sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Em 2010...

Em 2010,
Me casei e a cerimônia foi uma das noites mais chatas da minha vida.
Em 2010,
Levei uma vida de casada e foi a vida mais livre e mais deliciosa até agora.
Em 2010,
Pari e foi uma alucinação, um desafio, uma graça alcançada na minha trajetória de voltar à Deusa Terra.
Em 2010,
Me apaixonei a primeira vista perdidamente pelo homenzinho mais lindo do mundo.
Em 2010,
Enfim....Vaca!! E profanérrimaaaaaaaaaa....
Em 2010,
Voltei a ter um lado espiritual, dessa vez mais orgânico, menos moralista e mais natureba.
Em 2010,
Tive ao meu lado as pessoas mais lindas desse mundo, que em tudo me ajudaram e fizeram dessa história de amor coletivo uma coisa tão concreta que me enche de felicidade.
Em 2010,
Mergulhei mais fundo em mim mesma do que poderia imaginar mergulhar.
Em 2010,
Eu comecei a permitir dentro de mim mesma que o sexo seja um ritual de apaixonamento.
Em 2010,
Eu tive os melhores e maiores orgasmos da minha vida.
Em 2010,
Meu corpo virou uma fruta madura, doce e vistosa, como uma manga que se chupa e se lambuza cheia de fiapos...
Em 2010,
Eu comecei a sair do armário.
Em 2010,
Eu desabrochei.
Em 2010,
Eu não concluí uma única matéria, mas aprendi mais que em qualquer escola.
Em 2010,
Eu renasci mais forte, mas não das cinzas, e sim da terra que existe dentro de mim.

Que felicidade mais simples eu experimentei em 2010,
uma felicidade longe dos consumos que nossa vida capitalista tanto exalta,
uma felicidade longe de cultivar a posse do outro que nossa vida monogâmica tanto quer,
uma felicidade longe das capas de revista feminina que nosso machismo tanto sonha,
uma felicidade muito mais próxima da entrega absoluta que nosso mundo de jogo e vencedor tanto despreza,
uma felicidade de corpo sadio muito mais sólida que euforias tóxicas indigestas,
uma felicidade de verdade, muito mais profunda que qualquer outra alegria passageira.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Obrigado a Deus por MIM, pela MINHA graça alcançada

Pois é, para quem não sabe o que aconteceu: sofremos um śerio acidente de carro, o carro morreu na estrada, em plena rodovia dos Bandeirantes, cuja velocidade máxima é de 120km/h.Claro que bateram. Mortes? Não. Feridos? Sim, eu, mas nada de grave, nada que umas 2 ou 3 semanas de repouso para a perna e o braço não curem, talvez uns dias de fisioterapia, e só.

E aí o povo vem com aquela coisa "agradeça a Deus", "Deus lhe ama muito", "mesmo sendo atéia eu ascenderia uma vela de agradecimento", "é um milagre vcs estarem aqui"...

Eu acho isso tudo muito curioso. Quase ninguém que eu conheço usa cinto de segurança devidamente e em todos os bancos, todo mundo xingou a lei da cadeirinha dos bebês nos carros, boa parte dos motoristas só volta pro limite de velocidade no pé do radar, boa parte(e isso vale para mim!) adia as trocas de manutenção preventiva das partes do carro, uma parte leva em mecânicos suspeitos(o que aconteceu com o meu carro) para pagar menos ou simplesmente porque é o mecânico que está ali perto, boa parte das mulheres nem se interessa por entender o próprio carro que usa, quase todos os homens que entendem não explicam às poucas que querem entender, os carros de antigamente eram feitos para proteger a lataria e não os passageiros(e o meu amassou todinho, inclusive a porta onde estava o Pi, mas segurou tudo e nos protegeu muito bem)...

E aí as pessoas terceirizam(prática comum para tudo nesses tempos em que vivemos) as causas de tudo o que acontece para um nome, com letra maiúscula, masculino e singular, a quem devemos agradecer tudo e nos ajoelhar o tempo todo...

Se estamos vivos, não é porque estávamos de cinto e o Pi na cadeirinha, é porque Deus quis. O carro morreu porque Deus quis que passássemos por isso. Ir tirar satisfação com o mecânico que trocou a bateria? Assumir minha parcela de culpa? Falar a todos que usem cinto? Balela, foda-se se o mecânico vai colocar bateria ruim em outros carros e arriscar outras vidas, foda-se que as pessoas continuem sem usar cinto e cadeirinha, foda-se que as pessoas continuem negligentes.

O que importa é a MINHA graça alcançada.

Será?

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Cio da Deusa

Cio da Deusa

Vida nova a todos nós, todos os dias.
Que a terra nos presenteie esse ano,
com comida e amor,

Que a Deusa em seu cio, estimulada pela luz de sua metade,
Regada pelo cristal das chuvas,
Brote suas sementes,
Nos abra os sentidos,
Para que escutemos o chamado do silênco,
E respiremos o cio da terra,
Clamemos por ele.

Gritemos o nosso cio.
Em sonhos, em sangue,
Em campos, em sexos,
Em partos, em gozo,
Em mãos, em pés.

Liberdade para fluir o amor,
Esse cio desesperado,
Fogo que ascende a terra que é nosso corpo,
Faz jorrar nossas águas,
E nos enche da leveza do ar.

Unamo-nos,
Alma, corpo espírito,
Num cio louco
E agradeçamos a terra,
Essa Deusa,
Que toda a vida nos dá.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

10 anos

Ontem, 10 anos.

E hoje vejo o seu sorriso, que antes me pegou no colo, naquele que hoje, tão pequenucho, eu pego no meu colo.

Saudades...

E sempre teremos nosso reencontro, nas minhas memórias infantis...

E quem sabe, se por acaso existirem essas energias leves que animam a matéria, não nos encontraremos em um plano distante?

E quem sabe, se neste mundo de matéria em que tudo se transforma, não nos encontramos transformados em sementes de uma linda mangueira?

Mas quer maior reencontro que este sorriso no meu colo?

sábado, 27 de novembro de 2010

6 meses!!!!!!!!!!

Hoje o Pi completou 6 meses...
6 meses de saúde, tranquilidade, descobertas, transformações, intensidade, e de AMAMENTAÇÃO EXCLUSIVA!!
Com muito orgulho e alegria, completamos essa etapa!

De:
3,640kg no nascimento para 6,125kg com 5meses e meio;
52,5cm para 66cm;
1 febrinha só nesse tempo;
umas poucas cólicas;
1 gripezinha;
1 assadurinha chata.
E muitaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa curiosidade!!!

Hoje ele experimentou pela primeira vez(ao menos a primeira não acidental, porque ele estava louco para comer e as vezes arrancava bananas e frutinhas das nossas mãos...hehehe) suco de melancia, se lambuzou todo e tomou um monte, adorou!

E depois mamou que nem um louco no colo da mamãe(o que me deixou tremendamente feliz, porque eu não quero parar de amamentar até pelo menos os dois anos!).

Quero agradecer com todo carinho a todos os que estiveram presentes nessa jornada da maternidde ativa!

Primeiro, a todas as mulheres nessa jornada linda antimachismo e antimisoginia, rompendo todos os tabus que aprisionam nossos corpos, nossos partos, nossos peitos leiteiros, que nos dizem incapazes e nos mutilam dos deliciosos prazeres (sexuais, inclusive) da maternidade. A todas as mulheres do Parto Humanizado e Maternidade Ativa, meu imenso agradecimento, por toda a informação, apoio psicológico(virtual e presencial), depoimentos, alegrias... Em especial, claro, a Ana Cris, a Lara, a Ana Paula, a Larissa, a Priscila e a Maria Clara, que estiveram nos rodeando com todo o aparato da melhor assistência, que toda a mulher deveria ter nessa hora - e um dia nós conseguiremos esse direito!

A minha mãe e minha avó, mulheres de ferro, que eu quis honrar nesse processo, e o fiz com muito orgulho...Mulheres de quem tive referência, e que me deram forças (minha avó, pela história na minha memória, minha mãe, por tudo, desde me ter concebido, a ter passado 1 mês aqui comigo).

Ao meu pai, que brigava com alguns machismos dele, que eu tenho como referência de homem carinhoso e pai presente...Lembrança forte dele abraçando a minha mãe, contando piada com a minha avó, e limpando a casa com as músicas italianas...Saudade!

Aos meus amigos que estiveram por aqui todo esse tempo, por quem nos apaixonamos todos, desde a gravidez até os meus momentos de solidão pós parto, fazendo de tudo, da risada à arrumação do quarto...E até aguentando meus surtos de ódio, hehehe...Amigos que estiveram aqui tanto para rir das gracinhas do Pi até lavar lençóis sujos de sangue, para compartilhar indignações e conspirar revoluções...

Ao Seu Tião, que tantas coisas lindas me diz desde a gravidez e que tantas vezes me fez comida quando eu ficava sozinha em casa, louca de fome, tantas vezes segurou o Pi para que eu tivesse descanso; a todos da República do Pesto, essa comunidade linda onde eu moro, que me nutri da melhor comida, do ambiente mais sincero e gostoso, da compreensão e do companheirismo, que por um tempo até me dispensou de fazer limpeza da casa...

Mas a ninguém eu devo tanto quanto ao Capi.
Agradeço a loucura, agradeço ao fato de vc existir, agradeço todos os dias por vc ter tido a maluca ideia de falar de ter filho, agradeço por toda a paciência que vc teve comigo, todas as lágrimas que vc secou(de antes de te conhecer inclusive), toda a sua vontade de ir contra o machismo e contra a maré do mundo, agradeço por você se preocupar comigo de tantas formas, por vc me dar força para quebrar tantas correntes, por sonhar comigo, por ser meu mais delicioso amante, por realizar meus devaneios e por me fazer demolir um milhão de salas de jantar...Você é o pai mais dedicado que eu conheço, um homem sem igual, um homem de verdade. Eu te amo, Capi, e não teria chegado no grau de felicidade de hoje sem vc.

Violentada na maca

Inspirada por uma conversa com um amigo e pelo post que acabo de ler no Blog do Sakamoto, sobre o último dia 25(Dia Latino Americano e Caribenho contra a Violência a Mulher), resolvi escrever sobre uma violência que sofremos e que é pouco falada: a violência médica.

Nosso corpo, pecaminoso perante a Igreja, dito quebrado perante nossa cultura misógina(que não por acaso ama o Freud, que é um exemplo claro de misoginia científica), ganha uma nova dimensão de fragilidade: a medicina o toma e impõe padrões sobre seus ciclos, detecta todos os possíveis(e nem sempre prováveis) problemas e doenças, modela nas cirurgias plásticas, dita, manda, se apropria do conhecimento que nós mulheres deveríamos ter sobre ele, sem nunca nos retornar...

Ginecologistas abrem as nossas bucetas pedindo "licença", como se fosse isso que significasse respeito a nós, como se respeito não fosse nos explicar como é o exame, mostrar o que eles estão colocando dentro de nós e o que tanto procuram por lá. Fecham sem nem nos perguntar se sabemos o que há ali dentro, sem nos explicar o que é o "está tudo OK" que dizem ao fim do exame, e sem nos perguntar se também nós achamos que "está tudo OK". Não nos perguntam de nosso histórico familiar de doenças (e que dirá de nossas práticas sexuais, para saber se precisamos de anticoncepcionais, nossas opções de vida e de alimentação, etc etc etc) nos metem pílulas anticoncepcionais, não nos elucidam sobre seus possíveis danos e seus efeitos colaterais, não nos contam sobre outros métodos anticoncepcionais menos farmacológicos e agressivos. Falta de orgasmo, dificuldades com ele? Prevenção no sexo entre mulheres? Relações afetivas? Não é assunto para o ginecologista!!! Assunto de ginecologista é te perguntar com quantos anos vc teve a primeira relação e dizer "nossa, tão novinha", é te perguntar que método vc usa e ouvir, depois que vc diz "eu quero ter um filho" que "não é hora", é dizer, depois que vc e o pai da criança exigem que ele te acompanhe no exame durante a gravidez e ouvir "quero ver se ele vai fazer questão de entrar quando o bebê estiver chorando", é dizer, durante o exame na grávida, com um riso de canto "vc acha que aguenta a dor de um parto natural?"...

Se vc chegar num ginecologista assustada, depois de uma relação não tão legal, uma forçada de barra de um cara, alguma coisa que vc não queria e não soube como dizer não(porque isso ninguém lembra: quantas vezes nós mulheres sofremos violência e não conseguimos reagir, porque não conseguimos dizer não?), dolorida na buceta e na alma, encontrará um ginecologista que não te diz bom dia, é grosseiro e te manda para casa porque "está tudo OK?". Está tudo OK? Eu chego com os olhos cheios de lágrimas, assustada, com dor, e vc me manda embora com uma cara de poucos amigos, como quem me faz um favor, dizendo "Está tudo OK"?

