sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Aberto...

Ontem saí de casa, acompanhada...
Na cumplicidade de dois amigos, de dois irmãos, de dois amantes, me despedi do meu amor...
Nos braços de outro cheguei, sob o carinho de outro fiquei, pelo corpo do outro gritei.
No meu amor pensei, com uma saudade tremenda, mas sem culpa, sem insegurança, sem dor, estava eu realizando meu desejo com aquele antigo amante...
E essa leveza toda me faz tão bem...
Essa liberdade...Tem gente que tem medo de ser livre. Prefere condenar-se à eterna prisão, prefere a pesada culpa por insegurança de que o outro, que supostamente ama, tenha seu corpo e seu coração aprisionados num compromisso...
Essa ligação que temos os dois, eu e ele, ele e eu, está no quão livre somos juntos; a cada dia eu aprendo mais a ser segura, cada dia eu acredito mais em mim, cada dia eu acredito mais nesse amor...
É muito bom saber de meu amor em outros braços sabendo que eu não o estou perdendo, sabendo que eu o estou ganhando um pouco mais, como ele a mim, sabendo que não há o que temer, dissolvendo o monstro do ciúme que me habita ainda...É muito libertador...
É um tesão absoluto saber que meu amor está comigo simplesmente porque me ama, porque ama nossos planos, porque quer, porque a bruta flor do querer sempre o traz de volta para mim...Isso é a maior segurança que se pode ter...
É como se sempre multiplicasse...e se o amor nos fizer fisgar por mais alguém, por que não trazer, multiplicar ainda mais a liberdade?
Feliz como nunca, afinal...

Pérolas na maternidade

"Aproveita agora, que depois que nasce é muito ruim"
"Você acha que aguenta a dor do parto???"
"Mas e se algo der errado no parto vc vai estar na sua casa!!!"
"Fralda orgânica? Você não vai ter tempo p/ isso"
"Filho é muito difícil quando se está com a família longe"
"Só quero ver se esse pai vai ser atento assim depois"
"Primeiro neto da família?Vixe, se prepara que vai todo mundo palpitar"
"Seus seios vão ficar flácidos!!!"
"Faça drenagem linfática, senão vc vai ficar horrível"
"Depois da gravidez vc vai engordar mais"
"Estudar e ter filho não combinam"
"Você acha que o pai dessa criança vai ficar com você?"
"Hoje é um filho, amanhã um AIDS"
"Nojento e indecente mulher amamentando em público"
"Você tem que estar sempre feliz, sabia que tudo o que você pensa vai p/ criança?"
"Eu entendo que você não vá abortar, é difícil mesmo romper com a moral"
"Não trepe muito durante a gravidez, é perigoso p/ bebê"
"Vcs vão continuar com relacionamento aberto????"

Vá todo mundo p/ puta que pariu, caralho!
1 - Não sou um porta-bebê, sou uma pessoa que tem emoções, que fica irritada, triste, melancólica, feliz, alegre, com tesão!
2 - Quem disse que foi um acidente?
3 - O pai tem sido o melhor homem do mundo comigo, e não tenho dúvidas de que será um ótimo e dedicado pai. Mas isso não é da sua conta.
4 - Quem disse que eu não queria?
5 - Se vc criou um filho, por que me acha incapaz de criar?
6 - Se a família vai ajudar ou não, palpitar ou não, isso não é da sua conta. E se vc acha isso tão nocivo, podia começar não palpitando, que acha?
7 - Eu tiro minha roupa em público inteira e dou meu cú gemendo de prazer se um imbecil me diz que amamentar em público é nojento e indecente. Indecente e nojento é ter gente passando fome!
8 - O bebê adora quando eu gozo, fica muito feliz, se mexe deliciosamente depois, e tenho certeza que cria um contato direto com o pai, já que relaciona sua voz e com certeza substâncias de seu corpo que vão p/ dentro de mim com a sensação de prazer que eu tenho. Vários homens me relatam a sensação de um cheiro que dá tesão meio forte em grávidas em geral - o que para mim só reforça a idéia de que a mulher grávida tem mais tesão e chama atenção dos homens p/ copular para que eles se liguem de alguma forma ao filho. Sexo na gravidez é uma delícia, e não tem perigo nenhum! Perigoso p/ bebê é essa moral maluca que condena o sexo, que o vê com ressalvas, que o proíbe. E se vc acha que tem tesão hoje, sem nunca ter estado gravida, já digo: vc não imagina o que é tesão de verdade.
9 - A dor é intrínseca a vida, e não está longe do prazer. Vou gritar e me retorcer enquanto puder, me entregar loucamente, e só vou aceitar perder minha consciência e me drogar se eu não aguentar mesmo. Para moralistas e puritanos, que condenam o baseadinho de fim de semana, me parece muito incoerente defender uma dose cavalar de drogas para tirar uma dor tão funcional como a dor do parto.
10 - Amor livre e relacionamento aberto não são coisa de gente que só quer farra, são convicções políticas e posturas que aprendemos dia a dia a lidar, a construir. Isso não muda com o bebê.
11 - Fralda orgãnica sim, antes que a gente não tenha mais tempo de recuperar nosso habitat natural e nossa espécie seja extinta.
12 - Sou uma mulher, que tem cérebro p/ controlar o garfo, que está louca p/ amamentar...Não sou um cabide de roupas e nem um pedaço de carne. Não seduzo pelo padrão de beleza, seduzo pela liberdade.

