sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sobre o sensível e a arte

Cá estou eu estudando, mas tive que parar para falar porque me lembrei de muitas coisas...

O texto disparador foi "Modesta proposta para proteger os jovens dos produtos da poesia", de Hans Magnus Enzensberger (Livro: Mediocridade e loucura e outros ensaios)...Já li algumas poucas coisas desse cara e tudo que li até hoje foi um tesão de epifanias consecutivas...

Ele está falando da interpretação "correta" e seus riscos, sua autoridade despótica e nojenta dos críticos de arte, da leitura(e interpretarei isso como "leitura de mundo", num sentido bem Paulo Freire mesmo) enquanto algo tão livre e tão microscopicamente dependente de cada partícula de universo que há em cada ser humano, que chega a ser anárquico...Texto delicioso e fantástico, que me fez lembrar muitas coisas...

O primeiro fato que me lembrei foi a Vernissage, há uns 10 anos atrás, da exposição "Cabeças", da qual um quadro meu participou porque era a exposição dos alunos, e eu fazia aulas de pintura na época...Eu sou um verdadeiro desastre nas artes manuais, e eu tinha meus 11 anos na época, obviamente meu quadro era um quadro de criança, com uma maturidade de uma criança que quer fazer cabeças coloridas felizes em uma festa...E só.
Então, estava eu lá, orgulhosíssima de estar em uma exposição (acontece que nessa época, por ser boa aluna mas ser "feia" e um verdadeiro desastre em competições esportivas, eu tinha um enorme orgulho intelectual, uma arrogância nojenta típica dos nerds que eu só fui começar a desfazer nos meus humilhantes 4 anos de Química e nas minhas reflexões sobre beleza e esporte além do mercado...enfim...), e veio uma mulher, uma psicóloga, e fez uma enorme interpretação "psicológica" do meu quadro, dizendo que expressava sentimentos maduros da minha psiqué, e que expressava a coletividade, a percepção das pessoas como diferentes e o universo individual de cada um, as cores produziam um efeito do meu inconsciente, e um monte de outras interpretações DELA que meu ego confirmou, como se eu realmente tivesse pensado algum dia naquilo tudo...Eu era uma criança, pelo amor de Deus! Era só uma "festa" retratada, as cores eram cores porque eu adoro colorido, e a cabeça que representava meu pai era verde não porque eu queria expressar tal sentimento, e sim porque meu pai gostava muito de verde e ponto, mas isso no fim pouco importa à quem vai ver o quadro. Eu confirmei tudo pelo meu enorme "orgulho nerd intelectual", o ego inflado por uma "especialista" em mente humana que tinha visto uma inteligência sobrenatural do autor do quadro, exatamente como o autor do texto diz que os autores traem seus leitores ao serem cúmplices dessa interpretação "correta" da leitura...

Lembrei-me também de um dia, vendo uma cena montada por um grupo de teatro lá de Santos, que assisti em um lugar mágico chamado "Café Teatro Rolidei"*, e um amigo meu engenheiro me disse: "Isa, eu nunca entendo nada dessas coisas artísticas, do que querem dizer...me explica?", e eu, no meu orgulho intelectual nerd de atriz de teatro amador (na época eu estava num grupo de teatro há um ano), apesar de não estar entendendo bosta nenhuma, interrompi o deleite que eu estava sentindo (era uma cena bonita demais, com poucas falas bastante desconexas, mas a atriz olhava tão longe e sorria tanto que era intrigantemente inexplicável a sensação de alegria que a cena dava) para dar explicações vazias de filmes de Hollywood - como não bastasse ser orgulhosa, eu era bem tapada...hehehe...

Tive que me despir desse orgulho para voltar a dança, para saboreá-la de verdade como a saboreio hoje, ainda que ande ultimamente bem atrapalhada com as técnicas...

Esse lance de que a arte não deve ter interpretações "corretas" é ótimo. Lembrei-me de uma discussão recente com o Capi(meu namorado, p/ quem não sabe...) sobre o filme surreal "Um cão andaluz", do Buñuel. Eu não entendi nada do filme, mas morri de aflição o filme todo. E o Capi me deu a seguinte sacada: não é para entender, é para sentir. "Arte é para sentir". Fato, é disso que trata a estética, a arte: criar algo para sensibilizar o espírito, para desencadear emoções e nos colocar o desafio de sermos mais humanos, de refletir, de nos intrigar e enlouquecer no inexplicável...nenhum outro ser é capaz disso, e andamos correndo cada vez mais o risco de perder nossa capacidade estética enquanto nos voltamos à incessante produção insensível e irreflexiva - e logo estaremos como animais, num Admirável Mundo Novo...

Essa necessária verbalização de tudo, conceituação, páginas e páginas de explicação sobre obras artísticas. Tudo nós temos que verbalizar...será? Isso é desumanizante - e fazemos isso com a arte e com o que sentimos, fazemos isso com o amor, o desejo, com Deus... está lá a ciência bestialmente procurando o DNA de Jesus Cristo no Santo Sudário, endocrinologistas dosando hormônios do "estar apaixonado" (e o amor vira umas doses a mais de oxitocina, que absurdo!!), geneticistas e sociólogos provando por A+B o porque uma pessoa deseja alguém do mesmo sexo, acadêmicos do IA tentando conceituar que Chico Buarque queria dizer isso ou aquilo e blá blá blá...Socorro!!!!

Eu não faço idéia de como se explicaria uma escobilla (trecho do baile Flamenco em que se sapateia, particularmente minha parte preferida do baile), mal entendo o que se canta na música, não sei porque os compassos do tangos se dividem em 4 tempos e o da soleá em 12...E isso pouco importa, não é nada disso que me faz dançar e nem saber das técnicas é o que faz a minha dança arte(não estou negando o valor da técnica). Eu sinto a dança, ela entra em mim e me move, me desperta, mexe em algo inexplicável que me motiva a reflexão, a ação, o movimento, e o que eu sinto ao dançar ou assistir a um espetáculo é que faz daquilo uma arte. Isso vale para a capoeira, para o amor pela minha mãe, para meu desejo por doces, para minha revolta...