E aí, um belo dia, vc diz ao médico "estou grávida". Pronto, agora nada está OK...Começa a paranóia..."Eu tento parto normal, mas a gente vê na hora"...Medo do parto? Dor de parto? Formas de parir? Quais as intervenções que rolam? Como eu estou me sentindo? Insegurança? Humor maluco? Será menino ou menina? Tudo isso não é importante, não é assunto de ginecologista. Pode deixar que o ginecologista sabe tudo o que é importante da sua gravidez e do seu corpo, e vai saber exatamente o que fazer, vc, mulher, não precisa pensar. E aí, se ele não tiver encontrado cordão enrolado em qualquer grau, bebÊ sentado, diabetes gestacional, e mais um milhão de desculpas para marcar uma cesárea*, a mulher entrará em trabalho de parto! Sentirá uma contração dolorida, talvez alterações de humor, um desconforto gastro-intestinal fortíssimo, ai, chegou a hora...Todos os medos e todos os horrores que vc ouviu sobre parto a vida toda são ativados na cabeça da mulher: "parto é a pior dor que existe", "fulana teve parto normal e aconteceu isso, isso e isso", "a vagina rasga", "o marido que vê a mulher parindo deixa de a ver como 'mulher'"...Ela vai para o hospital, no primeiro sinal(e muitas vezes,nem é trabalho de parto, é pródromo** - mas ela não sabe nem que isso existe!). É colocada numa cadeira de rodas(sendo que ela pode andar, e até lhe faria bem...Ficar sentada nas contrações beira o insuportável de dor), dá tchau para seu companheiro/mãe/amiga ou qualquer pessoa de sua confiança(o que é direito da mulher, ter um acompanhante de livre escolha, mas não é respeitado em quase hospital nenhum - e isso não é frescura, existe uma vasta literatura científica atestando o quanto isso facilita o parto), se despe de sua roupa e seus acessórios e é obrigada a vestir camisolões feios e impessoais...Fazem lavagem intestinal(metem um aparelho lá para tirar todo o cocô, sem lhe perguntar se ela quer fazer isso, sem esperar que seu próprio corpo faça, ignorando seu constrangimento e anos de educação anti-escatológica), raspam seus pêlos(sem te perguntar), e ela então é colocada numa sala em que não pode gritar(e como é bom gritar nas contrações...), às vezes com outras mulheres em trabalho de parto, sem saber direito o que está acontecendo, assustada e sozinha, deitada quase sempre de barriga para cima(toda grávida sabe. todo ginecologista indica: não deite de barriga para cima na gravidez, porque isso prejudica a circulação de oxigênio para o útero, além de ser hiper desconfortável)...De tempos em tempos, vem uma enfermeira meter o dedo em sua buceta pedindo "licença" - ai, como eu odeio essa história de pedir licença! - para ver sua dilatação, que a mulher muitas vezes nem sabe onde é(eu achava, antes de me informar, que era a vagina que alargava, e não, é o colo!!)...Depois de um certo tempo, metem o "sorinho", com um hormônio artificial chamado ocitocina (a ocitocina natural é produzida no corpo durante a relação sexual, quando vemos alguém que amamos muito, quando amamentamos e adivinha? No parto!!! Ela é a responsável pelas contrações e dilatação do colo do útero. É daí que muitos médicos dizem que vem a ideia de que a mulher pode sim gozar no parto; mas essa versão artificial aumenta muitíssimo a dor, além de aumentar os riscos de ruptura uterina; a ocitocina artificial só deve ser administrada em casos em que é indicada a indução de parto), e aí, bom, a coisa pega...a mulher sozinha, não pode gritar, com uma dor insuportável, amarrada - nervosa, níveis altos de adrenalina antes da hora - o medo no parto aumenta as chances de sofrimento fetal(desaceleração grande dos batimentos cardíacos do feto - indicação de cesárea absoluta), mecônio(quando o bebê faz cocô no útero), além de fazer a musculatura(e advinha, o colo do útero é musculatura!!) contrair loucamente...Sabe a história do relaxa senão não encaixa? E aí, aquela história, bebê não encaixa, metem um fórceps, puxam o bebê pela cabeça(e vai diretinho para a UTI) e arrebentam toda a buceta da mulher!! Vai sair o bebê? Apesar da humanidade estar aqui há tanto tempo, eles ainda acham que a vagina não estica para ter o bebê e metem um corte na vagina, chamado episiotomia, uma mutilação da musculatura do períneo, que causa dores, dificuldade de cicratização, e o pior, perda de prazer sexual...

Aí, saído o bebê, cortam o cordão rapidíssimo, a criança nem tem tempo de aprender a respirar, chacoalham, limpam com panos, mostram para a mãe e somem com a criança...No momento que poderia ser o mais mágico da vida dela, a ocitocina num pico como ela nunca vai sentir em outro momento, levam o novo ser, por quem ela poderia se apaixonar na hora, se perde...E aí, lá vem um vazio, uma tristeza, um buraco...

O parto "normal" da forma como é feito hoje é um estupro, com sequelas terríveis e inimagináveis.

E aí, quando a mulher volta ao ginecologista, 40 dias depois, ela vai relatar o quanto é infeliz por ser mulher.

A humanização da saúde é uma necessidade urgente - principalmente para nós mulheres.

Hoje, depois de ter tido um parto bem assistido, com meses de preparação, estudo, reflexão e transformação, e com uma ginecologista que realmente me respeita para além de pedir "licença", eu vejo o quanto fui violentada nesses meus 10 anos indo a ginecologistas babacas e desinteressados.

Até!

Para saber mais:

Parto Normal ou Cesárea - o que toda mulher deveria saber (e todo homem também) - Ana Cristina Duarte e Simone Grillo Diniz

Pesquisas no Google: "Medicina Baseada em Evidências" ; "Parto Huamnizado".

Documentários: "O Parto Orgástico"(Orgasmic Birth): http://www.youtube.com/watch?v=zG_6IVmXvr0&has_verified=1
"Nascendo no Brasil" - Desculpem, não tenho referências aqui...

Obs: 74% dos partos nos hospitais públicos são feitos sem anestesia no Brasil. Anestesia é um direito da mulher; deve ser uma opção dada a ela, elucidando todos os riscos e deixando seu corpo fluir, induzindo o parto apenas nos casos necessários. Mas o ideal é que haja uma preparação da mulher para o momento do parto, diminuindo consideravelmente a necessidade de anestesia.


* quasse nada justifica cesárea marcada. O ideal é que a mulher seja informada dos riscos de cada procedimento e escolha junto com o médico o que fazer (nos casos de indicação relativa de cesárea) e aí espere pelo trabalho de parto, a não ser em casos rarississíssimos em que a mulher não pode entrar em trabalho de parto - mas isso não chega nem a 1%, com certeza!!

** quando o corpo tem muitas contrações doloridas até, mas não ritmadas e não efetivas(não dilatam o colo do útero). Isso é um tipo de ensaio do corpo para o parto. Muitas mulheres confundem isso com trabalho de parto, devido a pouca informação, vão para o hospital e aí o médico começa com "não tem dilatação", e começa a induzir trabalho de parto...E muitas vezes, não rola, e a mulher acaba na faca! Eu tive, e comentei o meu pródromo no post "Enlouqueci".

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sobre a obrigação de amamentar

Resposta a esse post aqui do Mamíferas:
http://www.blogmamiferas.com.br/2010/11/amamentar-direito-ou-dever.html#comment-2329

Olá Tata!!
Primeiramente, eu concordo com você, quando diz que amamentar é um dever da mãe…
Mas antes, faço algumas ressalvas no que diz respeito a pseudo liberdade de escolha que temos nós mulheres sobre a maternidade:
1 – Antes de mais nada, nós não temos uma educação voltada para o auto-conhecimento, e assim, a escolha a maternidade. Com isso,na prática, nós não conhecemos nosso corpo. Aulas de biologia na sexta série mostrando figuras de útero não sao auto-conhecimento!!! Uma educação sexual voltada para o toque, a masturbação, a percepçãp própria do corpo, a observação, o prazer e aí sim, a livre decisão de ter ou não filhos ainda não existe. Sexo é tratado, na escola e na família, como tabu e problema propagador de doenças(nela, a gravidez também é vista como doença) que se lida na adolescência – inclusive ignorando a sexualidade na infância, que é um grande erro e um problema no auto-conhecimento posterior…
E eu digo isso com conhecimento de causa, já vi criança de 10 anos na escola me perguntando porque põe camisinha na banana quando vai fazer sexo!!!
2 – Também temos uma educação machista demais, que nos faz ceder demais; e por mais que as mães e pais e educadoras e que a sociedade verbalize que nós devemos nos afirmar e não deixar os homens transarem conosco sem camisinha, blá blá blá, no exemplo e nos contos de fadas, somos educadas a acreditar que ficaremos velhas chatas e mal amadas se ficarmos sozinhas, educação essa que faz com que nós tenhamos pavor da solidão, e aceitemos tanta coisa….Inclusive abusos dos mais variados tipos. Sem contar a educação dos homens, que faz com que eles se achem os donos do mundo e não nos respeitem nem um pouco, além de sempre jogar para cima de nós toda a carga de ter um filho.
3 – O acesso aos meios contraceptivos é ainda um problema de saúde pública. Além de todo o problema de saúde pública que afeta inevitavelmente a ginecologia, também há o problema de médicos cavalos, nada humanizados, que não nos escutam(tanto na rede pública quanto na particular) e nem olham com cuidado qual método é melhor para cada mulher, além de ignorar suas queixas e questões psicológicas intrínsecas do sexo. Eu acabo de descobrir, indo colocar meu DIU, que meu antigo ginecologista foi um irresponsável de me dar 4 tipos diferentes de pílulas com o histórico familiar de doenças vasculares que tenho.
4 – Bom, métodos contraceptivos falham…Sem legalização do aborto, ou no mínimo sua descriminalização, é IMPOSSÍVEL falar em maternidade como opção da mulher! As igrejas deveriam calar suas bocas e ficar nos seus templos, ao invés de levar isso para bancadas políticas. O Estado não deveria tomar partido de religião nenhuma, já que ele se diz laico! Liberdade sexual implica em domínio do próprio corpo, e filho não deveria ser castigo para mulheres sexualmente livres…
5 – Sem uma estrutura social que libere o casal para a maternidade e paternidade, a questão é complicadíssima…Como condenar uma mulher que não amamenta se ela até tem licença maternidade de 6 meses, mas é obrigada a dar conta de uma casa inteira sozinha, do cuidado com outros filhos, da pressão social para que ela seja “produtiva” para o Capital e tendo ainda que lidar com um marido inútil que não tira nem o prato dele da mesa(voltando a educação machista)? Nossas avós tinham uma rede de mulheres em torno para ajudar com tudo quando o bebê nascia, e nós cada dia mais estamos sozinhas…Não digo de voltar às antigas, e sim de reivindicar uma licença paternidade decente já! Só para começar…Eu optei por amamentar e estou chegando aos 6 meses de Pietro mamando exclusivamente, pretendo amamentar até os dois anos no mínimo, mas eu tenho apoio para não me preocupar com grana, praticamente nao me preocupar com a casa por viver numa comunidade, tenho um companheiro paterníssimo e hiper compreensivo inclusive com meu cansaço e com toda a questão psicológica que envolve a matermidade…Mas e as mulheres que sao deixadas pelos maridos? E as que tem que trabalhar para sobreviver porque não tem quem o faça por elas? E as mulheres hiper pressionadas pelo machismo dos comentários de que são fracas e de que não conseguem amamentar? E a pressão por seguir padrões de beleza, e a nossa cabeça com a ditadura dos peitos duros?

Por fim, digo que a amamentação não é um direito só do bebê – é um direito da mãe também!! Para que ela desfrute não só do bem para sua saúde que faz amamentar, mas também do tesão enorme que é! Eu digo mesmo, eu ADORO amamentar, mesmo ficando cansada, eu me sinto realizada e saciada inclusive sexualmente. E acho que esse mundo que faz disso uma dor e uma obrigação chata é um mundo machista e preocupado com o lucro de homens brancos capitalistas, isso sim!

