras, por exemplo. Dentro do capitalismo, a exploração é, no máximo, regulada. Assim como as professoras têm a profissão regulada e isso lhes dá alguns direitos, como férias, décimo terceiro, feriados, licença maternindade/paternidade, as prostitutas também deveriam ter seus direitos garantidos; inclusive para diminuir a violência que sofrem. Nós não vamos acabar com a exploração na prostituição enquanto não acabarmos com o capitalismo. Mas também não vamos acabar com a cafetinagem e o tráfico de mulheres e crianças com uma lei de proibição a qualquer prostituição, porque proibir é botar a prostituta por opção(dentre as possíveis, claro, porque no fim é sempre opção dentre as possíveis) e a que está em condição de escravidão no mesmo balaio.

O presuposto de que "mulheres que escolhem isso necessariamente não percebem que estão sendo condizentes com sua opressão de gênero" me parece demasiado simplista, pois quem disse que a mulher não teve que questionar a moralidade sacralizante do sexo, o dito de que ela seria menos por trabalhar com isso? Quem disse que ela, por ter tido essa vontade (uai, tem gente que curte a ideia de trepar com desconhecidos, de trepar por dinheiro; o desejo é um labirinto cheio das coisas mais incomuns que podemos imaginar), não teve que questionar anos de inculcação machista de desvalorização do desejo e da disposição sexual da mulher? Quem somos nós, feministas ou não, para julgar a escolha de qualquer pessoa sobre seu corpo? Somos as feministas ocidentais as embaixadoras da liberdade feminina, a arrancar véus e mulheres de trabalharem no que querem? Liberdade para quê, senão para fazer o que se quer?

Ficou na minha cabeça as entrevistas com mulheres do filme "Lixo Extraordinário", que é sobre catadores de lixo no aterro do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. Não preciso dizer que a profissão é extremamente desvalorizada, mal vista e mal paga, e que explora ao extremo os corpos de quem a exerce. Pois bem, TODAS as mulheres, ao falar de sua profissão no filme, dizem "é melhor estar aqui que rodando bolsinha, que cair na vida". A única argumentação delas quando perguntadas se gostavam da profissão de catadora era essa. Por quê? Porque moralmente a prostituta é a versão feminina do bandido - mas que mal faz a prostituta a sociedade? Ou vamos continuar culpando a prostituta pela "destruição de lares" que são construídos sobre pilares de papel?

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O devaneio do Metrô


Trecho do meu caderno de estágio, sobre o metrô de São Paulo
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O devaneio do metrô. Tenho sensações diversas dentro dele. 
Nesse dia(de ir ao estágio), eu fui mais tarde, porque ia dormir em São Paulo; saí da linha amarela, estação Butantã, a higiênica e bem arrumada linha amarela, lá pelas 10:00h; ali, pertinho da USP, passa um monte de gente com a mesma cara de “Unicamp” que eu às vezes tenho, jovens barbudos e de saia comprida, chineludos, com seu charmoso descaso questionador, mas nem assim negando a classe social da qual vieram. Junto a esses, homens e mulheres brancos passam com livros de “como subir na empresa” andam engravatados, em sapatos doloridamente fechados e maquiagens impecáveis, rumo a Paulista geralmente, buscando alguma fortuna. 

Desci na Pinheiros, subi milhões de escadas rolantes, passei por lojas de havaianas, brigadeiros gourmet, celulares da Claro, junto com um monte de gente (quanto será de gente que tinha ali comigo, naquele tranquilo horário das 10 e pouco? Uma centena, duas, três, quanto? O que é esse tamanho de cidade, quem são essas pessoas, o que pensam? Não importa, apenas são mais algumas que seguem comigo na boiada que formamos), onde peguei o trem da CPTM, já não tão arrumado e nem higiênico, mas ainda assim bonitinho. Os avisos e os guardas do metrô e do trem me dão um certo arrepio: um garoto sentou-se no chão e alguns instantes depois veio a voz do além “evite acidentes, não sente no chão da plataforma”. Os guardas nunca são os mesmos, eu percebo, mas não sei porquê. 

Dentro do trem, as vozes dos vendedores ambulantes, geralmente homens jovens e nunca brancos, e seus anúncios e promoções: discurso de quem vende, apropriado da publicidade da TV e do rádio, a variedade de produtos baratinhos e “miraculosos”...Tudo entre uma estação e outra, tudo em silêncio na parada da estação, no “intervalo comercial”, como disse um deles uma vez, tudo dentro de uma clandestinidade desnecessária e de uma mochila. A voz que tanto nos fala e nada ouve diz “envie torpedo SMS para XXXX e denuncie irregularidades dentro do trem”. Delação, quem a fará desse rapaz franzino ganhando o seu? Que pensaria Foucault disso aqui? 

Enfim chego na Santo Amaro, e vou para a linha lilás do metrô, tão distoante da amarela, sem Arte no Metrô, com bem menos bancos a descansar nossos pés, sem barreiras de segurança na pataforma e com muito mais pichação. Entro no vagão, e alguns tem um cheiro característico, cheiro de descuido, de esquecimento, de bancos mofados, um cheiro enjoativo, e um ar condicionado meio quebrado. O público também é bem diferente da Linha Amarela, bem mais negro, bem menos engravatado, bem menos universitário, bem mais infantil, bem mais carregado, com chinelos bem mais gastos. 

Quando desço, no Capão, antes da catraca há uma única lojinha de artigos para celular, e já na rua sempre há uns vendedores de chip da Claro assediando quem passa. O celular, um dos mais baratos itens tecnológicos que adentra o fetiche mercadológico na nossa era, é claramente lucrativo. Posso ir a direita numa favelona, ou a esquerda, cruzando a estrada de Itapecerica e chegando nos bairros dali, onde fica o Campo Limpo e o CIEJA. Uma hora de viagem, da região Oeste para a Sudoeste de São Paulo - não, uma hora e eu não cruzei a cidade. Um estranho amor nasce em meu coração, pelo lugar mais improvável.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Brisa cabalística-feminista


Brisa cabalística – feminista

O primeiro homem que tive contato foi meu pai. Meu pai no meio de 3 mulheres fortes e de mim, que sempre o enfrentei – posso ter muitos defeitos, mas nunca fui de manter a cabeça abaixada. Meu pai foi criado no meio de seu pai, seu irmão e sua mãe – mulher que vale por 2, nas piores características que nos são ensinadas. Seu pai, o típico “bom moço”, e seu irmão, o típico “ressentido”, por ter frustrado os pais em seu sexo, seus pais que queriam uma menina. Meu pai era homem no seu sentido mais bom moço, o homem romântico, de emprego bom, ciumento, bom pai, que “ajudava em casa” e protegia sua família, sua posse. Mas fora a sua criação, ele estava cercado por nós, mulheres.