Cultura de merda a nossa, que cerca de negatividade desde a barriga da mãe!!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Aos que amam librianos

Bem libriana ultimamente...

Sinto-me no meio, e meio perdida com tantas coisas fazer, e enquanto me pergunto se tenho força suficiente p/ tudo isso, tentam me proteger aqueles que inquestionavelmente me amam...Proteger-me de quê, afinal, se eu sempre lidei com as coisas, se eu tenho que aprender a lidar com as novas e vou crescer absurdamente e ser uma pessoa ainda mais livre neste processo?
E aí, com esse questionamento e esse posicionamento dos que me amam, que resposta darei eu ao medroso questionamento anterior, "será que tenho força p/ isso?"? A resposta é que eu acho que tenho força sim, no fim das contas, já que pensei muito quando escolhi este caminho...

E como eu, libriana, suportaria a dor horrível de ver brigas entre os que amo, briga entre quem me iniciou no que sou hoje e quem é parte das minhas escolhas pro amanhã? Briga entre pessoas que tem muito mais em comum em sua essência, que são parte integrante de mim, partes do todo que é o processo da minha vida?? E como um libriano, na sua eterna e nem sempre saudável mania de relevar as coisas e não querer brigar conseguirá entender porque é tão difícil deixar coisinhas tão de superfície, tão pequenas, fazerem calar outras coisas não tão pequenas e aí se tornarem motivos para uma briga enorme? Que será que há por trás disso, será reconhecer no outro uma ameaça, ou reconhecer em mim uma fraca, será reconhecer no outro uma fonte de problemas ou reconhecer em mim um ser quebradiço que não sou?

E inevitável é sentir-se o libriano culpado por essas coisas. Culpado porque não evitou, culpado porque não se calou, culpado porque tentou resolver e só piorou...E aí entra um aprendizado novo para a libriana que está tentando aprender a falar e a se abrir mais: nem sempre é possível impedir que as brigas aconteçam. Mas essa sensação ruim, de que por culpa sua indiretamente nasceu uma situação complicada que veio a afastar as pessoas umas das outras é horrível...

Aí nós librianos buscamos em toda a nossa sensibilidade entender o outro, fazer os outros se entenderem, se escutarem...Mas como, se basta que uma parte esteja surda de raiva, surda na própria dor, surda no próprio grito? Precisará o libriano gritar mais alto, e talvez já seja tarde demais para que o grito de uma parte não machuque a outra, que estava de ouvidos abertos e na dor os fecha novamente...

E que fazer? Ter paciência, esperar o tempo esfriar as coisas, esperar as alegrias que estão por vir e unir todas as partes, e esperar que os gritos librianos façam algum efeito nas memórias, inclusive na sua...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

"A lactância Selvagem"

Postando este texto, que eu adorei...
Eu ando bem afim de recuperar o que há de selvagem e mais feminino no meu ser...


*A Lactância Selvagem (laura gutman)*
**
A maioria das mães que consultam por dificuldades na lactância estão
preocupadas por saber como fazer as coisas corretamente, em lugar de
procurar o silêncio interior, as raízes profundas, os vestígios de
feminidade e um apoio no companheiro, na família ou na comunidade que
favoreçam o encontro com sua essência pessoal.

