terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Vestida de branco

Eu não sei como nunca escrevi sobre ela, a capoeira. Quando comecei a treinar, em 2008, meio sem muita pretensão, eu descobri um prazer e uma emoção que eu não conhecia. A capoeira, que me atraiu a princípio por ter um lado de dança, ganhou outro significado para mim, que se tornou mais forte: a luta.

A capoeira é, sobretudo, uma luta de um povo por libertação: e disso, para mim, emana a energia que sinto na roda, ao som do berimbau, que me emociona pelo tesão ímpar que é lutar por liberdade. Isso que os negros que foram forçados a vir p/ cá inventaram para se livrar das correntes, para se defender, que tem essa mistura tão perfeita entre defesa e prazer, entre brincadeira e dança, algo tão autêntico, tão livre...Essa liberdade que eu sinto quando vejo, quando jogo, quando toco o berimbau, é algo que eu não sinto em nenhum outro lugar.

A liberdade de pôr as mãos no chão...Menininha super protegida, criada para ser bibelô, para estar sempre limpinha e penteada, descobrir o tesão de brincar no chão feito moleque na rua, se deixar suar, sujar, ter contato com a terra...Ah, a terra, de onde viemos e para onde vamos, por que a tememos tanto? Sentir os cheiros dos corpos, os toques, a energia, as sensações...Liberdade, liberdade, liberdade!

Penso muito nos feminismos com os quais eu tive contato: há um coitadismo, uma crença na própria fraqueza, que me desestimula. E o foco eterno na dor, no sofrimento, nas lágrimas...

Isso é uma lição que a capoeira canta, em seu jogo que mistura técnica, malícia e tempero: a força vem do sempre insistir, sempre rir, sempre observar, sempre levantar e voltar a gingar. Quem em uma roda pode cair e no chão ficar lamuriando sua dor?

E escrevendo esse texto lembrando da roda, eu sinto uma alegria imensa, uma liberdade tremenda por pensar que sim, eu também sou capoeira.

Pitanga

domingo, 4 de dezembro de 2011

Por que fazer pesquisa?

Me fiz essa pergunta pra escrever um pré-projeto de Iniciação Científica, e saiu isso aqui(que obviamente não vai pra FAPESP):

Sempre tive interesse na questão do gênero. Interesse que veio da opressão que vivo intensamente na minha vida, por nunca me encaixar no padrão imposto ao meu sexo biológico – menina passiva, sem ambições, que não “cede” aos desejos e “se dá valor”. E isso veio com bastante força quando quis ter meu primeiro filho. A imagem da maternidade como um castigo imposto a sexualidade feminina, em especial a sexualidade da adolescente – categoria na qual as pessoas gostam de me encaixar, embora eu tenha engravidado com quase 22 anos e com bastante noção do que queria – me incomodava e me incomoda muito. Fui conquistada pela maternidade por um desejo incontrolável de ver as tranformações do meu corpo e pela possibilidade ultra criativa que um filho significa, e com esse tesão encarei minha barriga crescendo, meu parto, a amamentação de meu filho e toda essa mudança que traz esse novo papel. Jamais sem dor, pois a dor nos possibilita questionar, e questionar é o que nos permite pensar sobre a(s) realidade(s) com a própria cabeça, e assim decidir efetivamente que caminho seguir. Mas a culpa sempre foi uma cruz para mim, que eu fiz e faço questão de ir cortando e jogando fora seus pedaços. Cortar esse cruz e ir tranformando-a em algo novo, diferente, requer conhecê-la a fundo, saber de que material é feita, e com qual instrumento vou manipulá-la. Então, minha motivação em pesquisar é exatamente essa: entender mais um pedaço do que forja esse padrão de feminilidade, que sempre me marginalizou e marginaliza a tantas mulheres(e homens também).

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Pobrefobia?

Semana passada aconteceu uma coisa que me incomodou muito e me incomoda sempre que acontece.
Fui ao Fórum da Pedagogia, como sempre com meu grande amigo computador, e quando fui embora esqueci o carregador dele na tomada. Só me dei conta em casa...
No dia seguinte, fui direto na portaria perguntar se alguma coisa tinha sido deixada lá. Nada. Perguntei no Salão Nobre (onde estava sendo o Fórum), e nada...Pergntei para uma das moças da limpeza, que me disse que ia perguntar depois para os responsáveis pela limpeza do Salão Nobre. De repente encontrei com duas professoras que tinham estado no dia anterior, se sabiam de algo. Aí uma delas, muito solícita, me levou até a diretoria para perguntar se alguém tinha deixado algo lá e nada...Aí ela disse: “ah, pergunte para o funcinário fulano, mas caso não esteja lá, temos que saber disso, porque pode ser um colega, mas e se for uma das faxineiras? Aí precisamos saber para averiguar!”
No fim eu perguntei para outra funcionária da limpeza, que foi quem encontrou para mim(irônico, não?).
Mas eu sempre fico encucada com essa desconfiança. Puxa, outro netbook desses do mesmo estilo do meu vale uns mil reais aqui no Brasil. A maioria das pessoas que faria uso de um PC assim é de classe média/alta. Por que a desconfiança sempre recai em cima de quem supostamente tem menos?
Para mim isso é uma discriminação como o machismo, a homofobia, o racismo.
E nem tem nome. “Pobrefobia”? Tipo isso. Por que sempre os mais suspeitos de desonestidade são os mais pobres? E isso não veio de uma professora das mais escrotas não, veio de uma que tem em sua bibliografia caras como Paulo Freire, Marcos Bagno...
O quanto isso é arraigado na gente a gente nem imagina.
Existem várias formas de se manifestar a pobrefobia. Tem uma particularmente corrente entre os jovens de classe média de minha idade, que consiste no ódio ao serviço doméstico. Eu estou impregnada disso. Qualquer coisa relacionada a limpeza é visto como algo inferior, chato, intrinsecamente ruim. Mesmo nos meios mais progressistas, é sempre visto como “um mal necessário que temos que dividir”. É um tipo diferente de pobrefobia. É pobrefobia porque quem desenvolve esse trabalho na nossa sociedade é principalmente o pobre. Além de taxar o trabalho como algo inferior e pouco complexo(e quem acha que é pouco complexo, vá conversar com quem tem um curso ou muita prática de faxina para você ver), ainda vem a visão do coitadismo. “tadinho do pobre”.
Me lembro de um dia quando era mais adolescente (que vergonha), que estávamos tomando um suco num bar que tinha mesas na rua. Cairam uns guardanapos no chão que foram voando, e fui buscar, quando uma amiga minha disse “não faça isso, você está tirando empregos de gari”(ai, que raiva de gente que diz isso....eu paro de andar com alguém se escuto isso, de verdade) e eu disse “um emprego que não deveria existir, você acha que alguém gosta de trabalhar limpando coisas? ” - como se não fosse digno e como se fosse uma tortura limpar!!
Esse tipo de visão me lembra a misoginia (ódio ao feminino), que coloca como intrinsecamente ruim qualquer coisa que venha do corpo feminino: parir, menstruar, amamentar, ser penetrada. Me lembra a visão da “raça” negra (como se isso existisse) como menos inteligente, menos capaz, e em alguns casos até mais frágil de saúde... “Tadinha da mulher”, “tadinho do negro”, “tadinho do pobre”, como sofrem!! “Tadinho do gay, que tem que enfrentar preconceito, que martírio ser gay, que infortúnio do destino!”...O título de coitada, seja cunhado pelos homens mais machistas ou pelas mulheres mais feministas, pelos mais fervorosos religiosos ou o mais fervoroso militante do arco íris, eu dispenso. E dispenso ver qualquer pessoa sob o olhar da pena. Por isso pergunto: por que o trabalho do pobre é intrinsecamente menos agradável que um outro qualquer? Não podem existir pessoas que simplesmente gostem desse trabalho? Não será a valorização que se dá para ele, a forma que o encaramos, que reproduz essa lógica e molda os gostos? Porque de coitado a culpado, é um pulinho: do pobre coitado ao pobre ladrão, da santa a puta, do negro desnutrido ao negro estuprador, do gay sozinho ao gay pedófilo...E assim por diante...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Preconceito de si mesmo: reflexões sobre tolerância, currículo e identidade

Gostei tanto do meu texto p/ disciplina da Mantoan que vou até repostá-lo aqui.
O texto que suscitou a discussão na sala se chama "O Nome dos Outros", de Skliar.
Quem quiser, me mande um email e ou deixe comentário que eu envio por email o texto.
Até!


