sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Recomendação de livro...

Resenha Jornalística
Leila Diniz - Uma Revolução na Praia
Coleção: PERFIS BRASILEIROS
Autor: SANTOS, JOAQUIM FERREIRA DOS
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
O livro da vez é a nova biografia da atriz Leila Diniz, lançado no ano passado pela Companhia das Letras. Com base em relatos de amigos, colegas de trabalho e familiares, trechos de seus diários e documentação dos lugares em que ela trabalhou, o autor, Joaquim Ferreira dos Santos, foi absolutamente feliz na reconstrução da história desta incrível mulher.
Leila Diniz era uma carioca, filha de um dos líderes do Partido Comunista, e, depois de muito ler sobre educação libertária e passar por um período como professora, inicia por acaso sua carreira de atriz, em uma peça infantil. Fez algumas peças e filmes, mas seu reconhecimento vem com o filme feito por seu ex-marido, o diretor Domingos de Oliveira - nada mais, nada menos, que "Todas as mulheres do mundo". Após sua estréia do cinema, ela vai das praias de Ipanema para os estúdios de uma nova e ainda pobre emissora de televisão fazer novela - a Rede Globo - sendo posteriormente demitida por moralismos típicos de quem é financiado pelos militares. Exatamente por quebrar tabus, questionar a moral e ser livre, seu trabalho como atriz não se compara a revolução que fez no comportamento feminino. Odiada pelos direitosos moralistas e pela esquerda da época, que ainda achava aquele papo de sexualidade coisa de pequeno burguês, odiada pelas feministas que diziam que ela fazia o jogo dos homens, Leila fez muito mais pela transformação de nossa sociedade ainda machista e retrógrada, simplesmente por exibir num biquini sua barriga grávida de mulher solteira e bem resolvida, em plena ditadura militar. Foi "chamada a depor" no DOPS por seu comportamento alegre e livre, mas escapou por pouco. Sua entrevista cheia de asteriscos no lugar de seus palavrões, falando de sexo livremente, no poêmico jornal O Pasquim em 1969 fez com que os militares lançassem um decreto de censura a imprensa que ficou conhecido como "Decreto Leila Diniz".
Leitura agradável, história fascinante e divertida, que remonta a história de nosso país. Vale a pena conferir.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Greve, Movimento Estudantil e o medo do escuro

"Não vim aqui querendo provar nada,
Não tenho nada p/ dizer também
Só vim curtir meu rockzinho antigo
Que não tem perigo de assustar ninguém"

Dá-lhe Raulzito!!!

Esta foi a música que eu, depois da 3ªfeira em que acabou a greve do 1º semestre desse ano, mais ouvi, para destilar a raiva que senti ao ver argumentações do tipo "Não dá para fazer greve nas férias" como justificativas para votarmos o fim da greve. Acho que nunca saí tão exausta e tão revoltada por um comentário que ouvi dentro de um movimento - nem as feministas que não dão de 4 porque isso é "machismo", nem quando eu ouvi as palavras "progresso", "evolução humana" e "hábitos civilizados" para justificar a aculturação das culturas dos "homens do campo" no Brasil dentro de um projeto que se propõe a fazer educação popular, nem quando me disseram que esse papo de gay vai se resolver no comunismo.


Pois bem, quem começou a greve com a pauta política não-salarial foram os estudantes...Tiramos greve por todos os absurdos que ocorrem, e eu achei demais: finalmente, vamos falar para o mundo dos trabalhos, das provas, das produções acadêmicas pararem, pararemos com essa rotina maluca que não nos deixa tempo a estudar e ler algo que seja fora da academia, pararemos com a rotina que não nos dá tempo a reflexão, a criação, a análise de que tipo de formação nos estão dando, enfim vamos parar e pensar que educação se oferece neste país para nós mesmos e para a nossa sociedade, e acima de tudo protestar e manifestar que esta escola, estas instituições que são a renomada Unicamp e as estaduais paulistas, não são exatamente aquelas que queremos...

Claro, essa reflexão foi iniciada por mais um entre tantos projetos escrotamente neo-liberais pro(im)postos pelos governos tucanos nesses incontáveis e lastimátveis anos, nesta merda de estado que é São Paulo...Enfim, paramos para discutir a Univesp, o projeto de Universidade 100% a distância...

Pois bem, grupos se juntaram segundo suas afinidades políticas. Havia quem não queria que fizéssemos greve, dizendo que não era o momento....

Para mim, faltam motivos é para não se fazer greve, e todos nós que temos um pouquinho de senso crítico sabemos que a picaretagem é institucionalizada na universidade...Afinal, uma instituição que tanto valor dá ao argumento de autoridade, que baseia seu padrão de "qualidade" enquanto instituição formadora na quantidade de professores doutores, mas que os coloca em condições tais - seja por ter seu trabalho precarizado por colocá-lo nos moldes e nas condições do mercado e do lucro, seja por colocar um ser que quer ficar enfiado no laboratório para dar aquela aula que ele tanto odeia, seja por institucionalizar o "migué" de se colocar professores ainda não formados segundo seus próprios e "incontestáveis" títulos de referência - que, por mais que boa vontade se tenha, fica impossível seu exercício e compromisso com a educação que a própria instituição propôs...louco isso, não?