Faço questão de dizer para todo mundo que amamentar é maravilhoso…
Sem contar o poder de ver nossos filhos crescendo e se desenvolvendo unica e exclusivamente com o nosso corpo…Ai, é demais!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Resposta a Lady Rasta

Blog da Lady Rasta - http://ladyrasta.com.br/2010/06/21/mulheres-babas-filhos-e-feminismo-parte-1/
http://ladyrasta.com.br/2010/06/22/mulheres-babas-filhos-e-feminismo-parte-2/

"Mulheres, babás, filhos e feminismo"


Bom, eu gostei de algumas coisas no seu post, mas outras eu não gostei mesmo…
Para começo de conversa, eu sou mãe do tipo “voltei de woodstock a pé”, como disse um amigo meu. Não vejo problema nenhum nisso e em ser assim.
Concordo que devemos ser mais do que troca fraldas e cuidar de bebê, e que algumas mães do meu “tipo” tem muitos problemas e um discurso bem ruim a esse respeito. Mas antes de mais nada, devemos desconstruir a ideia de que amamentar e cuidar de bebê é uma função da Maria assexuada- não há dicotomia entre filhos e sexo. A nossa relação com os filhos é profundamente sexual(e bem longe do Freud, ok?) – é sexual gestar, é uma delícia trepar de barriga, parir é profundamente sexual, e só quem teve um parto natural sabe o quanto pode ser PRAZEIROSO e até ORGÁSTICO parir – sim, a galera woodstock fala também de parto orgástico, e eu senti prazer no meu parto(não cheguei a gozar)- e amamentar é um tesão, é delicioso…vcs já transaram amamentando, ou se masturbaram? Só quem fez para saber o quanto é forte…Pois bem, acho que vc mesma, tentando não ser machista, falando que mães também tem sexo acabou sendo machista e dicotomizando uma coisa que não tem porque. Ser mãe é extremamente sexual,e não interessa o quanto a maldita igreja e toda a cultura ocidental fale.
Segundo que a própria galera que vc chama pejorativamente de woodstock também defende maior participação paterna na criação…
Eu na verdade defendo outras coisas…A vida em comunidade, que antes era nas mulheres que ficavam em casa e tal, era realmente um ponto importante, coisa que hoje foi extinta. Mas por que não retomar essa vida em comunidade? Por que não reformular a família, e ao invés dessa família heterossexual, monogâmica, patriarcal, vertical, baseada só no sangue e não no amor não reinventamos a família queer, poligamica, nem patriarcal nem matriarcal, horizontal e baseada no amor e na afinidade? No meu blog eu falo sobre isso.
Vc é do tipo de feminista que fala que a obrigação de amamentar é machista? Pois bem, isso eu discordo por completo. Não se trata de negar à mulher suas outras facetas da vida, e sim de ser responsável com o serzinho que vc coloca no mundo. Amamentar é importante demais para o bebê – o que é foda é nós termos que trabalhar que nem condenadas, nossos maridos nao terem licença paternidade decente, e não termos ninguém para nos ajudar em nada, nem na nossa renda, além de ter que ouvir comentários do tipo “agora vc vai ver o que é bom para a tosse”, que velhinhas de todos os lugares adoram fazer, colocando, como vc mesma colocou, a maternidade como um castigo divino. Espero que vc não tenha esse tipo de postura! POrque querer ser mãe inclue sim parir, amamentar e cuidar…claro que não sem apoio, não só sendo isso…
Outra coisa – por que temos que ter uma babá e super explorar outra mulher(dificil achar homens fazendo isso…)? Duvido que seja possível, na nossa estrutura social, pagar uma mulher o quanto realmente vale o trabalho dela. Eu já vi gente contratar babá por 12h diárias e pagar 2mil reais…tipo, a vida dela vale 2mil reais? Nesse sentido, acho bacana a solução de creches e escolas públicas por enquanto, apesar de tudo, né…porque é foda imaginar tudo de ruim que o meu filhote, daqui a 4 meses, vai ser ensinado sobre consumo e machismo na escola, que ele vai comer e tal…Mas eu tenho clareza que este é um problema sério do sistema escolar e do sistema em que vivemos. Enfim, eu acho a ideia de socialização das crianças interessantíssima também, acho bacana que elas brinquem juntas e aprendam juntas e até mesmo compartilhem umas doenças, para terem um sistema imunológico mais saudável, e nesse sentido a babá não é uma idéia legal…acho que só é idéia legal para casos esporádicos, do tipo “quero pegar um cineminha com meu par essa noite e esticar num motelzinho, dar uma trepadinha jogando leite na cara dele e esquecer dos compromissos maternos”…Enfim, mas isso é o que eu penso. Agora, a ideia de viver em coletividade é outra ótima solução para dividir as tarefas. Vivemos numa família construída por laços de amor, e nosso filho tem um avô carinhoso, um tio que toca para ele, uma tia que brinca sempre, e todos eles que cuidam da casa para que eu possa ser mãe e o Capi ser pai tranquilamente. E isso faz toda diferença. Quando eu voltar pros meus estudos, lá irá o pequenucho – e diz aí se não vai dar saudade dele? vc tem filhos pelo jeito, hehehe…mas saudade é diferente de culpa, né? – para a escola, pegar umas cataporas e caxumbinhas, brincar com outras crianças, conhecer valores diferentes dos pais, comer diferente dos pais(o que mais me dá medo) e voltar para casa e ser woodstock SIM!!!
E amamentar…Na escola, em casa, sempre, que essa é a melhor vacina que existe…
Enfim, te espero no meu blog!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Parada do Orgulho Feminino

Mulheres do mundo todo, univo-nos!!

Vamos aprender com os GLBT's e fazer a Parada do Orgulho Feminino?
Chega dessas piadas de merda, de Freud, de regime forçado, cremes anti-celulite, cesáreas eletivas, pílulas anti-menstruação, Deus, cirurgias plástcas, anti-amamentação, anti-aborto, violência doméstica, aprisionamento do sexo!!

Saiamos por aí exibindo ou escondendo o que nos aapetece de nossos corpos!! Saiamos loucas por aí, beijando umas às outras, beijando nossos homens, levando nossos filhos!!

Vamos jorrar leite nas ruas, exibir nossos lindos corpos, gemer loucas de tesão, menstruar, amamentar, parir gozando, vamos fazer tudo no meio da rua...
E se vierem nos encher o saco, bora praticar um wendozinho básicoooooooo....

Viva nossa condição de mulher!!!

Quando vamos fazer um movimento que exalte a felicidade de ser mulher?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Conversa de meninos

Dedico este post ao Thiago.

Estava eu uma noite, noite seguinte da primeira Tenda Vermelha que fui, amamentando meu bebezico e ouvindo a conversa da janta da sala.
3 dos homens menos machistas desse mundo falavam sobre puteiros, numa naturalidade de doer o coração.
Falavam sobre como funcionam os serviços prestados em puteiros, como algumas putas eram feias, contaram experiências de levar amigos virgens que esperavam um momento especial para lá e como era engraçado constrangê-los.
Aquilo me fez pensar na última conversa que tive com umas amigas minhas, sobre a importância extrema de se usar cremes anti-rugas com 25 anos, e como era ridícula a menina gordinha que alguém estava pegando.

Pois é...A diferença entre o debate sobre gênero e machismo que fazemos nós e os homens é que o debate dos homens nem começou. Eles também se oprimem na própria opressão.

Aposto que boa parte dos leitores devem ter ficado questionando, ao ler o terceiro parágrafo, o que afinal tinha demais na conversa. O quarto parágrafo foi contraste, para impactar o leitor, já que eu imagino que as feministas tenham berrado tanto nesse sentido, que mesmo que tenham causado risos em muita gente elas já deixaram impressas as indignações a respeito, e isso tenha ressoado por aí.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Lar doce lar

Pergunta: "Porque você fez essa escolha, de parir em casa?"


Eu escolhi parto em casa desde que soube que isso era possível.

No primeiro encontro do CAISM, do programa de parto de cócoras de lá, fomos conhecer a sala onde eles fazem o parto. As luzes, as cores, as roupas, tudo insuportável...Mas nada pior que o cheiro. Cheiro de assepsia, cheiro de produtos químicos refinados, cheiro anti-natural. Cheiro que nunca me deixaria esquecer que eu estava num hospital. Cheiro de quando, aos meus treze anos, eu vi meu pai, aquele ser alegre e acolhedor, paizão, simpático e apaixonado pela minha mãe, todo entubado e inchado, numa UTI, de onde ele nunca mais voltou. Cheiro de quando eu vi a mulher mais lúcida que conheci, a sempre alegre minha avó, perder a lucidez num mar de remédios e vomitar em si mesma, me deixando uma sensação terrível de impotência.
As lágrimas me vieram nesse dia, muito fortes como chegam agora nos meus olhos, muito fortes como naquele sábado anterior a morte da minha avó, e eu só queria sair correndo dali.
Jamais conseguiria parir num hospital sem muito preparo. Eu cairia numa cesárea.

E fui fortalecendo a idéia. No começo a ideia de parir em casa combinava com a minha postura de gostar e cultivar o meu feminino, meu ciclo, minha lua - me recolhia nas cólicas menstruais sempre que as tinha, me libertava nas ovulações produtivas e sensuais, valorizava meus seios em decotes, mantinha meu corpo saudável e feliz. Parir em casa combinava com minha busca por uma vida mais natural, com menos remédios e menos uso de tudo o que fosse proveniente de escravizar espécies inteiras.

Mas acima de tudo, descobri uma nova dimensão: parto é sexo.E sexo é "só" o centro da minha vida, centro dos meus questionamentos políticos. Foi com a opressão que me causaram pelo meu sexo, pelo meu tesão, pelo que esperavam de uma menina decente que eu busquei me libertar. Eu jamais deixei me tomarem o sexo, o prazer, e meu controle sobre meu corpo. Nunca permiti que me ditassem o que devia ou não devia fazer. E isso não ia ser diferente no meu parto, a menos que eu precisasse.

Mas eu confio e sempre confiei no meu corpo. Eu não tinha medo de precisar.

Como vcs podem ver, eu pari em casa por mim. O bebê ainda não tinha meu foco.

Pari em casa tendo toda liberdade do mundo, e com ela eu me entreguei ao meu corpo, obedeci as posições que ele me mandou ficar, dormi e gritei muito, virei onça, fiz força, redimensionei meu corpo e minha consciência dele, tive ao meu lado o homem mais magnífico e apaixonante que conheci na vida (e ele também pode acompanhar todo o processo, não saindo do meu lado), e senti cada pedacinho daquele ser sair...
E aí eu finalmente pude entender, enquanto o Pietro saía, o tamanho do meu poder de mulher, que goza, que ri, que chora, que enlouquece, e que no auge da sua sexualidade forma, nutre, dá a luz e amamenta uma nova vida.

Depois de tudo isso sobre mim, colocaram aquele ser pequenino em cima da minha barriga.

Quando eu vi aquela coisinha, pequena, deitadinha no meu colo com os olhões abertos para o mundo, aprendendo devagar a respirar, aí eu entendi o que é o amor a primeira vista. Simples assim.

E por esse momento, sem choro, sem dor, com respeito e com a maior emoção da minha vida, eu agradeço todos os dias.

E depois do parto eu passei um dia nua, leve, no maior barato da minha vida, numa sensação de êxtase, de corpo flutuante, de paz, que nenhuma droga artificial me daria e nenhum hospital permitiria.

E eu pude conhecer minha placenta, tocar nela, sentir seu peso, ver sua cor - aquilo que me manteve conectada ao meu bebê, uma parte do meu corpo, que não me foi arrancada, que voltaria, na grande rede da natureza, ao seu lugar, à terra, da qual somos todos filhos.

É o Pi um bebê tranquilo, feliz, que tem todo carinho do mundo e sempre foi respeitado em sua natureza.

