quinta-feira, 30 de julho de 2009

Almas Gêmeas

Um dia, uma vagabunda solitária topou com um canalha típico...
Conversaram, conversaram, e como toda boa vagabunda, cogitou possibilidades...
Mas logo descartou, afinal, vagabunda que é vagabunda sabe com quem tomar cuidado...
Mas, como todo o bom canalha, ele não deixaria de lhe dar papo...
O tempo passou e a amizade foi inevitável...
O amor pela boa vida...
O apreço pela boemia...
E, então, ele ficou louco com a liberdade sensual das grandes vagabundas...
E ela ficou apaixonada com a paixão típica dos grandes canalhas...
E então se reconheceram um no outro...
E se amam, se abraçam, se admiram...
Caminham juntos, e ela larga a mão dele quando vê um homem que lhe apetece...ele se encanta, sorri com os olhos, a beija e lhe diz:
Que vagabunda!
Ele corteja outras lindas mulheres com uma lábia irresistível, roçando o pé no dela...os olhos dela brilham, ela lhe abre um sorriso imenso, balança a cabeça e pensa:
Que canalha....

hahahahahha

domingo, 26 de julho de 2009

A la Cuba

Ontem assisti um filme sobre Cuba, Habana Blues...
Legalzinho, um cara gato, música cubana, tal...
Mas eu tenho uma grande birra de qualquer filme que coloque a questão da vontade de sair de Cuba sem problematizá-la da forma devida...
Pois bem, aqueles jovens sonham em ser músicos lá fora, sonham em ganhar dinheiro e ter mais de um par de sapatos, comer carnes e doces todos os dias, poder viajar e tal...

O regime não é perfeito, claro. Existe uma censura, óbvio, é um país socialista, e para os que falam que "socialismo não pode ter ditadura", pois bem, que leiam um pouco melhor os pressupostos adotados - é uma ditadura sim, há um domínio do estado sim...Não vou nem entrar no mérito de questionar qual é afinal o real problema disso, já que me tomaria o post todo(e mais uns outros), já que estamos nessa merda de falácia em que democracia=liberdade e estes são valores "inquestionáveis"...enfim, um dia eu juro que falo o que penso sobre isso.

Ainda existe machismo, ainda existe racismo, homofobia então nem se fala...Opressão existe, mas vejo lá um processo mais sólido e maduro de combatê-la que aqui, em que tudo cai no mercado - se vc é um nicho do mercado, todo mundo tem que te aceitar; se vc pode ser força de trabalho barata para o mercado, explorar vc é inclusão social - como fazem com tantos transexuais e com tantas mulheres negras ou obesas, a atender telemarketing, e com tantos deficientes físicos/mentais a empacotar nos caixas de supermercado -o que não por acaso me lembra o Admirável Mundo Novo....

Mas vamos lá: em que país pobre(e até alguns ricos, como o Brasil) do mundo a maioria dos jovens imagina que poderia viajar p/ outro país? Em que país do mundo os jovens chegam a idade adulta com o mínimo de estudo, saúde e comida, a ponto de reclamarem por não terem mais que um par de sapatos, por terem "apenas" 51% dos jovens na universidade, por existir toque de recolher, por não poderem ouvir Beatles, como citado no filme?

Os jovens brasileiros das nossas periferias têm celulares, muitos pares de sapatos, tudo comprado com parcelas eternas, trabalham ao invés de estudar, e por isso nunca vão querer ouvir Beatles, Bossa Nova, ou qualquer outra manifestação artístico-cultural genuína e valorosa, ouvem eguinha pocotó e essa mercantilização do funk(que veio das próprias periferias, e o mercado corrompeu e vendeu), não têm acesso a saúde nem a formação nela, as meninas não tem muito controle sobre sua sexualidade(o controle que tem é "vou ao baile sem calcinha", sucesso de vendas), sendo submetidas a gravidez indesejada e doenças, todos os jovens comem comida entupida de gordura trans e outras porcarias industriais, correm risco todos os dias de serem mortos pela polícia ou pelo tráfico simplesmente por estarem no lugar errado, e o maior sonho de ascensão social é virar traficante de drogas, se não se afundarem no crack....

Quem tem mais poder de decisão sobre a própria vida, afinal? Qual dos dois jovens?
E o que é afinal liberdade, senão poder decidir sobre si mesmo?