Voltando a greve, esse pessoal, quer por achar que não estávamos maduros o suficiente, quer por terem uma curiosa ordem de fora da universidade e do movimento estudantil, simplesmente acabaram ficando em maioria nas instâncias deliberativas de que atividade teríamos para a greve. Chamaram então, com sua crença nos argumentos de autoridade de que os acadêmicos saberiam muito mais que a gente, todos os dias, milhões de aulas públicas, com vários temas...Aulas públicas....Todas as propostas de grupos de estudos, de nós mesmos discutindo sem a "tutela" de um professor ou doutorando, discussões sobre como poderíamos construir uma educação diferente, uma outra proposta, tudo foi em absoluto BOICOTADO. Isso mesmo, boicote. Típico de política cinza, de gente que ainda não tomou - seja pelo exercício comum do não questionar, seja por interesses particulares - o movimento social, a realidade do mundo, nas próprias mãos. Não defendo que nós não estudemos mais, que a Academia não tem nada que preste - mas acho-a uma parte da argumentação, e não a verdade e a vida. Nós colocamos aulas públicas de professores que fingiram estar do nosso lado, mas apenas deram as aulas que já haviam planejado antes da greve como "atividade de greve", mas não paramos para discutir entre nós mesmos que educação queremos ter, que educação temos; não paramos para criar - não paramos nem mesmo para nos conhecer!!!!!!!!!!!Que absurdo, se um dos nossos maiores problemas é que não nos conhecemos enquanto seres humanos - eu estudo com 46 pessoas e sei o nome de quantas? 10, 15?

Sem contar o discurso que eu não engoli até agora de que "arte despolitiza o movimento" quando propusemos uma comissão para discussão e produção artísticas - que a meu ver, e na visão de muita gente que do meu lado estava, tem a propriedade fantástica de expressar mais de nós, de nos sensibilizar e trazer a reflexão, de nos abrir a cabeça para as possibilidades de criação, o que nos faz humanos, essa dimensão que está sendo perdida com a indústria cultural - imagine o que seria de nossa capacidade criativa e imaginativa se pudessemos todos os dias parar para a inspiração, o sonho, o devaneio....A arte só foi aceita enquanto instrumento de convencimento - credo! É a lógica do Capital para a arte, exatamente a mesma...Vide o cinema e Hollywood...

Mas não, nós paramos para discutir um ponto muitíssimo específico da merda de educação que temos, tiramos vários pontos em cada um dos lugares da Unicamp (falta de professor, picaretagem de professor, não assistência estudantil, Univesp, blá blá blá), e não questionamos minimamente a lógica pela qual construímos o movimento, o que significava delegarmos o "conhecimento das causas" completamente aos professores, o estudo completamente a ouvi-los sem refletir, sem sonhar, sem sair do mesmo ponto!! Fiz greve para parar as aulas e repensar as coisas...Tive um monte de aulas com os mesmos de sempre, não discuti, não repensei, não saímos do mesmo ponto.
E no fim, como nos estruturamos na mesma lógica que o Capital e o mercado, não nos aprofundamos na discussão, e não combatemos de verdade o ponto central do negócio, que é o projeto neo-liberal de educação...

Isso, claro, considerando quem estava no movimento, porque com quem estava fora isso tudo foi muito pior - com estes, simplesmente, não conseguimos nem ao menos mostrar a ligação entre os problemas de cada ponto da universidade, a lógica neoliberal e o que vemos como problema nisso - apelamos para chamá-los à "maturidade", e nomeá-los como "não-solidários", para a incontestabilidade da "autoridade da assembléia", parecíamos as velhas do Rotary, ridículo!!!

E aí, tacamos pedras nos anti grevistas, que, apesar de seu raso debate, tinham um movimento mais divertido que o nosso (o que conta muito nos nossos tempos de propaganda), e um argumento muito mais fácil de se entender com a lógica em que as pessoas estão inseridas que o nosso....No fim, justificamos as coisas do mesmo jeito que se justifica o "criminoso nato" - "Ah, estamos num contexto alienado hoje, né?"...É uma falta de senso esperar pessoas "naturalmente combativas" acordem, não existem pessoas assim, estamos na ilusão, na alienação, na narcotização que o mercado proporciona - precisamos de mais que argumentos morais para tirar as pessoas do prazer ilusório e efêmero do consumo...

E falo isso porque sei que 70% da comunidade universitária é de classe média para cima, e, portanto, não sofre diretamente na pele o enorme problema da desigualdade social e do acúmulo de riqueza, o que os faz menos sensíveis a questão.

E depois, sofremos a repressão nojenta dentro da USP...Eu fiquei absolutamente assustada...Mas o que mais importa é que a estratégia da repressão deu muito certo - não precisaram bater duas vezes, o movimento que tinha uma discussão política não tão boa se desmantelou em "discutir repressão"...O movimento lutava por uma coisa, e de repente, passou a lutar contra a repressão dele mesmo...os professores entraram em greve para tirar a polícia do campus, e, com a saída física da tropa, eles saíram da greve - mas o decreto que legitima a volta deles aos campus das universidades está lá, intocado, pronto para colocar a polícia a nos tacar gás lacrimogênio dentro de prédio de novo...

E no fim, o fim do desmantelamento - em vez de reconstruir o movimento, de refazer propostas, apesar das idéias de, para aproveitar que íamos para nossas cidades, fazermos um mutirão entre quem estaria no movimento por várias cidades do estado e do país a discutir educação, univesp, e todas as novas iniciativas para a educação pública com a população nos centros urbanos, ou então de estudarmos bastante já que não estaríamos aqui precisando mobilizar e garantir que a greve continuaria, produzirmos textos por contato virtual, enfim, apesar de todas as propostas de mobilização no que seriam as nossas "férias", como as assembléias são discursos de surdo e uma boa parte vai apenas com ordens vindas de organizações oportunistas que fazem os estudantes que delas participam massa de manobra, tive que ouvir o disparate, a indignante posição de "não tem como mobilizar nas férias". Pois eu digo o contrário - GREVE NÃO TIRA FÉRIAS!

Claro, tem o pessoal que furou a greve....Medo de fazer greve??Isso é radicalizar, ser marxista, ser revolucionário??? Esqueceram de contar que, antes de ser filósofo, pai da sociologia, escritor de "O Capital", Marx era um militante!!! E aqui faço minhas pazes com Marx, com quem briguei nessa época por ouvir suas citações em bocas de falsos leitores seus. E esses falsos leitores seus são os que negam sua condição de classe média, geralmente brancos, para falar que são mais ou menos revolucionários, como se isso fosse mais importante que as atitudes e posturas que temos. Se não temos coragem de fazer greve e enfrentar a repressão de um 0 na nota, imagine de enfrentar a polícia e suas armas letais, ou mesmo a grana chantagista dos lobbistas em Brasília(já que alguns acreditam em mudanças pela via eleitoral)...

