quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Amamentação - Exploração da mãe?

Na nossa cultura hoje, todas as possíveis experiências do corpo feminino são tidas como ruins. De ser penetrada a menstruar, de gestar a parir, tudo é visto como trágico, doloroso, demonstrativo de que as mulheres são “corpos quebrados”, feitos para o sofrimento e a dor. A isso, damos o nome de misoginia, que vem do grego e significa “repulsa ao feminino”.

Em uma aula da disciplina de Pedagogia Libertária, em que debatíamos direitos dos animais(debate, aliás, que eu estive distante nos últimos tempos), falei sobre o abuso que se faz com as fêmeas de alguns animais, minhas amigas vaquinhas, ao se extrair leite para a comercialização, colocando-me no lugar delas, imaginando, sabendo o que é amamentar, ter em minhas (divinas) tetas uma máquina a bombear leite, tendo prolactina a mais injetada dentro de mim para produzir mais, sendo obrigada a beber mais água, e pior, sendo confinada num espaço minúsculo.

Então o Silvio Gallo, professor da disciplina, me colocou: mas e o seu filho, não te explora quando mama?

Por acaso a exploração está no quesito amamentar? Eu acho curiosa essa imaginação de hoje sobre o que é exploração. Amamentar é uma experiência que pode ser das mais prazerosas do corpo feminino, não no sentido babaca do “amor materno” burguês, no sentido sexual mesmo. É um prazer indescritível amamentar; relaxa, dá uma larica muito maior que qualquer baseado, uma vontade meio boba de rir, e um sono gostoso de curtir....Sabe quando você encontra aquela pessoa por quem está apaixonado, e dá aquela sensação boa, uma completude, um frio na barriga? É meio isso.

Exploração se dá na acumulação de trabalho que temos nós mulheres, na idealização de família burguesa: casa p/ arrumar, roupa p/ lavar, comida p/ fazer, e, quando acaba a licença, trazer grana pra casa...Além de servir de escrava sexual dos maridos, porque a sexualidade feminina na amamentação, para a maioria das mulheres, fica muito centrada nos seios e no bebê(mesmo que o cara seja bacana, o que é raro, sempre nos ronda a ameaça do abandono, e nós mesmas nos obrigamos muitas vezes a cumprir com “nossas obrigações de esposa”). Exploração que não é intrínseca a varrer a casa ou a uma boa trepada, assim como não é intrínseca a amamentação.

Quando falava que entendia as vacas, era muito mais pela forma como se produz o leite do que por seus bezerros.

Vocês devem estar me perguntando sobre tudo o que ouviram sobre amamentação a vida inteira “dói”, “é incômodo”, “o bebê fica mimado”, “leite de mamadeira sustenta mais”...

Pois é, a ideia de maternidade/ser mulher na nossa sociedade misógina se confirma pelo horrível atendimento da saúde(privada e pública) e pelo nosso estado de distância e ignorância em relação ao próprio corpo.

Primeiro que ser mãe não é um direito, é uma obrigação – não temos conhecimento nem acesso a todos os métodos contraceptivos, não conhecemos nossos corpos para saber quando é mais provável uma gravidez, ou como temos mais prazer, não podemos abortar caso engravidemos, não podemos fazer laqueadura em qualquer hora de nossa vida, não nos ajudam a questionar o ideário das Igrejas que rondam nossas cabeças...Somos fornos de operários a ser jogados no mundo para ter mais gente a ser explorada – e por isso é tão mais difícil achar um país de terceiro mundo que tenha aborto descriminalizado/legalizado.