E por tudo isso, eu pari em casa.
E não pretendo nunca parir em outro lugar.

domingo, 15 de agosto de 2010

Mãe e Filha

Publicado no blog da disciplina que estou fazendo este semestre:
http://ep153a.blogspot.com/2010/08/mae-e-filha.html


Não pude deixar de escrever depois de ler o texto do Larrosa, mais como filha e mãe e menos como pedagoga.
Não existe alteridade em nossa sociedade, nem com culturas distantes do ideal produtivo ocidental, nem com as mulheres e suas luas, nem com as diversas visões de Deus...e com as crianças isso certamente não é diferente.
Tantas pessoas, quando me perguntam se o Pi é tranquilo mesmo e eu digo que é, me dizem em seguida "então ele não te acorda a noite?", o que me surpreende sempre; por que temos que imaginar que "bons"(como se assim pudéssemos classificá-los) bebês devem funcionar com a nossa lógica bruta de tempo, em que o "certo" é dormir uma noite inteira para deixar os papais produzirem de manhã? Por que não podemos respeitar o tempo da criança?
Por que não respeitamos e esperamos quando e como nosso próprio corpo clama por parir? Por que não respeitamos o tempo da nossa criança nascer? Por que aceleramos o parto, ou simplesmente permitimos a um médico que arranquem de nossos corpos aquele serzinho oculto, sem permitir nenhuma novidade?
Simplesmente enquadramos os partos em horas estimadas, a gestação em semanas falsamente precisas, e tudo o que fugir disso temos como errado? Cortamos os cordões e não permitimos que a criança descubra devagar o ar em seus pulmões...
Quantas mães são incentivadas a parar de amamentar porque não podem esperar seu corpo aprender a receber o bebê e não podem esperar o bebê aprender a mamar(lembrando que quanto menos mulheres amamentam, quanto menor o tempo de amamentação, mais rápido voltam as mulheres a produzir e mais tempo de leites artificiais os bebês tomam)? Quantos de nós papais não são torturadas sistematicamente porque "precisamos" enquadrar os bebês em horários rígidos, em curvas de crescimento, em complexos vitamínicos? Por que não esperamos que eles nos indiquem o que fazer, por que somos tão presos a conselhos de médicos técnicos que não integram nossa rotina e tão soltos de nossos próprios olhos?
Essa expectativa, essa necessidade totalitária em relação a infância, desde os primeiros dias dos bebezinhos, frustra, adoece e mata. Frustra porque, por mais que os técnicos tentem enquadrar em suas gestapos e KGBs de como é uma criança, cada uma é uma. Adoece porque essa neura em enquadrar acaba por nos fazer intervir desnecessariamente em sua alimentação, em seu nascimento, em seu desenvolvimento afetivo e cognitivo, adoecendo de alergias, hiperatividades e depressões. Mata porque entorpece os sentidos, nos transforma em robôs, porque mata mesmo.
Nesse sentido, acredito que a mudança na lei que coloca o "bater corretivamente" como crime seja importantíssima na garantia da alteridade da infância...(escrevi um post sobre isso no meu blog, http://divinastetas.blogspot.com/2010/07/forca-e-opress.html )
Essa vontade de saber o que será dos nossos filhos no futuro é algo difícil e necessário de combater, em nós e nos outros. Quantas pessoas não me vem perguntar(quando categoricamente não afirmam), sempre torcendo para que meu filho me "ponha no lugar" nos meus questionamentos, como se ele fosse me fazer "pagar" pela filha que sou e frustrou todas as expectativas: "Mas e se ele for heterossexual?", "E se ele só quiser ganhar dinheiro?", "E se ele for católico?"
Oras, ele será o que ele quiser ser!
O Capi(pai do Pi) sempre diz que espera que o Pietro nos choque, e que não quer dele nada esperar além disso. E estou cá eu a cada dia me esforçando em não ser totalitária como comigo foram minha família, minha escola, e tudo o que me cercava, deixando que ele me diga aonde vai, lhe dando o colo que me faltou...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Os obedientes

Imagine que absurdo: sou pega pela policia em minha casa para dar um depoimento.
Levam-me num carro preto para uma delegacia.
Nesta, sou colocada entre três policiais me mostrando armas...quando me nego a dizer algo, levo uma paulada dolorida de cacetete...
Eu sem defesas, levando paulada...
Revoltante a tortura, não?

Imagine que outro absurdo: um homem manda na sua mulher.
Um belo dia, ela resolve dizer não.
Ele a enche de pancadas...
Na nossa sociedade, em que temos o corpo sempre tolhido ao invés de aprendermos a nos defender, estamos sem defesa, levando paulada...
Revoltante a violência doméstica, né?

Agora imagine a seguinte situação: um casal tem um filho pequeno, uma criança de 2 anos, que está aprendendo ainda o que é viver em sociedade.
Um belo dia, o casal está passeando com sua criança e, na hora de ir embora,ela faz um escândalo porque não quer ir.
Então, os pais a agridem na frente de todo mundo.
E agora não é revoltante?????

Vem da mesma lógica da violência doméstica, da tortura, a idéia de que educação é bater.
Isso é oprimir de maneira absoluta a criança. Crianças estão aprendendo sobre o mundo, e eu não acredito de maneira nenhuma que o modelo erro/castigo, acerto/premiação esteja produzindo bons resultados...vide o mundo de hoje!!
Se bater for ensinar, ela vai aprender que não pode fazer x porque terá um castigo...E a partir do momento em que não tiver ninguém olhando, e portanto ninguém para aplicar o castigo, tá tudo liberado!Isso é o que o Piaget chama de moral heterônoma...

Mas para mim, há uma questão que vai além da educação(embora eu ache que esse argumento por si só já baste)...
Crianças não tem possibilidade de defesa de um adulto. Não tem como, até pelo menos uns 10 anos de idade. É uma questão corpórea bem óbvia, não acham?
Enquanto vc já tem coordenação motora, músculos, tamanho, noção espacial, tudo bem desenvolvido, a criança ainda não tem nada disso. Ela é mais fraca, fisicamente mesmo.
Além disso, ela não tem como saber o que é certo e errado, ainda está aprendendo essas coisas. Formá-la para entender que o certo é o que não leva soco cria uma criança obediente, um adulto obediente. Não cria uma criança que aprende a refletir, não cria senso de escolha; o resultado está aí: as pessoas simplesmente obedecem, não repensam o mundo, e ficamos aí nesta lógica fascistóide, que já é absurda por si só.

A lei que proíbe qualquer violência física contra crianças é interessante até, ainda que fique como letra morta para a maior parte da população, como qualquer lei no Brasil...Pelo menos joga o assunto na roda, faz as pessoas pensarem...

Esse post veio na minha cabeça depois de um post do blog do Sakamoto, sobre esta lei, dá uma olhada aí do lado.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Sobre liberdade e o câncer do medo: 1 - Relacionamento aberto e amor livre

Imagine poder ser livre para experimentar. O que for. Livre para experimentar e refletir, livre para decidir.
O medo aqui é algo a ser combatido, enfrentado, com tranquilidade. Nunca algo a ser enaltecido, exaltado. O medo é um câncer na consciência, um demônio, uma tesoura. Você se desliga do medo aos poucos, e vai clareando a vista, enxergando as coisas cada vez com mais nitidez e paz, e enfim, você é livre para escolher.
Ah, liberdade...liberdade é escolha, é o exercício livre da consciência.

Nesses termos, nossa sociedade é totalmente doente. Temos medo de andar na rua, imagine de questionar o status quo. O medo, advindo e alimentado das mais diversas fontes – desde a triste História do homem (coloco com letra maiúscula porque falo da História ciência mesmo), até os telejornais e o fascistóide do Datena...Nossa sociedade está tomada por um câncer enorme, que imobiliza as pessoas, que as faz aceitar e abaixar a cabeça para tudo.
Lutar contra o câncer do medo não é nada fácil, mas todo mundo foi em algo tolhido demais por ele, todo mundo sofre muito em algum ponto em que o câncer encontra resistência para crescer, e é nesse ponto em geral que surge a primeira possibilidade de detectá-lo e ir, aos poucos minando-o.

O medo que se espalhava pela minha consciência ia muito bem na minha infância ignorante dos hormônios, mas quando ele chegou no sexo, encontrou aí resistência. E assim eu comecei a questionar as coisas, questionar muito...
Pois é um processo enorme, longo, acho que vou brigar com esse câncer o resto da vida. Vou falar aqui do ponto em que a briga está mais avançada, o ponto em que eu me sinto muito mais perto da cura de minha consciência...

Depois de muito penar, eu finalmente aceitei – monogamia e heterossexualidade não são para mim. Vida fora do coletivo, tampouco. Simples assim. Fui com o tempo combatendo essas ideias. Entendi, depois de um relacionamento fechado, em que eu me culpei muito e me deixei ferir muito, em que eu me tratei como alguém que não merecia amor, enfim eu aprendi. E parei de procurar por coisas assim, queria alguém que tivesse a mesma vontade que eu, um relacionamento aberto.

E por aí eu topei com o Capi. Topei muitas vezes, aliás, ele já num relacionamento aberto, e eu procurando um...falávamos muito de porque não namorar mais de uma pessoa, porque não um namoro a três, porque uma pessoa ter desejo por outra significa que não ama mais seu conjuge...acabamos, nesta e em outras facetas da vida nos aproximando...E um belo dia, depois de uma noite fofa dormindo abraçados(sim! Sem sexo, algo inédito para mim), nos apaixonamos pela maluquice um do outro. E claro, já estava dado, nosso relacionamento seria aberto. Nenhum dos dois sabe viver na monogamia, e isso era bem claro para nós.

Mas veja, não sem desafios. Seria para mim uma completa novidade, e um esforço sim estar nessa relação. Bom, eu nunca fui de fugir das coisas por serem difíceis...Eu posso ceder a muitas pressões, mas eu sempre briguei com o medo de ser feliz.

No começo, eu ainda tinha medo do julgamento do Capi. Ainda que me sentisse livre para falar(ah, geminianos, como eu amo a liberdade que sinto com eles...), ainda tinha medo de ficar com qualquer um na frente dele. Isso foi até fácil de desconstruir – o Capi nunca saiu do meu lado em relação a isso.

Mas claro, alguém que já se sentiu muito abandonada, como eu me senti, e que sempre foi fechada porque sempre enfrentou um milhão de julgamentos(ou saberia que teria que fazê-lo), e que nunca teve um relacionamento em que alguém botasse fé, obviamente tinha medo de ficar sozinha nesse também. E isso se manifestava e se manifesta até hoje no ciúme...Sim, eu sempre fui ciumenta. E a cada dia eu progrido um pouco mais contra esse maldito câncer. Hoje sou infinitamente menos ciumenta do que já fui...

E por fim, eu fui admitindo para mim mesma que eu poderia me apaixonar por mais de uma pessoa. Minha dureza antes me negava o amor até por uma, imagine por mais gente...Eu sempre demoro p/ admitir para mim mesma que estou apaixonada. E como eu não admitia na prática para mim mesma que poderia sim amar mais do que uma pessoa, eu tive que brigar muito para não ter medo de ter o amor que o outro sente por mim substituído por seus outros amores.

Bom, estou aqui no caminho, com toda a cumplicidade entre mim e o Capi, estamos construindo nas nossas cabeças o amor livre que queremos. Ter um filho só tem me ajudado a ir mais fundo nisso, cada vez mais fundo, imaginando (e de certa forma estando em) famílias em novas configurações, para além dos laços de sangue, em que todos se pertencem e se amam. (Adoro falar isso em especial p/ quem achava que iríamos encaretar...eu acho que a gente é cada dia mais maluco)...

Em resumo, para quem não entendeu: nosso relacionamento é aberto no sentido mais amoroso da coisa. Não só para sairmos com outras pessoas, não só para o sexo, não para consumirmos outras pessoas. É aberto para os nossos desejos, as nossas vontades, e aos amores que nos inundarem o coração.

É isso.

PS: e há quem diga que eu não sou romântica e que sou incrédula...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Leite

Se tivessem me contado que amamentar era tão bom, e que eu ia me sentir sexualmente satisfeita(o que não me impede de querer mais sexo, claro), eu teria ficado grávida antes!

Enfim... Vaca!!!
E só sendo profana mesmo p/ falar isso sem conseguir se sentir culpada!!Juro que eu tento!
hahahahah

Ai, que farei quando não puder amamentar mais? Com quantas pessoas terei que copular loucamente p/ me sentir assim?

O que ninguém conta p/ nós mulheres é que amamentar é uma das coisas mais sexuais que nosso corpo pode proporcionar...E para variar, essa sociedade que eu acho cada vez mais louca e com menos sentido nos faz sentir culpa por tudo o que é natural e sexual, chamando de sagrado tudo o que é profano...Mais um fator ajudante na depressão pós parto!! Ô mundo doido, que nos adoece...

E o mito é que amamentar dói!!! No começo pode até doer um pouco, porque a mulher e o bebê estão aprendendo a amamentar/mamar, a mulher está formando o bico...é tipo as primeiras vezes que a gente trepa, sabe? Mas depois é sensacional de delicioso!! Nossa, muito bom mesmo...

Claro que acordar de madrugada cansa, mas nada que vários cochilos durante o dia não resolvam...
E claro, é preciso libertar-se para dar vazão ao prazer...E é preciso preparar o corpo p/ o processo!!