Outro homem que eu tive contato que fora cercado por homens foi o meu irmão de coração gêmeo. Mas esse irmão, por quem eu quis muito me encantar ou me encantei, não sei, em seu aparente “bom mocismo”, como se isso negasse minha natureza vadia, vive se cercando de mulheres para suas amigas, amigas desintessantes para ele em suas diversas belezas.

Homens encantadores eu conheci, e os que tive contato profundo, sempre se cercavam de muheres – não no sentido de trepar com elas só, mas de se identificarem com algo, seja no desejo por serem penetrados, seja no desejo pelos cheiros e feromônios que exalam outras barbas, seja na sensibilidade, em se permitirem chorar, seja em se entregarem aos amores, seja por serem criados por mulheres muito fortes e homens muito fracos... mas quase todos eles tinham algo de feminino que os fazia reconhecer minhas dores de mulher, os fazia me dar razão, os fazia completar algumas de minhas indignações com sua culpa no cartório. Muitas vezes esses homens reconheciam suas dores de serem moldados nesse mundo sexista, mas isso não era tão pulsante, porque no fim, eles não se reconhecem tão fortemente como homens.

Mas em julho eu conheci um homem diferente. Um homem encantador, mas bem masculino, criado por homens, claramente mais íntimo em amizade com os homens que o cercam. Pela primeira vez eu realmente consigo me tocar por um homem que marca muito sua posição de homem, suas dores de homem, a defesa de sua classe, como ele mesmo disse uma vez, sua classe de homem. Pela primeira vez eu encontro um homem que consegue ver essas coisas de maneira tão forte sem culpar as mulheres o tempo todo, sem ser surdo, sem ser cego ao machismo e ao sexismo que o criou assim e que cria o mundo que o cerca e o pressiona. Esse homem, marrento e bravo, de barba e ombros largos, de braços fortes e mãos habilidosas, marcadamente hetero e buscando a transcendência da dicotomia “bom moço/cafajeste”, consegue como ninguém me fazer refletir. Refletir sobre o significado de ser homem dentro do machismo, o que é lidar com o desejo feminino tolhido, a expectativa que o mundo tem dele por ser homem, o impasse de não ter muito por onde escolher quando será pai – e de isso não ser nem posto em pauta - , a obrigação de ser um trabalhador compulsivo...

Essa exposição que faço aqui é um início de reflexão, também na busca de sair da visão infectada pelo próprio machismo, de que mulheres são frágeis e homens são fortes, e por isso, os homens ocupam uma posição invejável perante as mulheres, de algozes eternos frente a mulheres sempre só violentadas, e nunca violadoras; de homens felizes dentro do padrão que os colocam, como se felicidade fosse atingível por ocupar uma posição cômoda. Acho que não tinha momento melhor para conhecê-lo, afim de transpor minhas próprias questões com o feminismo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"Eu não estou aqui só para transar com você."

Ouvi a frase do sujeito ali, em cima da pick up, amarrando a coisas que sobraram da minha mudança, depois do milésimo pedido de desculpas que eu fiz naquela última meia hora. Desculpas por achar que eu tinha falhado ao não terminar as intermináveis coisas que tinha p/ fazer antes dele chegar, e enfim ter "liberado o tempo para ficar com ele". Desculpas porque, no fim, eu tenho ainda um monte daquela doença cardíaca de nossa juventude: o medo de amar.

A frase foi uma bomba deliciosa. Passei o resto do dia pensando, afinal, no que é isso que tenho vivido com esse homem novo na minha vida, que chegou de um jeito um tanto inesperado. Começou sim numa brincadeira de adultos que mal se conheciam, mas foi tomando uma outra proporção - deliciosamente leve, como uma manga doce e madura, mas intensamente gostosa e de rápido envolvimento.

Pois bem, a frase marca o que talvez me assuste e me fascine: sim, há sentimento, e há um sentimento para além do "estar apaixonada" que eu senti esses 3 anos em que me permiti, enfim, me envolver afetivamente de maneira múltipla. De repente, eu começo a me envolver de uma maneira um pouco além com essa criatura. Participar da vida do outro vai além do comer fora-motel-trepar por um dia loucamente; participar da sua vida é esperar o outro trabalhar, é me ver cuidar do meu filho, é ajudar na mudança, é discutir política, é falar do teatro dele, é lavar a louça.

Participar da vida. Algo que eu sinto vontade, mas que eu tive tanto medo de mostrar e de sentir mesmo, e que dessa maneira tão explícita me deixou boquiaberta e saltitante.

Participar da vida do outro é encará-lo como e com verdade. Verdade sem a qual amor nenhum se sustenta. Verdade que às vezes inclui sair dos armários, quando possível. E sair do armário para um poliamorista é, no fim, dizer ao mundo que não há traição (não essa aí, pelo menos) nem "o outro", "o Ricardão" entre nós. Verdade que quebra com a moral do forte e do fraco, com a ideia de trouxa e canalha.

No fim, amoralidade começa com amor. Porque em nossa moral, essa moral que me educou e educa minha juventude sob o medo de se envolver, não tem nada de amor.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Indústria de alimentos e alimentação infantil

Faz tempo que quero escrever sobre esse tema, que me parece fundamental na criação de nossos filhos.

O Pietro, filho de dois gordinhos que adoram comer, é um bebê magro. BEM magro: ele está na curva dos bebês mais magrinhos desde sempre. Simples assim. Não é tão fã de comer como nós - na verdade, está virando mais fã agora, com dois anos. E é um apaixonado por frutas e vários legumes e verduras. Bananas? Adora. Manga, mamão, abacaxi, abacate? Sabe o nome de TODOS, e pede, viu? Brócolis? Chora por, acorda pedindo. Couve Flor? Hum, delícia. Vagem? Ontem fiz, e ele só quis comer vagem, comeu um pratinho de criança cheio!

No supermercado, levo ele no carrinho. Sessão hortifruti tem que ser a última, porque ele não vai ter paciência de esperar pagarmos para comer a mexerica. A primeira palavra que ele aprendeu sem ser papai e mamãe foi "nana", que é banana. Em época de pêssego, o menino pira! Logo que começa, compro uma caixa, chego em casa e precisa ver o sorriso do moleque!