Então, você tem seu filho, lhe arrancam do corpo e levam para qualquer outro lugar, todo mundo te deixa sozinha por umas 6horas, depois de 9 meses tendo ele como uma parte do seu corpo, depois de tanto esforço para parir, na melhor parte do filme, tiram o protagonista. Aí, o trazem depois, vem uma enfermeira e fala: “você tem que amamentar” – sem nenhuma preparação ou orientação correta de como preparar os mamilos para isso durante toda a gravidez - , e ela começa a apertar seus peitos loucamente, dizendo “o leite não desce porque você não quer!!!”. Ele começa a mamar e dói, muito, e ninguém te fala que a natureza é sábia e que se dói muito é porque a pega tá errada, tem que arrumar pro bebê mamar bem, se saciar e esvaziar o seu peito. Todo mundo sabe, e você também, que ser mulher é isso, é sentir dor. Resultado? Rachaduras, sanguinolentas e doloridas, e a culpa é do que? Da amamentação, essa praga de deus para Eva e todas as mulheres.

Para as que passam desses primeiros momentos, tem um monte de empecilhos: chupeta e mamadeira (que atrapalham na amamentação, a criança às vezes rejeita o peito por uso desses utensílios, às vezes passa a mamar errado no peito da mãe, causando rachaduras e dores), execesso de trabalho(porque amamentar é uma delícia, mas cansa...e muito!), a solidão da licença maternidade (direito de ficar perto deveria ser do pai também, e de quantas mães e pais mais integrassem a família num modelo não burguês), e os comentários de toda uma sociedade misógina, desde sobre o leite ser fraco(mulher, você é incapaz de fazer, deixe que a indústria farmacêutica faz para você!) até que toda mulher que amamenta em público quer provocar os homens e ser estuprada (vide Rafinha Bastos e CQC – ódio mortal desses imbecis).

E aí? E aí que não me espanta que a imagem da amamentação seja essa mesmo – ruim, exploração da mãe pelo bebê, doloroso... Mas temos que cuidar, a quem serve essa visão, e o que reproduzimos com ela?


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Minha teologia

O tesão.
O desejo de ser árvore que abre a semente, e a faz brotar pela terra, mãe absoluta. O desejo da terra em ser fecundada, ou seu desejo de seguir árida.
O desejo de se miscuir, a energia do tesão que se condensa e materializa, se atomiza e se molecula, se junta na energia que faz a vida, a energia do tesão.
De tesão é feito o mundo.
O tesão que brota, brota do meu ventre, quando eu decido que quero me entregar para o prazer de dar mais do que se recebe. O tesão da minha biceta a parir, de se apaixonar perdidamente por alguém que se fez em você.
O tesão do cheiro, do atrito, do sal, da língua que nos envolve a provar o outro, seu corpo, sua alma, em orgasmos tremulantes, em delícias vibrantes.
O tesão que jorra dos meus seios, branco, doce, na boca daqueles que quiserem provar e me ver tremular, daqueles que se nutrem de meu tesão de mãe, de minha vida terra.
O tesão do sol, um de nossos pais naturais, que nos supre com mais energia de tesão. O tesão de todos os pais animais, suprindo a mãe terra de tudo o que ela precisa para se fecundar.
O tesão da natureza agindo sobre nós.
O tesão do macho que jorra, que espera, que goza dentro.
O tesão do macho que se descobre fêmea também, a fêmea que se faz macho, o tesão de ser qualquer coisa no meio disso.
O tesão de se fechar para dentro, de se concentrar no resto da existência.
O tesão da terra a transformar toda a morte em nova vida.
O tesão. Disso é feito o mundo, nisso nos fazemos, e nisso nos realizamos.
O tesão não pode ser suprimido, guiado por uma força superior, pelos outros.

O tesão vem dos poros da pele.

Uma história sobre aborto

Inspirada num debate que rolou numa lista de mulheres que participo, me lembrei de uma história minha e resolvi contar.

No meu primeiro ano de Unicamp, com recém completados meus 18 aninhos, eu ainda era espírita, e era radicalmente contra o aborto(ainda não tinha na minha cabeça muito clara a ideia de Legalização do Aborto, nem nada disso, e tinha uma ideia de que "os outros são imaturos se propõem isso, como eu sei a verdade do que aconrtece do outro lado, faço um favor de dificultar o caminho de suas escolhas", pensamento hoje que eu considero escroto e imbecil).