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O texto me fez refletir muito sobre a questão da tolerância, em especial. O discurso da tolerância sempre me foi estranho. Tolero o outro se não o vejo, se ele pode ficar numa lata, receber um rótulo e ficar bem longe de mim. Me parece que esse é o discurso possível dentro da lógica mercadológica de hoje: se o outro for um mercado consumidor, o aceitamos em seu gueto desde que ele não incomode. É nesse contexto que a comunidade GLBT é aceita hoje: toleramos se vocês não se beijarem na nossa frente, em especial, na frente de nossas crianças.

E ao vermos como se organiza a educação e como ela trata a questão, é que sabemos se realmente existe uma concepção de diferença enquanto característica humana, de modo que analisar a educação pode ser bem interessante para desnudar as intencionalidades políticas desse discurso da tolerância e do respeito à múltiplas culturas que permeia os projetos de educação por aí afora.

A questão do currículo, colocada no texto como "Os outros, no entanto, não estão na escola, mas no currículo." é fundamental. Até quando vamos enlatar culturas e colocá-las em livros didáticos pré-impressos? De que vale a citação de Paulo Freire nos documentos oficiais curriculares se nunca realmente olhamos para nossos alunos e para nós mesmos como sujeitos de cultura, produtores de concepções e visões só nossas que flutuam nos corpos e se conflituam nos ambientes? De que vale falar "do outro" quando esse "outro" não é ninguém menos que nós mesmos? Esse falar do "outro"esvazia tanto o discurso do currículo quanto deslegitima a nós mesmos de pensar acerca de nós mesmos, e assim se moldam sentimentos, desejos, sentidos e preconceitos que tendem a depreciar cada individualidade.
Nisso, perdemos o eixo de tudo aquilo que podemos ser.

Esses dias estive conversando com um rapaz que recentemente se descobriu gay. E ele me disse que negou durante muito tempo o próprio desejo e discriminou outros gays porque pensava que gays sempre queriam só sexo e eram sempre extravagantes, bem a imagem da "bicha louca" da novela(que aliás, parece que tem melhorado nesse sentido), e, quando conheceu pessoas que viraram suas amigas, foi para o meio e viu que tinham pessoas de todos os jeitos, gostos, preferências, ideias possíveis, de repente percebeu o quanto isso era puro preconceito dele incutido pela nossa sociedade: preconceito que se virou contra ele mesmo.

E aí eu fico pensando de novo na questão da identidade...De que me vale uma identidade que me aprisiona na lata em uma imagem estática e em uma expectativa social de que, quando abrirem a latinha em que estou, serei aquele produto do rótulo?

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

psicanálise

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A babaquice das campanhas de amamentação

Você chega a um hospital, tem uma foto de fotógrafo lindíssima de uma mulher magra, de cabelo tratado e branca, com um bebê gorducho mamando num peito firme, escrito embaixo em letras garrafais "Amamentar é um ato de amor", e em letras menores todas as recomendações da OMS e blá blá blá.

Eu queria saber porque o Estado, em particular o Ministério da Saúde, gasta tanto dinheiro com propaganda. Só para começar o papo. Eles chamam campanha de conscientização colocar um poster com uma realidade surreal - porque quem é mãe sabe que você não tem um filho pequeno hoje e amanhã vai no cabelereiro ficar linda, nem terá o peito firme se amamenta, nem estará magrelíssima logo, e nem sempre será branca e terá um bebê branco, e muito menos estará sempre felicíssima ao amamentar e sem olheiras na cara - com um julgamento de valor RIDÍCULO sobre maternidade, do tipo, "quem ama, amamenta. Se você não amamenta, não ama". Onde vocês viram isso? No Santo Agostinho? No babaca da Freud? Na Melaine Klein?

Isso para nem passar pela pressão psicológica que passam diversas mulheres nos hospitais em que seus filhos nascem, com enfermeiras apertando os peitos doloridamente e dizendo "seu leite não desce porque você não quer". Nem vou tocar no ponto da (des)humanização da saúde, que esse vai longe.

Estava eu pensando com a minha velha irritação com as campanhas de "incentivo" ao aleitamento materno, quando me cai na mão uma notícia. http://noticias.r7.com/brasil/noticias/camara-empurra-votacao-de-projeto-que-amplia-a-licenca-maternidade-para-seis-meses-20111030.html

De que adianta essas propagandas de aleitamento materno moralistas e machistas, se não temos estrutura mínima na sociedade para garantir que as mulheres efetivamente possam amamentar suas crianças? Como seguir a recomendação da OMS de amamentar até os 6 meses exclusivamente em livre demanda se nem mesmo a mãe tem direito a licença de 6 meses? Se o Estado levasse a sério a questão de saúde pública que é a amamentação, levaria a sério os direitos trabalhistas das mães e dos pais - sim, porque deixar a mulher sozinha 6 meses em casa com serviço de casa e bebê para cuidar, vendo sua vida profissional "congelada", enquanto o pai tem que acordar cedo e trabalhar 8,9h por dia para pôr grana em casa, sem poder curtir o filho e dividir efetivamente as cansativas tarefas domésticas, não é suficiente para aumentar de fato os índices de aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade.

As campanhas publicitárias só tem um efeito real: jogar pras costas da mulher uma responsabilidade que é da sociedade em geral, e na nossa conformação social, do Estado em particular, o cuidado das novas pessoas. Colocar a culpa na mãe é fácil. Estaremos numa sociedade de "desnaturados", de mães malvadas que não amam seus filhos? Ou estamos numa sociedade que pensa mais no que se tem do que na saúde coletiva?

O Estado será realmente o grande instrumento de organizar o coletivo, ou os interesses dos grandes empresários sempre falarão mais alto?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Entre flores e leões.

"Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas para quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar"

Estava eu me lembrando esses dias de um dos meus primeiros namoradinhos, lembrando do dia que ele me levou no autorama. Eu, que sempre gostei de carros, sempre quis dirigir, sempre quis brincar de carrinho, adorei o programa de brincar de uma coisa que ninguém nunca me deixou...(aliás, qualquer semelhança com meu enorme prazer em dirigir e em correr no volante, não é mera coincidência). Não é a toa que eu era perdidamente apaixonada e tonta por ele.

Uma outra vez, muito tempo depois, um cara com quem eu tinha dançado um forró e passado meu telefone me convidou para jantar. Eu fui do meu jeito (a única sandália que tenho e uso todos os dias, saia hippie, blusinha simples, um brinco inseparável qualquer de pena, sem maquiagem, e com muita fome), com uma graninha no bolso, e ele insistiu em irmos num restaurante francês(sim, daqueles cheios de garfos), não me deixou pagar, ficou cheio de galanteios e vinhozinhos...
Não é a toa que não passou do beijo no rosto.

Qual é o problema com isso? O problema é o que está por trás; por trás do vinho caro e do galanteio "gentil",está uma ideia de mulher como alguém que tem que ser comprada, que tem que ser domada, conquistada. Como um domador que dá um torrão de açúcar para o leão e depois o explora, o manipula e maltrata. Como quem compra um bibelô bonito e caro, que terá que "retribuir a gentileza", e "dar" - e aí eu reitero, odeio os termos "comer" e "dar" para sexo, porque comer tem sempre uma conotação de poder e dar tem sempre uma conotação de ceder, como se quem dá fosse uma trouxa que se deixou levar por um poder - algo em troca.

É raro que um homem, em termos gerais, trate uma mulher como uma pessoa quando tem qualquer interesse sexual, seja apaixonado ou "animalesco" com ela. Não caiamos, aqui, na baboseira conservadora de que "mulher então gosta de desprezo", porque não é essa a questão. A questão é que essa visão é tão desumanizante quanto a violência, porque objetifica o ser humano. Objetifica porque trata a mulher como um produto: se na balada somos tratadas como um buraco em que os paus querem meter (e nisso, os homens também se objetificam, porque reprimem tudo o que lhes é humano, todas as emoções, as dores e os prazeres para além da ejaculação, para serem uma máquina ereta - e aí, brochar obviamente é o fim do mundo), no restaurante somos tratadas como um bibelô caro.