Já viu alguém gozar fácil sem se masturbar? Claro que não, a masturbação é o chamado instintivo de nosso corpo para desenvolver a genitália, e para variar é uma prática tão tolhida para nós, mulheres...

Amamentar é a mesma coisa - passar sabonete nos mamilos é desastroso, se vc é mulher e pretende ter filhos e amamentar algum dia na sua vida, PARE HOJE! Mas a melhor coisa é, quando descobrir a gravidez, fazer top less...sim, top less! 10min todo dia antes das 10h e depois das 16h, e seu peito vai estar pronto!Só, simples e sem um monnte de remédios, bucha, hidratantes...Sem rachaduras, sem dores, sem nada disso!

Pior que os mitos assustadores da amamentação, só o mito de que parto normal alarga a mulher...Esse era profundamente irritante, toda vez que eu ouvia isso antes do parto bufava de raiva, mas depois do parto, em que eu virei virgem de novo, isso virou uma piada...

Será o Pietro tipo um anti-Cristo, que transforma a mãe puta em virgem putíssima?

domingo, 18 de julho de 2010

Família

Imaginem só, chegar, depois de tanto questionar, estou aqui na constituição de mais uma família no mundo: a unidade mais básica do capital...
Isso fez muita gente imaginar que eu iria ou estaria encaretando...
Estamos aqui resistindo bravamente e subvertendo mais uma vez!

Ontem fomos a casa de um casal de amigos nossos, numa festa junina muito da gostosa, e ouvimos, ao pé da fogueira, mais um casal desesperado para respirar na sufocante vida que temos sob o Capital. E no mesmo calor da fogueira conversamos eu e Capi, com o Pi no sling, claro, sobre o que é uma família, pensando em como estamos constituindo a nossa...

Tenho pensado muito, nesses dias mais reclusos de pequeno bebê, sobre coletividade e família. Vejo todos os dias mães que entram em depressão, pais que perdem a cabeça, crianças que sofrem, com as milhões de exigências sobre as novas famílias que se formam - desde manter o espaço limpo até a obrigação das mulheres em cumprir seus deveres de esposa pelo bem da família e a colocada exigência ao homem de exigir sexo para ser viril...

Tenho pensado muito nisso, sobretudo, porque minha realidade é bem mais feliz que essa do capital, em que dois(na verdade, quase sempre umA) são suficientes para recepcionarem uma nova vida ao mundo, porque todo mundo tem mais o que fazer, porque o mercado não pode parar...Aff...

E tenho questionado também pela minha família de origem, que ultimamente tem se feito extremamente presente: hoje, com tantas brigas e tantas exigências da minha família de sangue, eu questiono como posso amar e manter contato com uma pessoa que desdenhou daquelas mulheres que me cuidaram e me recepcionaram neste mundo com tanto zelo, a quem sim eu quero e amo? Por que devo me submeter a estas mesmas mulheres, se não conseguirem me amar sabendo quem eu sou hoje, no que me formei? Tudo por uma manutenção do capital, para que ele gire e circule sempre nas mesmas mãos, com as mesmas ideias de unidade básica de manutenção da propriedade privada...

E com tantos seres lindos a nossa volta, nos ajudando das mais diversas formas com o Pietro(desde lavar lençóis ensanguentados de parto e me dar banho no dia do parto até passar 2 semanas das férias me fazendo companhia e me ajudando), como não dizer que esses amigos todos são nossa família também, se sempre podemos contar com eles?

E aí eu me pergunto e proponho: Por que não transformar o conceito de família? Por que não viver numa estrutura de clã, ou família auto-proclamada? É fundamental que transformemos a família, se queremos transformar as bases da propriedade privada para a propriedade coletiva. Numa nova estrutura de família, somos aquilo que queremos ser. Se eu quero ser mãe do Pietro, cuido, alimento, amo. Tenho o Seu Tião como minha família já, cuidamos um do outro e queremos estruturar a vida juntos(e, embora ele tenha seus 72 anos e eu meus 22, não posso chamá-lo de pai ou avô, pois isso teria naturalmente um tom de verticalidade que não existe entre nós). Quem mais vier amar a mim e ao Capi, que seja nosso/a esposo/a.

Sem essa de laços de sangue, papéis, ou qualquer outro que não seja pleno de emoção...
O que vale é o laço do amor.

sábado, 3 de julho de 2010

Coletivo

Cá estou com o pequeno no colo repensando o mundo...
Pois bem, depois de tanto terror e tanto medo que nos colocaram, depois de um nascimento e uma personalidade calma do pequeno, ficamos eu e Capi nos perguntando por que as pessoas tanto nos aterrorizaram e por que diziam tanto que tínhamos sorte...
E então, mergulhando na maternidade e nas comunidades de mães em que estou virtualmente inserida, comecei a entender melhor o que se passou conosco...

Quantas mulheres ainda não cuidam sós de seus bebês? Quantos pais realmente participam da criação de seus filhos, quantos deles cortam as unhas dos pequenos, trocam e lavam fraldas, pegam no colo e brincam? Quantas mães se informam sobre parto, sua alimentação e amamentação, quantas terão a chance de ter uma boa saúde? Quantos pais tem a possibilidade e se entregam a paternidade, quantos deles ultrapassam a barreira e refletem sobre seu gênero e sua opressão? Nesse mundo individualista, quantos casais tem a sua volta uma comunidade disposta a ajudar no mágico e difícil processo de adaptação de um bebê ao mundo e de um mundo ao bebê? Quantas crianças podem desfrutar de um ambiente tranquilo e estruturado? Quantas crianças são fruto do amor de dois melhores amigos, que buscam um no outro o par da sua jornada?

Por isso tudo, eu concluí: filhos são uma realização plena quando há coletividade. Quando há informação, conhecimento de si, quando há uma mãe e um pai que se entregam, que convergem sobre como cuidar desse filho...Mas um filho é sempre de um coletivo.

Agradeço todos os dias por ter ao meu lado amigos que não hesitam em ajudar, seja para vir aqui lavar um monte de roupas ensanguentadas de parto, seja p/ contar piadas do mundo lá fora; agradeço por ter famílias tão presentes, que, mesmo com tantas dificuldades, nos entregam suas férias para cuidar da casa; agradeço as redes de mães as quais pertenço, que tanto me ensinam sobre os filhos, sobre ser mãe, sobre a vida; agradeço mais ainda por ter encontrado o Capi, que eu nem imaginava existir, meu melhor amigo, meu companheiro, minha metade, meu amor.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Educação

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Eu sou uma mulher

Eu Sou uma Mulher
Eu sou uma mulher que sempre achou bonito menstruar.
Os homens vertem sangue por doença, sangria ou por punhal cravado, rubra urgência a estancar, trancar no escuro emaranhado das artérias.
Em nós o sangue aflora como fonte, no côncavo do corpo. Olho-d'água escarlate, encharcado cetim que escorre em fio.
Nosso sangue se dá de mão beijada, se entrega ao tempo como chuva ou vento.
O sangue masculino tinge as armas e o mar empapa o chão dos campos de batalha, respinga nas bandeiras, mancha a história.
O nosso vai colhido em brancos panos, escorre sobre as coxas, benze o leito manso, sangrar sem grito que anuncia a ciranda da fêmea.
Eu sou uma mulher que sempre achou bonito menstruar.
Pois há um sangue que corre para a Morte.
E o nosso que se entrega para a Lua.

(não sei de quem é esse texto não...)

sábado, 5 de junho de 2010

Nós, as porra loucas 2(que nome ridículo!)

Olho para meus peitos cheios de leite, sem nenhuma rachadura ou machucado, jorrando que nem vaca, todos os dias...
Penso no meu parto, no diagnóstico da minha parteira de "praticamente virgem de novo", e tenho uma vontade incontrolável de gargalhar...

Dizem que eu tive sorte...Sorte?
Eu acho que meu corpo se preparava para isso faz tempo...

No parto eu briguei só com aquelas cenas ruins, briguei só com o resquício de medo e de insegurança que colocam o tempo todo para nós mulheres, de que não somos capazes. Eu não briguei com meu corpo, obedeci cegamente, como sempre fiz, nas suas dores, nos seus desejos, nos seus caprichos...

Me lembro de cada desejo e cada fetiche maluco que tive e realizei, desafiando os tabus que tinha dentro de mim, gozando loucamente, fortalecendo minha vagina para um nascimento, meus peitos para um alimento...Me lembro da barreira que tinha pela memória de cenas bem ruins na cama, que eu fui quebrando nesse quase um ano com o Capi, depois de tanto tempo sem falar sobre isso, e que decididamente foi rompida no dia do parto...Me lembro de quando decidi parar de me entupir de remédio p/ cólica e de café para o cansaço da minha menstruação, quando decidi respeitar e admirar o ciclo do meu corpo, suas formas, suas necessidades...
Sorte? Pode até ser em parte...

Mas a Vaca Profana, agora virgem de novo(hahaha...Se eu pari e sou virgem ainda, seria o Pietro um cristo da putaria? hahahahahahahah), percebeu uma coisa: que sua liberdade a preparou para o parto.

Retomando o post "Nós, as porra loucas", eu digo: nós, as porra loucas, obedientes aos caprichhos do desejo, devotas aos nossos corpos, somos também mães com mais possibilidades de parir sem interferências médicas. Ser porra louca me deu uma vida sexual ótima, uma alegria imensa, uma fama de vagabunda em muitos lugares, uma percepção diferente do mundo por isso e uma coisa preciosa: o parto que eu queria!

Beijos das divinas tetas, que agora jorram leite bom na cara de todo mundo(principalmente na do pequeno, que as vezes se afoga de tanto leite...hahahahaha)

Amada Mia

A gostosa da Rety me mandou essa poesia LINDA esses dias e eu não tinha tido como postar ainda...
Um beijo p/ essa mulher que eu amo muito... Arianíssima, um tesão!
Beijos procês...

Amada mia

Hector Othon

Amada
Delicadeza feminina
graças aos Deuses que vc existe
Vc me faz tanto bem!
te quero
te desejo
te amo
Linda de minha vida
Deusa minha feita mulher
agradecido por te manifestar na minha presença
e muito mais,
por ter merecimento de receber teus carinhos, amor e arte.

Pode se alimentar da minha força masculina
que ela é infinita
É o Céu e a Terra em mim, feito hOMem
quem te ama e satisfaz
Meu anelo é colaborar com tua felicidade
criar condições de acolhimento a tua santidade
Deusa feita mulher
e a teu corpo
que é para mim a paisagem mais linda desta Terra
Teu corpo e meu corpo
são o templo
a cama ( c ama = ce ama = se ama)
onde o Deus e a Deusa
se amam
O Deus vira corpo em mim
A Deusa vira corpo em vc
as almas embriagadas do Divino
sentem-se apaixonadas
e iniciam a celebração
da festa sem fim
do encontro
Homem - Mulher
O tesão brota pelos poros
o sexo incendeia
os corações transbordam
as mentes assobiam
as peles palpitam e se tocam
no encanto da dança
do fazer amor
com alegria e satisfação plena
Olho nos teus olhos
e sinto o convite infinito
que nos liga
emociona a todo momento
renova
me faz poeta, cantor,
dançarino
estrela
Vc tem esse encanto
eu o reconheço
e humildemente
adoro
você
Mulher
amaDa
Deusa encarnada
neste Paraíso da Terra
Mestra minha
peço
reine
a delicadeza suma e o carinho
para como golfinho
nadar nas tuas águas
As serpentes dançam
em torno das nossas colunas
embriagadas,
mas lúcidas
Águias
nascidas na coroa da cabeça
no ninho dos nossos cabelos
voam felizes
ao Sol e à Lua
céu e terra
deuses e humanos
amor e compaixão
vc e eu
êxtase
este é o fazer amor
para o qual preparo meu ser
este o encontro
que anelo com vc
não te quero para mim
já somos
sei que só passando por vc
é que vou chegar em mim
mais tb que só chegando em mim
que chegarei a vc
me entrego ao sem saber
e escolho o caminho mais belo
aquele sem palavras ao vento
aquele que se inicia na contemplação
vamos resistir
aos impulsos da PAIxão
e assim deixar nossas musculaturas fortes

