quarta-feira, 28 de julho de 2010

Os obedientes

Imagine que absurdo: sou pega pela policia em minha casa para dar um depoimento.
Levam-me num carro preto para uma delegacia.
Nesta, sou colocada entre três policiais me mostrando armas...quando me nego a dizer algo, levo uma paulada dolorida de cacetete...
Eu sem defesas, levando paulada...
Revoltante a tortura, não?

Imagine que outro absurdo: um homem manda na sua mulher.
Um belo dia, ela resolve dizer não.
Ele a enche de pancadas...
Na nossa sociedade, em que temos o corpo sempre tolhido ao invés de aprendermos a nos defender, estamos sem defesa, levando paulada...
Revoltante a violência doméstica, né?

Agora imagine a seguinte situação: um casal tem um filho pequeno, uma criança de 2 anos, que está aprendendo ainda o que é viver em sociedade.
Um belo dia, o casal está passeando com sua criança e, na hora de ir embora,ela faz um escândalo porque não quer ir.
Então, os pais a agridem na frente de todo mundo.
E agora não é revoltante?????

Vem da mesma lógica da violência doméstica, da tortura, a idéia de que educação é bater.
Isso é oprimir de maneira absoluta a criança. Crianças estão aprendendo sobre o mundo, e eu não acredito de maneira nenhuma que o modelo erro/castigo, acerto/premiação esteja produzindo bons resultados...vide o mundo de hoje!!
Se bater for ensinar, ela vai aprender que não pode fazer x porque terá um castigo...E a partir do momento em que não tiver ninguém olhando, e portanto ninguém para aplicar o castigo, tá tudo liberado!Isso é o que o Piaget chama de moral heterônoma...

Mas para mim, há uma questão que vai além da educação(embora eu ache que esse argumento por si só já baste)...
Crianças não tem possibilidade de defesa de um adulto. Não tem como, até pelo menos uns 10 anos de idade. É uma questão corpórea bem óbvia, não acham?
Enquanto vc já tem coordenação motora, músculos, tamanho, noção espacial, tudo bem desenvolvido, a criança ainda não tem nada disso. Ela é mais fraca, fisicamente mesmo.
Além disso, ela não tem como saber o que é certo e errado, ainda está aprendendo essas coisas. Formá-la para entender que o certo é o que não leva soco cria uma criança obediente, um adulto obediente. Não cria uma criança que aprende a refletir, não cria senso de escolha; o resultado está aí: as pessoas simplesmente obedecem, não repensam o mundo, e ficamos aí nesta lógica fascistóide, que já é absurda por si só.

A lei que proíbe qualquer violência física contra crianças é interessante até, ainda que fique como letra morta para a maior parte da população, como qualquer lei no Brasil...Pelo menos joga o assunto na roda, faz as pessoas pensarem...

Esse post veio na minha cabeça depois de um post do blog do Sakamoto, sobre esta lei, dá uma olhada aí do lado.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Sobre liberdade e o câncer do medo: 1 - Relacionamento aberto e amor livre

Imagine poder ser livre para experimentar. O que for. Livre para experimentar e refletir, livre para decidir.
O medo aqui é algo a ser combatido, enfrentado, com tranquilidade. Nunca algo a ser enaltecido, exaltado. O medo é um câncer na consciência, um demônio, uma tesoura. Você se desliga do medo aos poucos, e vai clareando a vista, enxergando as coisas cada vez com mais nitidez e paz, e enfim, você é livre para escolher.
Ah, liberdade...liberdade é escolha, é o exercício livre da consciência.

Nesses termos, nossa sociedade é totalmente doente. Temos medo de andar na rua, imagine de questionar o status quo. O medo, advindo e alimentado das mais diversas fontes – desde a triste História do homem (coloco com letra maiúscula porque falo da História ciência mesmo), até os telejornais e o fascistóide do Datena...Nossa sociedade está tomada por um câncer enorme, que imobiliza as pessoas, que as faz aceitar e abaixar a cabeça para tudo.
Lutar contra o câncer do medo não é nada fácil, mas todo mundo foi em algo tolhido demais por ele, todo mundo sofre muito em algum ponto em que o câncer encontra resistência para crescer, e é nesse ponto em geral que surge a primeira possibilidade de detectá-lo e ir, aos poucos minando-o.