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Supernova

O dia todo pensando nisso, o dia todo com saudades, e hoje o meu post será exclusivamente dedicado ao meu amor, companheiro e melhor amigo: hoje o post é sobre o Capi...
Pois é, uma história diferente de todas as outras, inesperadamente explosiva, lasciva, inquietante...

E só sentindo sua falta que eu pude pensar sobre, depois desses dois ciclos de aproximação, beijo, sexo, amor e libertação...

No meio desse ninho classe média, de roupas bonitas e caras, dos 15 remédios da minha avó e dos asteriscos nas minha falas, das futilidades que vem dos bons costumes, no meio da poeira e do cheiro do velho que tem este quarto que um dia foi meu, depois desses dois ciclos de progressiva liberdade, voltar p/ cá me faz pensar em tudo o que não quero...

Nunca fui tão livre na minha vida como sou com o Capi, nunca nem poderia sonhar em sê-lo. E por que tão livre?
Porque eu posso lhe falar tudo, sobre tudo, a qualquer hora. Eu falo de Cuba, de arte, de mim, de meus amigos, de minhas meninas; falo qualquer desejo, seja o cara da esquina ou a bailaora no palco, seja de comer um doce, seja de arrancar a minha roupa ou de trepar alucinadamente. Eu falo do que quero para minha vida, eu falo do sonho que tive ontem a noite. Mas acima de tudo, eu falo sobre nós, sobre tudo o que me aflige, sobre o que espero de nossa relação. Eu falo da minha infância, eu falo do meu pai, eu falo dos meus outros homens. Eu falo dos meus medos, do que não gostei que ele tenha feito, eu não calo a parte que ainda não é liberta. Eu quebrei a barreira do assunto tabu, não existe nenhum, nada que eu tenha que lhe esconder, não existe o medo de me revelar, o medo de me libertar.

Mas não o faço porque ele já esteja liberto, porque ele é um deus, é o cara, é o salvador; eu falo porque ele quer se libertar, porque ele está no mesmo processo, porque ele faz um esforço enorme para me entender e não me reprimir, ele também se esforça em me dizer, e assim se libertar também. Ele me ouve e me diz porque é meu igual nesse sentido, eu não me sinto menor nem maior perto dele quase nunca; eu não me sujeito, eu não me imponho. E assim ele é, antes de mais nada, o meu melhor amigo.

Como começou? Tudo começou exatamente assim, a sintonia das idéias, a admiração que eu tive em seu jeito destemido; o medo que eu tive de querer identificar-me com ele, e de identificar quem já quebrou correntes em mim nele, quase me afastou. Mas foi impossível tomar distância; no dia em que entendi quem ele iria ser, o segundo geminiano, a nova dúvida, a próxima reviravolta, eu simplesmente não consegui mais manter meu corpo longe(afinal, eu lá sou mulher de idéias???), e foi inevitável o contato começar, ainda receoso...

Em algumas semanas, eu buscaria seus braços me acalentando na noite solitária, o beijo matutino, os beijos leves...Uma semana de distância, a explosão inebriada na doce canabis, a libertação da política cinza chata e insuportável da greve...E com ele eu fui livre para realizar meus mais pervertidos devaneios, meu mais alto riso, as mais revoltantes profanidades para uma pretensa feminista: liberdade total.

Impossível não amá-lo, impossível não querê-lo, impossível não passar o dia todo ao seu lado, me perguntando se algum dia eu imaginaria uma liberdade assim. Desde que eu comecei esse amor, desde que ele foi me buscar lá na chata da sala de jantar cheia de gente ocupada em nascer e morrer, e me levou p/ terraço, p/ jardim, p/ quarto, p/ cozinha, e abriu as portas da casa, eu sinto que estou construindo um balão de poesia...Não será fácil continuar rompendo as correntes, ainda dói, ainda falta, já pensei em desistir...Mas não vou. Eu já quebrei correntes outras vezes, e não pretendo parar por aqui. É só ver quem ainda está nelas para retomar toda a força do mundo para continuar lutando.

Te sinto fecundando a minha mente, eu me sinto fecunda a seu lado, que coisa louca, eu estou grávida de minha liberdade...Liberdade para ser qualquer coisa, liberdade para colorir o mundo, liberdade como parte fundamental do balão que quero construir p/ mim e p/ mundo...