Quantas vezes não ouvi: "que sorte você tem, né, uma criança que gosta de frutas..." SORTE É O ESCAMBAU. Não tenho sorte, tenho cuidado.

Desde que ele estava na barriga, comecei a me preocupar com isso, porque eu sempre sofri com a balança, comer frutas sempre foi para mim um tanto difícil, aprender a gostar delas de verdade, só depois de virar vegetariana. E isso tem a ver com a educação alimentar que tive (no meu caso, um misto de uma paranóica que não me deixava comer doces nunca e de um gordinho filho de italiano que comia tudo o que via pela frente - e muitas vezes me usava para comprar porcarias sem levar bronca da mulher). Estudei muito sobre amamentação e alimentação infantil. E quando ele nasceu, botei o máximo que pude em prática(o máximo que pude foi amamentação exclusiva até os 6 meses e mantida até hoje, não dar doces com menos de 1 ano, sem leites fora o leite materno, sem mamadeiras e chupetas).

Quando acabaram os seis meses de amamentação exclusiva, comecei a oferecer as coisas: devagar e sem pressa de que ele aceitasse, cozinhando coisas diferentes de todos os grupos de alimentos. Foram 4 meses de bebê comendo pouco, em geral só frutas, e 4 meses ouvindo os mais absurdos comentários, do tipo "claro que ele não quer, tem que pôr açúcar/sal/pimenta/carne", ou "bate no liquidificador que ele vai tomar tudo", e, óbvio, "pára de amamentar/amamenta com horário que ele vai comer mais. Aí eu pergunto algumas coisas:

Se eu misturo tudo numa grande papa e bato no liquidificador, como ele vai conhecer cada alimento quando for maior? Como vai saber que aquela fruta que não vem no saco com bichinho desenhado era aquela coisa gostosa que ele comia? Como ele vai reconhecer que aquele legume verde ali era o que dava aquele gostinho diferente no meio do feijão e do arroz? Como ele vai achar graça nas frutas quando elas estiverem sem açúcar? E o mais importante, se eu o empanturro hoje, ao invés de respeitar o quanto ele quer comer, como ele vai saber como se sente quando está saciado, e comerá só o quanto realmente precisa?

Fico pensando em papinhas que vejo o pessoal fazer e comprar por aí: elas são pastas que não tem cara das coisas que a compõe...Parecem tanto todas as porcarias que compramos no supermercado, espessadas e coloridas com aditivos químicos que nos fazem um imenso mal, mas são vendidas com suas embalagens chamativas, coloridas, cheias de bichinhos bonitinhos...Se vc não conhece a fruta que comeu, se não a vivenciou em sua cor, em seu cheiro, claro que o bichinho do Fandangos vai te seduzir antes. Olhe para o supermercado: todas as porcarias alimentares para crianças estão embaixo, bem na altura delas. Uma das razões pelas quais o Pi sempre vai "brincando de carrinho" é essa: quanto mais no alto ele está, com menos publicidade de porcarias ele é bombardeado. Porque ele, mesmo não acostumado, quando vê o menino do Kinder Ovo, o vermelho do Doritos (mentira, esse ele provou cedo, porque nós adoramos doritos - embora eu tenha diminuído mais ainda a frequência que comprava, depois que colocaram o T de transgênico), o colorido cintilante do Menthos, os ursinhos na lata de Mucilon, ele pede. E eu não dou, óbvio (só de vez em quando compramos um desses salgadihos porcaritos, ou um chocolate). Mas o grande negócio é que a indústria de alimentos é cheia de artimanhas de publicidade para nos fazer consumir um monte de porcarias que não queremos e não precisamos - e as crianças são as mais afetadas por isso. O que fazer para brigar com isso?

Para mim o truque é a sedução. As frutas, os legumes e as verduras podem ser bem sedutores para o seu filho por si sós: apresente-os em sua forma, em sua cor, em seu jeito e seu sabor - ainda que amargo ou azedo (o Pi toma suco de limão sem açúcar até hoje, e gosta) antes de apresentar as porcarias (que ele também vai comer, eventualmente, e vai gostar - mas não precisa preferi-las, né?). Pense: nossa espécie come porcarias desde quando? O gosto infantil por cores pode ser uma predisposição nossa a comermos frutas mesmo, coloridinhas e doces.

Açúcar, frituras, porcarias, papinhas: Será que precisamos mesmo delas?
Será que precisamos daquele bebê ultra gorducho? Será que se o bebê não quer comer, ele realmente precisa comer aquilo?

Delimitar regras para o consumo dessas "drogas" também pode ser bem mais efetivo que proibi-las...Até porque, sempre vai ter aquele tio, aquela vó, aquele amigo seu que vai oferecer a porcaria. E se você proibir mas outro adulto liberar, não se engane, sua autoridade será abalada. Quando estamos com meus sogros, eles nos dão um monte de guloseimas deliciosas, especialmente pro Pi. E ele come a ponto de ficar claramente abalado pela quantidade de açúcar que eles dão. 3, 4 dias com eles, depois nada de açúcar: faz parte da festa de ver os avós. Ritual deixa a coisa não cotidiana, torna uma coisa "especial"- e que, portanto, não pode acontecer todos os dias.