Bom, depois dessa exaustiva terça e de minhas exaustivas 2 semanas intensas de movimento estudantil, eu não furei a greve, mas também deixei de me mobilizar em torno deste tipo de movimento...Fui p/ cama, fazer minha revolução por lá...Quando encontrei um pessoal com mais senso e menos interesse, me reuni, e me reúno até agora...
Vamos ver como sai, estou atrasada para ir p/ lá agora...

Intés!
(texto escrito há umas 3 semanas atrás, hehehe)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Educação Sexual e Diversidade

Caros Amigos,
Compartilho com vocês nosso trabalho final de Antropologia e Educação, na íntegra, que foi sobre Educação e Diversidade Sexual...
A autoria só podia ser de três porra loucas da sala, um beijo enorme p/ J.J. e p/ Chris: Christiane Silvério Frazatto, Jonatan Jackson Sacramento
E um beijo p/ Sel, que me introduziu no devaneio delicioso da Antropologia...

Trabalho Final - Educação Sexual para a Diversidade

“Bom! Vá lá, vai ver
Que é pelas crianças
Mas quem essa besta pensa
Que é prá decidir?
Depois aprende por aí
Que nem eu aprendi...
Tão distorcido
Que é uma sorte eu não
Ser pervertido”
Sexo, Ultraje a Rigor

Apresentação
Este trabalho se propõe a analisar o que hoje temos como educação sexual e, a partir disso,
problematizá-la se é isso que se faz necessário para uma formação para a diversidade.
A escolha de tal tema deu-se a partir de lembranças vividas pelos componentes do grupo, ao
rememorarem as práticas vividas em tais aulas que se caracterizavam, muitas vezes, como
insuficientes e/ou incoerentes.
Tal trabalho partiu das nossas experiências vividas nas escolas – a partir das lembranças que
impulsionaram a escolha do tema – e considerou a concepção da sexualidade na nossa sociedade
hoje, para discutir e analisar a proposta curricular de educação sexual no Brasil, os “Parâmetros
Curriculares Nacionais” para Orientação Sexual e refletir sobre o papel do educador neste processo.

1. Introdução
Para falar de sexualidade, é fundamental falar em corpo, desejo, paixão, prazer, vida
repressão, poder, preconceito, morte, controle, gênero, pecado, orientação sexual, construção de
papéis sexuais, saúde (dentro dela, as doenças sexualmente transmissíveis e AIDS), enfim, de todas
as representações sociais que giram em torno do tema na sociedade.
A sexualidade pode ser vista como um ‘dispositivo de poder’, o qual está presente em todas
as relações, seja de homens e mulheres, de professores e alunos, de médicos e pacientes e etc.
Segundo o filósofo francês Michael Foucault, as concepções médico- higienistas,
influenciadas pela medicina social do século XVIII surgida na Europa, atuaram no Brasil do século
XIX como um verdadeiro dispositivo de sexualidade nas relações já ditas. Essas concepções não
estão fora do âmbito escolar.
Os estudos sobre a educação sexual -ainda e em sua maioria- tentam seguir um método dito
‘adequado, controlado e disciplinado’ dentro das escolas, pois ainda encaram a questão da
sexualidade de maneira preconceituosa e estereotipada, partindo do ponto de vista da moral e da
religião. Porém, no contexto que as DST´s e a AIDS ameaçam a saúde pública, a partir da
reivindicação dos movimentos feminista e LGTTB e da Revolução Sexual dos anos 60, o tema da
educação sexual vem se mostrando conteúdo fundamental na escola.
Foucault, em suas pesquisas explica que, entendendo a sexualidade como mecanismo de
poder, e este, sendo executado nas instituições (Igrejas, família, escolas), é quem faz as discussões da produção de uma sexualidade para as pessoas; portanto sua fala, ou supressão, nada mais é que uma forma de controlar o assunto. E com isso se explica o porquê a sexualidade pode ser vista como um ‘dispositivo de poder’.
Sendo o tema da sexualidade polêmico, tende-se a desafiar o papel dos professores em
qualquer nível escolar, visto que há a exigência de inclusão de educação sexual nos currículos
escolares. Assim, o campo educacional freqüentemente rejeita, desqualifica e abafa o assunto.
Devido a algumas posturas contrárias a essas, foi publicado o livro “O corpo educado:
pedagogias da sexualidade”, de Guacira Lopes Louro. A obra permite ao leitor aproximar-se mais e melhor das novas tendências dos debates sobre sexualidade e das dimensões sociais do corpo, como as pedagogias escolares, o corpo e a sexualidade. No livro, Louro abre espaço para que outros professores possam contar suas vivências e suas idéias. Entre eles há a professora canadense Debora Britzman, que faz revisão das diferentes formas de educação sexual: a “normal”, higienizada e controladora; a “crítica” feita pelos preocupados em questionar as hierarquias do sexo; e a “ainda não tolerada”. Para essa última, a canadense propõe uma discussão para além da biologia, anatomia, cultura e papel sexual: a fantasia, o Eros e as vicissitudes da vida. Assim ela indaga: “será que a pedagogia pode começar com essas surpresas?”, “pode o sexo ser educado e a educação ser sexuada?”, “que está em jogo quando os jovens e os adultos nos apresentam quando eles moldam suas vidas? E o que ocorre se o que está em jogo são os limites de nossos conhecimentos?”. Ela desafia, portanto, até onde o nosso olhar pode atingir e procura instigar uma curiosidade para além dos padrões feitos pela sociedade. Principalmente porque, a questão da sexualidade antes de ser ‘na’ e ‘para’ a educação, é uma questão da própria sociedade; logo, como a educação atua dentro da sociedade, está interagindo com as influências sugeridas por ela.
Hoje, após a Revolução Sexual dos anos 60, o movimento feminista conquistando espaço e
o movimento pela Diversidade Sexual e todos os novos comportamentos postos, e principalmente
com o problema de saúde pública gerado pelo aumento das DST’s/AIDS e da “gravidez nãodesejada”
no país, há uma demanda por discutir sexualidade, tanto como parte das políticas de
promoção da saúde como uma tentativa de abrir a caixa dura do tabu. Cria-se então para a
instituição formadora do cidadão da nossa sociedade, a escola, a responsabilidade de se ocupar
deste novo horizonte, e buscar uma educação sexual.