E ai vem a balela de que ficar com várias pessoas objetifica e banaliza as mulheres, que sexo com muitas pessoas tem uma inerente desvalorização do ser humano: nesses moldes, nem ficar com mil pessoas e nem ficar com uma a vida toda é humanizar-se, libertar-se. Porque podemos ser tratadas como objetos nos dois casos. E quando estivermos em um relacionamento com o carinha do restaurante e quisermos conversar sobre uma frustração qualquer, ou sobre qualquer coisa mais profunda, seremos sempre tomadas como histéricas, nossos temas serão sempre "coisas de mulher que gosta de DR", e essas bobagens machistas e coisificantes, em que sentimentos não tem vez nem espaço - e não me espanta então que se lotem os consultórios dos psicanalistas.

Por isso eu não acredito na monogamia como solução pro machismo que nos toma os relacionamentos, porque o problema para mim está mais embaixo do que restringir as inúmeras possibilidades de vivência da sexualidade.

O lance é nos tratarmos como pessoas. Pessoas podem gostar de qualquer coisa (inclusive serem boas apreciadoras de comida francesa), falar sobre qualquer assunto que quiserem, ir em autoramas. Pessoas têm história, relacionamentos e sentimentos diversos. Pessoas sentem tesão e falta de tesão, prazer e dor. Pessoas podem dividir ou não a conta, independente de terem uma buceta ou um pau, por terem mesma condição ou não de pagar naquele momento. Nessa perspectiva, independente de estar com uma pessoa 1 dia ou uma vida, para sexo ou para um relacionamento, eu posso ficar livre do machismo.

Melhor do que tratar a monogamia como a grande solução do machismo nas relações, é enxergar que o machismo pode estar inclusive nesta forma de se relacionar. Melhor do que tratar qualquer cara que queira ficar com várias pessoas na mesma época como um machista necessariamente, é pensar se o problema está na existência de um desejo múltiplo ou na forma como esse cara se comporta com essas pessoas.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Naturalização do Sentimento

Uma vez, o Pi tinha uns 2 meses, estávamos num evento com outras mães e bebês, quando uma menininha de 1 ano e algo veio ver o Pi e fazer carinho nele. Aí uma pessoa que estava disse: "Ai, que linda, é o instinto materno".
O Pi faz isso hoje que tem um ano e 3 meses, quando vê bebês menores...Instinto materno? Nossa, meu filho deve então ser trans! Ai meu deus, que conflito freudiano ele não resolverá???

Aí está uma situação um pouco patética e caricata, mas que mostra uma realidade que permeia milhões de debates: a naturalização dos sentimentos.

Tratamos aquilo que sentimos, o tempo todo, como se fossem coisas "naturais", viessem de nós e se produzissem em nós em qualquer situação, contexto histórico, posição social, como se elas fizessem parte de uma dada "essência humana" e fossem compartilhadas em qualquer cultura, região e credo.

A psicanálise acho que é o exemplo mais fácil de perceber isso, já que coloca como "consequência biológica" que homens e mulheres se sintam deste ou daquele jeito, e qualquer coisa fora disso é doença, maluquice, psicose. Mas a psicanálise não é a única: muitas feministas caíram no mesmo engodo. A Badinter, em "O mito do amor materno", em que ela tão lindamente desconstrói a balela burguesa de amor materno, acaba por naturalizar a maternidade como um sofrimento, prisão feminina, vazio; não lhe passa pela cabeça que uma mulher pode ser mãe e ser feliz. Quantos comunistas não colocam na instauração inquestionável da monogamia a liberdade feminina, como se os homens naturalmente sempre fossem tirar proveito da poligamia e as mulheres sempre ficassem a ver navios, como se os homens fossem naturalmente sempre possessivos e fossem atrapalhar qualquer possibilidade nossa de amor livre?

É preciso perceber que os nossos sentimentos também são aprendidos, e aprendidos de uma determinada cultura, que construiu um imaginário e uma representação social do que é vivenciar uma dada situação, e isso se circunscreve em um determinado momento histórico. Não vou negar que existam "proto-sentimentos", que podem ter uma origem biológica. Mas a forma de reagir a isso é socialmente construída.

Quando eu fiquei grávida, senti sim um impulso de proteger minha cria (que é o que eu chamo de instinto materno, e que só se manifesta depois de uma gravidez; também acho que exista um "instinto paterno" em quem está em volta e aceita a gravidez...outro papo!). Mas meu impulso por proteger minha cria me leva a um sentimento de me empenhar mais politicamente para mudar esse mundo que é perigoso ao meu bebê. A outras pessoas, pode significar qual(is)quer outra(s) coisa(s), pode até não significar nada. No imaginário que circunda por aí, em geral é de que a mãe se retira das atividades políticas para proteger seu bebê, porque essas atividades seriam perigosas...

Tem um livro que eu quero ler que se chama "O Anti-Édipo", que localiza as teorias psicanalíticas de como se processam esses sentimentos como algo deste tempo.

A justificativa de que nada fora da monogamia é possível de ser construído porque "quem pratica sente ciúmes", por exemplo, põe no ciúme um peso de regra, de fato, de coisa inerente à natureza humana, e não consegue ver que nós somos criados o tempo todo para sentir ciúme, que isso é um mal de nossa era (independente de se pretender uma relação monogâmica ou não, pois o problema está na instituição da monogamia como regra social - eu não tenho nada contra os autênticos monogâmicos, embora conheça pouquíssimos e a maior parte das pessoas que debate isso do lado deles, seja comigo ou usando minhas confidências - e isso dói cara, dói mais que rasteira de capoeira, pela hipocrisia e pela traição - não pratica efetivamente isso), e que é sim um sentimento a ser vencido, como tantas outras coisas nesse caminho de pedras que trilhamos para transformar algo no mundo.

Portanto, só quando nós desnaturalizarmos nossos sentimentos e nossas emoções, quando entendermos a historicidade/culturalidade/localidade disso é que efetivamente começamos a dar um passo para a revolução real, porque começamos a refletir sobre o que realmente nos governa, que é o que temos no coração.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Sobre portas e janelas: por onde sairemos do capitalismo?

Esses dias um amigo me disse: "se você souber onde está a porta para sair do capitalismo, me diga que eu vou".

Porta? Nenhum sistema social terá portas para sairmos dele.

Está mais para encontrarmos as poucas, estreitas, com grades e altas janelas para pularmos, pelas quais entra o pouco de ar (pouco, mas bem mais que em sistemas anteriores) para respirarmos, nos fortalecer para empilhar algumas pedras pesadas, criar uns serrotes para serrar as grades, uns machados para quebrar as paredes e aumentar o buraco da janela, ir quebrando com todas essas coisas e chutando aqueles que tentarão nos puxar de volta, para sairmos dessa merda de capitalismo.

É um processo longo, difícil, que requer antes de tudo vontade, mas que tem um produto tão tão tão delicioso, que, sinceramente, eu acho que vale a pena (embora eu ainda esteja serrando umas grades, nem tentaram me puxar de volta com muita força...).

Claro, tem gente que não quer...
Ok.
Você quer?

Sobre desnutrição Infantil, Capitalismo e Socialismo

É por isso que, mesmo me aproximando cada vez mais do anarquismo, eu não nego o imenso progresso que é um país sair do capitalismo para o socialismo.

De: http://www.gamba.cl/?p=8929

UNICEF confirma que Cuba es el único país sin desnutrición infantil. Para el 2015 eliminarán la pobreza.

En el último informe del Fondo de las Naciones Unidas para la Infancia (UNICEF) titulado de “Progreso para la Infancia un Balance sobre la Nutrición”, determinó que actualmente en el mundo existen 146 millones de niños menores de cinco años con problemas de graves de desnutrición infantil. De acuerdo con el documento, 28% de estos niños son de África, 17% de Medio Oriente, 15% de Asia, 7% de Latinoamérica y el Caribe, 5% de Europa Central, y 27% de otros países en desarrollo.

Cuba sin embargo no tiene esos problemas, siendo el único país de América Latina y el Caribe que ha eliminado la desnutrición infantil, todo esto gracias a los esfuerzos del Gobierno por mejorar la alimentación, especialmente la de aquellos grupos más vulnerables. Además, la Organización de las Naciones Unidas para la Alimentación y la Agricultura (FAO) también ha reconocido a Cuba como la nación con más avances en América Latina en la lucha contra la desnutrición.

Esto se debe a que el Estado Cubano garantiza una canasta básica alimenticia y promueve los beneficios de la lactancia materna, manteniendo hasta el cuarto mes de vida la lactancia exclusiva y complementándola con otros alimentos hasta los seis meses de edad. Además, se les hace entrega diaria de un litro de leche fluida a todos los niños de cero a siete años de edad. Junto con otros alimentos como compotas, jugos y viandas los cuales se distribuyen de manera equitativa.

