terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Vestida de branco

Eu não sei como nunca escrevi sobre ela, a capoeira. Quando comecei a treinar, em 2008, meio sem muita pretensão, eu descobri um prazer e uma emoção que eu não conhecia. A capoeira, que me atraiu a princípio por ter um lado de dança, ganhou outro significado para mim, que se tornou mais forte: a luta.

A capoeira é, sobretudo, uma luta de um povo por libertação: e disso, para mim, emana a energia que sinto na roda, ao som do berimbau, que me emociona pelo tesão ímpar que é lutar por liberdade. Isso que os negros que foram forçados a vir p/ cá inventaram para se livrar das correntes, para se defender, que tem essa mistura tão perfeita entre defesa e prazer, entre brincadeira e dança, algo tão autêntico, tão livre...Essa liberdade que eu sinto quando vejo, quando jogo, quando toco o berimbau, é algo que eu não sinto em nenhum outro lugar.

A liberdade de pôr as mãos no chão...Menininha super protegida, criada para ser bibelô, para estar sempre limpinha e penteada, descobrir o tesão de brincar no chão feito moleque na rua, se deixar suar, sujar, ter contato com a terra...Ah, a terra, de onde viemos e para onde vamos, por que a tememos tanto? Sentir os cheiros dos corpos, os toques, a energia, as sensações...Liberdade, liberdade, liberdade!

Penso muito nos feminismos com os quais eu tive contato: há um coitadismo, uma crença na própria fraqueza, que me desestimula. E o foco eterno na dor, no sofrimento, nas lágrimas...

Isso é uma lição que a capoeira canta, em seu jogo que mistura técnica, malícia e tempero: a força vem do sempre insistir, sempre rir, sempre observar, sempre levantar e voltar a gingar. Quem em uma roda pode cair e no chão ficar lamuriando sua dor?

E escrevendo esse texto lembrando da roda, eu sinto uma alegria imensa, uma liberdade tremenda por pensar que sim, eu também sou capoeira.

Pitanga

domingo, 4 de dezembro de 2011

Por que fazer pesquisa?

Me fiz essa pergunta pra escrever um pré-projeto de Iniciação Científica, e saiu isso aqui(que obviamente não vai pra FAPESP):

Sempre tive interesse na questão do gênero. Interesse que veio da opressão que vivo intensamente na minha vida, por nunca me encaixar no padrão imposto ao meu sexo biológico – menina passiva, sem ambições, que não “cede” aos desejos e “se dá valor”. E isso veio com bastante força quando quis ter meu primeiro filho. A imagem da maternidade como um castigo imposto a sexualidade feminina, em especial a sexualidade da adolescente – categoria na qual as pessoas gostam de me encaixar, embora eu tenha engravidado com quase 22 anos e com bastante noção do que queria – me incomodava e me incomoda muito. Fui conquistada pela maternidade por um desejo incontrolável de ver as tranformações do meu corpo e pela possibilidade ultra criativa que um filho significa, e com esse tesão encarei minha barriga crescendo, meu parto, a amamentação de meu filho e toda essa mudança que traz esse novo papel. Jamais sem dor, pois a dor nos possibilita questionar, e questionar é o que nos permite pensar sobre a(s) realidade(s) com a própria cabeça, e assim decidir efetivamente que caminho seguir. Mas a culpa sempre foi uma cruz para mim, que eu fiz e faço questão de ir cortando e jogando fora seus pedaços. Cortar esse cruz e ir tranformando-a em algo novo, diferente, requer conhecê-la a fundo, saber de que material é feita, e com qual instrumento vou manipulá-la. Então, minha motivação em pesquisar é exatamente essa: entender mais um pedaço do que forja esse padrão de feminilidade, que sempre me marginalizou e marginaliza a tantas mulheres(e homens também).