Numa sociedade em que o que sentimos é sempre subjugado a uma razão científica, sempre colocado de lado em nome da produção e do mercado, em que não escolhemos o que consumimos - simplesmente por estarmos alienados a tudo o que é produzido, não temos idéia da onde vem nosso chester de natal, ou como funciona nossa câmera digital, caímos na armadilha da tecnologia do especialista, e nem o coletivo nem ninguém domina o todo - a arte corre o sério risco de perder seu maior trunfo, o sensível...cada vez mais ela vira uma coisa funcional, que serve a um determinado fim, seja ele o fim dos dinamites ou da alienação do ser. Onde está a nossa humanidade?

E aí, realmente, fica muito fácil cair no "para que serve a poesia?"; retiramos da poesia e das artes sua essência, e a colocamos como simplesmente apologia, bomba, alienação...Não temos mais o livre sentir, não sentimos as dores de cabeça porque estamos cheios de aspirinas, seja no corpo, seja nas interpretações. E assim, discriminamos as interpretações "certas" e "erradas", ao invés de trabalharmos nossos sentidos...

Assustador, terrivelmente assustador...


*quem for a Santos, não perca...Funciona no Teatro Municipal de Santos, tem uma entrada salgada de 15 reais mas vale a pena - é um bar temático em que você é atendido por personagens, interpretados por um grupo de teatro; tem banda e dancinhas engraçadas, e no meio da noite fazem cenas teatrais; além do espaço ser um enorme cenário e de ter vários figurinos que todo mundo pode vestir; e os drinks são deliciosos, tem muitas opções sem álcool tb; a grana toda vai para custos básicos e projetos de fomento a arte na cidade, os atores são voluntários...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Saudades...

Eu ando com saudades de Cuba...
Não sei porquê...
Um docinho cubano:
http://www.youtube.com/watch?v=bJ4NOXz3gjA&feature=related

domingo, 9 de agosto de 2009

Um conto...

Acabo de ler um conto que minha colega de classe me enviou.
Disse que se lembrou de mim quando leu, e não foi por acaso.
Dentre tudo que me revolta num conto desses, dentre todas as armadilhas que apareceram nele e eu já caí algum dia, o que mais me assusta e que com certeza sustenta a homofobia, o machismo e o racismo que o conto denuncia, é a forma como é encarado o desejo, o sexo, o amor e as relações humanas.
Estou em choque com meu passado, e tenho um louco desejo de destruir o que querem que eu seja.
Conto de Alice Walker.
Obrigada, Bel!!
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Um esposo de meia idade chega em casa depois de um longo dia no
escritório. Sua esposa o recebe na porta com a notícia de que o jantar
está pronto.. Ele se sente grato. Primeiro, no entanto, ele precisa ir
ao banheiro. No banheiro, sentando-se na banqueta, abre um número da
revista Jiveboy que trouxe para casa em sua pasta. Há uma pose de um
par de mulheres que o excita particularmente. Ele examina as jovens
mulheres - louras, talvez (a loucura nacional), com cintas elásticas e
olhos convidativos - e acaricia seu pênis. No mesmo instante, seus
intestinos remexem-se com vontade de defecar. Ele fica no banheiro
durante luxuriantes dez minutos. Sai de lá aliviado, relaxado -
faminto e pronto para o jantar.
Sua esposa, usando mais tarde o banheiro, encontra a revista levemente
molhada. Ela a apanha com emoções contraditórias. É uma mulher morena,
com cabelos e olhos pretos. Examina as loura e as ruivas. Será que ele
pensa nelas, indaga, quando está fazendo amor comigo?
- Por que você precisa disso? - ela pergunta.
- Isso não significa nada - ele responde.
- Mas isso me magoa de alguma maneira - ela diz.
- Você está sendo a) boba; b) quadrada e c) ridícula - ele diz. - Você
sabe que eu te amo.
Ela não pode dizer nada a ele: Mas elas não são eu, essas mulheres.
Ela não pode dizer que tem ciúmes das fotos nas páginas da revista.
Que ela se sente invisível. Rejeitada. Negligenciada. Ao invés disso,
diz para si mesma: Ele está certo. Eu tenho de amadurecer. Entra na
linha. Nadar com a corrente.

Ele acha que a entende, o que ela estava tentando dizer. É a Jiveboy,
ele pensa. As mulheres louras.
No dia seguinte, ele traz para casa a Jivers, uma revista negra, cheia
de mulheres negras e mulatas. Fica no banheiro outros luxuriantes dez
minutos.