No por nada la propia Organizacion de las Naciones Unidas, (ONU) sitúa al país a la vanguardia del cumplimiento de materia de desarrollo humano. Y por si fuera poco para el año 2015, Cuba tiene entre sus objetivos eliminar la pobreza y garantizar la sustentabilidad ambiental.

domingo, 18 de setembro de 2011

Sobre o último post.

Eu fiquei feliz com a repercussão que deu, por ser um texto meu, e eu ter um ego enorme ao mesmo tempo em que sou bem insegura(coisas que talves sejam complementares, e não antagônicas...enfim)...Nunca nenhum texto meu foi tão comentado (por email, no blog, ao vivo), nem tão repassado...

Mas me dá uma tristeza que seja sobre um tema tão horrível. Por que ainda estamos nessa lógica de sofredores? Por que sempre nos fixamos na dor, no feio, no triste?

Acho uma ironia que isso tenha acontecido num blog que leva o nome de uma música que começa com "Respeito muito minhas lágrimas/ Mas ainda mais minha risada", com uma blogueira tão preocupada com os prazeres, com o tesão, com a liberdade, e que escreve muito sobre isso tudo, e que orienta as discussões de gênero para além do feminismo anti-homem e anti-sexo...

Então eu penso na Elizabeth Badinter (autora do livro "O Mito do Amor Materno", que embora tenha uma parte divertidíssima batendo no babaca do Freud, um dos meus passatempos prediletos, se fia em dizer o quão horrível é ser mãe, amamentar, como se as condições em que passamos por isso fossem naturalmente assim, e não socialmente construídas, como se ser mãe nunca pudesse partir do tesão e do prazer da mulher), na Ana Goulart (professora da Faculdade de Educação que se diz feminista, mas acha que dar vaga em universidade pública para mães é gasto de dinheiro público, embora ela nunca nem pergunte se há pais entre os homens da sala), feministas misóginas, e em tantos outros feminismos que teimam em colocar a condição do feminino, as experiências corpóreas que podemos ter enquanto corpos que nascem do sexo feminino, como algo horrível, como se a natureza fosse machista e nos desse o fardo de ser penetrada, de parir, de gestar, de amamentar, de ter seios, de menstruar, como se os homens fossem grandes ganhadores na loteria e malvados por biologia...Será que só esses feminismos têm lugar? Por que só esses feminismos repercutem e ganham espaço?

Até quando vamos nos apegar a lógica cristã, da coitadice, do sofrimento, como merecimento e redenção? Até quando vamos impregnar os nossos movimentos sociais com essa lógica que só nos trai, trai enquanto negação de si mesmos, enquanto negação das dificuldades do outro, negando as diferenças do gênero humano?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Estupro invisível

Vendo o filme "O último tango de Paris" e pensando nele e em todas essas histórias de estupros dos últimos tempos, resolvi escrever algo que faz tempo que venho pensando.

Nesse filme(bem menos pesado do que eu imaginei, mas enfim), tem uma cena(a pior de todas do filme) em que o personagem do Marlon Brandon prende a mulher e a força a fazer sexo anal, mesmo sob seus lamentos e choro dizendo que não queria.
Então eu e o Capi começamos a discutir: isso teria sido um estupro?

Para mim sim, para ele não.

Por que para mim teria sido?
Porque ela dizia que não queria, e ele ignorava veementemente seu não, e continuava. A questão não era só o quanto ela "reagia"(como se dizer não fosse reação). Ela dizia não e ponto.

Mas para mim há um outro questionamento: por que o "não" dela(e de todas nós, porque isso é bem comum) tinha tão pouco valor?
Em nossa sociedade machista, aprendemos, nós mulheres, desde muito pequenininhas, que não podemos demonstrar desejo. Mulher decente diz não. E os homens aprendem que nós mulheres sempre resistimos ao sexo, e que eles devem insistir o tempo todo(até porque as que dizem "não" seriam as "que se dão valor"). Também aprendemos que nós mulheres somos cheias de melindres, e que muitas vezes temos uma "mente perversa" que quer dobrar os homens, então eles precisam nos dominar - pelo corpo, pelo dinheiro, pela humilhação.

Sob esse ponto de vista, é natural que as mulheres digam não para tudo(para o que querem e o que não querem) e muitas vezes sejam veementemente ignoradas.
Então esse estupro passa a ser invisível, embora praticado o tempo todo, na rua, no bar e nos lares de todo o Brasil.

E por que as mulheres dizem não e ainda continuam?
Dizem não às vezes por hábito; dizem não às vezes porque, mesmo querendo, sabem que a barra psicológica depois pode ser muito pesada, e não tem vontade/energia/disposição para passar por ela; dizem não às vezes por simplesmente não querer, pois assim como às vezes queremos um sorvete e às vezes não, às vezes queremos sexo e às vezes não. E continuam às vezes por medo, porque, afinal, se somos criadas para esperar quem nos proteja e esse protetor se torna algoz, não temos a quem recorrer - porque não passa pela nossa cabeça que podemos recorrer a nós mesmas e tomar posse de nosso corpo, inclusive para nos defender; continuam às vezes porque não sabem por onde expressar seu não, já que nos dizem tão boas com as palavras e elas de repente não surtem mais efeito; às vezes porque o sentimento que nutrimos por aquele homem é grande, e temos consciência de seu erro; e às vezes porque somos criadas para achar que amar é sofrer e que os homens são assim mesmo(ahá - aí caem as feministas que adoram naturalizar os homens como seres dotados de grande mal, que tratam o estupro como algo inerente e inevitável nas relações entre mulheres e homens).

Os homens continuam por quê?
Porque se sentem muito poderosos nisso; porque realmente acham que a mulher queria(e há diversas justificativas para isso, das mais reacionárias, que colocam o "não" entre os nossos melindres da mente perversa feminina, até as mais "libertárias", que colocam o "não" como uma coisa inerente à nossa repressão sexual, como se não devesse ser nossa a escolha de brigar com a repressão ou não); porque acham que as coisas são assim mesmo e mulher boa é aquela que sente dor e diz não; porque simplesmente têm que mostrar que são machos e que nunca negariam sexo - embora às vezes também não queiram.

Então, a questão está além de punição aos estupradores(vejam, eu não sou contra punição, sou super a favor, cadeia neles!), porque esses estupradores dos quais falo quase nunca se reconhecem como estupradores, e essas pessoas que passam por isso quase nunca reconhecem que foram estupradas (até porque isso é colocado num tabu e numa marginalização tão grande que é difícil admitir que passamos por uma situação assim). Esse tipo de denúncia, se chegasse numa delegacia da mulher, nem seria investigada e a pessoa que passou por isso seria bastante estimulada a "deixar para lá". E é por isso também que eu não acredito em pena de morte ou surra em estuprador, porque se fôssemos realmente bater em todos os homens que já praticaram algum tipo de violência sexual, sobraria quase nenhum sem olho roxo(eu mesma conheço quantos, uns 2? Será tudo isso?).

A questão está na manifestação do desejo. Enquanto não formos livres para manifestar nosso desejo, também não seremos livres para manifestar nosso não desejo. Enquanto o "não" for um grande valor, enquanto a gente ainda acreditar que existem situações que dizem mais que a nossa manifestação e a nossa linguagem(por exemplo: uma mulher vai na casa de um amigo ver um filme, dá uns beijos nele, e na hora que ele quer mais e ela não quer, ele vai supor que seu "não" não tem valor), nós não venceremos a questão do estupro.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Amamentação - Exploração da mãe?

Na nossa cultura hoje, todas as possíveis experiências do corpo feminino são tidas como ruins. De ser penetrada a menstruar, de gestar a parir, tudo é visto como trágico, doloroso, demonstrativo de que as mulheres são “corpos quebrados”, feitos para o sofrimento e a dor. A isso, damos o nome de misoginia, que vem do grego e significa “repulsa ao feminino”.

Em uma aula da disciplina de Pedagogia Libertária, em que debatíamos direitos dos animais(debate, aliás, que eu estive distante nos últimos tempos), falei sobre o abuso que se faz com as fêmeas de alguns animais, minhas amigas vaquinhas, ao se extrair leite para a comercialização, colocando-me no lugar delas, imaginando, sabendo o que é amamentar, ter em minhas (divinas) tetas uma máquina a bombear leite, tendo prolactina a mais injetada dentro de mim para produzir mais, sendo obrigada a beber mais água, e pior, sendo confinada num espaço minúsculo.