Eu te amo, Capi.
Eu libertariamente te amo.

sábado, 18 de julho de 2009

se é para radicalizar, vamos radicalizar direito!
Estou na hora de bota p/ fora.
vomito palavras, e agora estou jogando tudo no lixo, tudo que não me serve, todas as coisas velhas e sem nexo, o lixo, o mofo, as roupas velhas, vou me livrar disso tudo, dessas coisas amontoadas em gavetas e prateleiras que eu nao uso mais, vou me livrar de tudo o que nao tiver mais utilidade, de lembranças velhas que me doem, estou jogando tudo fora...
quero jogar meus medos, minha insegurança, tudo tudo tudo fora
bem longe daqui...
esses papéis amontoados, tintas velhas, bijuterias, coisas que nao funcionam mais
tudo no lixo agora, chega, chega chega
vou tirar tudo do meu quarto sem pensar muito, amassar as provas com 10 de uma vez, me libertar desse espaço de mofo, achar meus livros perdidos, ficar só com o que vale a pena...
mas agora eu só estou jogando fora, chega de guardar tudo p/ mim, amontoar tristezas, o meu grito e a minha voz são os sacos pretos cheinhos de lixo...

Férias...

Hehehe, entrei numas de tédio divertido agora...

Estou tão feliz por estar em Santos, com essas lindas nuvens e frio, ficar só na vontade de ir p/ praia tomar sol e água de coco...Ah, que delícia...
Que saudades de dirigir aqui, em que as pessoas dirigem mais devagar do que andam a pé...em que elas só poluem o mundo sem nada em troca, porque andam absurdamente devagar...
Realmente fantástico...
Esta cidade com gente velha e playboyzada, interssantíssima e cheia de assunto...
Que vontade de sair por aí como se eu fosse uma patricinha, fingindo querer falar da morte do michael jackson e aguentando gíria de novela...O que a gente não faz p/ tentar arrumar uma boa trepada p/ esquecer que eu vou passar duas semanas aqui, não é mesmo??
Que vontade de colocar um salto e doerem meus pés! Nossa, mal podia esperar para me entupiar de maquiagem, ouvir minhas amigas e minha mãe falando mal de outras mulheres, na onda da competição, ouvir os meninos falando em ganhar dinheiro e ter o carro do ano, as piadas homofóbicas...
Ah, como eu estou feliz de estar aqui....
Ter que ouvir minha mãe me encher o saco porque eu vou sair, porque eu estou tossindo, porque eu não como mais peixe, porque eu engordei, porque eu não estou depilada, porque eu sou de esquerda, porque eu roô unha, porque eu comi um bombom, porque eu tomei cerveja, porque eu sou bagunceira, porque eu fico no pc, porque eu estou lendo, porque eu estou calada...tudo isso com a insuportável televisão ligada, o dia todo, o dia inteiro e nem um minuto para ouvir o silêncio, nem um único e precioso minuto!!!!Antes de tirar o sapato e abrir a porta p/ cachorro ela liga a TV!!!
Isso quando não me enche com perguntas sobre o que eu não quero responder, tipo sobre meu namoro......
Ah, nada como se sentir extremamente só para conversar...Nada como um lugar que te sufoca, que nada te interessa de verdade...
Que delícia...
Espero encontrar uns caras bem gostosos essa noite, o suficiente p/ me ocupar cada noite que eu passar nesse lugar e dormir o resto do dia...

hahahahahaha....como eu amo férias sem dinheiro e sem jeito de viajar...como eu amo quando as férias chegam e eu sou obrigada a interromper o que eu estou amando e precisando fazer...amo de paixão...

E a locadora tá fechada, para minha felicidade ela está fechada!!!!!!!!!!!!!!
Aguardando ansiosamente o meio dia p/ sair correndo p/ lá....

Vou ficar com a Leila por hoje....

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sobre o amor livre

Mercantilizaram tudo.
Comida, água, sexo, amor, conhecimento, beleza, cultura, saúde...

Mercantilizaram tanto que chegamos no ponto em que, para ter algo de bom para nosso próprio corpo, temos que ir num especialista, e não sentir o que nos dizem os sentidos, não refletir sobre isso, não pensar, só consumir.
O tempo todo.