O medo que se espalhava pela minha consciência ia muito bem na minha infância ignorante dos hormônios, mas quando ele chegou no sexo, encontrou aí resistência. E assim eu comecei a questionar as coisas, questionar muito...
Pois é um processo enorme, longo, acho que vou brigar com esse câncer o resto da vida. Vou falar aqui do ponto em que a briga está mais avançada, o ponto em que eu me sinto muito mais perto da cura de minha consciência...

Depois de muito penar, eu finalmente aceitei – monogamia e heterossexualidade não são para mim. Vida fora do coletivo, tampouco. Simples assim. Fui com o tempo combatendo essas ideias. Entendi, depois de um relacionamento fechado, em que eu me culpei muito e me deixei ferir muito, em que eu me tratei como alguém que não merecia amor, enfim eu aprendi. E parei de procurar por coisas assim, queria alguém que tivesse a mesma vontade que eu, um relacionamento aberto.

E por aí eu topei com o Capi. Topei muitas vezes, aliás, ele já num relacionamento aberto, e eu procurando um...falávamos muito de porque não namorar mais de uma pessoa, porque não um namoro a três, porque uma pessoa ter desejo por outra significa que não ama mais seu conjuge...acabamos, nesta e em outras facetas da vida nos aproximando...E um belo dia, depois de uma noite fofa dormindo abraçados(sim! Sem sexo, algo inédito para mim), nos apaixonamos pela maluquice um do outro. E claro, já estava dado, nosso relacionamento seria aberto. Nenhum dos dois sabe viver na monogamia, e isso era bem claro para nós.

Mas veja, não sem desafios. Seria para mim uma completa novidade, e um esforço sim estar nessa relação. Bom, eu nunca fui de fugir das coisas por serem difíceis...Eu posso ceder a muitas pressões, mas eu sempre briguei com o medo de ser feliz.

No começo, eu ainda tinha medo do julgamento do Capi. Ainda que me sentisse livre para falar(ah, geminianos, como eu amo a liberdade que sinto com eles...), ainda tinha medo de ficar com qualquer um na frente dele. Isso foi até fácil de desconstruir – o Capi nunca saiu do meu lado em relação a isso.

Mas claro, alguém que já se sentiu muito abandonada, como eu me senti, e que sempre foi fechada porque sempre enfrentou um milhão de julgamentos(ou saberia que teria que fazê-lo), e que nunca teve um relacionamento em que alguém botasse fé, obviamente tinha medo de ficar sozinha nesse também. E isso se manifestava e se manifesta até hoje no ciúme...Sim, eu sempre fui ciumenta. E a cada dia eu progrido um pouco mais contra esse maldito câncer. Hoje sou infinitamente menos ciumenta do que já fui...

E por fim, eu fui admitindo para mim mesma que eu poderia me apaixonar por mais de uma pessoa. Minha dureza antes me negava o amor até por uma, imagine por mais gente...Eu sempre demoro p/ admitir para mim mesma que estou apaixonada. E como eu não admitia na prática para mim mesma que poderia sim amar mais do que uma pessoa, eu tive que brigar muito para não ter medo de ter o amor que o outro sente por mim substituído por seus outros amores.

Bom, estou aqui no caminho, com toda a cumplicidade entre mim e o Capi, estamos construindo nas nossas cabeças o amor livre que queremos. Ter um filho só tem me ajudado a ir mais fundo nisso, cada vez mais fundo, imaginando (e de certa forma estando em) famílias em novas configurações, para além dos laços de sangue, em que todos se pertencem e se amam. (Adoro falar isso em especial p/ quem achava que iríamos encaretar...eu acho que a gente é cada dia mais maluco)...

Em resumo, para quem não entendeu: nosso relacionamento é aberto no sentido mais amoroso da coisa. Não só para sairmos com outras pessoas, não só para o sexo, não para consumirmos outras pessoas. É aberto para os nossos desejos, as nossas vontades, e aos amores que nos inundarem o coração.