Então o Silvio Gallo, professor da disciplina, me colocou: mas e o seu filho, não te explora quando mama?

Por acaso a exploração está no quesito amamentar? Eu acho curiosa essa imaginação de hoje sobre o que é exploração. Amamentar é uma experiência que pode ser das mais prazerosas do corpo feminino, não no sentido babaca do “amor materno” burguês, no sentido sexual mesmo. É um prazer indescritível amamentar; relaxa, dá uma larica muito maior que qualquer baseado, uma vontade meio boba de rir, e um sono gostoso de curtir....Sabe quando você encontra aquela pessoa por quem está apaixonado, e dá aquela sensação boa, uma completude, um frio na barriga? É meio isso.

Exploração se dá na acumulação de trabalho que temos nós mulheres, na idealização de família burguesa: casa p/ arrumar, roupa p/ lavar, comida p/ fazer, e, quando acaba a licença, trazer grana pra casa...Além de servir de escrava sexual dos maridos, porque a sexualidade feminina na amamentação, para a maioria das mulheres, fica muito centrada nos seios e no bebê(mesmo que o cara seja bacana, o que é raro, sempre nos ronda a ameaça do abandono, e nós mesmas nos obrigamos muitas vezes a cumprir com “nossas obrigações de esposa”). Exploração que não é intrínseca a varrer a casa ou a uma boa trepada, assim como não é intrínseca a amamentação.

Quando falava que entendia as vacas, era muito mais pela forma como se produz o leite do que por seus bezerros.

Vocês devem estar me perguntando sobre tudo o que ouviram sobre amamentação a vida inteira “dói”, “é incômodo”, “o bebê fica mimado”, “leite de mamadeira sustenta mais”...

Pois é, a ideia de maternidade/ser mulher na nossa sociedade misógina se confirma pelo horrível atendimento da saúde(privada e pública) e pelo nosso estado de distância e ignorância em relação ao próprio corpo.

Primeiro que ser mãe não é um direito, é uma obrigação – não temos conhecimento nem acesso a todos os métodos contraceptivos, não conhecemos nossos corpos para saber quando é mais provável uma gravidez, ou como temos mais prazer, não podemos abortar caso engravidemos, não podemos fazer laqueadura em qualquer hora de nossa vida, não nos ajudam a questionar o ideário das Igrejas que rondam nossas cabeças...Somos fornos de operários a ser jogados no mundo para ter mais gente a ser explorada – e por isso é tão mais difícil achar um país de terceiro mundo que tenha aborto descriminalizado/legalizado.

Então, você tem seu filho, lhe arrancam do corpo e levam para qualquer outro lugar, todo mundo te deixa sozinha por umas 6horas, depois de 9 meses tendo ele como uma parte do seu corpo, depois de tanto esforço para parir, na melhor parte do filme, tiram o protagonista. Aí, o trazem depois, vem uma enfermeira e fala: “você tem que amamentar” – sem nenhuma preparação ou orientação correta de como preparar os mamilos para isso durante toda a gravidez - , e ela começa a apertar seus peitos loucamente, dizendo “o leite não desce porque você não quer!!!”. Ele começa a mamar e dói, muito, e ninguém te fala que a natureza é sábia e que se dói muito é porque a pega tá errada, tem que arrumar pro bebê mamar bem, se saciar e esvaziar o seu peito. Todo mundo sabe, e você também, que ser mulher é isso, é sentir dor. Resultado? Rachaduras, sanguinolentas e doloridas, e a culpa é do que? Da amamentação, essa praga de deus para Eva e todas as mulheres.

Para as que passam desses primeiros momentos, tem um monte de empecilhos: chupeta e mamadeira (que atrapalham na amamentação, a criança às vezes rejeita o peito por uso desses utensílios, às vezes passa a mamar errado no peito da mãe, causando rachaduras e dores), execesso de trabalho(porque amamentar é uma delícia, mas cansa...e muito!), a solidão da licença maternidade (direito de ficar perto deveria ser do pai também, e de quantas mães e pais mais integrassem a família num modelo não burguês), e os comentários de toda uma sociedade misógina, desde sobre o leite ser fraco(mulher, você é incapaz de fazer, deixe que a indústria farmacêutica faz para você!) até que toda mulher que amamenta em público quer provocar os homens e ser estuprada (vide Rafinha Bastos e CQC – ódio mortal desses imbecis).

E aí? E aí que não me espanta que a imagem da amamentação seja essa mesmo – ruim, exploração da mãe pelo bebê, doloroso... Mas temos que cuidar, a quem serve essa visão, e o que reproduzimos com ela?


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Minha teologia

O tesão.
O desejo de ser árvore que abre a semente, e a faz brotar pela terra, mãe absoluta. O desejo da terra em ser fecundada, ou seu desejo de seguir árida.
O desejo de se miscuir, a energia do tesão que se condensa e materializa, se atomiza e se molecula, se junta na energia que faz a vida, a energia do tesão.
De tesão é feito o mundo.
O tesão que brota, brota do meu ventre, quando eu decido que quero me entregar para o prazer de dar mais do que se recebe. O tesão da minha biceta a parir, de se apaixonar perdidamente por alguém que se fez em você.
O tesão do cheiro, do atrito, do sal, da língua que nos envolve a provar o outro, seu corpo, sua alma, em orgasmos tremulantes, em delícias vibrantes.
O tesão que jorra dos meus seios, branco, doce, na boca daqueles que quiserem provar e me ver tremular, daqueles que se nutrem de meu tesão de mãe, de minha vida terra.
O tesão do sol, um de nossos pais naturais, que nos supre com mais energia de tesão. O tesão de todos os pais animais, suprindo a mãe terra de tudo o que ela precisa para se fecundar.
O tesão da natureza agindo sobre nós.
O tesão do macho que jorra, que espera, que goza dentro.
O tesão do macho que se descobre fêmea também, a fêmea que se faz macho, o tesão de ser qualquer coisa no meio disso.
O tesão de se fechar para dentro, de se concentrar no resto da existência.
O tesão da terra a transformar toda a morte em nova vida.
O tesão. Disso é feito o mundo, nisso nos fazemos, e nisso nos realizamos.
O tesão não pode ser suprimido, guiado por uma força superior, pelos outros.

O tesão vem dos poros da pele.

Uma história sobre aborto

Inspirada num debate que rolou numa lista de mulheres que participo, me lembrei de uma história minha e resolvi contar.

No meu primeiro ano de Unicamp, com recém completados meus 18 aninhos, eu ainda era espírita, e era radicalmente contra o aborto(ainda não tinha na minha cabeça muito clara a ideia de Legalização do Aborto, nem nada disso, e tinha uma ideia de que "os outros são imaturos se propõem isso, como eu sei a verdade do que aconrtece do outro lado, faço um favor de dificultar o caminho de suas escolhas", pensamento hoje que eu considero escroto e imbecil).

Primeira festinha que fui da galera de humanas. Trepei com um cara das cênicas, o terceiro com quem eu trepava na vida, o primeiro nessa situação de festa, um cara que eu nunca tinha visto e nunca mais vi depois disso. Eu ainda morria de medo de ficar grávida, achava que qualquer coisinha fora do lugar deixava o risco imenso de ficar grávida. Acho que o cara demorou p/ tirar, o pênis deu uma murchada, e a camisinha ficou pra dentro da minha vagina.
Tivemos que procurá-la lá (não foi muito difícil porque eu sempre mexi nela mmuito bem, hehehe) e tiramos. Eu ainda não sabia bem qual era a quantidade de esperma que ficava na camisinha, não sabia se escapava ou não, fiquei bem assustada com essa situação.

Não dormi a noite. O que fazer? E se eu engravidasse de um desconhecido completo no primeiro ano de faculdade? Todas as ideias misóginas de gravidez, de como tudo aquilo era horrível, o maldito livro da minha adolescência "E agora, mãe?", tudo o que eu hoje sei que nao é bem assim. E o que eu diria pra minha mãe?