segunda-feira, 18 de junho de 2012

No currículo, o sentimento

Inicio transcrevendo um trecho do Snyders.
O grande momento da unidade entre o intelectual e o afetivo seria um amor que não temesse “submeter-se ao trabalho da reflexão” e ao qual o amante somente deixaria “o campo livre após a experiência do pensamento”.
Tive, principalmente durante a minha adolescência, um enorme problema com a naturalização dos sentimentos. Minha revolta com isso teve muito a ver com a escola: as meninas que, como eu, não estavam nem tão próximas do padrão de beleza para ser um sonho intocável, nem tão longe para não serem desejadas, sofriam sistematicamente abuso sexual dos colegas meninos. A isso, a escola cegava, os pais, e até nós, pela vergonha, calávamos. São crianças, diziam as pessoas, mas eu não me sentia criança. Os hormônios, claro, os hormônios, sempre a desculpa dos hormônios para se calar sobre a questão, e o misto de culpa, vitimização e um certo prazer (afinal, se nunca posso dizer sim e só tenho uma experiência sexual não solitária, ainda que não seja a que quero, é a única que tenho) que eram inconfessáveis de nossa parte, nada disso era tratado na escola, pois ela é lugar de conhecimento, certo? E sentimento é natural, é acidente, é praticamente um pesadelo. Isso que durante tanto tempo marcou minha vida e doeu bem fundo, esse caminho de reflexão sobre o sentir que eu tive que fazer praticamente sozinha para me libertar, me trouxe um ódio terrível da educação sexual (mecanicista, nada afetiva) que temos. E por isso eu destaco uma das coisas que eu mais gosto no CIEJA, e certamente o que eu mais gosto na Juliana, professora que acompanho: a educação afetiva.
O exemplo que usarei aqui para abordar a questão será o caso do Christiano. Relembrando o trecho do caderno de estágio em que eu tive contato com a questão pela primeira vez:
Enquanto eles(os alunos) chegavam (todos correndo), o Billy, professor dos especiais, deu um grito, chamando o Christiano (um dos alunos da sala) para conversar, muito bravo. Então ficou todo um rebuliço, boa parte dos alunos chegou atrasada, tinha um clima meio tenso no ar. A Juliana foi ver o que tinha acontecido, (a diretora) chamaram o Christiano para conversar. (ela volta, e começa a aula...) Chega o professor da Educação Física. Então saem os especiais e a Juliana me pede que fique na sala regular, e ela e a Sônia saem, conversam com o Christiano, e quando ele vai para a educação física, elas vão conversar com a diretora.(...) Quando deu meio-dia, elas dispensaram os alunos, menos o Christiano. A Juliana conversou com ele, e eu estava junto na conversa: ele estava apaixonado por uma aluna, que não está interessada nele. Aí ele fica nervoso quando a vê, e saiu correndo, atingindo o Billy sem querer. Mas parece que esses surtos tem sido bem comuns. Ela novamente foi fantástica: explicou para ele que isso acontece, que todo mundo tem um amor não correspondido de vez em quando (ainda falou que teve alguns, me perguntou se eu tinha tido, dando exemplos para ele), mas que não podíamos agir assim, que ele tinha que tomar cuidado e se controlar, que esse tipo de atitude não pode acontecer na escola e ele precisa mudar para continuar estudando. Também o incentivou a pedir desculpas pro professor Billy. Ele a todo momento se escondia (é um dos alunos que fica se escondendo, fala pouquíssimo, e foi durante muito tempo mantido longe da sociedade), e ela disse que ele não precisava se esconder. Fenomenal, muito melhor que a postura permissiva e/ou repressora da maioria das pessoas com alunos que tenham necessidades especiais, principalmente deficiência intelectual. Não permissiva porque coloca e cobra o cumprimento às regras sociais, e não repressora porque não coloca o problema na sexualidade dos educandos.
Em outro dia, descobri que na verdade o Christiano queria que o professor Billy conversasse com a Bárbara por ele porque ele tinha muita vergonha, e que o atingiu de propósito. Então a Juliana disse que era ele próprio que precisava conversar com ela, porque não é possível conquistar alguém sem nem ao menos conversar com a pessoa.
O comovente da situação entre o Christiano e a Bárbara é que isso não era visto como um problema individual dele(s) pela escola: era uma questão do coletivo, de ajudá-lo no seu problema, ensinar as regras do convívio social, entender e aprender a lidar com os próprios sentimentos. Ou seja, a importância da afetividade e da educação dos sentimentos não está só no plano da retórica politicamente correta: faz parte da prática e do “conteúdo” da escola.
Existia a preocupação de que ele fosse agressivo novamente, com ela inclusive (já que o tinha sido com o Billy), o que é uma preocupação muito legítima, mas isso não passa simplesmente pelo processo de exclusão do aluno que ainda está “fora das regras do convívio social”. Sempre que discuto sobre a inclusão de quem tem necessidades especiais, aparece a questão dos “especiais agressivos” como argumento para que estes continuem excluídos da escola. Essas pessoas não só tem o direito irrevogável de participarem da sociedade, mas também já estão na sociedade, é possível verdadeiramente excluí-las a priori, sem lhes dar a oportunidade de aprender?
Independente de ser uma pessoa com deficiência intelectual, todo mundo pode ter comportamentos agressivos. Mas a solução para os comportamentos agressivos é ignorar e excluir quem os tem da instituição que concentra em si o papel de formadora dos cidadãos? Será que isso resolve a questão? Porque me parece que a escola sempre se esquiva de sua responsabilidade sobre a educação dos sentimentos, e quando a agressividade vira violência e já não é mais possível ignorá-la, então ela é tratada como doença, como corpo estranho, como se agressividade e sentimentos não fossem passíveis de ser educados – como se não fossem educados. A convergência entre o “especial agressivo” e o estuprador é que os dois não são produtos da loucura, da biologia, da doença – são produtos de uma sociedade que se nega a assumir sua responsabilidade sobre a violência dos seus cidadãos, que se nega a perceber que o pessoal é político, e o sentimental é currículo.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Terrenos rubros

Era uma tarde de domingo. Vestia uma calça tipo algodão cru com uns desenhos bonitinhos e discretos em vermelho, meio infantil, e uma blusa vermelha que eu adorava. Usava uma bolsa em conjunto com a calça. O perfume se chamava "insensatez", do meu corpo e daquele dia. Sim, para sempre uma insensata.

Cheguei na casa dele no meio da tarde. A garantia para minha mãe de controle sobre o meu corpo, sua propriedade, era de que os donos do outro corpo também estavam ali, a proibir portas fechadas...Ah, a inocência! Inocência que os pais acham que nós temos, e que só a cegueira deles é que tem.

Então os donos dele saíram e nos mandaram sair. Nós saímos, demos uma volta, e voltamos, já que tínhamos a chave. Ah, a inocência dos adultos, que bonitinhos! No caminho de volta ele me dizia o plano de sua cabeça, e eu fiquei bem animada, óbvio, com o plano de ficarmos sozinhos. Eu sabia que era ele, eu sabia que estremecia de tesão com ele, eu sabia que era uma questão de pouco tempo, e agora, era uma questão de minutos...

Chegamos na sua casa. O sofá nos convidou primeiro. E nele nos deitamos a nos beijar, as mãos livremente brincavam sobre nossos corpos, tateando, sentindo, descobrindo. Nem tudo era novo, mas quase tudo sim. A nudez foi algo novo, e tinha algo de vergonha, mas muito mais de excitação, e lá estava eu de pernas abertas no chão da sala, aberta de sensações, de vontades, descobrindo sensações, línguas, levitando de um jeito muito novo, realizando enfim o que por tanto tempo imaginei...

Ah, quando se levita, para que se quer pernas? Elas fugiram, tiraram greve, tremiam pela falta do sangue que povoava outros lábios. Sem picos ainda de levitação, mas já muito melhor que nos meus solitários devaneios com as mãos...