Ela fica olhando, segurando a revista: na capa estão as pernas e os
sapatos de um homem negro bem-vestido, carregando uma pasta e um Wall
Street Journal enrolado na mão. A seus pés - ela vira a capa da
revista uma e outra vez para entender exatamente a pose da foto - está
uma mulher, uma mulher de pele escura como a dela, enrolada e
contorcendo-se de tal maneira que sua cabeça quase não é visível. Só o
seu maravilhoso corpo - suas costas e derrière - de tal maneira que
ela parece um monte de excremento humano aos pés do homem.
Ele vai em viagem de negócios a Nova York. Leva também sua esposa. Ele
está excitantemente descobrindo a Rua 42 com ela. "Olhe", diz. "Como
tudo é livre aqui! Que diferença de Boston!" (a pequena cidade onde
moram). Ele está fascinado com as prostitutas louras, modernas, com
seus rufiões negros, marchando em bandos pela rua. Fascinado com as
diminutas saias das prostitutas negras, seus longos cabelos,
inevitavelmente falsos e louros. Ela caminha um pouco atrás dele, para
que ele veja primeiro essas maravilhas. Ele não repara, até dobrar
uma esquina, que ela parou em frente de uma vitrina que atraiu seu
olhar. Enquanto estava parada, sozinha, olhando, dois rufiões, cada um
por sua vez, perguntam-lhe de qual estábulo ela faz parte, se é que
faz parte de algum. Ou simplesmente: "Tá trabalhando?"
Ele volta rapidamente e a segura pelo cotovelo. Faz cara feia para o
cumprimento implícito nessas perguntas, depois o divide com sua
mulher: " Você é bem espertinha!"
Ela está paralisada. Seu rosto reflete sofrimento e assombro. "Mas
olhe", ela diz apontando. Quatro grandes bonecas de plástico - uma
Farrah Fawcett magrinha (assim ela pensou) em pose para uma inspeção
anal; uma oriental, com os olhos estranhamente fechados e a boca
vermelha, num beijo, aberta como uma concha de sucção; uma enorme
mulher esquimó, com pele ao redor do seu pescoço, tornozelos e vagina;
e uma mulher negra, vestindo uma pele de leopardo, incluindo o rabo.
As bonecas são todas de tamanho natural, e a eficiência de seus
genitais de borracha está explicada com detalhes num cartão visível
através do vidro.
Para ela isso é um pesadelo - provavelmente porque todas as bonecas
estão sorrindo. Ela as verá pelo resto da vida. Para ele a visão
também é chocante, mas desperta uma lasciva curiosidade. Ele
retornará, um outro dia, sozinho. Enquanto isso, deve evitar que ela
veja essas coisas, ele decide, puxando-a bruscamente para uma outra
rua.

Mais tarde, no quarto de hotel, ela vê na televisão duas cantoras
negras cantando seus últimos sucessos: a primeira mulher, vestida de
dourado (porque sua música agora é "ouro puro"!) está usando uma
corrente em volta do tornozelo - a esposa imagina que vê uma corrente
- porque a mulher está cantando: "Liberte-me de minha liberdade,
acorrente-me a uma árvore!"
- O que você acha disso? - ela pergunta ao esposo.
- Ela é uma idiota - ele diz.
Mas quando a segunda mulher canta: "Posição, aponte, fogo, meu nome é
desejo", com armas e foguetes disparando em torno dela, ele acha que o
verso "Acerte-me com seu amor" explica tudo.
Ela se sente desanimada

Ela olha no espelho o seu corpo escuro e roliço, cabelos crespos e
olhos pretos e conclui, bobamente, que não é bonita. E que tampouco é
moderna. Entre os seus vários problemas está o fato de que não gosta
que ninguém use a palavra "crioulo", e tem medo da maconha. Essas
limitações, ela sente, a tornam velha, muito parecida com sua mãe que
gosta de sexo (ela recentemente descobriu isso), mas é profundamente
religiosa e acha, por exemplo, que jogo de cartas é pecado e o álcool,
mortal. Seu marido não acharia sua mãe sexy, ela pensa. Já que ela
mesma está envelhecendo, esse pensamento a assusta. Mas,
surpreendentemente, enquanto observa a si mesma, no espelho,
transformar-se na mãe, ela descobre que acha a mãe - que
cuidadosamente trança seus cabelos grisalhos de tamanho médio, nem
fino nem grosso, toda noite antes de ir para a cama; tranças que seu
pai ainda consegue desfazer durante a noite - muito sexy .
No mesmo instante ela se sentiu reconfortada.
Resolveu lutar.

- Você é a única mulher negra do mundo que se preocupa com coisas
assim - ele lhe diz, sem saber de sua resolução, e mal-humorado com
seus meses de silenciosa reflexão.
Ela diz: - Olha, pessoa de cor, leia este ensaio de Audre Lorde.
Ele se recusa. Ela insiste.
Ele chega à frase sobre Lorde "movendo-se na luz do sol contra o corpo
de uma mulher que amo", e pára. - Espere um minuto - ele diz -, que
nome esquisito para um homem é Audre. Certamente eles queriam dizer
André.
- É o nome de uma mulher - ela diz. - Leia o resto.
- Nenhum sapatão pode me dizer coisas que interessem - ele diz,
fechando as páginas.
Ela estava calmamente esperando por isso. Ela pegou a Jiveboy e a
Jivers. Nas duas, tem mulher trepando com mulher que nem conhece. Ela
pega de novo o ensaio e lê:

Isso me leva à última consideração sobre o erótico. Compartir o poder
dos sentimentos de cada um é diferente de usar os sentimentos do outro
como usamos Kleenex. E quando olhamos para trás, a partir de nossa
própria experiência, erótica ou não, nós usamos, mais do que
compartimos, os sentimentos daqueles outros que participam da
experiência conosco. E o uso, sem o consentimento do usado, é abuso.

Ele olha para ela ressentido, porque ela está lendo e relendo esse
texto, silenciosamente, concentrada, para si mesma, segurando as
páginas com as fotos das falsas lésbicas (um dos tipos de pose que
mais o excitam, embora inconscientemente) no colo, absorta. Ele
compreende que já não pode mais tê-la sexualmente da maneira como a
tinha desde o segundo ano de casamento, como se o corpo dela
pertencesse a outra pessoa. Ele vê, no fina; do caminho, a
dissolução do casamento, uma procura constante por corpos mais
perfeitos, ou esposas mais tolas. Ele se sente oprimido pela
incipiente luta dela, e sente como se, de alguma maneira, essa sua
luta para mudar o prazer que ele sente fosse uma violação de seus
direitos.
Agora ela está ocupada afixando as palavras de Audre Lorde no armário
sobre a pia da cozinha.
Quando eles fazem amor, ela tenta olhá-lo nos olhos, mas ele se recusa
a devolver seu olhar.
Pela primeira vez ele se conscientiza de que o prazer de gozar sem ela
é amargo e solitário. É como se comesse sozinho um doce roubado, atrás
do celeiro. E no entanto, ele pensa vorazmente, é melhor que nada, o
que considera como um benefício que a luta dela trouxe a ele.
No dia seguinte, ela está lendo um outro ensaio, quando ele chega em
casa do trabalho. Chama-se "Uma Subversão Silenciosa", e é de Luisah
Teish.
- Outra sapatão? - ele pergunta.
- Outra de suas irmãs - ela responde e começa a ler, mesmo antes de
lhe servir o jantar:

Durante o movimento do Poder Negro, boa parte da educação cultural se
concentrou no físico negro. Uma das realizações deste período foi a
popularização do estilo africano de cabelo e a moda do natural. Junto
com esse novo penteado veio uma nova auto-imagem e uma nova maneira de
se relacionar. Então a indústria cinematográfica lançou "Superfly",
e o visual de Jesus Cristo, as cabeças Konked, e uma atitude similar
assolou a comunidade negra. Filmes como "Shaft" e "Lady sings the
Blues" retratavam os "heróis" negros como cheiradores de cocaína,
tolos inconseqüentes. Nesses filmes a mulher negra é sempre vítima de
uma rede de violência....
Um teatro popular em Berkeley apresentou um filme pornô intitulado
"Slaves of Love" (Escravas do Amor). O cartaz publicitário mostrava
duas mulheres negras, nuas, acorrentadas, e um homem branco de pé
sobre elas com um chicote! Como tal material pornográfico racista
escapou à atenção dos militantes negros revela um problema...

Como sempre, ele nem escuta á afirmação sobre as mulheres.
- O que essa puta sabe sobre o movimento do Poder Negro? - ele se
encoleriza. Está furioso com sua esposa por conhecê-lo há tanto
tempo e tão bem. Ela sabe, por exemplo, que foi por causa do Movimento
do Poder Negro (e na verdade do Movimento dos Direitos Civis antes), e
não exatamente por ter sido militante, que ele consegue manter seu
emprego burguês. Ela se lembra de quando o cabelo dele era afro. Agora
está apenas anelado. Ele começou a pensar que, por ela o conhecer como
era, ele não consegue fazer amor com ela como ela é. De alguma
maneira, em algum canto firmemente reprimido de sua mente, ele
considera que sua esposa continua negra, enquanto ele se sente como se
tivesse mudado para outro plano.
(Esta idéia, um lampejo que lhe ocorreu naquele instante, amedronta-o
tanto que por vários anos ele resistirá a ela. Se a tivesse aceitado
de uma vez, por mais perturbadora que fosse, isso o teria ajudado a
entender a irracionalidade de sua aceitação da pornografia usada
contra as mulheres negras: que ele havia separado a si mesmo de sua
própria negritude ao tentar identificar as mulheres negras apenas por
seu sexo.)
A esposa nunca havia se considerado uma feminista - embora fosse, com
certeza, uma "mulherista". Mulherista é feminista,só que mais comum (a
autora deste texto é mulherista). Ela fica, portanto, surpresa quando
o marido a ataca chamando-a de "feminista liberada", "lacaia da mulher
branca", "fantoche" nas mãos de Gloria Steinem, incipiente
queimadora-de-sutiã! Que conexão seria possível, ele queria
saber,entre ela e as mulheres brancas - essas bruxas
ultra-privilegiadas (ele havia lido recentemente a Newsweek) que agora
marchavam e pregavam as suas merdas puritanas pra cima e pra baixo no
Times Square!
(Ele se lembra apenas da liberdade que sentiu quando estava lá; não se
lembra que ela ficou parada diante da vitrina de bonecas de plástico.)
E se ela fosse fazer todas essas novas ligações com sapatões e
brancas, aonde isso o levaria, o homem negro, o mais brutalizado e
oprimido ser humano na face da terra? (Será porque ele agora pode
cobiçar as mulheres brancas em liberdade e ela não tem uma válvula de
escape semelhante, que ele pensa nela como ainda negra e nele como uma
outra coisa? Esse pensamento está por detrás do que ele está dizendo,
mas sua mulher desconhece isso.) Ela não sabe que é por causa desses
mesmos corpos brancos que ele foi linchado no passado e ainda é
linchado, pela polícia e pelo sistema penitenciário dos Estados
Unidos, dezenas de vezes por ano até hoje?
Astuciosamente, a esposa reservou o ensaio de Tracey A. Gardner para
esse momento. Porque Tracey A. Gardner pensou sobre tudo isso, não
apenas como está acontecendo presentemente. mas historicamente, e ela
tem clareza sobre todos os abusos cometidos contra ela como pessoa
negra e como mulher, e é destemida e é fria - ela está furiosa. A
esposa,mais inclinada à depressão e à auto-abnegação do que à fúria,
aquece-se no fogo da raiva altamente contagiosa de Gardner.
Ela começa a ler:
Porque, do meu ponto de vista, o racismo está em todo lugar, incluindo
o movimento das mulheres, e realmente precisarei dizer algo sobre isso
quando não o encontrar... e a primeira vez em que isso ocorrer, eu
lhes direi.

O marido, surpreso, acha isso muito engraçado, para não dizer
pertinente. Ele bate no joelho e senta-se. Está louco para fazer
algum tipo de comentário positivo ao que disse a sapatão, mas nada lhe
ocorre.

A escravidão na América apoiou-se na negação da humanidade dos povos
negros, e no solapamento de nosso senso de nação e de família, no
despojamento do papel do homem negro como protetor e mantenedor, e na
ordenação das mulheres negras no sistema americano de dominação do
macho branco...
-Em outras palavras - ela diz, - os homens brancos pensam que devem
estar por cima. Outros homens sabem como saborear a vida em outras
posições.
O fim da Guerra Civil trouxe o fim de uma certa 'forma' de escravidão
par os povos negros. Também trouxe o fim de qualquer 'segurança no
emprego' e a perda da proteção do dono de escravos. Os negros eram
agora caça livre, e a aterrorização e a humilhação do povo negro,
especialmente do homem negro, começaram de outra forma. Agora o homem
negro podia ter sua família e provar seu valor, mas ele não tinha os
meios para sustentar ou proteger nem a ela, nem a si mesmo...