2. Antropologia, Sexualidade e Educação
2.1 Antropologia e Diversidade
Buscando este “ensino e formação para a diversidade” é importante nos atermos ao que hoje
conhecemos por diversidade. Não devemos concebê-la e nos contentarmos da maneira liberal ou
humanista que esta nos é apresentada – onde a tolerância, o respeito e a convivência harmônica
devem ser enfatizadas nas práticas pedagógicas. Ao contrário, devemos abordá-la, como nos diz
SILVA (2001), de modo crítico, problematizando-as e permanentemente colocando-as em questão.
Para que isso ocorra, a antropologia (LAPLANTINE, 2007) nos dá alicerce teórico para o
desenvolvimento da aprendizagem em conjunto, onde poderemos trabalhar as relações de conflito x
harmonia, relação igualitária x autoritarismo e integrar as diferenças identitárias, tomando sempre a
identidade como relacional e contrastiva.
2.2 Sexualidade e Educação
Se investigada a maneira como se deu a inserção da sexualidade como um Tema Transversal
no currículo escolar, percebe-se que a escola foi chamada como um espaço de intervenção na
sexualidade de crianças e jovens. Como afirma ALTMANN (ano), a sexualidade, quando vista
como um problema social, ou de saúde pública, cria a necessidade da inclusão desta temática na
escola – pois esta é, ainda, a grande instituição que forma novos homens e mulheres. Tal inclusão,
deve-se ao aumento do número de casos de “gravidez indesejada” e crescente discriminação dos
casos de HIV.
O que se vê então, é a escola como um espaço destacado das tecnologias governamentais –
sejam elas, leis, decretos, etc. - e o sistema escolar sendo chamado para intervir no comportamento
sexual dos jovens sem no entanto, problematizar essas práticas.
A partir disso, a sexualidade vista como um problema, dá outras características ao
desenvolver do processo pedagógico, sendo ainda cheia de tabus e discriminação. Mas, como
deverá caminhar este processo?
Tudo o que fazemos, pensamos, falamos, sofre influência da imagem que temos de nós
mesmos. Tal imagem segundo MORENO (1999), não fabricamos do nada, mas a construímos a
partir do outro, a partir de modelos e padrões sociais previamente estabelecidos.
Esses mesmos padrões e modelos não podem ser modificados via decretos ou leis, mas se
faz necessário uma mudança mais profunda no sentido de modificar a mente dos indivíduos; e uma
maneira muito eficaz para isso é a educação.
A partir disso, parte-se do ponto que uma educação sexual deve ser baseada em princípios
claros de inclusão e resistência, e que deva oferecer uma alternativa reflexiva e crítica ao que
atualmente é posta pelos meios de comunicação de massa, pela propaganda do mercado, pelo
discurso moralista de algumas religiões sobre o que é a sexualidade. Tal inclusão e resistência deve
ser pautada em um interesse politicamente interessado na descontinuidade de desigualdades como a
sexual, a de gênero, de etnia, classe, raça, religião, etc.
Ou seja, o principal papel de uma educação sexual, como afirma FURLANI (2003), é
desestabilizar as verdades ditas como “únicas”, a hegemonia do modelo heterossexual, da divisão
machista do comportamento sexual, mostrando o jogo de interesses implícitos neste modelo – e a
partir disso, apresentar várias possibilidades sexuais existentes no meio social, cultural e político da
vida humana, sempre problematizando a maneira como estas são significadas e produzem efeito
sobre a existências das pessoas.