A lactância genuína é manifestação de nossos aspectos mais terrenais,
selvagens, filogenéticos. Para dar de mamar deveríamos passar quase o tempo
todo nuas, sem largar a nossa criança, imersas num tempo fora do tempo, sem
intelecto nem elaboração de pensamentos, sem necessidade de defender-se de
nada nem de ninguém, senão somente sumidas num espaço imaginário e invisível
para os demais.Isso é dar de mamar. É deixar aflorar nossos rincões
ancestralmente esquecidos ou negados, nossos instintos animais que surgem
sem imaginar que ainda estavam em nosso interior. E deixar-se levar pela
surpresa de ver-nos lamber a nossos bebês, de cheirar a frescura de seu
sangue, de chorrear entre um corpo e outro, de converter-se em corpo e
fluidos dançantes.

Dar de mamar é despojar-se das mentiras que nos contamos toda a vida sobre
quem somos ou quem deveríamos ser. É estar “desprolixas”, poderosas,
famintas, como lobas, como leoas, como tigresas, como “canguruas”, como
gatas. Muito relacionadas com as mamíferas de outras espécies em seu total
afeiçoo para a criança, descuidando ao resto da comunidade, mas
milimetricamente atenciosas às necessidades do recém nascido.

Deleitadas com o milagre, tratando de reconhecer que fomos nós as que o
fizemos possível, e reencontrando-nos com o que tenha de sublime. É uma
experiência mística se nos permitimos que assim seja.

Isto é tudo o que se precisa para poder dar de mamar a um filho. Nem
métodos, nem horários, nem conselhos, nem relógios, nem cursos. Mas sim
apoio, contenção e confiança de outros (marido, rede de mulheres, sociedade,
âmbito social) para ser uma mesma mais do que nunca. Só permissão para ser o
que queremos, fazer o que queremos, e deixar-se levar pela loucura do
selvagem.

Isto é possível se se compreende que a psicologia feminina inclui este
profundo afinco à mãe-terra, que o ser uma com a natureza é intrínseco ao
ser essencial da mulher, e que se este aspecto não se põe de manifesto, a
lactância simplesmente não flui. Não somos tão diferentes aos rios, aos
vulcões, aos bosques. Só é necessário preservá-los dos ataques.

As mulheres que desejamos amamentar temos o desafio de não nos afastar
desmedidamente de nossos instintos selvagens. Costumamos raciocinar, ler
livros de puericultura e desta maneira perdemos o eixo entre tantos
conselhos pretensamente “profissionais”.

Há uma idéia que atravessa e desativa a animalidade da lactância, e é a
insistência para que a mãe se separe do corpo do bebê. Contrariamente ao que
se supõe, o bebê deveria ser carregado pela mãe o tempo todo, inclusive e
sobretudo quando dorme. A separação física à que nos submetemos como rotina
entorpece a fluidez da lactância. Os bebês ocidentais dormem no moisés ou no
carrinho ou em seus berços demasiadas horas. Esta conduta singelamente
atenciosa contra a lactância. Porque dar de mamar é uma atividade corporal e
energética constante. É como um rio que não pode parar de fluir: se se o
bloqueia, desvia seu volume.

Dar de mamar é ter o bebê a colo, o tempo todo que seja possível. É corpo, é
silêncio, é conexão com o submundo invisível, é fusão emocional, é loucura.

Sim, há que ser um pouco louca para maternar.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Por que ser um homem feminista

Esse é o pai do meu filho...
E depois de tanto tempo e tanta gente me dizendo que seria impossível achar um homem não machista, não homofóbico, não ciumento, eu digo logo: não é nada impossível achar um homem desses...

Texto retirado do blog dele: http://barraponto.blog.br/


Por que ser um homem feminista

aos 17 anos, ignorante do que significa a palavra clitóris, laís perde a carícia que eu poderia fazer-lhe com os dentes; eu, incapaz de seduzi-la para o feminismo que, homem que sou, tanto bem me faria, privo-me assim da alegria de vê-la sair das amarras de sua educação repressora, privo me também da alegria de acordar a seu lado e desfrutar o revigorante sexo da manhã, que a qualquer um anima para o café da manhã, manga ou outra coisa leve que dê energia suficiente para escalar a cama, o corpo amigo, energia para encher o peito e dizer aos amigos e amigas que a vida sexual anda deliciosa e que não há nada de errado nisso.