É isso.

PS: e há quem diga que eu não sou romântica e que sou incrédula...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Leite

Se tivessem me contado que amamentar era tão bom, e que eu ia me sentir sexualmente satisfeita(o que não me impede de querer mais sexo, claro), eu teria ficado grávida antes!

Enfim... Vaca!!!
E só sendo profana mesmo p/ falar isso sem conseguir se sentir culpada!!Juro que eu tento!
hahahahah

Ai, que farei quando não puder amamentar mais? Com quantas pessoas terei que copular loucamente p/ me sentir assim?

O que ninguém conta p/ nós mulheres é que amamentar é uma das coisas mais sexuais que nosso corpo pode proporcionar...E para variar, essa sociedade que eu acho cada vez mais louca e com menos sentido nos faz sentir culpa por tudo o que é natural e sexual, chamando de sagrado tudo o que é profano...Mais um fator ajudante na depressão pós parto!! Ô mundo doido, que nos adoece...

E o mito é que amamentar dói!!! No começo pode até doer um pouco, porque a mulher e o bebê estão aprendendo a amamentar/mamar, a mulher está formando o bico...é tipo as primeiras vezes que a gente trepa, sabe? Mas depois é sensacional de delicioso!! Nossa, muito bom mesmo...

Claro que acordar de madrugada cansa, mas nada que vários cochilos durante o dia não resolvam...
E claro, é preciso libertar-se para dar vazão ao prazer...E é preciso preparar o corpo p/ o processo!!

Já viu alguém gozar fácil sem se masturbar? Claro que não, a masturbação é o chamado instintivo de nosso corpo para desenvolver a genitália, e para variar é uma prática tão tolhida para nós, mulheres...

Amamentar é a mesma coisa - passar sabonete nos mamilos é desastroso, se vc é mulher e pretende ter filhos e amamentar algum dia na sua vida, PARE HOJE! Mas a melhor coisa é, quando descobrir a gravidez, fazer top less...sim, top less! 10min todo dia antes das 10h e depois das 16h, e seu peito vai estar pronto!Só, simples e sem um monnte de remédios, bucha, hidratantes...Sem rachaduras, sem dores, sem nada disso!

Pior que os mitos assustadores da amamentação, só o mito de que parto normal alarga a mulher...Esse era profundamente irritante, toda vez que eu ouvia isso antes do parto bufava de raiva, mas depois do parto, em que eu virei virgem de novo, isso virou uma piada...

Será o Pietro tipo um anti-Cristo, que transforma a mãe puta em virgem putíssima?

domingo, 18 de julho de 2010

Família

Imaginem só, chegar, depois de tanto questionar, estou aqui na constituição de mais uma família no mundo: a unidade mais básica do capital...
Isso fez muita gente imaginar que eu iria ou estaria encaretando...
Estamos aqui resistindo bravamente e subvertendo mais uma vez!

Ontem fomos a casa de um casal de amigos nossos, numa festa junina muito da gostosa, e ouvimos, ao pé da fogueira, mais um casal desesperado para respirar na sufocante vida que temos sob o Capital. E no mesmo calor da fogueira conversamos eu e Capi, com o Pi no sling, claro, sobre o que é uma família, pensando em como estamos constituindo a nossa...

Tenho pensado muito, nesses dias mais reclusos de pequeno bebê, sobre coletividade e família. Vejo todos os dias mães que entram em depressão, pais que perdem a cabeça, crianças que sofrem, com as milhões de exigências sobre as novas famílias que se formam - desde manter o espaço limpo até a obrigação das mulheres em cumprir seus deveres de esposa pelo bem da família e a colocada exigência ao homem de exigir sexo para ser viril...

Tenho pensado muito nisso, sobretudo, porque minha realidade é bem mais feliz que essa do capital, em que dois(na verdade, quase sempre umA) são suficientes para recepcionarem uma nova vida ao mundo, porque todo mundo tem mais o que fazer, porque o mercado não pode parar...Aff...