3. Educação Sexual e Currículo
3.1 O PCN de Orientação Sexual
- Pontos de partida
O documento inicia buscando considerar “a sexualidade como algo inerente à vida e à saúde,
que se expressa no ser humano, do nascimento até a morte.”(PCN - Orientação Sexual), e cita o direito
ao prazer e ao exercício da sexualidade, relações de gênero, etc. Na justificativa, parte-se da
premissa de que a sexualidade está em todos os lugares, desde o corpo até a mídia (inclusive na escola),
e isso gera uma ansiedade e curiosidade nos educandos; por isso, é fundamental trabalhá-la
para que o a criança, o adolescente e o jovem possam escolher sobre seu corpo e sua própria sexualidade,
com esclarecimento e auto estima, durante toda a vida. Esse trabalho perpassaria os temas de
DST’s/AIDS, abuso sexual, direitos sexuais e reprodutivos, gravidez e contracepção, que são parte
também das diretrizes de políticas públicas para a promoção da saúde. O objetivo desta perspectiva
na parte inicial do PCN visa a formação do cidadão para uma sociedade pluralista e democrática
que se pretende construir.
Em “Concepção do Tema”, se utiliza a concepção de sexualidade da Organização Mundial
de Saúde de 1975, em que, sendo a saúde um direito humano fundamental, a saúde sexual também
deve estar considerada um direito humano fundamental. Em seguida há uma discussão sobre sexualidade
na infância e adolescência.
- Orientação sexual como tema transversal
A Educação Sexual aparece como tema transversal em “Orientação Sexual”, porque a
sexualidade é colocada como fenômeno intrínseco ao ser humano, e portanto se manifesta em toda
a vivência escolar, não podendo ser trabalhada como conhecimento restrito de uma única disciplina.
Por isso o PCN ressalta que manifestações espontâneas da sexualidade, que seguramente ocorrerão,
devem ser aproveitadas para um trabalho educativo em sexualidade.
Também há a possibilidade de se trabalhar a temática isolada, com um espaço dedicado
exclusivamente à ela em carga-horária, a partir do 3º ciclo do Fundamental.
- A Postura do Professor
Por esse motivo, há uma parte no PCN dedicada a postura do educador; ele deve ter uma
formação específica para tratar da sexualidade, o que inclui refletir sobre suas próprias dificuldades
acerca do tema; a partir disso, ele poderá ter uma postura aberta ao diálogo, que reconheça as
diferentes formas de manifestação da sexualidade, e que vise o esclarecimento e o respeito.
Também é fundamental que o professor cuide para não pregar seus valores pessoais em sala, nem
admitir que se invada a sua privacidade. Reconhece-se que deve existir uma relação de confiança
entre professor e aluno para desenvolver o tema. E esta postura é independente da área em que
atuem.
- O Trabalho Pedagógico
Inicialmente, trata-se de como trabalhar a temática a partir das manifestações da sexualidade
das crianças, adolescentes e jovens na escola. Propõe-se a contextualização destas, de onde seria um
ambiente melhor para fazê-las, colocando o que cabe fazer em determinadas situações e o que não
cabe, sem condenar ou aprovar as atitudes. O principal foco é a problematização, o questionamento
e a ampliação dos caminhos e saberes na sexualidade, para que os alunos se posicionem, escolham e
tenham preservada sua intimidade.
Também aparece no PCN a necessidade de se abordar as mensagens que vêm da mídia, da
família e de diversas instituições, para informar, esclarecer do ponto de vista científico, promover a
reflexão sobre os diversos valores envolvidos, e possibilitar a formação de opinião dos alunos a partir
de seus próprios valores.
Os conteúdos são divididos em três principais blocos: “Corpo: matriz da sexualidade; Relações
de Gênero; Prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis/Aids”, que devem ser necessariamente
trabalhados no Ensino Fundamental. Neles também se sugere em quais disciplinas poderiam
ser encaixadas as partes do tema.
Ao se abordar a questão nos 3º e 4º ciclo do fundamental, considerando o aumento do interesse
e da necessidade de posicionamento, e presença mais cotidiana da sexualidade, há a demanda
por se tratar em um espaço próprio a Orientação Sexual. Não há uma formação específica exigida
para o educador que for trabalhar nesta área, podendo ser inclusive orientador ou coordenador pedagógico.
O programa seria montado de acordo com cada turma, e não por uma instância maior.

4. Conclusão
Tendo observado, em nossas próprias vivências escolares e nas vivências escolares de todos
ao nosso redor; observando os dados de violência contra GLBT’s, que cresceu 55% de 2007 para
2008 segundo GRUPO GAY DA BAHIA(2009), o aumento dos casos de AIDS entre mulheres e a
alarmante situação da gravidez na adolescência; observando também a insistência dos tabus
machistas, misóginos, heteronormativos e homofóbicos em toda a sociedade, concluímos que as
políticas educacionais pela educação sexual ainda têm um longo caminho a trilhar para uma
formação do cidadão pluralista e democrático.
Pensando na perspectiva lançada pelo PCN, é fácil perceber porque ele tem pouca
penetração na escola, apesar do discurso “reivindicatório” da sociedade em se tratar este tema; o
PCN centra no educador a responsabilidade por desenvolver este conteúdo, que já é difícil por si
mesmo. Este educador, porém, acima de não ter formação específica para isso, tem péssimas
condições de trabalho. Esperar que ele, que quase não discutiu sexualidade na sua formação (ainda
não há programas distribuídos para todos os professores neste tipo de formação, muito menos há
algum tipo de disciplina enquanto grade curricular obrigatória nos cursos de Pedagogia e de
licenciaturas para discussão do tema; há cursos de formação continuada em alguns municípios, mas
isso ainda é pontual), sujeito aos baixos salários, instabilidade constante no emprego, com uma
carga de trabalho que o inviabiliza de refletir sobre suas práticas em sala, que tem sobre seus
ombros a carga de cumprir conteúdos, com pouco tempo para construir uma relação forte e de
confiança com seus alunos, seja encarregado de desenvolver este conteúdo do ponto da pluralidade
e democracia é no mínimo ingenuidade.
Com isso, a temática acaba caindo apenas para Ciências/Biologia, por já existirem aulas em
que é inevitável falar do assunto, mas sempre aparece com uma perspectiva reprodutiva e/ou
patologizada. Esse isolamento nestas disciplinas acaba por minar ainda mais a discussão da
pluralidade, da escolha e da diversidade sexual, reforçando os velhos padrões moralistas da nossa
sociedade. Outra possibilidade de ocorrência está nas aulas específicas de educação sexual, em que
geralmente o sexo é encarado como algo para se ter cuidado antes de se ter prazer, em que se
discute pouco as práticas, as culturas relacionadas ao sexo, a diversidade sexual, as formas de se
obter prazer e muito doenças, gravidez, de forma opressiva, enfocando não a consciência do próprio
corpo e sim a culpa, o medo e a ansiedade.
Por não valorizar o trabalho do professor e nem dar a ele uma formação mínima para encarar
o assunto, por ainda não ter quebrado seus próprios tabus, e por ainda a escola ainda não consegue
promover uma educação sexual capaz de abarcar as premissas do PCN, nem da Diversidade Sexual.