considero o sexo uma dimensão essencial do meu dia e do meu ser, e entristeço pelas milhares de laíses educadas todos os dias para a impossível tarefa de ser mãe e ser virgem, ser mulher e ser autômata, fria executora das tarefas da casa, proibida de descobrir seu corpo como eu pude, incentivado pelos meus colegas de escola, masturbação pouco discreta na sala de aula.

aos 13 anos meus, quando a menina demonstrava seu desejo, riam meus amigos de um escárnio surpreso, então ela também deseja, porque diabos temos nós que nos oferecer e insistir tanto, algo que ela também quer, deve desejar ansiosa como cada um de nós, rimos e sonhamos com aquele desejo no nosso ouvido, na nossa nuca, descendo pelo nosso peito e barriga e indo diretamente aonde nossa puberdade reina.

puta é a palavra que proíbe a menina de ser mulher cheia de desejo, que a faz procurar homem que algo mais espere dela e daqueles passos primeiros na descoberta do corpo e do prazer. puta é a palavra que faz dos meninos homens, a mão cheia de dinheiro, a mulher que se faz menina para subjugar-se ao homem que paga pela redução do seu prazer à rotina infernal do trabalho, obrigação que vinga a puta mãe que paga o futuro puto filho.

tinha vinte e poucos anos quando ouvi essa história da boca de uma mulher feita, daquelas que de outro jeito nasceu mas mulher virou porque quis e só encontrava espaço pra usar seu corpo no mercado onde podia vendê-lo. me enchi de raiva da confusão na minha cabeça, que de pequeno gostaria de vender meu corpo também para quem cheio de desejo quisesse, que eu não queria fingir ser o único a querer a mulher que finge que não me quer. então era normal se vender, mas era de se esperar um pagante homem, mulher alguma tem o direito de aproveitar um puto que seja, se puder deve ser escondido, deve ser daqueles bombados ou daqueles barbudos ou daqueles com cara de criança e eu já era gordo ainda por cima. dizem que sou novo, mas na verdade ando bem usado.

não sei se tirei essa vontade feminista das minhas aulas, das leituras, ou se simplesmente brotou como resposta óbvia à frustração do meu desejo: toda mulher cujo desejo eu zombo, escondo de mim mesmo esse desejo, procuro loucamente depois por ele, e deve haver alguma mágoa que o faz fugir e que me deixa a noite toda na mão. sempre pensei que num mundo onde muitos se masturbam, muitos poderiam colaborar, que eu sei que meu pau se parece mais com um pau do que qualquer dedo, todos meus dedos fechados ao redor do meu pau não lembram em nada buceta alguma (nem desde a escola onde minha criatividade era mais fantasiosa).

aí me lembro também que sexo findo, gozadas bem gozadas, eu posso chegar em casa contente e ler um livro, talvez um feminista ou uma ficção científica qualquer, enquanto laís teria que checar se nada na roupa dela melou, medo do pai bravo, e se nada dentro dela ficou, imagina, mais medo do pai bravo, e uma incerteza absoluta do que eu faria, se largaria foucault ou o nintendo wii pra ter um filho ou se iria jogar longe dela pra me livrar da responsabilidade. é verdade que seria grande, e que me daria medo, e eu nem tenho pai bravo e nem teria que ouvir puta palavra a respeito, mas pra entender me falta ser feminista do tipo que faz filhos, coisa pra que me falta idade, sorte e filho. talvez em maio.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Dor e Prazer

Esse texto saiu em resposta a um email que li num dos grupos de emails sobre parto. O email era de uma moça falando da falta de apoio que tem tido em fazer seu parto normal; a pressão pela cesárea, as histórias horríveis de parto normal, o deboche da "maluca que gosta de sentir dor".

Aí vai...