Tudo tem valor de troca; se um lápis custa menos que a caneta, ele é mais que ela; se um animal vale menos que um creme de passar na cara, ele é menos que esse creme; chegamos ao ponto que o próprio "veículo" da troca tem mais valor que aquilo que se usa: dinheiro vale mais que o nosso bem estar, que a nossa felicidade, que o nosso ambiente.

Mas pior que isso é que nós mesmos nos vemos com valor de troca, nós mesmos nos consideramos mais e menos pelo quanto o dinheiro nos compraria, e isso dividimos em papéis sociais, em produtos, nos transformamos em uma maquineta comprável; se o médico ganha mais que o lixeiro, ainda que a saúde dependa mais das condições sanitárias que de qualquer tratamento de cura, o médico sempre será mais, terá mais direito a ser respeitado; se a amante é só uma moça bonita com quem se sacia uma vontade e a esposa lava as cuecas e faz o almoço, a esposa produz um valor de uso que dá mais liberdade para o chefe da família produzir mais valor de troca; se o capitalista careca e gordo investe nos lugares certos, ele tem tudo no mundo, porque produz valor de troca, e o bóia fria não é nada, apesar de carregar duas toneladas nas costas tds os dias...

Cadê quem questiona isso? Não quero discutir o salário do médico ou do lixeiro, nem se é melhor a esposa ou a amante, ou o capitalista careca e gordo e o bóia fria. Desmercantilizar o mundo é, antes de tudo, questionar se somos pessoas ou se somos só pregos, roldanas e polias. Nenhum de nós, nenhuma classe, está fora dessa lógica, cada uma tem sua função na enorme máquina do capital, na qual todos somos escravizados. É isso que temos que quebrar, não deve existir médico e lixeiro, amante e esposa, bóia fria e capitalista: estamos assim definindo as pessoas por seu valor de troca, e não pelo que elas são.

Não pensamos no Antônio que gosta de estudar astronomia nas horas livres, gosta de teatro e adora doce de amendoim, pensamos no doutor Antônio que ganha 10 mil. Não pensamos no José que veio lá da Bahia, joga uma capoeira como ninguém, toca pandeiro nas horas livres e que tem 5 irmãos unidos e felizes, pensamos no lixeiro que não tem nome, coitado, ganha tão pouco. Não pensamos na Leila, que sonha com a liberdade, que brincava de bola com os moleques da rua, que estuda de noite e trabalha de dia, que ama sorvete de morango, que sonha em ter um filho, pensamos na vagabunda que está saindo com o Dr. Antônio que, coitado, se rende aos seus decotes.
Não pensamos na Maria Alice, que adora plantas e animais, que gosta de estudar astrologia e ver os filmes do Almodovar, pensamos na chifruda mulher do Dr. Antônio.
Não pensamos no Reginaldo que faz repente como ninguém, fiel a mulher com quem é casado há 10 anos e que sempre que dá compra aquela boa e velha rapadura, pensamos no coitado do bóia fria que não tem nome, que é uma foto bonita do Sebastião Salgado e compramos a foto!

E cruzamos os braços, e não repensamos, temos medo de pensar!!!

E isso é tão introjetado dentro de nós, isso já está tão assustadoramente colocado, que nós mesmos nos colocamos valores de troca, nos comparamos entre nós como produtos de mercado, nos vendemos pelo cabelo mais liso, pelo músculo mais bem feito, pela inteligência que mostramos ter falando no nome de Platão, pela blusa com a cara do Che, pelo celular mais novo. Somos uma propaganda, atiramos pedras nos outros quando nos julgamos mais vendíveis e em nós mesmos quando nos julgamos inferiores a concorrência.

Um cara vê sua namorada levando uma cantada e vem bater no outro cara, p/ mostrar que é mais forte, ela vê o namorado conversando com uma menina mais magra, mais jovem, e pára de comer até aparecerem seus ossos, e a difama, quando o engravatado engomado com diploma unicamp cospe no cara com um terno emprestado 2 numeros maior, com o diploma da unip, e aí o engravatado é assaltado no semáforo mais próximo pelo mesmo cara em que cuspiu...

A competição, o ciúme, a fofoca: valor de troca.

Se queremos de verdade tentar a revolução, precisamos quebrar nossos tabus; precisamos nos fortalecer e mostrar quem somos, precisamos, antes de mais nada, revolucionar as relações humanas....

Isadora Franco, 15 de julho, 15:24.