Enquanto ela lê, ele se sente envergonhado e percebe o profundo
embaraço da esposa, por ele e por si mesma. Pela história deles
juntos. Mas obstinadamente ela continua a ler:

Depois da Guerra Civil, a justiça popular, que significava que
normalmente não seriam precisos nem julgamento nem provas, começou seu
domínio na forma de castração, morte na fogueira, decapitação e
linchamento dos homens negros. Cerca de 5.000 pessoas brancas iam
assistir a esses eventos como se fossem a uma celebração. (Ela pára,
suspira: decapitação?) Mais de 2000 homens negros foram linchados num
período de 10 anos de 1889 a 1899. Também houve um número grande de
mulheres negras linchadas. (Ela lê essa frase rapidamente e a
esquece.) Mais de 50% dos homens negros linchados eram acusados de
violação ou tentativa de violação.


Ele não consegue imaginar uma mulher sendo linchada. Nunca havia nem
mesmo considerado a possibilidade. Talvez seja por isso que a imagem
de uma mulher negra acorrentada e ferida o excita ao invés de
horrorizá-lo? É o fato de nunca ter terminado o linchamento de seu
corpo que força a esposa, no momento, a passar por cima do registro
histórico. Ela não está preparada para ligar o seu próprio marido com
a continuação daquele passado.
Ela lê:

Se um homem negro tivesse relações sexuais com uma mulher branca
aquiescente, era violação (Por que estou sempre lendo sobre, pensando
sobre, preocupando-me sobre, meu homem ter relações sexuais com
mulheres brancas? Ela pensa, desesperadamente, enquanto lê). Se ele
insultasse uma mulher branca com o olhar, era uma tentativa de
violação.

- Sim - ela diz, suavemente, como em apoio a sua obstinada leitura -,
eu li Ida B. ...como é mesmo o nome dela?

Com os linchamentos, o homem branco estava mostrando que odiava o
homem negro carnalmente, biologicamente; ele odiava sua cor, seus
traços, seus genitais. Assim ele atacava o corpo do homem negro, e
como um amante enlouquecido, mutilava sua carne, violava-o da maneira
mais íntima e pornográfica...
Eu acredito que esse tratamento obsceno, desumano, do homem negro pelo
homem branco, tem uma correlação direta com o tratamento
progressivamente obsceno e desumano das mulheres, particularmente das
mulheres brancas, na pornografia e na vida real. As mulheres brancas,
trabalhando por seu próprio crescimento e identidade, sua própria
sexualidade, tornaram-se, num certo sentido, arrogantemente negras.
Como os homens negros ameaçam a masculinidade do homem branco e o seu
poder, agora também o fazem as mulheres.

-Essa garota está tramando alguma coisa - diz o esposo, mas, pela
primeira vez na vida, ele pensa que quando não está pensando em foder
com as mulheres brancas - fantasiando com as revistas ou paquerando-as
nas ruas - ele muitas vezes pensa nas maneiras de humilhá-las. Então
ele pensa que, considerando sua história como um homem negro na
América, não é surpreendente que tenha confundido trepar com elas com
humilhá-las. Mas o que isso tem a ver com a maneira como ele se vê a
si mesmo? Este pensamento abafa o seu aplauso secreto para Gardner, e
ele lança um olhar confuso e desconcertado para sua esposa. Ele sabe
que fazer amor com sua mulher como ela realmente é, com quem ela
realmente é - na verdade, fazer amor com qualquer outro ser humano
como ele realmente é -, vai exigir um olhar escrutinador-de-alma para
dentro de si mesmo, e só pensar nisso literalmente arrepia seu cabelo.
Sua esposa continua:

Alguns negros, cheios das perspectivas e dos valores dos homens
brancos, vêem a mulher branca ou Deusa Loura como parte da imagem
americana do sucesso. Algumas vezes, quando está com a mulher negra,
ele se envergonha do modo como ela tem sido tratada e como ele tem
sido impotente, e como sempre tiveram de trabalhar juntos e proteger
um ao outro . (Sim, ela pensa, nós sempre fomos tudo o que temos, até
agora. Ele pensa: Nós ainda somos tudo o que temos, só que agora
podemos viver sem permitir a nós mesmos a consciência disso.) Frantz
Fanon diz sobre as mulheres brancas: "Ao me amar, ela me prova que sou
merecedor do amor branco. Eu sou amado como um homem branco. Eu esposo
a beleza culta, branca, a branca brancura. Quando minhas mãos
incansáveis acariciam seus seios brancos, elas se apossam da
civilização e da dignidade brancas e as tornam minhas." (Ela não pode
acreditar que ele quis escrever "dignidade branca".)

Ela pára, olha para seu esposo: - E então como deve se sentir uma
mulher negra quando o seu homem negro deixa um Playboy na mesa do
café?

Pela primeira vez ele entende completamente uma frase que sua esposa
leu no dia anterior: "A indústria pornográfica explora o corpo das
mulheres negras de uma maneira qualitativamente diferente de como
explora as mulheres brancas", porque ela está mostrando a capa de
Jivers para ele e perguntando: "Com que essa mulher se parece?"
O que ele tinha se recusado a ver - pois ver revelaria uma outra área
na qual ele se acha incapaz de proteger ou defender as mulheres negras
- é que, enquanto as mulheres brancas são retratadas como "objetos",
as mulheres negras são retratadas como "animais". Enquanto as mulheres
brancas são representadas pelo menos como corpos humanos, senão como
seres, as mulheres negras são representadas como merda.
Ele começa a se sentir mal. Pois compreende que comprou muitas, senão
todas, as publicidades sobre mulheres negras e brancas. E depois
disso, inevitavelmente, ele comprou a publicidade sobre si mesmo. Na
pornografia o homem negro é retratado como capaz de foder qualquer
coisa... até um pedaço de merda. Ele é definido apenas pelo tamanho,
prontidão e promiscuidade de seu pênis.