Tomar pílula do dia seguinte? Mas ela não é abortiva? Até então, eu achava que pílula do dia seguinte era "microabortiva"(nem sei se esse termo existe, mas minha mãe usa às vezes), e fiquei na grande dúvida: faço o que pode ser um aborto ou não? Me debati em culpas e em medos, em desespero. No dia seguinte, fui na farmácia, assustada, assustadíssima, morrendo de vergonha e comprei. Fui até a cantina do Marcão, onde almoçava todos os dias, li a bula (como faço com qualquer remédio) e descobri que eu não faria um aborto se tomasse, que a pílula só maduraria o óvulo a ponto de ele não poder ser fecundado mais. Relaxei, tomei, e quando veio a minha menstruação eu, pela primeira vez, fiz uma festa.

Carreguei esse sentimento de "eu teria feito um aborto" até encontrar-me com a política, no ano seguinte, e começar a entender o mundo de uma outra forma.

Aí está, vale a pena tolhirmos nossa liberdade de mudar de ideia? Vale a pena colocarmos que o Estado pode tomar a frente de uma decisão como esta, e proibir o aborto? E o DIU,que muitas de nós usamos(eu inclusive), que, caso escape uma fecundação, pode matar o óvulo fecundado - isso não é "abortivo"?

terça-feira, 16 de agosto de 2011

De volta

Muito feliz estou eu escrevendo, hoje, 1 ano e 3 meses depois de escrever Carta a Polis http://divinastetas.blogspot.com/2010/05/carta-polis.html , dizendo que, neste período inmportante de transformação, a mãe que eu gestava nasceu. Nasceu e mergulhou fundo no mais fundo de dentro de mim, me mostrou cada cantinho em que se escondia o venenoso pó do reacionarismo, ainda esfrega bastante para tirar alguns pedaços(principalmente os mais açucarados), mas que hoje volta, mais leve, mais forte, e mais feliz do que antes.

Volto para dizer, feliz da vida, que a velha Isa de antes morreu. Morreu e queimou, ardeu, e das cinzas, se fez algo novo de mim.

Algo empoderado, mais seguro e mais potente, alguém que não mais se curva a certas opressões, que não mais se coloca como penico de machistas, que não mais quer se esconder, e nem se afirmar, mas sim que tenta mostrar a verdade mais pura de si, alguém que sabe voltar atrás e reconhecer os erros, algo que é mais sujeito de si mesma, alguém que, por tudo isso, se ama mais e pode se entregar a novos e deliciosos amores...

Volto cheia de tesão e de vontades, um pouco afobada, mas com mais paz de espírito, e nessa energia, volto enfim à militância.

Saudades, senti de todos os meus queridos. Das pedalocas aos machadianos, dos não manobráveis aos meus velhos e sábios alunos.

E agora, ao lado de novos e de velhos parceiros de militância, eu digo muito empolgada, me sentindo novamente construtora desse mundo para além do feminismo nosso de cada dia: como é bom estar de volta!!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Violentada

Ódio.
Ódio por toda forma de violência que sofre meu corpo.
Ódio de todos os padrões aos quais nos impõe o machismo.

Dói em mim a manobra de Kristeller que você recebeu.
Dói em mim o pedaço da sua placenta que ficou, quando puxaram-na pelo cordão.
É meu o sangue da sua hemorragia.

Dói em mim a arma apontada para sua cabeça.
Dói em mim o abuso que você sofreu.
Dói em mim o mato que te pinica.
É minha a dignidade que te roubaram.

É difícil pensar em direitos humanos agora.

Mais fácil pensar nos golpes que eu quero aprender,
Na faca cortando o pau,
Do desgraçado que me violenta através do seu corpo.

Mais fácil pensar em prender o sarrista,
em cortar-lhe a língua,
E em cordas a amarrar seus membros.

Mais fácil pensar no prazer de se ouvir gritarem,
médicos e enfermeiros empalados com fórceps,
Cortados em episiotomias anais.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sobre o amor

Dedico este post ao Neo e ao Bruno, que construiram um relacionamento lindo, a quem eu admiro imensamente; a Linda e ao Rafael, que casaram sáabado passado, e foi onde eu fiquei pensando tudo isso; além, é claro, do meu amor maior, com quem eu escolhi subir num balão e deixar os chatos da sala de jantar e que escolheu o meu vento para seguir.

Eu acho curiosa a forma como as pessoas colocam o amor hoje. Enaltecem-no como sendo um solucionador de problemas, enjaulam-no numa obcessão cristã que mescla amor e relacionamento(no sentido de construir uma vida juntos), colocam o amor como sendo pressuposto ao sexo(e qualquer sexo fora dele é condenável).

Pois bem. Essa confusão toda sempre me fez muito mal, e como eu sempre tive clara na minha cabeça a seriedade que é declarar um compromisso de ter uma vida com uma outra pessoa - tanto que desde os meus 10 anos eu questionava a "naturalidade" com que os adultos caracterizavam o casamento na vida das pessoas, como se fosse a mesma coisa que pêlos nascendo pelo corpo na puberdade - , eu sempre temi o amor. Impedi que ele viesse naturalmente, fugi de paixões por pessoas lindas e deliciosas que me mereciam derretida sob seus corpos, como se o amor não fosse uma consequência de um sexo cheio de desejo. E aqui eu não falo do sexo banalizado que eu tantas vezes já fiz, fomentado pela nossa sociedade que trata o sexo como um produto e uma fonte de mercado consumidor; falo do desejo real, aquele que brota dos nossos corpos e faz circular a ocitocina, que nos enche a boca de água e nos inunda com suas águas, sem tabus e sem padrões de beleza, pelo simples fato de que as pessoas quase sempre são apaixonantes.

Depois de um longo processo, enfim, eu libertei o meu amor. Entendi finalmente o amor como algo livre. Ele brota dos poros, brota dos abraços, brota dos olhos. Ele pode brotar de vários tesões, e ter várias realizações; ser puramente mental - tipo aqueles que causam orgasmos intelectuais, que nos estimulam a pensar, que nos movem e nos fazem pensar em coisas nunca antes imaginadas, muito comuns por professores; ser puramente emocional - tipo o que brota pelo convívio com as pessoas, que as revela no dia a dia, que acontece pelos amigos; ou ser puramente corporal, que pode ser desde aquele amor que abraça, ou aquele que surge das entranhas, como o amor de mãe e filho, como o amor do sexo em si, aquele dos corpos que se excitam e se ouriçam pelas peles; mas o amor sempre pode ser uma mistura de tudo isso, e ser completo, cheio, amando os amantes aquela pessoa inteira, em tudo o que ela é, vê-la linda com todas as suas nuances.

Assim é o amor livre. E amor livre não se refere só a compromissos, a relacionamentos. Um relacionamento sério entre pessoas requer muito amor, mas não é só o amor que o sustenta. Relacionamento se dá quando se pretende construir uma vida com outra(s) pessoa(s). E isso não é possível com todo mundo que se ama; podemos ter um amor mental e emocional por alguém(um amigo), e esse alguém querer ter filhos e nós não. Por que nos privamos e aprisionamos o amor corpóreo, o subjugamos numa necessidade de relacionamento?

Para um relacionamento o amor é fundamental, mas é preciso que tenhamos clareza sobre nós mesmos, nossos limites e vontades, projetos e sonhos, para analisar o quanto queremos aquele outro que está diante de nós, seus projetos e sonhos, suas cracterísticas que nos agradam e as que não agradam(porque afinal teremos a pessoa inteira, e não só um pedaço dela), e aí veremos se isso é convergente e o quanto estamos dispostos a abrir mão, a suportar, a construir. E isso vai além do amor. É nisso, precisamente, que vejo muitos casais se perderem; se perdem na sua confusão, deixam de ser eles mesmos, de pensar por si mesmos, para realizar um projeto alheio, ou impõem seu próprio projeto, anulando o outro, ou não toleram o outro ou a si mesmos, em nome de um relacionamento irrealizável. E assim o amor começa a definhar; e como o amor é sempre potencializador dele mesmo, quando se definha o amor pelo outro, se deteriora o amor próprio. E assim vão tristes aqueles que fizeram isso por aprisionar o amor e o sexo num relacionamento; e assim vão tristes os que se casam numa inércia de achar que isso faz parte da vida; e assim surgem as piadas e as histórias de que o casamento é falido.

Falida é a ideia cristã-burguesa de casamento, falida é o aprisionamento do amor, falido é o silenciamento dos nossos desejos, falida é a ideia de um príncipe encantado e de uma princesa que espera.

Que o amor inunde os coraçõs de vocês hoje e sempre...

domingo, 13 de março de 2011

Feliz.