Primeira festinha que fui da galera de humanas. Trepei com um cara das cênicas, o terceiro com quem eu trepava na vida, o primeiro nessa situação de festa, um cara que eu nunca tinha visto e nunca mais vi depois disso. Eu ainda morria de medo de ficar grávida, achava que qualquer coisinha fora do lugar deixava o risco imenso de ficar grávida. Acho que o cara demorou p/ tirar, o pênis deu uma murchada, e a camisinha ficou pra dentro da minha vagina.
Tivemos que procurá-la lá (não foi muito difícil porque eu sempre mexi nela mmuito bem, hehehe) e tiramos. Eu ainda não sabia bem qual era a quantidade de esperma que ficava na camisinha, não sabia se escapava ou não, fiquei bem assustada com essa situação.

Não dormi a noite. O que fazer? E se eu engravidasse de um desconhecido completo no primeiro ano de faculdade? Todas as ideias misóginas de gravidez, de como tudo aquilo era horrível, o maldito livro da minha adolescência "E agora, mãe?", tudo o que eu hoje sei que nao é bem assim. E o que eu diria pra minha mãe?


Tomar pílula do dia seguinte? Mas ela não é abortiva? Até então, eu achava que pílula do dia seguinte era "microabortiva"(nem sei se esse termo existe, mas minha mãe usa às vezes), e fiquei na grande dúvida: faço o que pode ser um aborto ou não? Me debati em culpas e em medos, em desespero. No dia seguinte, fui na farmácia, assustada, assustadíssima, morrendo de vergonha e comprei. Fui até a cantina do Marcão, onde almoçava todos os dias, li a bula (como faço com qualquer remédio) e descobri que eu não faria um aborto se tomasse, que a pílula só maduraria o óvulo a ponto de ele não poder ser fecundado mais. Relaxei, tomei, e quando veio a minha menstruação eu, pela primeira vez, fiz uma festa.

Carreguei esse sentimento de "eu teria feito um aborto" até encontrar-me com a política, no ano seguinte, e começar a entender o mundo de uma outra forma.

Aí está, vale a pena tolhirmos nossa liberdade de mudar de ideia? Vale a pena colocarmos que o Estado pode tomar a frente de uma decisão como esta, e proibir o aborto? E o DIU,que muitas de nós usamos(eu inclusive), que, caso escape uma fecundação, pode matar o óvulo fecundado - isso não é "abortivo"?

terça-feira, 16 de agosto de 2011

De volta

Muito feliz estou eu escrevendo, hoje, 1 ano e 3 meses depois de escrever Carta a Polis http://divinastetas.blogspot.com/2010/05/carta-polis.html , dizendo que, neste período inmportante de transformação, a mãe que eu gestava nasceu. Nasceu e mergulhou fundo no mais fundo de dentro de mim, me mostrou cada cantinho em que se escondia o venenoso pó do reacionarismo, ainda esfrega bastante para tirar alguns pedaços(principalmente os mais açucarados), mas que hoje volta, mais leve, mais forte, e mais feliz do que antes.

Volto para dizer, feliz da vida, que a velha Isa de antes morreu. Morreu e queimou, ardeu, e das cinzas, se fez algo novo de mim.

Algo empoderado, mais seguro e mais potente, alguém que não mais se curva a certas opressões, que não mais se coloca como penico de machistas, que não mais quer se esconder, e nem se afirmar, mas sim que tenta mostrar a verdade mais pura de si, alguém que sabe voltar atrás e reconhecer os erros, algo que é mais sujeito de si mesma, alguém que, por tudo isso, se ama mais e pode se entregar a novos e deliciosos amores...

Volto cheia de tesão e de vontades, um pouco afobada, mas com mais paz de espírito, e nessa energia, volto enfim à militância.

Saudades, senti de todos os meus queridos. Das pedalocas aos machadianos, dos não manobráveis aos meus velhos e sábios alunos.

E agora, ao lado de novos e de velhos parceiros de militância, eu digo muito empolgada, me sentindo novamente construtora desse mundo para além do feminismo nosso de cada dia: como é bom estar de volta!!