DOR E PRAZER

Estamos numa cultura que nos arranca direitos enquanto mulheres e seres humanos...e em relação ao parto, eu acredito que isso se manifeste em duas vias:
A primeira é a medicina "científica" e alopática, tão arrogante e que tanto combina com esse jeito maluco que vivemos hoje, em que se combinam séculos e séculos de tabus em relação ao corpo, que nos fizeram fechar os olhos e em nós mesmos não prestar atenção, com o ritmo louco de trabalho e vida que levamos, em que trabalhamos muito mais do que estamos com quem amamos e fazendo o que queremos, e em que só podemos entender de uma coisa e, se não temos um canudo da medicina, não somos capazes de compreender e escolher o que fazer com nossa saúde; essa medicina buscou suas fontes em nossas avós e nossos indígenas, deles expropriou o conhecimento e nas nossas matas se embrenha para fazer lucro, muito dinheiro...Existe uma cultura que sustenta isso, que sustenta a ideologia da cesárea e das intervenções, assim como a cultura de se tomar mil analgésicos e não suportar a dor. Essa concepção de dor como algo insuportável me parece muito conveniente tanto a indústria farmacêutica como ao ritmo louco de trabalho ao qual estamos submetidos, em que não nos é permitido seguir o ritmo do corpo.

A segunda razão é o machismo que ainda permeia nossas mentes. Simplesmente somos vistas como seres quebrados e passíveis de problemas, nosso corpo é tratado como uma coisa hiper frágil o tempo todo, e agora além de tudo somos tidas como incapazes de fazer algo para o qual fomos projetadas: o parto. Como se já não bastasse nos dizerem que somos menos capazes na escola (isso é sério, tem muita pesquisa falando de "fracasso" escolar atribuindo o "fracasso" das meninas a uma certa incapacidade natural - quando na verdade, a maior fracassada é a escola...enfim), que somos incapazes de ter força física e nos defender sozinha, que somos incapazes de dirigir bem, incapazes de sentir prazer sexual, incapazes de sermos amigas (ai, como eu odeio quando falam que amizade de mulher não existe!!), agora vem me dizer que eu sou incapaz de PARIR??????Desde que os primeiros homo sapiens apareceram as mulheres estão parindo, que palhaçada é essa agora? Pois é, séculos e séculos de machismo na construção de nossa sociedade, séculos de machismo construíram nossa educação de hoje, e brigar com isso é, dentro de nossas próprias mentes, muito muito muito difícil.

Mas é necessário!! Precisamos nos unir, precisamos conversar, expor tudo o que sentimos, lutar e nos dar força, segurar as mãos umas das outras, e aí levantar a bandeira da dignidade e da vontade...Na verdade, há umas décadas atrás, parto era uma coisa horrorosa de verdade, feito por freiras e coisas assim...Imaginem uma freira e seus tabus ultra-machistas e anti-sexuais da Igreja numa coisa tão sexual como um parto, é quase um estupro! Nesse contexto, estando ainda numa sociedade machista, médicos de branco te cortando sem sentir nada, frios que nem uma pedra, são realmente melhores! As pessoas estão bem acomodadas paradas, sem lutar, numa eterna anestesia, num marasmo, numa frigidez...E depois não sabem de onde vem a maior enfermidade de hoje: a depressão...Sentir é na nossa sociedade uma coisa proibida, uma coisa que atrapalha, um problema, um tabu. Dor e prazer são coisas indissociáveis, são consequência de estarmos de coração e corpo e alma abertos para o mundo e focados em nós mesmos.

Hoje fiz ultrassom com uma médica nova, que ficou me perguntando se eu acho que aguento a dor, com um risinho de canto. Falei que já há tempos tentava respeitar o ritmo do meu corpo para sentir a dor (no caso, das minhas cólicas de sempre, nada fracas), e que faço um enorme esforço já há uns anos para desconstruir a idéia de dor que temos por aqui. E ela se calou.

O medo sempre foi uma eficiente ferramenta de repressão. Mas busquemos nos nossos sentidos, no carinho, na cumplicidade, a energia para ter coragem...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sobre o aborto

Escrevi este texto depois de refletir muitíssimo nos últimos meses sobre a questão...Enfim saiu, a partir de uma discussão na lista de emails da Pedagogia Unicamp...Gestação de uns 4 meses para o texto!heheheh
Para quem gosta, está no blog tb.
Até!

Isa

Sobre o aborto e o direito de escolher

Antes de tudo: Se querem defender o direito a vida, comecemos a defender o direito a alimentação, antes de qualquer outro. Com metade do mundo já nascido passando fome e morrendo de desnutrição, enquanto uns poucos comem caviar e passeiam de Ferrari, me parece bem claro onde está o maior atque ao direito a vida...Direito a vida? Então vamos lutar para pôr em prática o SUS, para que haja programas de habitação decentes e realmente sérios, para que a polícia não invada a favela e pratique execução sumária, para que a educação forme pessoas conscientes de si mesmas, e não gado marcado. Aí sim a gente pode discutir direito a vida de fetos que ainda nem nasceram. Porque falar de direito a vida só para colocar crianças no mundo me parece bem vazio...