que nossos corpos se encontrem
na delicia da dança impecável
de quem conhece e domina seu corpo, mente e emoção
Por isso a meditação
para poder agir com mais amplitude e liberdade
usando a máquina e a herança do passado a favor
Sem ela
o encontro será um desastre
e o sofrimento nos abaterá
Evoluir
amada da minha vida
dar conta de carências, traumas, feridas
reconciliar antes com o céu
protetores, guardiães, mestres, Sol, Lua, planetas, signos e Estrelas
reconciliar com a terra
animais, plantas, insetos, microorganismos, minerais, substancias, elementos e seres todos
Ai o encontro é festa
cidades giratórias
flores
arcoiris
cachoeiras
e todas as maravilhas
do jardim dos caminhos que nos cruzam
na bênção da vida
no planeta Terra
Lucidez para não entrar
nas misturas irresponsáveis do estabelecido
onde de tanta confusão esquece-se de olhar a verdade
e escutar o coração
Conter
contemplar
as tempestades do tesão infinito
nos mistérios da dança
centrada
dominada
totalmente entregue
relação
ambiente e Universo
comando
o belo
guardiões
do bem-estar,
felicidade e prazer
Não existe maior alegria
e satisfação
que te ver feliz
gozando
em êxtase
e sentindo-te segura e querida
nos meus braços
que te acariciam
firmes
como a brisa
ou as cenas
sonhadas de amor
que arrepiam
e acordam no suspiro
Olhos nos olhos
tranqüilidade, satisfação,
o maior tesão rolando
e nós
tranqüilos
namorando
tranqüilos
gozando
tranqüilos
estando
vivendo
sendo
nos amando
corpo no corpo
pele na pele
cheiro de corpo
de ervas
cheiros alucinantes
que tão generosamente a Natureza criou
para todos
Cuidar dos cenários
arte nos espaços
que o amor inclua tudo

magia da vida
Encontro
oportunidade sagrada
contato
harmonia
fim do deserto de solidão
estreia do diálogo profundo
entre duas peles
Respeito, cerimônia,
beleza, arte,
sensibilidade,
agradecimento
amor
É tão belo existir
perde-se o fôlego
Dançar
falar
fazer amor
e a espiral
gira sem fim
na roda da vida e da morte
umidade
cheiros
entra e sai
e as palpitações
das pausas
e a respiração
como vento e brisa
e os corpos
mar envolvente
e beleza suma
Os desafios serão muitos
durante milênios nossos antepassados
criaram costumes e normas de relacionamento
que hoje nos ajudam quando inconscientes
mas quando acordados
aprisionam
Com arte e carinho
transmutar costumes e valores dos relacionamentos amorosos
construir atitudes libertadoras
que dêem passagem feliz as intensidades
do encontro amoroso
É desafiador
a cada passo
a possibilidade de sermos comidos pelos ressentimentos, mágoas, traumas
pelas projeções
pela criança malcriada com seus mecanismos de controle
na força máxima da histeria
crença estúpida de que a máquina que nos habita
com seus mecanismos paranóicos e funcionamento automático
dará conta do recado
intento iludido de querer obsessivamente
dominar e escravizar o outro
o desejo caprichoso
de querer transformar o outro no ideal
desista de querer me dominar
eu tb desisto
não acreditemos nessa estratégia primitiva
de quando o ser humano era rebanho e por demais inconsciente
da sua natureza divina
e da arte do amor
O único possível
é a aceitação do outro
o domínio é só sobre si
Desenvolvamos o tesão por ser donos de si,
e reconciliemo-nos com o Céu e a Terra
Sem o Divino e a Natureza
estamos muito desprotegidos para nos encontrar
Meditemos amada
auto-conhecimento
e cuidados com muito carinho e acalanto
Desenvolvamos as artes que correspondem as nossas potencialidades
Enquanto a paz não chegar em nossas vidas
a disciplina deverá continuar
Vamos deixar o encontro acontecer
nesta luz e proteção
Enquanto esse grau não chegar
vamos ser amigos, irmãos
evoluindo
crescendo
Expandindo a consciência e
aprofundando o auto-conhecimento
dando
andando
amando
Acredita mesmo
fazer amor
sem estar prontos
arrebenta
estraçalha
aniquila
Não chegues desesperada ou carente
porque não conseguirei te acolher ainda que queira
ai sofreremos e nos machucaremos
Eu tb não te invadirei na sombra

A peia se resolve na solidão
na proteção da meditação
no colo generoso do céu e da terra

Enquanto formos máquinas
e frágeis
vamos nos amar na telepatia
no astral
no silêncio da solidão
Vamos curtir nossa troca
na distância dos corpos
ate estarmos prontos um para o outro
Esse é o maior desafio
o momento exato
para nos encontrar
temos que minimamente desenvolver
uma consistência interior
que possa acolher
a intensidade de troca do encontro
mais quando é o Deus e a Deusa
que cruzam nossos corpos
enamorados
Não tenhas pressa
temos toda a eternidade
Essa é a lei da encarnação
para o encontro feliz
no amor
Assim falou Plutão e Saturno para mim
Amada e companheira minha
delicadeza suma
cuidado envolvente.
Onde quer que estejas
meu amor
como brisa fresca
acariciará tua pele
Que delicia
te amar
sentindo-te
aproximar
a cada instante
aiaiai
delicia de minha vida
na arte do amor
que une nossas almas
aqui e agora
no planeta Terra
Agradecido por existir.
agradecido por me amar
mas sobretudo
agradecido pela arte virtuosa
com que me enlaças
a tua vida
a cada instante mais próximos amaDa

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A primeira vista...

É, eu também não acreditava...
Mas quando eu vi aquela coisinha, pequena, deitadinha no meu colo com os olhões abertos para o mundo, aprendendo devagar a respirar, aí eu entendi o que é o amor a primeira vista.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Fraldas de pano - por quê?

Oi pessoal...

Hoje surgiu na lista de fraldas de pano(sim, essas mães internéticas tem lista de email para TUDO!) uma novata perguntando para nós porque usamos/usaremos fraldas de pano...

E eu escrevi para ela o seguinte, espero que explique a alguns de vcs tb:

Bom, eu ainda estou esperando o Pietro, mas já digo desde já porque usarei fraldas de pano:

A primeira razão é sim a ecológica. Veja, estamos caminhando cada dia mais para um colapso ambiental. Se não nos preocuparmos com isso agora, daqui a 20 anos pode ser que nossos filhos(e nós também, porque eu não pretendo morrer tão cedo) enfrentem problemas seríssimos até para conseguir água. Eu não acredito que só usar as fraldas de pano resolvam ou que a questão seja só de cada um enquanto consumidor (afinal, a parcela da poluição mais pesada vem é da produção industrial desenfreada do modelo capitalista, e não tanto do consumo em si), mas acho que também a nossa mudança de consciência faz parte do processo todo. Então, as fraldas de pano são uma parte de posturas que tomamos aqui em casa, que tentam ser sempre o mais coerente possíveis, de se preocupar com o meio ambiente...Reduzir o consumo é uma maneira, dentro do sistema capitalista e na posição que tem um fator de regulação no consumo, de diminuir a produção dessas fraldas e aumentar a produção das de pano...

A segunda razão é a econômica. 1 fralda da mamãe natureza com recheio custa R$35,00, e um pacote com 24 descartáveis(digamos que dê para uns 3 dias, no começo que o bebê se suja mais) custa uns R$25,00. A diferença é que a fralda da mamãe natureza eu vou usar no Pietro, no segundo filho, e talvez até no terceiro....Ou eu posso vendê-la depois. Enquanto as descartáveis vão ser de uma vez só...

A terceira razão é que eu tenho HORROR a absorventes descartáveis, minha pele é cheia de frescura desde que eu era pequena(eu não podia usar descartável), e eu não quero fazer o Pietro passar por toda a encheção de saco que eu passava todo mês(porque para a próxima menstruação quero voltar já com os absorventes de pano e com o copinho)...Provavelmente serei do tipo que troca toda hora o baby por causa disso tb....hehehe

Se dá mais trabalho? Bom, pode ser que dê mais trabalho que as fraldas descartáveis. Mas pensa só: para termos dinheiro, gastamos um tempo no trabalho, certo? Por exemplo, eu trabalhava de garçonete antes, ganhava uns R$35,00 por noite(o que dava mais ou menos 7h de trabalho nos lugares que não eram atentadores aos direitos trabalhistas...enfim). Ganhava R$5,00 por hora. Cada pacote de descartável me custaria, então, 5 horas de trabalho a cada 3 dias. Pensando no meu marido, que ganha 9,00 a hora(menos impostos, mas usemos este valor), cada pacote de descartável custaria quase 3h de trabalho dele. Com as fraldas de pano, gastarei 2h, 3h a cada dois dias, imagino... Pronto, entre gastar nosso tempo trabalhando, longe dos filhos e tendo que deixá-los na escola ou com algum parente e gastar nosso tempo lavando fraldas pertinho deles, nós escolhemos isso...

Pense bem por aí! Boa sorte!

Espero que vc opte pelo caminho das fraldas de pano também...não sou do tipo que fala "cada um com seu problema" porque, afinal, o mundo poluído pelas fraldas descartáveis também é meu!

Parindo a mim mesma

Ontem estávamos eu e minha mãe conversando no telefone, e ela estava super preocupada(para variar...heheh) sobre algumas coisas do parto, mas ela não estava com a postura leonina de sempre "vc está errada e não me obedece mais", ela estava com uma postura muito mais "vc já pesquisou sobre isso? é que me falaram tal coisa, como funciona?"...Tipo, ela estava com uma postura de preocupação, mas demonstrando um respeito grande pelo que eu falo sobre o parto e por tudo o que pesquisei sobre isso, uma confiança que eu não vejo nela sobre mim para quase nada central na minha vida...enfim, mas eu acho que ela estava assim porque sente que falhou no seu próprio parto e porque vê em mim uma confiança em relação a isso que talvez ela admire, como pouquíssimas coisas que eu faço...

Enfim, começou me falando que falou com uma psicóloga(certeza que era uma psicanalista machista, affe, ninguém merece psicanálise!), e que era melhor que o Capi não visse minha vagina quando o bebê estivesse passando, que era muito feio e que ele perderia o tesão por mim. Eu comecei a rir no telefone, falei p/ minha mãe ficar tranquila que, pelo contrário, muitos homens se sentiam mais atraídos por suas mulheres ao vê-las fortes e no auge da feminilidade parindo, que essa idéia de vagina aberta depois do parto vinha de um imaginário machista que coloca a boa sexualidade da mulher como uma vagina apertada...o detalhe é que eu NUNCA, em absoluto, falo de sexo com a minha mãe, até hoje se minha mãe fizer qualquer referência a sexo na minha frente ela dá uma risada e fala "isso não é mãe, é madrasta", então olha o que foi minha mãe falando e eu respondendo isso...enfim, ela começou a colocar algumas preocupações assim, do tipo "mas e a dor, como vc vai fazer? Dói muito!", "e se o bebê entalar, como vai fazer?", "tem bebê que vai e volta e demora para sair, como faz" e todas essas coisas e eu fui rebatendo com tranquilidade, conversando sobre e esclarecendo algumas coisas com tudo o que eu e o Capi viemos estudando nesse tempo...Surgiu também "e se o Capi desmaiar?", e aí eu disse que ele vem se preparando p/ esse momento também, e falei que se ele desmaiar a gente deita ele na cama e deixa ele lá, fazer o que, mas que isso não iria acontecer porque nós nos preparamos e ele está ansioso para viver o momento do parto também...