Simples assim.
Feliz.
Feliz pelos amores que brotam de nossos corpos.
Feliz pela dádiva de ter alguém com quem eu sou absolutamente livre.
Feliz.

Desabafo

Qual é o problema desse povo agora?
Eu simplesmente não entendo.
Depois de anos, ANOS, aprendendo o que era alguém que realmente queria algo comigo e alguém que estava me deixando como step, alguém que queria sexo e alguém que queria amor, depois de anos aceitando os fatos e deixando para lá desejos impossíveis, que acontece com esse povo?
De repente, todos os indícios que eu considerava como sempre certos de que se tornariam sexo dali a alguns minutos eu vejo ruindo por terra. Que diabos! Por que pessoas que eu desejo e me provocam, e quando eu acho que finalmente as meterei no meio de minhas pernas elas se esvaem de meus dedos, passam por entre eles como água nas minhas mãos?
Como é possível um ser como eu, que sempre foi atento e sempre escapou de enrascadas de desejos impossíveis de satisfação, de repente fico assim, jogada como se fosse um step de todo mundo, tendo que ser passiva e jogar joguinhos de difícil que eu simplesmente sou péssima para fazer?
Como se manter segura de que vc é realmente o que as pessoas diziam com tanto gosto que vc era, nesta fase em que o tempo(e com ele o sexo) são bem mais escassos, e que os quilos são bem mais excessivos que antes?
Que saco isso. Odeio essa coisa de não cagar e não sair da moita.
Odeio.

terça-feira, 8 de março de 2011

8 de março e o carnaval

8 de março. Chovem os mais diversos parabéns, a mais detestável rosa, os programas mais variados falando de mulher, homenagens, lingeries, mulheres no volante, etc etc etc. As feministas bradam como sempre suas velhas (e não menos importantes) reivindicações e reclamações sobre o mundo machista que vivemos...
Terça-feira de carnaval.
É uma pena que os seios nus na avenida não sejam os meus. E uma pena que não sejam mostrados na passeata reivindicatória(que ainda tem muito moralismo para bater), na liberdade de sair por aí sem blusa simplesmente por sair sem blusa, é uma pena que só sejam mostrados como uma peça de carro alegórico, e que sejam só os ditos "perfeitos", e não os meus lindos seios de mulher que amamenta.
É uma pena que o tesão, seja do homem ou da mulher só seja estimulado nesses dias, depois de 361 dias de quaresma(ou carnaval que tem que ser sempre calado).
Eu vim aqui falar de tesão. Eu acho que vim ao mundo para falar disso...
E nesse 8 de março, de carnaval, eu reivindico que todos os tesudos do mundo se unam, que todas as mulheres se joguem no tesão mais louco e mais delicioso, no tesão de qualquer coisa, e gozem bem forte, seja num orgasmo clitoriano ou num orgasmo intelectual, no orgasmo de fazerem o que lhe dá na telha o tesão.
Que o capitalismo e todas as ideologias anti-tesão do mundo sucumbam sob nossos gemidos, que os homens percebam o quanto de tesão também lhes é negado quando tolhem o nosso, que o tesão de viver ganhe de todos os anti-tesões do mundo.
Desejo a todas as pessoas que elas esqueçam a TV e os padrões de beleza, que todas as pessoas se olhem no espelho e achem um tesão cada característica sua: a cor da pele, a gordurinha, as estrias da barriga, os ossos reluzindo, as rugas experientes, as carecas que aparecem, o andar manco. Sinta o quanto de tesão há em tudo o que vc é, e saia na rua jogando seu tesão por todos os lados.
É isso o que vou fazer, e que se fodam meus 70kg!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Érica

Capítulo 3 - Calcinha Branca

Érica deixou as crianças correndo na escola, silenciosa e distraída. Chegou ao estacionamento da empresa em que trabalhava como secretária uns 10 minutos mais cedo do que seu horário. Naquele dia ela escolheu uma roupa que usava pouco, um conjunto social vermelho de saia bem justa, delineando o quadril, e tailleur de bom corte, marcando bem a cintura, que ela sempre usava com um top branco a mostrar o contorno de pêra dos seus seios maduros. Usava um sapato de salto baixo, branco e preto, bem elegante, brincos com uma pérola discreta e um batom vermelho, que ela não usava há muito tempo.

Ficou no carro aquele tempo, tentando tirar aquilo da cabeça, e decidiu satisfazer sua imaginação. Bem devagar, sem que ninguém visse o que estava fazendo, ela passou a mão por debaixo da saia, tirou a calcinha de algodão branca, e começou tocar o clitóris circulando-o, se imaginando como a negra grande e poderosa, dominando e rendendo a ruiva pela língua. Então ela esqueceu-se de onde estava, e gozou num grito alto, forte e inconfundível, e depois caindo numa espécie de sono de êxtase. Voltou a si com o Renato, um guarda de pele avermelhada, feições bem indígenas e cabelos absolutamente lisos cortados como cuia, corpo não muito alto mas bem jovem, abrindo a porta do carro e perguntando:

- A senhora está bem, dona Érica?

Ela ficou sem jeito e levantou-se, arrumando a saia e os cabelos, tentando disfarçar a respiração ofegante, mas não conseguia dizer uma palavra. Ele percebeu a aura sexual, o cheiro, as marcas de água no banco do carro, e por fim, olhando para dentro do carro, viu a calcinha molhada jogada perto do acelerador. Na hora seu pau ficou duro, e ele era tão grande que nem o uniforme duro e preto conseguiu disfarçar o que havia acontecido.

Ela olhou para a calça dele e viu que ele sabia. Num lance de loucura, ela olha nos olhos dele, e eles se beijam alucinadamente. Então ele levanta a saia dela na cintura, joga-a de pernas abertas no banco do carro, tira o pau para fora e começa a bater a cabeça do pau no clitóris dela. Ela não aguenta nem um segundo, pega o pau dele com a mão e agarra seu quadril com as pernas abertas, e mete-o para dentro dela, com muita força, e solta um irreprimível gemido de prazer. Em pouco tempo metendo fundo e rápido, eles gozam juntos, com gemidos altos que se propagavam por todo o estacionamento.

Então, os dois se refazem sem jeito e sem se olhar, ela pega sua bolsa, tranca o carro e sai andando. Ele então a chama e diz baixo:
- Dona Érica, o carro vai ficar com o cheiro...Não é melhor deixá-lo aberto?
Ela resolve voltar e abrir as janelas do carro, e sai de novo para trabalhar, sem dizer nada.

Ele então, depois de um tempo que ela foi embora, abre o carro e pega a calcinha que ela esqueceu de pôr, cheira e vai para o banheiro, se lembrar do que aconteceu há tão poucos instantes atrás.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Érica

Capítulo 2: A ameixa

Érica acordou no dia seguinte num pulo, assustada. Tinha custado a dormir, não conseguia controlar aquela sensação gostosa e assustadora que estava sentindo. Teve um sono inquieto e um sonho estranho: sonhava que quando olhava para as mulheres na rua, via as suas bucetas e elas gritavam de prazer igual à ruiva do filme. Preparou o café do marido e das crianças meio atrapalhada, quebrou dois copos na pia e sentou à mesa perturbada. O marido observava meio intrigado aquele comportamento estranho... Érica viu as frutas em cima da mesa, pegou uma ameixa bem vermelha e começou a cravar os dentes, de olhos fechados, deixando os lábios abertos e apertados, como se fosse a buceta da ruiva. A ameixa soltou seu suco dentro da boca dela, e em seu pequeno devaneio era o suco da buceta da ruiva, e ela a ouvia gritando de tesão.

As crianças não estavam prestando atenção, mas o marido percebeu. Guilherme olhava a cena um pouco assustado e muito excitado, o pau crescendo por baixo da calça social, ele nunca tinha visto sua mulher assim. Era um homem elegante, com a pele cor de chocolate, com excitantes cabelos grisalhos, mãos grandes e postura esguia. Tinha uma barba espessa, também grisalha, que lhe dava um ar de experiência que chamava atenção das mulheres na rua. Desde que conheceu Érica, nunca mais havia estado com outra mulher, e Érica era uma moça muito recatada e bem puritana, o que o privara de certos prazeres. Mas vendo a boca dela cravada na ameixa, ele não conseguia parar de desejar que a cabeça do seu pau estivesse no lugar daquela ameixa, dentro da boca dela, sentindo a língua indo e voltando, a boca chupando, os lábios apertando...