Falo aqui como mulher, feminista e grávida, que escolheu ter um filho nesta hora da vida com o companheiro que tenho ao lado (e portanto, me sentindo plenamente responsável pelos meus atos).

O aborto não é defendido como prática contraceptiva por NENHUMA feminista, e portanto, não seria um método contraceptivo. A questão é, antes de mais nada, que mesmo que se suponha uma sociedade em que o mínimo de direitos fossem garantidos, e que a mulher e o homem conhecessem seus corpos de verdade e usassem direitinho e com total conhecimento os métodos contraceptivos que fossem adequados a seu metabolismo, ainda assim existe uma margem de risco da mulher engravidar. Conheço gente que acabou de ter nenem tomando anticoncepcional e com um quadro não muito favorável à concepção (obesidade, no caso). Ou seja, falar simplesmente em pílula e camisinha como defesa anti-aborto não faz sentido: somos as primeiras a defender o uso de contraceptivo, e mais, defendemos ainda a educação sexual como princípio para a garantia de uma vida sexual plena e responsável. Mas e quando o contraceptivo não funciona, e aí, como fica o nosso direito de decidir? A mulher é obrigada a gestar e parir uma criança que não quer? O homem que fez o filho é obrigado a ser pai? A vida começa no zigoto para os cristãos e para algumas pessoas que tem isso interiorizado, mas o Estado é LAICO e é simplesmente inadmissível que uma concepção de vida que vem de uma teoria religiosa venha me dizer o que fazer ou não com meu corpo e com a minha vida. O Estado que não legaliza o aborto e se diz laico se coloca a serviço das Igrejas e suas inquisições, e não respeita o direito de escolha religiosa ou atéia das pessoas. Além disso, o impacto de um filho para o corpo e principalmente para a mente é algo que jamais deve ser imposto: simplesmente se uma mulher e um homem não se sentem prontos para ter um filho, ela deve ter o direito garantido de não tê-lo.

Acho bom desenvolver um pouco mais sobre o que significa de verdade o direito ao aborto, uma coisa que muitas vezes fica oculta e se perde até na "praticidade" estúpida de se repetir uma frase, de se puxar uma bandeira que não se sabe muito bem por quê. Para mim, a questão começa muito antes da saúde pública(sem excluí-la da questão, é claro). Trata-se do direito de decidir, que é algo completamente violado e perdido em nossa sociedade, principalmente para nós mulheres.

Sobre os homens: em uma sociedade em que temos tantos tabus e uma divisão sexual das mentes, em que homens e mulheres não podem ser amigos(ainda que isso esteja mudando) e em que haja tanto de estereotipação e padrões comportamentais estipulados pelo sexo biológico, como se conversa para se decidir sobre um filho? Se não existe conversa, se não existe cumplicidade entre as pessoas inclusive no sexo, como evitar que um homem use uma mulher como objeto e uma mulher use o homem como um banco, ao dar nele o golpe da barriga? Os homens também têm seu direito de escolher negado, e muitas vezes não se tornam pais de verdade, servem apenas para mandar dinheiro. Sendo oprimidos mesmo estando na condição de opressores, são prisioneiros dos padrões impostos, e obrigados a bancar um filho sobre o qual nem pensaram se queriam ter. Sem a liberdade da cumplicidade, com a mercantilização e objetificação das relações, o homem também não poderá refletir sobre o que é ser pai, não terá como expor isso a mulher, e estará sujeito ao destino e a pensão alimentícia, e ela então estará sujeita a assumir sozinha algo que não necessariamente pode carregar(e no fim das contas, quem dá mesmo a palavra final, quem carregará criança e amamentará é a mulher, e portanto, ela deve dar a palavra final sobre ter ou não o filho)...