Bibliografia
ALTMANN, Helena. 2003. Orientação sexual em uma escola: recortes de corpos e de gênero.
Cadernos Pagu, 21, p. 281-315. Campinas.
BONATO, N. M. Da C. 1996. Educação (sexual) e sexualidade: o velado e o aparente. Dissertação
de Mestrado, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.
CARVALHO, M. P. De. Março 2000. O Corpo Educado: Pedagogias da Sexualidade (resenha de
obra). Cadernos de Pesquisa, 100, p. 240-242. São Paulo.
FURLANI, Jimena. Educação Sexual: possibilidades didáticas. In: GOELLNER, Silvana Vilodre,
LOURO, Guacira Lopes, NECKEL, Jane Felipe (org). 2003. Corpo, Gênero e Sexualidade: um
debate contemporâneo na educação. Petrópolis, RJ: Vozes.
LAPLANTINE, François. 2007. Aprender Antropologia. São Paulo, Brasiliense. (20º reimp.)
MORENO, Montserrat. 1999. Como se ensina a ser menina: o sexismo na escola. São Paulo,
Moderna; Campinas, Editora da Unicamp.
SILVA, Tomaz Tadeu da. 2001. Documentos de Identidade – Uma introdução às teorias do
currículo. Belo Horizonte. Autêntica.
http://www.ggb.org.br/assassinatosHomossexuaisBrasil_2008_pressRelease.html
(acessado em 16/07/2009)
http://www.mj.gov.br/sedh/homofobia/planolgbt.pdf
(acessado em 16/07/2009)
http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/orientacao.pdf
(acessado em 16/07/2009)

Liberdade sexual e Revolução

Vale esclarecer alguns pontinhos sobre meu último post, que gerou um comentário do colega J.L. Tejo:

Sobre seu comentário em meu blog: em momento nenhum defendi a liberdade sexual como liberdade em seu sentido mais amplo...Estou apenas me referindo à plasticidade do capitalismo em relação aos movimentos de liberdade sexual, como foi cooptado o próprio movimento hippie, como os movimentos pela diversidade sexual, como o movimento feminista, e como o próprio mercado nos aliena e ilude, com uma falaciosa liberdade...Não estou falando em liberdade como apenas liberdade sexual, mas ela também é parte da revolução e do fim do Capital.

E digo mais: liberdade é coisa corpórea. Esse papo capitalista de que somos livres para escolher é uma grande bobagem. Não há como falar em liberdade e emancipação humana com metade da humanidade morrendo de inanição, de sede, de doenças resolvíveis com o mínimo de saneamento básico. A pior ditadura é a fome.

Se eu acreditasse em militância só pela liberdade sexual, não seria pró-Cuba, nem teria tanto contato com o conhecimento popular, em que essa dimensão, pela configuração de nossa cristã colonização, está muitíssimo distante.

Sou militante em movimento de educação popular e arte livre, e estou militando para construir um momento revolucionário, de quebra e transformação do Capital em liberdade. Sem esse papo de democracia, que se propõe a falar de liberdade mas só tem sido instrumento de alienação política e dominação cultural e econômica de gordos capitalistas: não tenho muito medo da ditadura do proletariado não.

Agora, revolução para o fim do Capital sem revolução para o fim do machismo, do racismo, da homofobia, da exploração do meio ambiente e da dominação religiosa, não será revolução. Se é para libertar o ser humano da fome, que libertemos as mulheres e os homens dos padrões de comportamento, as mulheres dos olhos roxos e vaginas violadas, libertemo-nos dos padrões e rótulos de desejo, identidade e amor, sejamos todos da única raça humana, libertemos o meio ambiente de nossos venenos e dos chicotes, libertemos as pessoas desse maldito padrão irracional cristão para que elas sejam atéias, taoístas e até cristãs conscientes se elas quiserem.

Revolucionário que faz piada inferiorizando a mulher, rindo de gay(que na verdade é quase a mesma coisa, ou até pior), ou tendo surto de ciúmes possessivo sobre sua bela namorada sem combater e repensar seus sentimentos estará, inevitavelmente, reproduzindo a dominação do Capital, que inventou a família monogâmica, heterossexual e patriarcal para a própria fixação da propriedade privada, como o próprio Marx tão bem descreveu.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A mercantilização da liberdade Sexual

Vocês, caros leitores classe média, se algum dia foram do tipo mais "baladeiro" e menso monogâmico, sabem bem: já foram num motel?
É um dos lugares que mais gosto de ir...você chega, geralmente de carro, moto ou a pé(mas só fui de carro), tem uma janelinha geralmente escura(vc não vê quem te atende) com um buraco embaixo do vidro, os preços e as horas que vc terá para ficar lá numa tabela iluminada, e pede o tipo de quarto que te apetece ou que seu bolso pode pagar. Ela te dá uma chave e vc entra em um lugar com muitas garagens cobertas; entra na garagem e fecha a porta, ninguém vê o modelo de seu carro/moto. E sobe num quarto, sempre bonito e limpo, com quadros eróticos e bom...o resto é por sua conta...Se for pedir alguma coisa, seja algo para comer ou algo para comer melhor(hahahahah), tudo é colocado em uma caixinha com portas dos dois lados; a atendente abre a porta, coloca o pedido, fecha a porta; você abre a porta do outro lado e pega o pedido...
Quando for sair, o mesmo esquema de não ver ninguém que te atende; eles fazem a inspeção p/ ver se vc não roubou nada, p/ ver se vc consumiu algum dos produtos disponíveis no quarto(sais de banho, camisinhas, etc) e te dão o valor. Se vc pagar com cartão, o comprovante de pagamento vem com qualquer nome que não seja de motel - já vi uns indicarem "moda unissex", "pizzaria", nome da cidade, mas nunca, jamais "motel dos prazeres"...
Se puder pagar, você poderá gritar, sujar todos os lençóis e colchões de tudo o que seu fetiche mandar, levar quem vc quiser p/ cama(homem, mulher, transgênero, travesti, a vizinha, o/a amante, a mulher, o marido, o/a namorada(o), um grupo de amigos pervertidos e malucos escondidos no carro - claro, se tiver dinheiro, vá p/ uma suíte de swing), poderá fazer aquele sexo por qualquer lado, de qualquer jeito, vestir cueca de elefante e roupa de dominatrix...tudo pelas horas mágicas muito bem pagas em que vc é livre entre 4 paredes...e ninguém vai saber do seu crime ali, ninguém. Seu casinho, sua curiosidade não hetero, seu fetiche de ser dominado, seus gritos, seu sonho de ser lambido com leite condensado - tudo segredo, o risco de encontrar o fofoqueiro da esquina, o padre da Igreja, a mãe, é restrito aos 15 minutos de entrada na suíte e saída da suíte. Bela liberdade.