Então ela abriu os olhos e viu o marido vidrado nela, e se lembrou de onde estava. Levantou esbaforida da mesa, tirou as coisas do café, se despediu do marido toda sem graça e foi levar as crianças na escola.

Ele ficou meio parado ainda na mesa, sonhando sozinho mais uns cinco minutos, e resolveu ir para o trabalho.

Érica

Capítulo 1 - O Despertar

Eram meia noite, quando Érica levantou do sofá para dormir. Aquela noite ela estava insone. Entrou no quarto silenciosamente para não acordar o marido. Despiu-se, revelando o corpo para quem a idade havia feito bem. Na juventude, ela era muito magra e moleca, e agora, com seus 40, estava mais mulher, mais carnuda. O rosto que não escondia os 40, sua feição de mulher forte, o nariz bem marcado e grande, a boca bem desenhada, o queixo quadrado e os olhos castanhos de olhar firme davam a ela um quê de fruta madura, enchendo as bocas de água pela simples ideia de chupá-la. Os cabelos loiros e curtos, soltos e sem frescura, com alguns fios brancos, pareciam fiapos de uma manga amarela deliciosa e louca para ser devorada. Colocou a camisola de algodão, simples e curta, que se levantava e mostrava as coxas e um pouco da calcinha toda vez que ela passava pelo ventilador do quarto. As alças eram finas, e deixavam a mostra os ombros e as costas. Tinha uma transparência que não se revelava no quarto escuro.
Quando ela foi fechar a porta, ouviu um barulho estranho. Prestou atenção e vinha do quarto do filho de 12 anos. Ficou encucada e foi até o quarto.
A porta estava aberta, dava para ver pela luz da TV que iluminava o corredor. Ela foi ver o que fazia ele acordado àquela hora, e foi distinguindo claramente o som dos gemidos que vinham do quarto. Então ela foi devagar ver. Espiou, e o filho se masturbava vigorosamente, e não percebeu que a mãe estava ali. Quando ela ia se virar para ir embora, passou os olhos pela TV e viu uma mulher bem torneada, ruiva de cabelos grandes, ondulados e exuberantes, de seios imensos e pernas abertas sendo chupada vigarosamente por uma negra lindíssima e grande, de língua comprida e lábios carnudos, que abria bem a bucetinha da ruiva com uma mão enquanto metia dois dedos da outra. As duas gemiam muito, e a ruiva estava a beira do orgasmo. Érica ficou estática, não conseguia ir embora e esqueceu-se do filho. Logo a negra foi metendo mais dedos, sem parar de chupar, e a ruiva foi gemendo mais alto, até que ela gozou, gritando de maneira tão deliciosa que Érica sentiu sua calcinha molhar como se ela estivesse fazendo xixi. Isso a despertou, e ela foi para o quarto assustada, trocou de calcinha, se deitou na cama ao lado do marido, cobriu a cabeça com o lençol e se forçou a dormir.

Benditas sois vós

De Vitor Queiroz
http://cabramalteia.blogspot.com/

Bendito louvado seja
O pó do chão a lama o útero
E a mama. Benditas sois

Vós. E até as pedras a faca
O parto e o cacto durão
Benditos sejam. Por que

Não? Benditas sois vós. Fadas
Carolas lagartas bruxas
Borboletas e vovós.

Bendito louvado seja
O galho cheio de fruta
Madura. Astrólogas mães

Faxineiras e malucas.
Bendita louvada seja
a vaca angélica e a vaca

profana. O blush da femme-
fatale e os pés da machona.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Five days Closed

Semanas enclausurada, períodos estranhos de monogamia voluntária, sem medos e ciúmes nem da minha cama com a Susana...

Os desejos todos alterados, algumas consciências novas acerca do sexo e sua junção com a paixão - sexo completo, sexo livre, sexo apaixonado...E como admitir, depois de tanto tempo, a possibilidade de um sexo quente, sem a frieza das relações anti-envolvimento, sem a castração de uma parte do tesão, o tesão do amor, o tesão do plural, o tesão da ocitocina percorrendo as veias?

Algumas revoltas novas, e onde colocar tanto feminismo, se tão mesclado com machismo ainda ele está?
E isso borbulhava na cabeça da clausura, isso com os 70kg, novos e indesejados, e onde está o feminismo a combater o padrão de beleza que ainda na minha mente martela? E onde está o feminismo quando eu pareço concordar com as velhinhas que me diziam no começo "esse rapaz não vai ficar com você"? E onde está o feminismo se esse medo de perder me toma a razão, me tolhe a liberdade do meu amor, me faz esquecer de toda a dor e culpa de quando as correntes envolviam meus pulsos e minha buceta?
E o impedimento prático de sair de casa para um passeio dos velhos tempos, sem preocupações e sem horário para chegar? Enquanto o outro tem toda a liberdade do mundo para isso...

Aiiiiiiiiii, aquela ideia me rondava a cabeça...Ideia que surgiu sei lá quando, numa dessas conversas, em que eu só pensava num vudu e numa agulha...Ai, feministas que dizem isso sempre estão aí, comunas, kollontais etc e tais...E o medo de perder, o medo de seguir, o medo de propor...O medo até de conversar sobre isso, com quem, com quem, com quem dividir esse fardo? Quem me escutaria nisso e não me diria que somos loucos desde o começo?

Então aquele velho amigo, aquele velho tesão meu que tantas vezes esteve nas minhas fantasias, e que tinha, sim, até ele, tinha perdido para mim os encantos, veio aqui numa noite chateada de domingo, e me deu apoio, me ajudou, me conversou, e naquela onde de liberdade entre quatro paredes, por dois dias de tranquilizantes conversas, eu sentindo na pele mas ainda cega aos ouvidos sobre o tesão que aquele ser me causava, e ele me encorajou a tocar a ideia adiante. Seria importante para mim. Não tenha medo, garota, tem coisas maiores do que isso entre vocês. Se exponha, volte atrás, isso não é fraqueza, isso é sinceridade consigo mesma.

E foi assim, naquela noite de saudade de terça-feira, que a ideia revelou-se sem querer, no meio de uma das minhas caras de espetadora de vudu. Correntes, preciso de correntes em você, disse eu. E meu bem me disse, estou triste, mas eu entendo e mantenho - e ao menos ele manteria naquilo que eu fosse saber.

E numa quinta-feira de aniversário, me fiz bonita como há muito tempo não queria ousar. O aniversário do velho amigo, que já era o mesmo velho e bom tesão de sempre...E em dois segundos o de óculos, com seus cachos e sua pele, se revelaram aos meus olhos e saltaram meu interesse...logo eu não mais era a enclausurada, logo eu era a de sempre, pervertida na mente e falante de assuntos, interessada e bem intencionada, no melhor que há nessa vida...Logo eu vi a sensualidade em forma de mulher, e me lembrei das nossas cenas com ela, em noites picantes de dias passados, e quando me virei para o lado para comentar ao meu amor, ao meu acorrentado, ele me lembrou de nossas correntes...Ah, as correntes...E eu voltei da amnésia que tive e me lembrei da velha e má culpa, torturante e maléfica, a culpa que me fez querer quebrar as correntes minhas e as de todos...

Então, aqueles motivos todos que me empurraram para a ideia de repente sucumbiram. Em mais 3 dias, pensando e me sentindo muito mais leve e muito mais feliz, eu então peguei a serra e serrei as correntes de meu amor. Serrei não por não mais temer, mas por querer me libertar novamente e sempre, por querer permitir o tesão e sua fluidez, por querer combater tudo o que há em mim de anti-tesão e anti-liberdade.

5 days closed. E isso basta.

Livres? Sim, buscamos e somos livres outra vez.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Dos frutos que caem longe

No fundo, é só isso que importa...
A pele na pele, no fundo dos olhos...
O sorriso que paga tudo, compra tudo, me rende e me faz pensar
Se vale mesmo a pena querer cortar o cordão...

Mas que besteira afinal,
Que ultraje mais descabido,
De quem tanto quis cortar o cordão da onde veio
Se ver tão triste por começar a cortar o daquele que se vai...

Mas no fundo a gente sabe
Que quem de nós veio
Desabrocha e brota em outro canto,
Que árvore grande às vezes cobre o sol...

Que maluquice é essa,
De ser árvore que gera e espalha frutos
E se ver, ao mesmo tempo
Tão sozinha de ver cair longe para brotar a sua própria semente?