Agora sim, sobre nós, mulheres:
Não temos direito de decidir desde cedo, quando nos negam que conheçamos e exploremos nossos próprios corpos. Hoje vejo isso começar a mudar, mas desde pequenininhas somos proibidas de nos tocar e nos conhecer. Viramos adolescentes neuróticas com o aprisionamento do padrão de beleza, negamos ao nosso corpo a sua natureza e seu metabolismo(as magrinhas são "tábuas", as gordinhas são "bujões", os cabelos nos rendem horas no salão, as nossas celulites são motivo de choro e risos alheios), somos escravas de tabelas de gorduras e calorias e só conhecemos de nosso corpo o que sirva para deixá-lo como a mulher da passarela; não respeitamos o funcionamento normal do corpo quando nos entupimos de remédios p/ cólica e não temos o direito de respeitar o ciclo da lua que existe em nós, de nos recolher no cansaço e na dor dos dias da menstruação e de nos exibir e entregar a euforia deliciosa e voluptuosa dos dias férteis. Temos que funcionar sob um relógio que não nos respeita em absoluto, que só conta as horas, e não aprendemos a lidar com o próprio corpo, aprendemos a entorpecê-lo. Existe um tabu, uma burca em nossas mãos ao buscar o prazer, uma burca em nossos sentidos, tecida no medo da dor e no estigma da puta sem valor que mitifica a primeira vez, uma burca de vergonhas e estigmas ao buscar um/a parceiro/a, ao deixar revelar nossas vontades e fantasias, uma burca em nosso gozo e em nossos gemidos. E com a mercantilização da revolução sexual, ainda temos a pressão igualmente opressora de ter que transar para contar pras amigas, de escolher o bombadinho da academia(ainda que ele te machuque toda noite com a grosseria) de ter que agir como uma atriz pornô na cama para agradar o machão, de ter que ler na Nova mais mil e uma formas de enlouquecê-lo... Pois é, no fim, tanto em um caso como no outro, não temos vazão às nossas reais vontades, temos a obrigação de sermos santas e putas ao mesmo tempo, a obrigação de dizer não para o carinha que mal conhecemos que nos dá uma vontade e dizer sim ao namorado, ainda que a gente não esteja afim naquele dia.
Entre a cruz e a espada.

E finalmente, em algum momento de nossa vida SEXUAL ficamos grávidas (para não esquecer: grávidas ficaram grávidas fazendo sexo...pois é, para mim também é óbvio, mas para a maioria das pessoas não é), e aí um monte de coisas passam pela nossa cabeça (já que muitas não passam pelo nosso estômago) e uma série de coisas vêm em cima de nós, tabus, medos, crenças, consequências...A menos que estejamos casadas há 5 anos e estejamos no auge da carreira, seremos julgadas por todo mundo, e não importa muito qual seja nossa decisão, ou o que somos...Como contar para o pai, como ele vai reagir, o medo de ficar sozinha, se eu quero mesmo ter um filho, se eu posso tê-lo, se minha cabeça dá conta de um aborto ou de um filho, se eu consigo assumir o risco e o medo de um aborto não seguro, como meu corpo vai ficar depois de uns 10 quilos a mais, o tabu absoluto da dor insuportável do parto, como vão reagir meus pais, os olhares moralistas das amigas e até de alguns parceiros quando falamos que estamos subindo pelas paredes de tesão(como se a gravidez não fosse um período cheio de hormônios e de redescoberta do corpo da mulher)...E mil e uma transformações no corpo: sono excessivo, enjôos até o 3º mês, inchaço e câimbras nas pernas, fome maluca depois do 3ºmês, retenção de líquido, libido lá em cima de subir pelas paredes, blues pós parto (estado de tristeza causado pela queda de hormônios), uns 12 quilos a mais, possíveis anemias e falta de nutrientes, altos e baixos de humor, sensibilidade excessiva...E nem todo mundo está preparado para tudo isso. E as pessoas em geral tem um julgamento horroroso da situação, quase sempre catastrófico, seja pelo aborto ou por seguir com o filho....Se o fizemos, é porque na opinião de alguns, "matamos uma criança" (que nos mataria e consumiria por dentro), se não o fizemos e estudamos ouvimos que é uma pena porque nosso futuro era brilhante, se trabalhamos e não estamos bem estabelecidas sentiremos o medo de nunca mais ter sucesso, se não tivermos o pai do lado (leia-se: se vc não estiver com a aliança dourada na mão esquerda) será pintada de abandonada (ou de puta, em alguns casos), se de esquerda e feminista, aí o bixo pega de vez, os moralistas de esquerda vão dizer que não somos mulher o suficiente para abortar (como se não pudéssemos querer ter o filho!)...