No entanto, ele ainda não sabe fazer amor sem as fantasias com as
quais as revistas e os filmes o alimentaram. Esses filmes e revistas
(cuja caracterização dos personagens é irrelevante ou antiética no que
lhe diz respeito) que se insinuaram entre ele e sua esposa, fazendo
com que a totalidade do corpo dela, sua inteira realidade corporal se
tornasse estranha para ele. Apertá-la com luxúria significa
automaticamente fechar os olhos. Fechar os olhos e... ele sorri com
amargura... sonhar com a Inglaterra.
Durante todos esses anos ele tem fodido a si mesmo.

No começo, lendo Lorde juntos, eles recusaram a idéia de se separarem.
Depois, descobriram que precisavam de um tempo separados para clarear
a cabeça, desvendar as feridas, se curarem. De qualquer modo, ele se
sente incapaz de forçar uma resposta; ele não quer que ela o faça. Ela
parte por uns tempos. Sozinho, ele logo procura ansiosamente a revista
que havia jogado fora. Ele se masturba furiosamente diante daquelas
lindas mulheres, espalhadas como melões a sua frente (ele começa a
perceber como os estereótipos mudam). mas ele não pode negar o que
sabe - ou que sabe que sua esposa sabe, caminhando em alguma praia num
país negro, onde todas as mulheres são descoradas e alisadas, e os
homens nunca olham para si mesmos; e são feios, de qualquer maneira,
na sua imitação do homem branco.
Muito antes que ela volte, ele lê os seus livros e pensa sobre ela - e
em sua luta sozinha e no medo e no medo que ele tem de comparti-la - e
quando ela volta, é sessenta por cento o corpo dela que ele move na
luz do sol, a própria carne negra dela confirmada pelo brilho dos
olhos dele.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Conhecimento Popular...

Um bolo, um café, um fim de tarde. Sento-me à mesa com seu Tião, caboclo de 72 anos de histórias para contar, jardineiro, poeta e educador.
Depois desses 5 meses de convivência, conversas, risadas, eu aprendi demais com o seu Tião, e quero aprender mais ainda. Muito além de complicadas aulas de botânica, estética de poesia, incompreensíveis textos de filósofos da economia, teorias inúmeras sobre o aprendizado da criança e a afetividade na escola, muito além dos partidos "revolucionários" que disputam seus cargos nos três poderes, dos gritos surdos do movimento estudantil, dos remédios com nomes químicos complicados, está o seu Tião e seu conhecimento popular, de quem viveu e VIVE muito...Seu Tião me ensinando sobre as luas boas para plantar, me ensinando a cozinhar melhor e mais saudável, me contando como funciona a política "cinza" e a "propriedade intelectual" de seu projeto nas escolas, seu Tião me contando que conhece gerações e gerações que pegou no colo, seu Tião sonhando e FAZENDO o coletivo e a revolução acontecer, seu Tião e os chás que curam tudo, a dama da noite na frente da casa como repelente de mosquitos, seu Tião e suas histórias gostosas de anos com mochila nas costas, seu Tião recitando poesias de autoria própria antes dos mais deliciosos almoços...

E ele me diz: aproveite a vida, porque ela passa rápido, eu estou aproveitando a minha. Ele me fala isso como se fosse, para o resto do mundo, um jovem de 20 anos...Muito diferente do discurso derrotista dos infelizes de 40, que acham que a felicidade está nos 20 anos...Nunca vi o seu Tião lamentar seus 72 anos, nunca vi alguém achar que ele tivesse mais de 50, nunca vi o seu Tião deixar de ir uma única sexta feira dançar forró...O que, aliás, ele faz deliciosamente bem.

E detalhe: ele faz absolutamente TUDO a pé. Vai trabalhar, comprar mudas p/ jardim, supermercado, forró. A pé. Isso me impressiona muito, eu que sempre fui meio preguiçosa e medrosa de andar na rua. Só anda de busão se vai ao centro.
O seu Tião é uma das pessoas mais sábias que conheço, seguramente. E uma das pessoas mais revolucionárias com certeza. Seu Tião lida com mundo partindo do pressuposto de que o ser humano é bom, e isso eu acho o mais fantástico de tudo. Não é uma fé tola, vazia, cultuando livros, filósofos, deuses, imagens, é a fé de quem conhece tanto do mundo e dos homens que consegue distinguir sistema e natureza humana. Trabalha com crianças, jovens, presos, deficientes, políticos de muita grana, trabalha com gente suficientemente diferente para saber que as pessoas estão contaminadas pelo sistema que criaram, mas não são naturalmente ruins. Essa não amargura com o mundo, essa alegria intrínseca, essa vivacidade que dizem alguns ser "juvenil", me inspira, me alegra, me dá uma esperança...

Não é a toa que o sei Tião me lembra a minha avó...Como eu sinto a presença dela quando estou com ele...A relação com a terra(minha vó entendia tudo de chás, xaropes, e sempre tinha uma arruda em casa), as frases sábias da cultura popular, as piadas - quase sempre cheias de palavrões e de cunho sexual - que ela contava morrendo de rir, as costuras que ela fazia, a comida deliciosa e cheirosíssima que ela fazia(como a do seu Tião...), o jeito meio debochado e absolutamente sincero de falar de sexo comigo...Eu me lembro do cheiro doce do quarto dela, perfumado e cheio de bonequinhas, de ir comprar pano no centro com ela e meu pai, lembro do carinho que consegui dar p/ ela, da mão dela quando ela falava(um gesto típico dela, geminianos sempre mexem muito as mãos), do sotaque meio pernambucano e meio carioca...Mas mais do que isso tudo, eu lembro do exemplo que ela é para mim, como é o seu Tião...