Enfim, ela ficou mais tranquila, acho eu, e começou a falar do parto dela. Me doeu um pouco: ela morava, antes de casar com meu pai, em Ribeirão Preto, numa casa com minha avó e 2 amigas(se não me engano), tinha um trabalho no HC da USP e todos os amigos p/ tomar a cervejinha de todo dia(bom, o povo de Ribeirão bebe mito mais que a gente...)...De repente ela casa, se muda p/ Santos onde não tinha quase família e nenhum amigo, sem trabalho, com meu pai trabalhando todo dia o dia todo e a sogra para encher o saco(minha avó até hoje é terrível), grávida...Bom, ficou até setembro assim, e em setembro, como queria ter o filho no HC em que trabalhava, foi para lá e ficou na casa de dois amigões dela(hoje meus padrinhos), sem se sentir a vontade, esperando...Como eu estava sentada, o médico marcou uma cesárea para a DPP, dia 17 de setembro. No dia 17, minha mãe foi internada e no exame lá estava eu cefálica. O médico disse que não podia fazer cesárea nela assim, que ela teria que esperar pelo parto normal porque eu virei. Ela voltou e ficou esperando na casa da minha madrinha mais esse tempão...aí, num domingo, 4 de outubro, ela começa a ter contrações às 4h da manhã, e estava fazendo muito muito xixi. Liga para o médico só bem mais tarde, e ele a atende no consultório, no fim da tarde. Chegando lá, ele a examina e vê que eu virei de novo, sentadinha outra vez, minha mãe com 2 dedos de dilatação só, de bolsa rota há um tempão e o bebê quase sem líquido(nem sei se isso realmente procede)...Enfim, ele mandou minha mãe correndo no hospital e fez a cesárea de emergência...nasci de mais de 42 semanas. Bom, saí com vários problemas por ter saído muito tempo depois, além de nascer com o nariz torto, e fiquei na UTI, enquanto minha mãe teve alta. Ela ficou muito mal com isso, os montes de exames que fizeram em mim, ter ido p/ casa sem me ter nos braços...Teve um baby blues pesado, não queria comer, e eu era um bebê muito bravo, chorava o tempo todo e queria minha mãe o tempo todo, além de ter que aguentar sozinha a italianada fazendo comentários em italiano e rindo sem ela entender(quando meu pai estava perto ninguém falava nada porque ele era louco apaixonado pela minha mãe, nem quando estava a minha outra avó, mãe da minha mãe, porque minha avó aprendeu rapidinho italiano e comentava tudo o que elas falavam debochando da cara delas...hahahah) enchendo o saco p/ dar chupeta(como se ngm tivesse tentado, eu não aceitava nada, só o peito), dar complemento alimentar pq tinha pouco leite, enfim, todo o tipo de palpite chato...Ela foi ficando mal, perdeu muito sangue, tinha pouco leite, emagreceu 10 kg no primeiro mês, foi enfraquecendo cada vez mais e se deprimindo, e depois de ficar uns quase 2 meses perdendo sangue, comentou com minhas avós que não estava parando de sangrar - elas quase tiveram um treco e mandaram minha mãe ligar no médico, que deu um remédio lá p/ ela...Ela parou total de ter leite com três meses e ficou muito mal com isso também, porque ela gostava de amamentar(mesmo eu sendo aqueles bebês que amamentam o tempo todo), e tentou de tudo p/ prolongar minha amamentação, mamei na minha tia(que tinha acabado de parir meu primo), mas na época não tinha banco de leite por causa da AIDS, que ninguém sabia direito o que era nem como pegava(nasci em outubro de 1987), e o jeito foi ir ao NANON, e ela disse que odiava isso, odiava mais ainda a italianada falando que sabia que ela não ia conseguir...Mas que pelo menos eu parei de dar um trabalho infinito, parei de chorar o tempo todo - o que eu tinha era fome...hehehe

Ah, enfim, eu fiquei triste por ela com isso. Isso me dá uma força enorme para querer fazer as coisas diferentes, brigar com essa visão de mundo tão machista e tão dura de parto, maternidade, de casamento, de mundo...O preconceito que minha mãe viveu na família do meu pai era porque ela é filha de empregada doméstica solteira - e talvez por isso preconceito de classe e machismo já comecem a me doer tão fortemente desde sempre. Brigar pela atitude, a desconstruir a visão de mulher incapaz, mulher quebrada(como o Freud adora colocar), mulher pecadora, comedora de maçã... Parir por ela, por mim e por todas as mulheres que não o puderam. É uma pena que eu não possa tê-la aqui comigo no dia do parto...

terça-feira, 25 de maio de 2010

Nós, as porra loucas

Estava eu esses dias procurando sobre o parto da Leila Diniz...Me deu um siricutico um dia e eu fiquei pensando que uma mulher que buscava liberdade sexual real como a Leiluska, se pudesse e tivesse a chance, teria um parto mais próximo do natural...
Bom, o que descobri é que ela, apesar de querer um parto natural, fez cesárea por causa da posição da bebê(que eu não descobri qual era...enfim, mas essa até que é uma justificativa para alguns casos). Mas isso pouco importa pro meu post agora.

Nessas minhas andanças internéticas eu achei uma jornalista falando que foi entrevistar a Leila quando a Janaína já tinha nascido, e que, ao contrário da porra louca que dorme de manhã e entrega a filha p/ babá, ela encontrou uma mulher dedicada a filha e a amamentação, que falou no começo da entrevista "não posso demorar muito, porque tenho que dar de mamar para minha filha"...
Me lembrei imediatamente do começo da minha gravidez, em que eu ouvi e não foi de pouca gente: "Isa, não te imagino mãe". Ou então os comentários do tipo "nunca imaginei que vc não fosse marcar uma cesárea!", "nossa, vc está grávida, como mudou de cabeça!!". Ou os mais típicos ainda "mas vcs vão continuar com um relacionamento aberto?"...

Quando se trata do papel de mãe, depois do uso da gravidez e da maternidade como repressores da sexualidade, nossa sociedade e seu pilar judaico cristão separa a mulher que trepa, goza, alucina, quer, pensa, questiona e transforma da mãe que cuida, amamenta, zela, ajuda...Ou seja, se eu era porra louca de esquerda, típica vagabunda e piriguete que ama sexo, bissexual, poligâmica, briguenta e cheia de atividades polítcas e de idéias anarco-comunistas e planos de escolas libertárias, a maternidade (que não parecia comigo...) vai me fazer virar santa acomodada no sofá, típica dona de casa quando voltar do trabalho de tia na creche, heterossexual na prática, contentando-se com sexo quando o maridão quiser, monogâmica...

Agora lá vem essa Isa e esse negócio de sexo alucinado no meio da gravidez, parto orgásmico, amamentar até pelo menos os dois anos e exclusivamente até os 6 meses(na verdade, tô pensando se não fico mais tempo), e trepar jorrando leite(quando eu fiquei sabendo que mulheres que amamentam podem jorrar leite durante o sexo eu fiquei num fetiche maluco com isso, nossa, imagina? Ah, quando acabar meu resguardo...), e essa coisa de só dar algumas vacinas, além de tudo ainda vem com esse papo do pai acordando p/ trocar e lavar fralda e ver o bebê? Pois é, galera, a Isa continua porra louca, e será mamãe. MAMÃE! Assim como a Leila foi, e foi uma puta mãezona.

Bem vindos caros amigos a nós, mães e porra loucas.

Em homenagem a Leila (afinal, graças a ela eu andei muito de barriga de fora por aí)...

O juízo de loucos

O juízo de loucos

É isso afinal que somos, é disso que somos feitos. Pura loucura em nossas escolhas, mas jamais acidentados do destino. Você é a materialização de meus devaneios, nem eu mesma acreditava que vc pudesse existir. Tanto me disseram que não adiantaria esperar, tanto me disseram que eu ia ficar só se continuasse com as minhas "atitudes", e eu na verdade prefiro a solidão a submissão...
Eu que nunca acreditei nessa coisa de esperar, de ver se dá, de teste...Eu que sempre fui certa do "se quero, quero e ponto", nunca achei de verdade que ia encontrar alguém que topasse a minha loucura.
E aí no meio do mundo, no meio da minha felicidade deliciada de libertação de meu ouro de tolo, eu topo com você, vc e todas essas ferramentas fantásticas para quebrar as correntes que ainda me prendem, vc e toda essa loucura de se atirar de cabeça em nós, vc e todo esse vento maluco de liberdade...

Vc sempre me lembra das cores e do colorido do terraço. Olhar nos seus olhos me tira de qualquer sala de jantar. E quando o medo me faz encolher, vc me abraça e me liberta.

Não existe opressão entre nós. Não existe medo que seja paralisante, que seja empecilho a nossa cumplicidade, que nos barre a vontade de crescer. Nossa canção iluminada de sol entoa por aí, irrita aos estáticos da sala de jantar, espanta aos medrosos que nela estão, faz brilhar os olhos de quem quer sair correndo dela, e de quem já brinca livre aqui fora...

Os sonhos que plantamos no jardim de meu corpo crescem, e já estão prontos para brotar...O sonho maluco brotará desde o começo diferente daquelas coisas chatas da sala de jantar...

Eu te amo, meu companheiro de loucuras.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

flamenco

Ouvindo Paco de Lucía, enlouquecendo um pouco.
Preciso dançar, mas os vizinhos me matariam agora.
Que coisa linda esse flamenco nos meus ouvidos...
É algo que me desperta alguma coisa indescritível.
Amanhã tem dança p/ gestantes no grupo de parto. Mas certamente não será o Flamenco que sempre me gritou no corpo.
Ah, ano que vem...Ano que vem eu volto. De qualquer jeito...
Abro mão de muita coisa para isso.
E o Pietro também sente esse som, mexe loucamente dentro de mim ao ouvi-lo...
E quem não se contagia por isso? É possível?
Flamenco me faz voltar a mim mesma, mergulhar, entrar nessa coisa toda de ser mulher, do sangue vermelho que me pulsa as veias e o coração...

terça-feira, 18 de maio de 2010

Eu acredito

Reblogo este post LINDO do Blog Mamíferas...
Que delícia ler isso com 39 semanas!!!

http://mamiferas.blogspot.com/2010/05/eu-acredito.html

por: Kalu

Eu acredito em você, acredito na força do seu corpo, da sua natureza. Se
você foi capaz de gestar, vencendo as raras estáticas que fazem acontecer a
vida humana, você tem plena capacidade de parir. Eu acredito em você e torço
para que esqueça as dores dos outros, as experiências alheias, as
referências de dores do mundo. Esqueça os diagnósticos médicos que tentam
exaltar sua incapacidade.

Eu acredito em você e mais ainda que você deseja ardentemente o melhor para
si e para seu bebê. Eu acredito que você espera que sua natureza trabalhe e
que você sinta, como um corpo no oceano, que se aproxima de uma praia
paradisíaca. A cada onda você se aproxima. E quando estiver mais perto do
continente, a maré ficará mais forte. Simplesmente solte seu corpo e confie
na força da natureza. Ela é você.

Ao invés de pensar no que pode falhar, não dar certo, do que está fora dos
protocolos, pense no evento do nascimento como uma festa. Prepare uma
deliciosa mala de comida, com aquilo que você quer eternizar em sua memória.
Lembre que mesmo sem lucidez você lembrará do nascimento de seus filhos com
uma riqueza de detalhes impressionantes.

Pense nas músicas que você quer ouvir durante sua viagem ao seu interior.
Sim, vivenciar o parto é mergulhar dentro de si e nesta floresta escura e
desconhecida, viver a mais fantástica aventura espiritual e humana. Escolha
sua trilha sonora. Se você canta, ensaie para seu filho. Cantar ajuda a
aliviar as tensões, a relaxar o assoalho pélvico e faz a dor ficar bem mais
amena. Se seu marido toca viola, escolha canções para ele cantar para você.
Façam um lindo dueto como o fizeram quando colocaram esta alma neste mundo.

Escolha um lugar que você se sinta bem para receber esta vida. E mais ainda,
aonde você tem poder de negociar, de escolher o que comer, o que ouvir, onde
sentar ou caminhar. Escolha, sobretudo, um lugar onde olhem para você não
como uma bomba relógio a explodir a vida, mas como um corpo sagrado que é
capaz de parir divinamente.

Escolha pessoas que acreditam em você, que acreditam em sua natureza de
fêmea, de mulher, na força do feminino. Essas pessoas lhe darão fé para
continuar, para lembrar a razão de suas escolhas. Escolha alguém para
segurar em suas mãos, olhar nos seus olhos e dizer: Estamos quase lá, você
está indo muito bem.

Escolha por um ambiente que seu filho seja tratado com amor, que possa ficar
mais tempo possível com você e de preferência, que não se separem nem por um
momento. Opte por um lugar que você pode negociar protocolos com a
pediatria. Se informe sobre tudo possível e se precisar, peça ajuda para
pessoas que já passaram pela experiência e conhecem de perto o modelo
obstétrico e pediátrico.

Faça do momento de nascer uma celebração da vida, uma grande festa, com
música, boa comida, boas lembranças e boas companhias. Não permita que um
penetra estrague sua festa e roube sua cena. Tenha fé naquilo que trouxer
mais luz e conforto ao seu coração, porque a fé cria uma possibilidade
incrível de fazer as coisas darem certo. Não falo em fé religiosa somente,
falo da fé em si mesma, na força da natureza, na certeza de que somos
perfeitas para gestar e parir.

Lembre-se: nunca é tarde para mudar. Enquanto o bebê estiver aí na barriga
há a chance de escrever um novo fim. Eu mudei com 37 semanas. Até no dia do
nascimento mudar é possível. Prepare o nascimento como quem faz uma
celebração. Eu acredito na força da vida e tenho certeza que você também.