Ainda sem pernas, chegaram os donos dele. Correu ele (e eu me arrastei) pras roupas, pro quarto, pro violão e guitarra a encenar as aulas de música - embora eu estivesse tendo grandes ataques de riso com aqueles acordes.

A noite, sonhava em voar pelas árvores num lindo dia de sol, nos arredores de sua casa... E foi assim que tudo começou. Foi assim que começou a dúvida, o segredo, o medo de ginecologista, foi assim que começou a culpa, a indignação, o questionamento, foi assim que começou a putaria, o prazer, o tesão - e foi disso tudo que começou a minha busca por libertação. A menina no mundo cor de rosa que eu era, ansiosa e curiosa por terrenos mais rubros, começou a caminhar por esses terrenos. E depois desses 10 anos, mulher, liberta já de muitas coisas, ainda tenho muito a trilhar nesses caminhos de pedras que levam às mais belas praias de ar puro e límpido, areia rubra e céu azul, as praias da liberdade...

terça-feira, 29 de maio de 2012

Estatística e os muros da pesquisa científica

“Assim sendo, esse estudo (da estatística)os auxiliará na realização de seus trabalhos futuros em diferentes ramos da atividade humana e contribuirá para sua cultura geral (Lopes, 1998).” Minha vivência no movimento de humanização de parto e pró-aleitamento materno, que se baseia fortemente num movimento chamado MBE – Medicina Baseada em evidências - me fez repensar uma série de questões em relação a natureza da ciência e na importância de se valorizar a metodologia científica. Essa ficha me caiu porque toda a reivindicação pela humanização da saúde se baseia não só no fato de que somos pessoas e não máquinas quebradas, mas também no substancial, observável e quantificável fato de que os tratamentos que levam em conta a humanização tem resultados melhores objetivos na saúde dos pacientes. No caso do parto por exemplo, a perspectiva da humanização, onde a mulher é protagonista, a criança é respeitada, o pai não é jogado a escanteio e o médico intervém apenas quando precisa, diminui consideravelmente a mortalidade materna e infantil – isso para não entrar em outros milhões de aspectos da saúde que são influenciados pelo parto, como tempo de amamentação, depressão pós-parto, problemas respiratórios e alergias na criança, etc etc etc. Sempre converso com muitas pessoas sobre isso. Mas nenhuma conversa irrita mais do que as que tenho com profissionais da saúde que não pensam a humanização. Uma vez conversava com uma enfermeira de um hospital renomado – que eu não pisaria jamais novamente nem com 3 semanas de gestação – e ela me dizia absurdos infundados, justificava diversas intervenções médicas. E eu insistia – mas a Organização Mundial de Saúde diz que x porcento de tal procedimento só é que é necessário; as evidências científicas falam que y porcento só deveria usar tal outro procedimento nos casos A, B e C – em vão. Ela insistia em dizer que a prática diz outra coisa... Pois bem, eu não falava pela prática de um hospital só, falava pela prática de vários. Mas que tolice a minha, no fim, discutir estatísticas com alguém que não entende o que aqueles números significam. Veja, como posso compreender, opinar, decidir e transformar minha prática (seja ela qual for e sobre qual aspecto da minha vida for), se eu nem ao menos compreendo como se dá a formação daquele conceito, daquele conhecimento? Como uma pessoa que não consegue dar significado aos números que estão nas estatísticas, que não consegue entender como se constrói bem uma estatística, que não tem domínio sobre esta linguagem pode afinal se apropriar dos conhecimentos científicos que circulam na nossa sociedade? Pior, como essa pessoa conseguirá questionar e discernir sobre o que realmente é científico? Mais além, como essa pessoa poderá se valer da metodologia sistematizada, entender a preocupação de tomar a objetividade de um dado acontecimento, para produzir conhecimento? Nesse sentido, me parece fundamental que o conhecimento estatístico seja bem trabalhado na escola. Este texto veio bem a calhar, e a aula também. Não sei se conhecem, mas eu sempre escuto: estatística é balela, porque se você medir a temperatura média entre o fogão e a geladeira, terá uma temperatura habitável. É óbvio e natural que as pessoas pensem dessa maneira(que aliás, é um belo demonstrativo de que elas não entendem o que é estatística, porque essa afirmação não faz nenhum sentido): se na sociedade em que estamos as coisas precisam parecer científicas, mas não há quem consiga reconhecer o que é realmente fruto de conhecimento sistematizado (que dirá questionar a sistematização), a estatística, tão fundamental ao conhecimento científico, passa a ser um número sem valor. Até aqui, ok. Teoricamente é lindo, vimos qual a importância e tal. Mas o grande barato dessa aula foi vislumbrar uma forma de trabalhar o que é estatítstica com alunos de anos iniciais e até da Educação Infantil. Eu realmente não conseguia pensar antes em uma forma de explicar isso sem passar por um monte de conhecimentos mais avançados de matemática. Achei fantástica a ideia do gráfico de setores simples que nos foi mostrada, e mais ainda a do gráfico dos aniversários – essa porque pode ser trabalhada com bem poucos conhecimentos matemáticos. A quebra da linearidade, que é colocada no texto, foi muitíssimo bem ilustrada pela aula. E a estatística faz parte do cotidiano de nossas crianças(e dos adultos não alfabetizados, diga-se de passagem), temos um universo a explorar de material para trabalhar. Entender estatística faz parte de ler o mundo, tanto da criança da oitava série como do adulto da quarta. Fundamental também é esta ideia para que o conhecimento científico ultrapasse os muros das universidades e dos centros de pesquisa que estão amarrados ao poder econômico. Uma educação que se preocupe em ser libertadora e revolucionária precisa passar pela estatística, por toda sua potencialidade de compreensão amplificada dos fenômenos. Não me espanta que ela ainda esteja tão distante da prática do professor. O muro do conhecimento científico a se pular pelo povo não é apenas físico.