E tenho questionado também pela minha família de origem, que ultimamente tem se feito extremamente presente: hoje, com tantas brigas e tantas exigências da minha família de sangue, eu questiono como posso amar e manter contato com uma pessoa que desdenhou daquelas mulheres que me cuidaram e me recepcionaram neste mundo com tanto zelo, a quem sim eu quero e amo? Por que devo me submeter a estas mesmas mulheres, se não conseguirem me amar sabendo quem eu sou hoje, no que me formei? Tudo por uma manutenção do capital, para que ele gire e circule sempre nas mesmas mãos, com as mesmas ideias de unidade básica de manutenção da propriedade privada...

E com tantos seres lindos a nossa volta, nos ajudando das mais diversas formas com o Pietro(desde lavar lençóis ensanguentados de parto e me dar banho no dia do parto até passar 2 semanas das férias me fazendo companhia e me ajudando), como não dizer que esses amigos todos são nossa família também, se sempre podemos contar com eles?

E aí eu me pergunto e proponho: Por que não transformar o conceito de família? Por que não viver numa estrutura de clã, ou família auto-proclamada? É fundamental que transformemos a família, se queremos transformar as bases da propriedade privada para a propriedade coletiva. Numa nova estrutura de família, somos aquilo que queremos ser. Se eu quero ser mãe do Pietro, cuido, alimento, amo. Tenho o Seu Tião como minha família já, cuidamos um do outro e queremos estruturar a vida juntos(e, embora ele tenha seus 72 anos e eu meus 22, não posso chamá-lo de pai ou avô, pois isso teria naturalmente um tom de verticalidade que não existe entre nós). Quem mais vier amar a mim e ao Capi, que seja nosso/a esposo/a.

Sem essa de laços de sangue, papéis, ou qualquer outro que não seja pleno de emoção...
O que vale é o laço do amor.

sábado, 3 de julho de 2010

Coletivo

Cá estou com o pequeno no colo repensando o mundo...
Pois bem, depois de tanto terror e tanto medo que nos colocaram, depois de um nascimento e uma personalidade calma do pequeno, ficamos eu e Capi nos perguntando por que as pessoas tanto nos aterrorizaram e por que diziam tanto que tínhamos sorte...
E então, mergulhando na maternidade e nas comunidades de mães em que estou virtualmente inserida, comecei a entender melhor o que se passou conosco...

Quantas mulheres ainda não cuidam sós de seus bebês? Quantos pais realmente participam da criação de seus filhos, quantos deles cortam as unhas dos pequenos, trocam e lavam fraldas, pegam no colo e brincam? Quantas mães se informam sobre parto, sua alimentação e amamentação, quantas terão a chance de ter uma boa saúde? Quantos pais tem a possibilidade e se entregam a paternidade, quantos deles ultrapassam a barreira e refletem sobre seu gênero e sua opressão? Nesse mundo individualista, quantos casais tem a sua volta uma comunidade disposta a ajudar no mágico e difícil processo de adaptação de um bebê ao mundo e de um mundo ao bebê? Quantas crianças podem desfrutar de um ambiente tranquilo e estruturado? Quantas crianças são fruto do amor de dois melhores amigos, que buscam um no outro o par da sua jornada?

Por isso tudo, eu concluí: filhos são uma realização plena quando há coletividade. Quando há informação, conhecimento de si, quando há uma mãe e um pai que se entregam, que convergem sobre como cuidar desse filho...Mas um filho é sempre de um coletivo.

Agradeço todos os dias por ter ao meu lado amigos que não hesitam em ajudar, seja para vir aqui lavar um monte de roupas ensanguentadas de parto, seja p/ contar piadas do mundo lá fora; agradeço por ter famílias tão presentes, que, mesmo com tantas dificuldades, nos entregam suas férias para cuidar da casa; agradeço as redes de mães as quais pertenço, que tanto me ensinam sobre os filhos, sobre ser mãe, sobre a vida; agradeço mais ainda por ter encontrado o Capi, que eu nem imaginava existir, meu melhor amigo, meu companheiro, minha metade, meu amor.