Com tudo o que sofreu minha avó, ela não se vendeu, nunca. Me lembro da minha última conversa com ela...Num leito de hospital, por um maldito câncer, uma tarde de sexta feira, sem nunca perder o senso de humor:
- Mas Isadora, vc gosta mesmo daquele rapaz, que sua mãe fala?
- Não vó, não(mentiraaaaaaaaaa, huahuahuhua)...
- É, eu não dei sorte no amor não...
Adendo - minha vó namorou meu avô, um português mulherengo e machistão típico, que, como era de se esperar, arrumou outra...e minha avó não aceitou que ele tivesse outra...Quando descobriu, tomou um porre de rum e mandou ele catar coquinho, mesmo com uma filha e o estigma de mãe solteira; encontrou outro que a prometeu mundos e fundos, foi afastada da minha mãe, que morou um bom tempo com meu avô por isso(não sei exatamente porque, só sei que minha mãe e minha avó ficaram um tempão longe e que tem a ver com esse outro namorado da minha avó) e esse outro foi embora e sumiu, deixando-a com outro filho nos braços...enfim, um covarde imbecil...E minha vó era uma nordestina não branca, sem casa própria, que morava onde trabalhava e criou assim meu tio...
- Uma vez, Isadora, apareceu um advogado, bonitão, rico, não queria saber se eu tinha filho, se eu era virgem, se eu tive estudo ou não, ele queria casar comigo...
- Ué, vó, mas por que a senhora não casou com ele, ele podia ter te dado muita coisa!
Ela me olhou com uma cara de "é óbvio" e disse:
- E Isadora, como eu ia casar com ele se eu não o amava?

É, aprendi muito mais com eles que com os postulados da matemática.
Minha avó me dizia que tinha estudado burrologia, se dizia burra, mas sempre me perguntava como escrevia uma palavra tal, como funcionavam as coisas, que era tal coisa e o que era outra...A prática da reflexão constante dela me inspirava a ir pesquisar e descobrir o mundo...
Eles dois sabiam/sabem muito mais, e me ensinam tudo assim, sem um único dia de faculdade.

Coletivo, amor, reflexão, bom humor, felicidade? Esses valores errados eles me ensinaram, e eu me emociono de lembrar dessas coisas...Isso é o conhecimento popular.

Expansão...

Estava agora lendo um quitute que gosto muito, a Caros Amigos, e pensando...Tudo o que eu leio/ouço sobre o mundo me estimula a pensar e querer escrever/falar, e eu leio a Caros porque ela tem o tamanho ideal para lê-la por inteiro, assuntos interessantes e pontos de vista que eu nem sempre concordo, mas que ainda estão do mesmo lado esquerdo...

Enfim, mas como eu dizia: estou precisando expandir...
Fiquei numa fase introspectiva de revolução, na altura do micropoder, das minhas relações...
Quebrando meus tabus, saca? Quebrando e destruindo, libertando-me toda hora....muito bom, muito feliz...Pensando já sobre como quebrar o maior tabu - minha relação calada com a minha mãe....Deixando algumas amizades num plano onde elas possam ficar sem interferir na minha libertação e sem serem amizades mentirosas - e algumas ficaram de lado, outras foram despertando outros corações, criando um laço maior ainda...Enfim, essa introspecção avaliativa e reflexiva para fazer as minhas revoluções, sem muita leitura, sem muita rua, sem muita gente, sem muita conversa fiada e com conversas muito profundas, foi importante e muito boa - mas chegou a hora de voltar ao meu tripé e vir para a política um pouquinho...
Inclusive a cinza, mas só p/ deixá-la apanhar bastante, hehehe...
Estou devendo algumas coisas, escrever sobre aborto, alimentação, saúde, e mais um monte de coisas, mas quero retomar minha leitura, que sempre fornece um bom combustível à escrita...
A Caros desse mês está com a melhor coluna do Glauco Mattoso(que é minha coluna preferida da revista, mais até que a do Fidel) que já li, falando sobre as gordinhas e os regimes ditatoriais...hehehe...adoro esse cara...

Eu preciso voltar a fazer as coisas, fazer as coisas para fora da minha casa, agora que estou com novas liberdades, novas epifanias, novas alegrias...
O Sol que tem feito aqui está convidativo...
Uso no momento um vestidinho deliciosamente fresco, colorido e laranja, óculos escuros, sandalinhas leves, roupa tipicamente dezembra, e isso me faz tão feliz...
Fiquei pensando nessas porra louquices da minha vida, no quanto se chocam as pessoas com o que eu faço - e que nada mais é do que o que elas mesmas queriam fazer - e imaginando o quão maluco é fazer uma revolução simplesmente por ser feliz...

E certamente eu não iria conseguir pegar uma metralhadora nas mãos...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Infidelidade, choques e palavras

Aqui estou mais livre....
Mais liberta daquele maldito quarto com velhas energias...
Enfim...
Esses dias todos vendo o que eu fui criada para ser, a patricinha que eu deveria ser (eu ia ser uma patricinha revoltadinha, claro, mas que ia achar que voluntariado é uma chance para o mundo...típica capitalista humanitária eu seria, como já fui) e fico pensando onde foi que eu desviei do caminho....Fui fundo na minha memória e na minha consciência, e me deparei com umas coisas engraçadas...