Liberdade Sexual, afinal, é muito mais que isso. Muito mais do que caçar numa balada uma pessoa em quem gozar, sem se importar com seu prazer, com seu ser humano; muito mais do que poder fazer desde que bem pago e escondido, sustentando uma indústria nojenta, um ramo do mercado, a sociedade da mentira, da anestesia, do medo. Liberdade Sexual é poder, independente do quanto tem na carteira, do que tem no meio das pernas, do que quer ter no meio das pernas, de quem se quer na cama, manifestar-se, amar e conhecer a si mesmo, sem esconderijos, sem amarras, sem preço. E isso motel nenhum, balada nenhuma, academia e cosméticos natura nenhum nos dará. A mercantilização dos movimentos de liberdade sexual nos fez escravos do mercado, mas não libertos da moral cristã de culpa e pecado do sexo, do desejo; e ainda explorou altamente a ditadura da beleza, do corpo, elevando-a em seu mais alto grau.

E nada pode ser mais cruel que a ditadura que se impõe, no Capital, aos nossos corpos, à imaginação, ao desejo, ao amor, à humanidade. Por ter me retido por tanto tempo nessa falsa idéia de liberdade sexual que se compra a cada esquina, por ter por tanto tempo me alienado de meu desespero de liberdade, por ter ludibriado meus sentidos, por tudo o que tive que passar para me dar conta disso, eu jamais perdoarei o mercado e o Capitalismo, sua plasticidade irritante, sua falácia constante. Porque, por mais livre que eu possa ser no quarto de um motel, eu continuo sendo vítma de assédio sexual, continuo sendo a possível morta num ataque de neo nazistas por ser "livre", continuo tendo que calar para alguns lados da sociedade sobre meu amor livre, continuo ouvindo piadas machistas...

A merda a liberdade de consumo!! Eu quero emancipação humana!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sobre o racismo

Enviado por mim no email da minha sala, após o nojento ocorrido no Carrefour de Osasco, segue abaixo reportagem.

Na verdade, isso estava engasgado na minha garganta, depois que eu vi uma foto no orkut de uma colega de sala, indo p/ uma festa a fantasia, com um sinal de reverência e dois amigos fantasiados de, nada mais, nada menos, que Ku Klux Klan.

Ter opiniões diferentes, defender o Capitalismo/Anarquismo/Socialismo/Budismo/Catolicismo ou qualquer outra teoria, faz parte do negócio, faz parte da discussão, da construção do ser humano....

Agora, é completamente absurdo defender(e eu considero a piada, neste caso, uma apologia) em alguma medida, grupos de extermínio, como o caso do KKK. É inadmissível, assustador, escroto.

Este texto é, na verdade, revolta acumulada.

Aí vai:

-----------------------------
Se há uma coisa para a qual devemos ser completamente intolerantes, é o racismo.

Quando finalmente vamos tomar vergonha na cara e de uma vez por todas eliminar esse absurdo, que tanto mal já causou a nossa humanidade, da conduta política do estado, da sociedade, das pessoas individualmente?

Mas o fato, como tão bem percebeu Malcom X e tantos outros, é que sem racismo não há capitalismo - e aqui não falo em cor da pele, pois afinal, os judeus que morreram nas mãos dos nazistas eram "brancos", e os tutsis que morreram em Ruanda nas mãos dos hutus eram "negros". A acumulação do Capital se apropriou de tal forma das velhas opressões, que é impossível desatrelar uma coisa da outra, e hoje o capitalismo diz que combater o racismo é vender bonequinhas negras, cosméticos para a pele negra, e eleger pela democracia burguesa um presidente negro.

Nada disso impede que cresça a guerra entre palestinos e judeus, a blitz que pára meu colega negro na rua mas não pára meu colega branco, e os movimentos neo nazistas que espancam, agridem e matam nordestinos e negros pelos centros urbanos de nossas cidades. Isso tem acontecido com mais frequência que nós, enquanto sociedade civil, queremos assumir.

Tolerância com racismo é ser dele um cúmplice. Repudiar ações como essa do Carrefour é uma obrigação nossa enquanto seres humanos, independente da cor de nossa pele, de nossa etnia, de nossa classe social.

E vale lembrar a quem se julgar "branco" num país como o Brasil e num continente como a América Latina, que somos produto de miscigenação absoluta (afinal, brancos em massa só chegaram por aqui neste século, e portanto, temos um passado de miscigenação do homem branco com os indígenas e negros muito mais forte). A possível cor "branca" de nossas peles é produto de uma política de embranquecimento da população, a criar uma classe média não negra, e portanto, brancos, negros, indígenas enquanto "raça" é, mais do que em qualquer outra parte do mundo, completamente estapafúrdia e infundada por aqui...

Aos neo nazistas espalhados pelo nosso continente, desde contando piadas sem graça até os campos de batalha em que espancam gente na rua, sinto muito: se querem o extermínio das "raças inferiores", comecem exterminando a si mesmos, já que vocês de raça pura nada têm.

E aos que acham que nada tem de racistas, vale um exame de consciência e do inconsciente escravista (que tal uma leitura da psicologia p/ esse lado também?) que temos para ver até que ponto não nos sujeitamos à lógica absurda que paira nossas mentes brasileiras, que vivem negando que são racistas, mas atravessam a rua a noite ao ver um negro passar, contam suas piadinhas racistas em mesa de bar e morrem de desgosto ao ver seu filho com uma namoradinha negra.

Às respostas neo-liberais e liberais a respeito do racismo, possíveis de surgir pelo meu pressuposto de que só fora do Capital (e portanto do capitalismo, já que estamos neste momento histórico) há aniquilamento do racismo, estou aberta a discussão.

Atés revoltados.