O tesão da docência

Escrevi isso pra uma disciplina aqui da FE...E eu curti as sacadas, hehehe Tenho me deliciado ao ler o Snyders, por ele falar tanto da alegria na escola. Esse é um tema esquecido pela faculdade em que estamos, esquecido por quem a rege e por nós, alunos que a frequentamos. Por mais que tenha lembranças terríveis de minha escola, e eu sempre tenha achado espaço para falar sobre minha professora que batia na gente, meus colegas cruéis de escola particular, o consumismo na escola e as terríveis permanências que fiz da primeira à quarta série (“permanência” era umas fichas de todas as matérias que nós ficávamos resolvendo durante metade das aulas, todos os dias), eu fui uma criança profundamente feliz na escola. Adorava estudar, adorava aprender, e aprendi muito na sala de aula – era lá que eu podia aprender, conhecer, me explicavam sobre o mundo coisas que lá fora eu tinha pouco espaço (não por mal, mas até por falta de tempo – eu era daquelas crianças insuportáveis que perguntavam TUDO). Eu era a criança que queria muito crescer, eu era a criança que discordava quando os adultos me diziam para “aproveitar agora, porque depois...”, eu sabia que tinha uma liberdade do lado deles que eu não tinha enquanto criança – e continuo, hoje adulta, sabendo que eu tinha razão. O Snyders me retomou essa lembrança, me pôs em contato com isso novamente. É engraçado que essa crítica ferrenha à escola nos deixe numa amargura, que parece nos fazer esquecer porque escolhemos ser professores – e às vezes nos distancia realmente do prazer de sê-lo. Isso me incomodava quando eu ouvia minha própria fala aqui dentro. Me incomodou quando tive que escolher um lugar para meu filho estudar e me dispus a ouvir o que as pessoas diziam das escolas possíveis – não teve nenhuma escola sobre a qual eu não tenha ouvido coisas terríveis dos estagiários e de mães amigas minhas. Mas afinal, estamos aqui na educação para quê? Para reclamar? Ou para buscar caminhos diferentes? O que acho mais grave nisso é que os problemas viram regra, e o professor é só um grãozinho levado pelo vento – ó coitados de nós, por que prestamos pedagogia? Desnaturalizamos o mito do herói empreendedor, de que só precisa vontade para mudar as coisas e que o indivíduo basta – mito tão conveniente ao capitalismo. Aprendemos e nos sensibilizamos para a estrutura em que estamos inseridos, que massacra, que dificulta, que tende a se manter - “o buraco é mais embaixo”. Mas e aí? Cairemos mesmo no “se a estrutura está assim não tem solução”? Fiz a opção por buscar experiências diferentes, experimentar tudo o que puder ser alternativo, e acho curioso que quando eu falo essas coisas, muitos colegas me chamam de romântica, louca, e às vezes até sem noção. O que o Snyders conta sobre a dificuldade de se falar em alegria na escola eu sinto bem forte – não só na escola, mas em outras bandeiras também. Mas se eu já questionei o dito que só existe o caminho da dor para o parto, por que não questionaria o caminho da dor na escola? E entre tropeços e acertos, eu passei por um episódio no estágio que me deu um “barato orgástico pedagógico”, que me fez ter a certeza (pela milhonésima vez) de que eu sou uma viciada em educação, que não consigo viver sem fazer isso, uma apaixonada incondicional por esse ofício tesudo de ser professor. Estava na sala dos especiais (outro bichinho que me mordeu, depois do da educação, é o da educação especial, com certeza). Como o tema gerador é “Direitos Humanos” e a Juliana e a Sônia estão trabalhando com moradia, ela levou uma atividade assim: cada um recebia fotos de uma parte da casa (porta, banheiro, etc) e os nomes embaralhados. A ideia era ir colando as fotos com os nomes. A Juliana escolheu as partes de maneira que não se repetissem as primeiras letras, para que ficasse mais fácil para eles. Então começou a atividade. Alguns recortavam errado, torto, cortavam letras fora, enfim. Fomos ajudando os alunos a fazer. Então fiquei numa mesa que sempre fica um grupo de meninas, e então elas me mostravam uma das fotos com aquela cara de pergunta. Em todas as salas do CIEJA, como acho que já relatei, tem um alfabeto grande para consulta, com fotos de objetos que comecem com a letra referida. Que parte da casa é essa? É o banheiro. Em qual desses você acha que está escrito “banheiro”? Esse daqui – com a palavra“porta” na mão. Olha só, acho que não. Olha lá no alfabeto da parede. Olha as fotos: que isso na foto? - apontando pra referência do “A” É um abacate. Então, a primeira letra aqui é “A”. E esse daqui? - apontando pra referência do “B”. É um boi. Então. “Boi”, “Banheiro”, não parece o mesmo som? Sim, parece. Então é essa letra? Isso. Que letra é essa? É o “B”, né? É esse aqui, professora? - com a palavra “banheiro” na mão. Isso! E assim fomos indo. A Sandrinha, uma das alunas, sacou rapidinho, expliquei mais umas duas vezes e o resto ela fez sozinha, outras duas eu tive que ajudar mais tempo, uma não entendeu. Mas 3 delas conseguiram entender como se reconhecia as letras, aprenderam a consultar o alfabeto que está na parede e fizeram o exercício com alguma autonomia – três que nunca conseguiam fazer muita coisa. A Juliana olhou para mim e disse “e não é que eles aprendem?”. Ah, eu fiquei imensamente feliz! Explodindo de alegria...Sim, eles aprendem, e nada mais gratificante para um professor que um aluno mostrando que aprendeu, caminhando com as próprias pernas. Eles aprenderam a despeito do que se acredita que podem aprender, foram além do que se espera deles. É esse “barato orgástico pedagógico”, essa alegria do conhecimento, de ter acesso a novas perspectivas que incentiva realmente o professor a continuar pelo seu ofício. Fico pensando na lógica do extensionista, do que “leva a informação enlatada” para o outro, numa concepção de professor como um distribuidor de conhecimento, que é um produto pronto para o consumo - onde está o prazer desse professor? Me atrevo a dizer que o prazer, nesse caso, está na recompensa externa ao conhecimento, ao fundamental objeto do professor: seja o salário, a riqueza, o reino dos céus, o prazer de vender(afinal, conheço um monte de bons vendedores de conhecimento, como os professores de cursinho) ou a não punição. Quando o trabalho não tem em si seu porquê, quando o trabalho está alienado de seu produto e de seu usufruto em qualquer forma, o próprio prazer está alienado. Quando o trabalho do professor parte da perspectiva da comunicação, do diálogo, em que todos os envolvidos se transformam para conhecer o que já existe e assim possam transformar também o conhecimento – que não é enlatado, que é como um bolo caseiro - o prazer vem para o centro do trabalho. Aí a própria prática pedagógica passa a ser um deleite, e esse prazer nos move ainda mais na transformação de nossa prática e na produção do conhecimento.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Romantismo