Eu sempre fui uma peste de curiosa...aprendi a andar com dez meses, e ia mexer nas coisas todas, para o desespero da minha mãe e dos cristais caros das minhas tias...Primeiras palavras? Nem mamãe, nem papai. "Daicensa", vindo dos bravos "Dá licensa" que dizia minha mãe para tirar minha mão das coisas todas...Começou assim.
Falei muito pouco, meus pais meio preocupados, e um belo dia com 2 anos e meio(quase 3), eu comecei falar, falar, falar, uma matraca, desimbestei falar tudo de uma vez...Nunca mis parei...
E cresci assim, me metendo a fazer as coisas...E meus pais, superprotetores, me ensinaram a ter medo do mundo...E eu nunca fui do tipo que retruca broncas, na verdade eu sempr fui bastante passiva...Mas aquela curiosidade desesperada que eu tinha me subia, e eu acabava fazendo as coisas e levando bronca, e como eu descobria coisas gostosas fazendo o que não devia, eu acabei pegando um certo gostinho pelo proibido...

Minha mãe sempre teve medo que eu engordasse, cresci nessa nóia de engordar desde muito criança...E um domingo fui na casa de uma amiguinha e tomei sorvete(tinha uns 8 anos, sei lá quantos) e contei p/ minha mãe. Ela brigou tanto comigo, que eu entendi uma coisa triste: as palavras me traem. De agora em diante, vou fazer tudo e não contar para ninguém.

E conforme eu ia crescendo, eu fui desenvolvendo a capacidade de desdobrar minha vida entre satisfazer minhas curiosidades e vontades e o que eu falava p/ pessoas. Assim nasceu minha vida dupla, de um sorvete e uma bronca.

Até o dia em que eu tive minha primeira vez. Pela primeira vez, alguém tinha uma informação minha que poderia me machucar se espalhada...Claro que a bronca veio antecipada, fui criada numa sociedade machista, e me senti uma puta, como era de se esperar. Porque, por mais apaixonada que eu estivesse, eu não fiz por "amor", eu fiz porque eu já não aguentava mais de curiosidade, porque eu já não podia mais segurar a minha vontade...Durante pelo menos uns três anos isso foi um segredo de estado...Exceto para ele e, no caso do pouco caráter, dos amigos dele. Pois bem. Eu sabia já que as palavras traíam, mas um belo dia eu descobri que situações também traem. E pela primeira vez, por uma festinha de um pessoal do teatro, em que eu passei dos limites dos fúteis e falsos bons costumes, eu soube o que era não se sentir uma puta simplesmente, mas receber um dedo na cara te falando isso. Mas as pessoas também sabem que as palavras traem, então elas diziam isso com o olhar.
Este tipo de fato se repetiu algumas vezes, o suficiente para que eu me perguntasse todas as vezes mas afinal, qual era a maldita diferença de fazer as coisas entre quatro paredes e no meio da rua, qual era o problema de afinal de uma mulher querer satisfazer suas vontades, e por que as pessoas me diziam coisas do tipo: se vc não quer se sentir uma puta, pare de agir como uma. Ou seja, pare de procurar.

E foi assim, virando o pé quando caminhava na linha, que eu caí fora do caminho...As pessoas se chocavam comigo, que coisa maluca, se chocavam e ficavam absurdadas...Acho que por esconder palavras e nunca conversar eu nunca fui suficientemente reprimida antes de fazer nada. E aí eu fazia e não tinha consequências...Que nem criança, sabe? Depois não aguentava o esporro do mundo... Hehehe...

Em todos os processos em que conversei antes de fazer, por exemplo o lance de ficar com meninas, eu sempre me resolvi muito bem...Não que eu voltasse atrás e deixasse algo por fazer, mas eu fazia de uma forma que o choque fosse mais tranquilo...

Mas o resto, eu sempre acabei chocando as pessoas, elas tinham um moralismo que esperava um não sei o quê, e eu as feri com as maluquices que fazia...E as perdia...e negava, neguei tanta coisa que eu na verdade amo , já me neguei até como feminina, dá para acreditar? Tudo porque esse lance de chocar as pessoas simplesmente não é a minha, eu nunca gostei de chocar ninguém. Na verdade eu sempre fui até meio passiva, nunca gostei de bronca...

Acho que, de alguma forma, fui criada com valores errados desde sempre. Claro que fui criada num básico de "valores certos", e na verdade eram esses valores, a ascensão social, a competitividade, a monogamia, que o mundo esperava de mim...Mas existia uma revolta dos meus pais, principalmente da minha mãe, um certo tom indignado e absurdado com a fome, a falta de educação e saúde no mundo, que entraram em mim de uma forma particular...Um certo tom intimista de quem já viu a fome de pertinho, de quem pode imaginar isso. E se revoltar com isso é um valor errado hoje. O certo é vc se conformar baixar a cabeça, rezar, não importa de que lado você esteja. Sei lá, de uma forma maluca eu associei minha curiosidade e minhas vontades presas e renegadas por estar em um esquema que não permite experimentções (só se elas forem um produto de mercado, claro) à fome, à sede, e tudo se tornou então completa e assustadoramente paupável para mim que hoje já virou completamente indissociável. Mas é louco como as pessoas se chocam com qualquer um que tenta levantar só um pouquinho a cabeça, sem nada de fios ou correntes elétricas...

De tanto chocar as pessoas, eu acho que fico assim depois de um tempo, transbordando tudo, vomitando tudo com palavras, que só depois de muito tempo não ficam me traindo por aí...E o mis louco é quando as pessoas se chocam, dizem que me admiram, dizem que eu sou mais feliz e mais livre, mas não fazem a si mesmas nenhuma pergunta do tipo "por que estou falando isso?" e continuam sentindo-se infelizes e presas. E aí, se chocam comigo de dez em dez minutos, e eu fico aqui, me explicando, me explicando, me explicando...Eu volto às mais doces traidoras, as palavras...

Por hoje é só. Que não me traiam estas doces, pois meu corpo me mandou dormir, e eu sou uma menina obediente.