----------------------
Reportagem:
>>Manifestantes protestam contra racismo no Carrefour de Osasco
>>
>>Homem negro foi espancado e acusado de 'roubar' o próprio carro, um
>> Ecosport, pelos seguranças da loja
>>
>>SÃO PAULO - Dezenas de pessoas se reuniram no estacionamento da unidade de
>> Osasco dos supermercados Carrefour na manhã deste sábado, 22, para
>> protestar contra a agressão sofrida pelo vigia e técnico em eletrônica
>> Januário Alves de Santana, de 39 anos, na quarta-feira, 19. O cliente do
>> supermercado foi confundido com um ladrão pelos seguranças, que o
>> agrediram o acusaram de "roubar" seu próprio carro, um EcoSport.
>>Os manifestantes levaram uma faixa branca de cerca de 30 metros com os
>> dizeres "Onde estão os negros?" e a estenderam no estacionamento do
>> supermercado. Alguns carros exibiam protetores de para-brisa com a frase
>> "Carrefour racista" nas cores da logomarca da rede.
>>
>>O advogado de Santana, Dojival Vieira, vai entrar com uma ação de
>> indenização por danos morais contra o Carrefour e contra o Estado.
>> "Queremos que os cinco seguranças e os três policiais sejam identificados
>> e responsabilizados. Esses casos de racismo não podem mais acontecer num
>> País onde a metade da população é negra ou parda."
>>
>>O Carrefour decidiu afastar a empresa Nacional de Segurança Ltda., que
>> prestava serviços em algumas lojas de São Paulo e o gerente da unidade de
>> Osasco.
>>
>>
>>Protesto ocorreu no estacionamento do supermercado. Foto: Evelson de
>> Freitas
>>
>>
>>Carros exibiram protetores com frase "Carrefour racista". Foto: Evelson de
>> Freitas
>>
>>
>>Foto: Evelson de Freitas
>>
>>
>>Foto: Evelson de Freitas
>>Fonte: Estadão

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sobre a mulher, Direitos Humanos e Democracia

EP132 - Educação, Democracia e Direitos Humanos
Resenha relacionando o filme “Desmundo”, o texto de Bosi, Alfredo “Dialético da Colonização” e a questão dos Direitos Humanos.
O filme trata do início da colonização do Brasil, sob a ótica de uma portuguesa que vem ao Novo Mundo com um grupo de mulheres, obrigadas a casar-se com os homens portugueses que aqui estavam, para colocá-los na “vida cristã” de casado e constituir família. O filme evidencia principalmente o machismo nas relações do início de nossa colonização, que se dará tanto na esfera dos escravos como na fundação de uma classe dirigente na colônia.
Estes homens vêm para explorar a terra e seu povo, e o fazem em todos os sentidos; a miscigenação do brasileiro tem aí suas primeiras origens. O contato deste homem branco com os diversos indígenas que estão aqui se dará com uma relação de poder, seja pela cruz e a aculturação do índio, seja pela espada e o extermínio de quem não se submetesse a cultura e modo de produção europeus. Vem da Europa então a estrutura familiar monogâmica e patriarcal, que pressupõe a mulher enquanto posse do homem, enquanto procriadora e mantenedora dos cuidados domésticos e da vida privada, ou então enquanto “corruptora” da alma “pura” do homem, que se vê perdido e acaba por ter uma conduta poligâmica – aí está o machismo que justifica a exploração sexual, a violência, o estupro, a inferioridade moral da mulher. Esse conjunto de valores machistas resultará aqui no Brasil na miscigenação pela exploração sexual das escravas indígenas e mais tarde das escravas negras, na relação de poder e aculturação que nada tinham de anulação heróica da cultura européia pelos colonizadores portugueses (como havia sido proposto por Gylberto Freire e Sérgio Buarque de Hollanda).
Com esta formação moral machista da sociedade, institucionalizada e repetida nestes 5 séculos desde o dito “descobrimento”, ou melhor, desde a dominação cultural (pensando no sentido de “cultura” das páginas 16 e 17 do texto já referido) da já então reacionária Igreja européia até os valores atuais de mercantilização do corpo feminino, é impossível que se garantam os mínimos direitos da pessoa humana, inclusive de integridade física, da mulher enquanto ser humano. Não se mudam séculos de exploração e poder em 60 anos, pois isto requer uma mudança – que é progressiva e que culminará, se nela for investida a devida energia – geral nos valores e na ética da sociedade. Por isso, a luta pela emancipação feminina, que vai desde a Lei Maria da Penha e a Delegacia da Mulher(que ajudou e ajuda muito no julgamento dos crimes contra a mulher, que antes eram estupradas e submetidas ao julgamento moral do comprimento de suas saias) passando pelas leis trabalhistas e indo até a luta pelos plenos direitos sexuais e reprodutivos (programas de educação sexual não moralistas que esclareçam homens e mulheres sobre o funcionamento dos próprios corpos para o prazer e a reprodução, planejamento familiar e métodos contraceptivos incentivados pelo estado, legalização do aborto, casamento homossexual, enfim), é fundamental a efetivação dos Direitos Humanos no Brasil e no mundo.A questão a que me proponho agora é imaginar se estes Direitos, do ponto de vista da mulher e de qualquer outro ser humano, são possíveis em uma cultura em que o Capital domina e comanda o coletivo – o que, nas atuais circunstâncias de Capitalismo Financeiro, se concretiza nas relações humanas e de produção mercadológicas, em que seus “Direitos” são compráveis. A escolha e a liberdade do ser humano estará condicionada ao que ele, enquanto pertencente a uma determinada classe social que receberá um crédito bancário, poderá consumir de acordo com seu sexo, “raça”, religião, orientação sexual. E este condicionamento resultante da liberdade de mercado – você escolhe se puder comprar - acaba por contradizer a própria prática dita democrática, pois a escolha do indivíduo não se dá em um contexto em que ele tem plenas condições de discernir, refletir e assim escolher.