Acordei com o despertador antes da hora, o Pi mamando.
"Capi, desliga!"
"que saco, já?"
"Depois vc volta a dormir..."
Levanto, tomo café e banho, eles dormindo. Paro para vê-los dormir na mesma posicão. Dou um beijinho em cada um e sussurro no ouvido do maior:
"Feliz aniversário de casamento!"
Vou trabalhar. Volto possessa com certas folgas burguesas, atrasada para encontrar meu parceiro de dar aulas, que me esperava em casa com meus dois amores.
"Que saco, amor! Esses burgueses pensam que não temos nada para fazer além de servi-los. E ainda vem chorar miséria!!"
Faco a reunião, intercalando olhares cuidadosos na cria com ele.
O Dudi vai embora. O Pi dorme. ENfim, sós!
"Sabia que estamos nas bodas de algodão? Ano que vem são as de couro, isso promete...heheh...Pena que de 6 anos é de acúcar, e eu quase diabética...bubu"
Ah, como vc é lindo...estamos sozinhos, hum....
Doce ilusão, barato cortado pelo choro...Droga!
Pedimos uma comida gostosa. Enquanto esperamos, vou dar uma volta com o pequeno rebelde...Rebeldia de dente...
Chegou. Comemos compartilhando preocupacões.
"Não vamos dar conta desse aluguel e desse ritmo"
Ligo para a professora. Uma meia verdade não faz mal a ninguém....
Tudo pronto para sair, o temporal.
"Que saco, que saco que saco!"
"Eu fico com o Pi p/ vc ir, não dá para tirar ele de casa com essa chuva"
"Eu queria levar ele..."
Lá vou eu, com medo do carro boiar. Me atento à aula, monitora mais falante do que devia. Saio.
Vou atrás do remédio do bebê. Nada feito.
Dou carona pro Ruy e venho falando com ele sobre educacão, sobre dentes de criancas.
Chego em casa e me lembro:
"O pagamento!"
Vamos os três buscar.
Seu Tião me diz para buscar azeite e óleo na volta.
Voltei. Esqueciiiiiiiiiiiiiiiiii...
Cuido do Pi, enquanto ele trabalha. Meus pés crescem como pães, junto com minha dor de cabeca.
"Isa, pára de enrolar e vai ver esse exame de diabetes logo!"
E enfim o Pi dorme, eu leio milhões de emails atrasados, venho pro quarto e digo:
"Tenho uma coisa muito romântica para te dizer"
"O que?"
"Vamos dobrar essas roupas que tirei do varal?"
"Putz, tenho outra coisa romântica: preciso por as fraldas para bater"
"Se eu dobrar tudo, vc tira tb meu chinelo que eu deixei de molho e esqueci de tirar?"
"Tiro"
"Mas tô falando sério, acho muito romântico isso: ter uma vida junto"
"Sabe que eu tava pensando nisso hoje?"
Sento para escrever. Ele volta com meus chinelos.
"Limpinhos, ó! Mas o de palha estragou, ficou tempo demais. Vou tomar um banho"
"Ah, então eu vou com você."
E o fim da noite vai ser arrumar o lencol na cama e dormir de conchinha, como o cotidiano.

Assim, sem jantar a luz de velas, sem motel caro, sem pirotecnias, sem presentes. Só companheirismo.


Capi, não importa em que sala de jantar estejamos, não importa as correntes que nos prendam: quando olho para você, eu tenho certeza de que podemos transformar em balões as salas de jantar, de que temos toda a força para quebrar qualquer corrente...=)
Te amo!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Vivências matemáticas precárias

Queridos,
Eu tô numa brisa nos últimos tempos, sem tempo de escrever aqui mas com muita vontade.
Minha brisa é sobre conhecimento popularX científico, produção de conhecimento científico por quem, onde e com quais recursos, e o papel da educação nisso tudo.
Aí vai o primeiro texto sobre isso, para a disciplina de Escola e Cultura Matemática.

Beijos!


As “Vivências precárias”
Disse o grupo que complementou nossa questão acerca da tendência etnomatemática: “se o professor se restringe exclusivamente às vivências do aluno, e esse apresenta vivências precárias, o professor acaba contribuindo para a manutenção do aluno na condição de detentor apenas de saberes populares.”
Me parece que há aqui dois problemas: um de entendimento sobre a própria crítica que faz o texto à essa perspectiva, e um de fundo ideológico, que se manifesta num discurso nas entrelinhas, que soa bastante preconceituoso.
Em primeiro lugar, o problema dessa perspectiva segundo o que o próprio texto diz, se refere a um fetiche do “mundo real” e do “dia-a-dia”, esquecendo-se da formalização da matemática em si. Em nenhum momento se referiu a alguma vivência de algum grupo em específico como sendo matematicamente “mais rica” ou “mais pobre”. Sim, existe um eurocentrismo na matemática escolar, mas não dar acesso ao conhecimento dessa matemática é excluir o educando do mundo em que estamos que ainda é o mundo capitalista e nada liberto, é excluí-lo da universidade, do concurso público, da linguagem da ciência, da medicina, da tecnologia, etc. É exclui-lo também da grande conquista da ciência, ainda em andamento, da observação sistematizada e registrada, que nos permite uma visão mais ampla e fundamentada acerca dos fenômenos que nos cercam.
Mas o próprio Paulo Freire, em seu livro “Extensão ou Comunicação?” falará sobre a importância de mover do “pensamento mágico” do mundo para um conhecimento sistematizado e científico. No primeiro capítulo, ele descreve diversas populações com conhecimentos ainda “mágicos” do mundo, e toda a sua implicação desse tipo de pensamento, desde o reforço de preconceitos até a perda de uma safra inteira de alimento. Portanto, se há este fetiche da cultura popular e da vivência for a da escola, isto vem de uma má leitura acerca do Paulo Freire, que é bastante conveniente à manutenção da opressão – e nisso concordo em gênero, número e grau com o texto. Além disso, no imaginário das pessoas, existe uma cultura escolar que ultrapassa seus muros, e muitas vezes é exigida pelos próprios educandos, até mesmo para quem está em projetos de educação fora da escola – sendo esta já uma boa brecha para pensarmos com a perspectiva da etnomatemática sobre a matemática escolar.
O problema principal da afirmação de meus colegas, porém, está longe de ser o descrito acima. Me incomoda que se fale em “vivências precárias”. O que é uma vivência não precária em matemática? É a vivência do filho do burguês, exclusivamente escolar? É a vivência da mulher proletária que tem que transformar um salário mínimo em casa, comida, roupa e transporte? É a vivência do indígena que pesca peixes para sua aldeia toda? Existe algum sentido em denominar esta ou aquela vivência como culturalmente superior, para podermos falar em vivências precárias? Nas entrelinhas, há um discurso, este bastante prejudicial ao educador, um discurso que se funda na crença da própria superioridade de seu conhecimento, e portanto de sua posição. O conhecimento matemático que o educador tem a obrigação de passar é de que natureza? A meu ver, qualquer conhecimento é uma ferramenta, uma tecnologia, criada pelo homem. Existe hierarquia entre ferramentas? E, num mundo dominado pelo branco, pelo capitalismo, a tecnologia do conhecimento matemático a ser passado na escola tem que ser focada nesta eurocêntrica, pois é esta que vai nos dar possibilidade de compreender e lutar contra a opressão hoje, através da apropriação da ciência pelo povo, não só em seus resultados, mas em sua produção. Só assim, também conseguiremos transpor uma ou outra cultura matemática, pois para uma ciência apropriada pelo povo, surgirão novas matemáticas.