Kalu Brum - Jornalista

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Cuba e a homofobia

Liberdade sexual para além do mercado...
=)
Ainda é um enorme tabu por lá, por com certeza a liberdade conquistada lá é bem mais a frente que aqui. Um exemplo disso é que enquanto nossa liberdade de ser algo distinto de heterossexual se restringe a pegar a baladinha GLS e o show de Drag, a deles inclui cirurgia de troca de sexo pelo serviço público de saúde. Isso sim é direito!
Até!
Bjos




Em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2010/05/cuba-celebra-jornada-contra-homofobia.html

15/05/2010 14h46 - Atualizado em 15/05/2010 14h57

Cuba celebra jornada anti-homofobia

União entre pessoas do mesmo sexo já foi descriminalizada em Cuba.
Filha do presidente Raul Castro lidera Centro Nacional de Educação Sexual.

Da Reuters

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Cuba, que desde 2008 realiza operações gratuitas para mudança de sexo, seguirá lutando a favor dos direitos das minorias sexuais, disse neste sábado (15) a filha do presidente do país, Raul Castro, durante a Jornada contra a Homofobia.

Mariela Castro, psicóloga de 47 anos, lidera o Centro Nacional de Educação Sexual, uma instituição que tem conseguido melhorar a imagem da ilha neste assunto - nos idos da década de 1960, Cuba marginalizava homossexuais e os mandava para campos de trabalho.

É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem. Mariela Castro, ao centro, celebra a Jornada no centro de Havana (Foto: AFP)

"Estamos aqui, cubanos e cubanas, para seguir lutando pela inclusão, para que esta seja a luta por todas e todos", disse ela.

Entre os esforços do instituto estão as iniciativas para mudança de identidade de transexuais e a união civil entre pessoas do mesmo sexo, bandeiras que têm chocado setores conservadores da ilha. A união civil homossexual ainda não é prevista em lei.

A união entre pessoas do mesmo sexo já foi descriminalizada em Cuba, mas ainda há casos de perseguição da polícia a homossexuais

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Arrependimento....

Olho para aquelas fotos e não me vejo nelas.
Como quando terminei de me aprontar, sob brigas que sempre serão intermináveis, e me vi no espelho.
Quando entrei naquele salão e vi tudo aquilo, também não parecia ter algo a ver comigo.
E eu tremia, tremia de nervoso, tremia por não saber o que estava fazendo ali, tremia e apertava a mão dele, e ele era realmente a única coisa que dava algum sentido especial aquilo tudo.
Olhava para mim naquela roupa, com aquelas rosas e aquele cabelo, e para ele com aquele terno risca de giz, e nossos amigos naquele contexto bizarro, aquela ostentação que tanto me doía, e eu só pensava em tremer.
Nada naquele dia foi sincero, só o nosso amor era, mas estava numa representação tão distante do que nós somos...Foi sincero o golpe do destino, de tocar Panis et circenses enquanto assinamos os papéis, isso foi muito sincero.
Foi sincera a apresentação do Pedrinho, que disse "O Capi, romântico, hoje, de terno"...
Foi sincero ter sido feito por pessoas que realmente nos reconhecem enquanto pássaros livres, que constroem o casamento como o máximo do companheirismo...
Mas todo o resto era algo externo a nós, e por mais esforço que fizesse em manter aquilo, é insustentável. É insustentável o que fiz, ter submetido a isso o Capi, ter mentido na exaustão das brigas, guardar essa mágoa...

Insustentável fingir ser quem vc não é. E dói perceber que de repente você não teve força p/ brigar um pouco mais.

E toda essa insustentabilidade resultou no fracasso absoluto da minha intenção: eu não queria brigar, mas vou levar essa mágoa doída p/ sempre, não queria a desunião, mas agora duas das pessoas mais importantes da minha vida se odeiam e não dão o menor sinal de tentativa de se entenderem, não queria o ciúmes mas agora quem me gerou não acredita de verdade que eu a ame por causa de uma maldita música e umas malditas fotos...

Foi sincera minha vontade de satisfazer o sonho de minha mãe, passei por cima de um monte de coisas, sofri o vestido branco, sofri o cabelereiro caro, sofri escolher um monte de coisas que não queria, sofri não convidar quem eu queria, sofri ver o que queríamos, as frutas, os pés descalços, as pessoas que nos conhecem de verdade, o vento na praia, a areia, o vestido pintado pela Rety, os nossos amigos tocando, tudo isso indo pela janela...E o resultado foi mais um assunto tabu, mais um nó, mais uma dor, e ainda tive que agradecer por isso! Tudo isso para quê? No fim, para ouvir que eu não a amo de verdade porque não tirei foto com sei lá quem e que eu não a amo de verdade porque tocou meia música da "nossa família" e um monte de músicas "deles, os rivais"(o que particularmente eu não tive nada a ver com a história, foi o pior serviço de DJ e banda que já vi na vida... o pior é isso!)...Como se eu não tivesse passado por cima de uma série de princípios, do feminismo, do natural, da monogamia, do "anti-burguesismo", como se eu não tivesse chorado muito nesse processo, como se eu não tivesse inclusive passado por cima das vontades de uma das duas pessoas mais importantes num casamento - o noivo - para satisfazer um desejo dela.
Pois é, no fim foi isso...

Mas eu assumo minha culpa, eu devia ter brigado mais e ter feito as coisas como queria, ou simplesmente não ter feito nada de nenhum dos planos...

Ah, se eu pudesse voltar atrás...

O mais sincero foi o dia seguinte, mas ainda assim não pode ser completo.

Ainda bem que o mais sincero mesmo somos nós dois todos os dias e todas as noites abraçados...

13 de maio...

Sobre escravidão...

Repostando do blog http://blogdosakamoto.uol.com.br/2010/05/13/lei-aurea-122-anos-conheca-o-escravo-de-hoje/

Lei Áurea, 122. Conheça o escravo de hoje
13/05/2010 - 9:37 - Sem categoria 61 Comentários »

Há exatos 122 anos, era declarada ilegal a propriedade de um ser humano sobre outro no Brasil.

Contudo, a Lei Áurea – curta, grossa e lacônica – não previu nenhuma forma de inserir milhões de recém-libertos como cidadãos do pais, muitos menos alguma compensação pelos anos de cárcere para que pudessem começar uma vida independente. Para substituir os escravos, veio a imigração de mão-de-obra estrangeira, agora assalariada. Os fazendeiros não precisavam mais comprar trabalhadores, podiam apenas pagar-lhes o mínimo necessário à subsistência. Ou nem isso.

Enquanto isso, o trabalho escravo moderno deu lugar a formas contemporâneas de escravidão, em que trata-se o trabalhador como animal, explora-se sua força física aos limites da exaustão e cria-se maneiras de prendê-lo à terra, seja por dívidas ilegais, seja por qualquer outra forma. Para isso, são usadas ameaças e violência como estratégias de convencimento. No passado, sentiram isso na pele imigrantes europeus nos cafezais do Sudeste e migrantes nordestinos nos seringais do Norte. Ainda hoje, são vitimas da escravidão contemporânea milhares de trabalhadores pobres em fazendas de gado, soja, algodão, milho, arroz, cana-de-açúcar, carvoarias, oficinas de costura, pátios de obras de hidrelétricas.

Qual o perfil desse escravo de hoje? Desde 1995, quando o governo federal criou os grupos móveis de fiscalização que verificam denunciam e libertam trabalhadores, 37.205 foram oficialmente retirados dessas condições. Se considerarmos os trabalhadores rurais resgatados entre 2003 e 2009 (descontando o trabalho escravo urbano e o voltado para exploração sexual), temos Maranhão, Pará, Bahia e Mato Grosso do Sul como principais fontes de escravos; uma maioria de homens (95%); a ausência de formação – 40% analfabetos e 28% apenas com a 4ª série incompleta; 63% entre 18 e 34 anos – ou seja, no auge de sua força física, podendo entregá-la aos empregadores.

Saem de regiões pobres para procurar empregos em outros lugares fugindo da pobreza e da falta de oportunidades melhores. A fronteira agrícola amazônica tem sido, historicamente, Pará à frente, o principal destino desses trabalhadores. O município de São Félix do Xingu (PA) é campeão no número de casos de fiscalização desse crime. A fazenda e usina Pagrisa, em Ulianópolis (PA), foi palco da maior libertação até agora com 1.064 pessoas resgatadas. Mas resgates já foram realizados do Rio Grande do Sul a Roraima, passando por São Paulo e Rio de Janeiro, mostrando que o problema é nacional.

Vamos dar um passo atrás e ver e ver de onde vem essa herança maldita. Em 1850, o governo brasileiro finalmente adota ações eficazes para coibir o tráfico transatlântico de escravos após pressão inglesa. Nos anos seguintes, foram tomadas medidas que libertaram crianças e sexagenários. O que, na verdade, serviu apenas como distrações para postergar o fim da escravidão. Os escravos que conseguiam chegar aos 60 anos já não tinham condições de trabalho e eram um “estorvo” financeiro para muitos fazendeiros que os sustentavam. Já os filhos dos escravos não possuíam autonomia para viver sozinhos. Muitos, até completarem 18 anos, foram tutelados (e explorados) pelos proprietários de seus pais.

Mas, por mais que fosse postergada, com o fim do tráfico transatlântico, a propriedade legal sob seres humanos estava com os dias contados. Em questão de anos, centenas de milhares de pessoas estariam livres para ocupar terras virgens – que o país tinha de sobra – e produzir para si próprios em um sistema possivelmente de campesinato. Quem trabalharia para as fazendas? Como garantir mão-de-obra após a abolição total?

Vislumbrando que, mantida a estrutura fundiária do país, o final da escravidão poderia representar um colapso dos grandes produtores rurais, o governo brasileiro criou meios para garantir que poucos mantivessem acesso aos meios de produção. A Lei de Terras foi aprovada poucas semanas após a extinção do tráfico de escravos, em 1850, e criou mecanismos para a regularização fundiária. As terras devolutas passaram para as mãos do Estado, que passaria a vendê-las e não cedê-las como era feito até então. O custo da terra começou a existir, mas não era significativo para os então fazendeiros, que dispunham de capital para a ampliação de seus domínios – ainda mais com os excedentes que deixaram de ser invertidos com o fim do tráfico. Porém, era o suficiente para deixar ex-escravos e pobres de fora do processo legal. Ou seja, mantinha a força de trabalho à disposição.

As legislações que se sucederam a ela e trataram do assunto apenas reafirmaram medidas para garantir a existência de um contingente reserva de mão-de-obra sem acesso à terra, mantendo baixo o nível de remuneração e de condições de trabalho. Com a Lei de 1850 estava formatada uma nova estrutura – em substituição àquela que seria extinta em maio de 1888 – para sujeitar os trabalhadores.

O fim da escravidão não representou a melhoria na qualidade de vida de muitos trabalhadores rurais, uma vez que o desenvolvimento de um número considerável de empreendimentos continuou a se alimentar de formas de exploração semelhantes ao período da escravidão como forma de garantir uma margem de lucro maior ao empreendimento ou mesmo lhe dar competitividade para a concorrência no mercado. Governo e sociedade têm obtido vitórias no combate a esse crime, atacando o tripé que o sustenta (impunidade, ganância e pobreza). Mas sua erradicação ainda é um sonho distante.

Para além dos efeitos da Lei Áurea que completa 122 anos, trabalhadores rurais do Brasil ainda vivem atualmente sob a ameaça do cativeiro. Mudaram-se os rótulos, ficaram as garrafas.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Místico

Me abri.
Simples assim.
Ontem uma nova dimensão se abriu...
E de repente meus medos, tudo aquilo que me estava fechando, que me fez chorar tanto nesses dias, sumiu. Sumiu e me abri de novo, como tinha acontecido antes de eu engravidar, quando enlouqueci e não vi mais as manchas, as máculas...
Entendi de alguma forma mística o mundo, o sexo, o feminino, a vida...Isso de ser germinada, de se abrir para dar a luz a uma nova vida, de alimentar outro ser, requer entrega, loucura, escuridão, mistério...
Eu de repente quero me entregar a isso, fixar-me na nudez, na escuridão, na dor e no prazer alucinantes, no mistério.
É como se todas as coisas se unissem, as dimensões todas se cruzassem em uma reta só e tudo precisasse ser novo e ressignificado..
Acho que foi tudo um produto de uma reflexão longa e nova acerca de ser mulher, de descobrir um novo horizonte em meu ser, e reconstruir a liberdade sob essa condição...
E agora eu estou pronta para me jogar outra vez...

"Não tem calma o forte sim da tua presença
Fecundando minha mente e o fundo desse poço
Onde me jogo simplesmente por esporte boêmio
Mas é tão sério e maluco tá por um fio de tensão"

O poço fecundo eu vejo no fundo dos seus olhos quase pretos, onde me joguei de mãos dadas com você há um ano e ainda não terminei de cair...