Pois é, aí começamos o pré-natal e o médico não nos explica nada sobre nada de nossos corpos e daquele ser que está ali crescendo dentro de você, ele só mede um monte de coisas e prescreve mil outras, e nem sabemos muito bem para que serve aquilo tudo e se gostaríamos de tomar aquelas coisas se soubéssemos como foram feitas. Não falamos de parto, isso é tomado como algo arriscado sobre o qual nós mulheres não temos nenhum conhecimento (embora façamos isso desde que o homo sapiens está na Terra, literalemente), e por isso não podemos decidir sobre como queremos parir, só podemos decidir entre o parto "normal", cheio de intervenções e dores, e a cesárea e seus riscos de infecção e sua terrível recuperação, se tivermos dinheiro para ela, é claro. Mais uma vez, não podemos decidir livremente sobre nossos corpos, nos infiltram uma imagem de parto sofridíssimo e inumano, a la freiras dos anos 40 (sim, em muitos lugares freiras faziam o parto...e diziam absurdos, como "foi bom p/ fazer o filho, agora sofra a dor"; quando surgiu a possibilidade tecnológica de anestesia total para parto, lá pelo século XIX, a Igreja Católica foi contra, porque "a mulher tem que sentir a dor do parto e sofrer para se purificar e subir aos céus), e, muito antes de começarem as contrações (que não doem para todas as mulheres) já esperamos, por 8 meses desde que sabemos de nossa gravidez, uma dor insuportável, e quando as contrações começam, estamos tensas e já nos colocam deitadas e amarradas, e não podemos nos mexer para aliviar a dor ou para deixar fluir o prazer (sim, existem mulheres que sentem um prazer louco durante o parto), e nem podemos gritar e gemer, já que o hospital e o ritmo mercadológico do mundo mais uma vez não nos permitirá seguir o ritmo do próprio corpo, nos colocam numa posição de incapazes (como já fomos incapazes de votar, de estudar, de sentir prazer, de viver sozinhas, de trabalhar), incapazes de fazer algo para o qual nosso corpo é projetado; se nosso corpo gosta ou grita de dor, nos metem uma injeção para que não o sintamos e não expressemos o auge de nossa sexualidade; se nosso corpo não tem o ritmo rápido que permita aos médicos não perderem a hora de seu jogo de tênis, nos metem a faca e arrancam violentamente de nosso ventre o novo ser (a recomendação da OMS de cesáreas é 10 a 15% - nos hospitais particulares de São Paulo, a taxa de cesáreas vai de 70 a 90% - é bem claro que nem todas são necessárias). Não nos deixam saber o que ocorre de verdade com nosso corpo, e assim somos submetidas a um tratamento que nem temos noção de como é, e muito menos noção sobre sua real necessidade.

Antes de tudo, o direito de escolha depende de como estamos posicionados no mundo, e do quanto sabemos sobre nós mesmos e sobre o que está a nossa volta. Não existe direito de escolha se não sabemos como funciona nosso corpo, não existe direito de escolha se somos educadas com terror e moralismo e não com diálogo e verdades, não existe direito de escolha se nos subjugamos e oprimimos. Não acho que haja direito de escolha absoluto em nossa sociedade hoje, nem para os homens nem para as mulheres (mas menos ainda para nós). Todos os dias eu busco o meu direito de escolha; escolhi um companheiro, escolhi ter um filho, e agora estou escolhendo meu parto. E ainda assim sei que tenho algum direito de escolha porque sou de classe média e portanto posso comprar livros, acessar a internet regularmente para buscar informações e bancar um aborto menos inseguro ou tratamentos diferenciados durante a gravidez e porque estou numa grande universidade, que sempre aglutina informações cheias de diferentes posições e interesses, o que me dá ferramental para uma reflexão mais ampla. Se não fosse assim, provavelmente estaria com nada de direito de escolha. Só podendo decidir podemos ser livres e verdadeiramente responsabilizados pelas nossas atitudes.

Eu não julgaria uma mãe que foi obrigada a sê-lo por rejeitar seu filho... Como vou responsabilizar alguém por algo que não pode escolher?

E é ao direito pleno de escolher, indo no fundo da consciência e bem longe na informação, que se pode falar em liberdade.

Até.

Isadora Franco.