Bibliografia extra:
FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? 8ªedição. Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1983.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Justiça, não, não seja cega

Achei esse texto maravilhoso, preciso passar adiante!


Não os perdoem: eles sabem o que fazem!
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Ao povo do Pinheirinho!
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Por Gerivaldo Neiva
(Juiz de Direito-BA, membro da Associação Juízes para a Democracia-AJD)

Para o governador, a culpa é da Justiça.
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Para toda imprensa, a Justiça determinou, mandou, decidiu, despejou...
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Para o Juiz que assinou a ordem, cumpriu-se a Lei e basta: Dura lex sede lex!
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Para catedráticos cheirando a mofo, o Estado de Direito triunfou!
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Para o Coronel que comandou, ordens são ordens!
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Para o soldado que marchou sobre os iguais, idem!
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Ei, Justiça, cadê você que não responde e aceita impassível tantos absurdos?
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Não percebes o que estão fazendo com teu nome santo?
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Em teu nome, atiram, ferem, tiram a casa e roubam os sonhos e nada dizes?
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Tira esta venda, vai!
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Veja o que estão fazendo em teu nome! Revolte-se!
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E o pior dos absurdos: estão dizendo teus os atos do Juiz e do Poder que ele representa!
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Vais continuar impassível?
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E mais absurdos: estão te transformando em merdas de leis.
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Acorda, vai!
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Chama o povo, chama o Direito das ruas e todos os oprimidos do mundo e brada bem alto:
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- Não blasfemem mais com meu nome! Não sou o arbítrio e nem a ganância! Não sou violenta, nem cínica e nem hipócrita! Não sou o poder, nem leis, nem sentenças e nem acórdãos de merda!
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Diz mais, vai! Brada mais alto ainda:
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- Eu sou o sonho, sou a utopia, sou o justo, sou a força que alimenta a vida, sou pão, sou emprego, sou moradia digna, sou educação de qualidade, sou saúde para todos, sou meio ambiente equilibrado, sou cultura, sou alegria, sou prazer, sou liberdade, sou a esperança de uma sociedade livre, justa e solidária e de uma nação fundada na cidadania e dignidade da pessoa humana.
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Diz mais, vai! Conforta-nos:
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- Creiam em mim. Um dia ainda estaremos juntos. Deixarei de ser o horizonte inatingível para reinar no meio de vós! Creiam em mim. Apesar da lei, do Poder Judiciário e das sentenças dos juízes, creiam em mim e não perdoem jamais os que matam e roubam os sonhos em meu nome, pois eles sabem o que fazem!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Sobre o grupo do Poliamor

Estou de saída, mas quero dizer uma coisa para vocês: puxa, durante um tempão eu me senti muito sozinha nesse rolê de querer uma coisa diferente da monogamia. Até ouvir que eu precisava de psiquiatra eu ouvi. Violência sexual? É óbvio, nenhuma mulher que já tenha dito "sim" na vida passou longe disso, e eu conheci de perto isso. Aí eu conheci o Capi Etheriel, e achei que ele era a minha única alma gêmea, o único que me entenderia. Questionei se era real, se era possível amar mais de uma pessoa, e aí tivemos uma noite e um fim de semana em que algumas lindas pessoas se apaixonaram perdidamente e em conjunto, e logo depois soubemos que um filho nasceria em 8 meses. Todos ficaram do meu lado e participaram daquela gestação, de alguma forma, indo em grupos de parto, debatendo comigo, me mandando coisas p/ ler, comidinhas gostosas, sentindo o bebê mexer, vendo ultrassons... No dia do nascimento, uma aura de amor coletivo, de uma paixão, uma loucura, estava no ar, e não só eu, mas todo mundo pariu aquela criança: eu com meu corpo, o Capi com seu ombro(e seu corpo levando socos e mordidas minhas, hehehe), e o resto das pessoas, lavando os lençóis, limpando a casa inteira, fazendo a comida, me dando banho, cheirando a cria, limpando seu primeiro cocô.... Depois, estive um tempo reclusa, na reclusão da maternidade, e achei que estava sozinha. Uma dessas pessoas se volta para isso tudo e acha que foi uma coisa de universitário, que isso nada tem de revolucionário, porque os livros, ah, os livros dizem que ser mulher livre é enjaular o homem na prisão que ele colocou para a mulher, e não sair dela. E eu me senti encolhida e distante, isolada no quarto em que aquela cria nasceu. Tive medo, quis prender meu coração e meu amor no pé da cadeira. Numa coisa triste, um feio acidente de carro, estavam todos lá, cuidando da nossa cria e de nós, surtados e cansados. Me aproximei de um certo Werner Garbers, que me clareou algumas coisas, me entreguei a fechar o coração, e dar vazão a isso, e isso mesmo o abriu de novo. Não, eu não queria monogamia, e 5 dias assumindo que quis por um tempo foram suficientes. A vida linda me aproximou da Katharine Diniz, e me fez entender muitos processos, compartilhar amores e histórias. A Christiane Silvério Frazatto, depois de um mal entendido, me contou que mudou muito sua forma de ver e de repente era mais uma, pensando em possibilidades fora do padrao 2=1. E eu conheci a Natália Schmidt, no meio da minha solidão, dizendo que eu não estava sozinha nos meus pensamentos, pelo meu blog, que sempre tinha sido, até então, uma coisa profundamente solitária. E eu reencontro a Flavia Sardinha, que me apresenta vocês....Puxa, e amanhã eu vou conhecer alguns de vocês pessoalmente. E agora eu posso dizer, numa alegria e num conforto muito grandes, numa sensaço única de pertencimento: não, eu não estou sozinha.