sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Canção de Piratas

Extraído de : http://partidopirata.org/node/206

Canção de Piratas, por Machado de Assis

Machado de Assis

"Imaginai uma legião de aventureiros galantes, audazes, sem ofício nem benefício, que detestam o calendário, os relógios, os impostos, as reverências, tudo o que obriga, alinha e apruma. São homens fartos desta vida social e pacata, os mesmos dias, as mesmas caras, os mesmos acontecimentos, os mesmos delitos, as mesmas virtudes. Não podem crer que o mundo seja uma secretaria de Estado, com o seu livro do ponto, hora de entrada e de saída, e desconto por faltas. O próprio amor é regulado por lei; os consórcios celebram-se por um regulamento em casa do pretor, e por um ritual na casa de Deus, tudo com a etiqueta dos carros e casacas, palavras simbólicas, gestos de convenção. Nem a morte escapa à regulamentação universal; o finado há de ter velas e responsos, um caixão fechado, um carro que o leve, uma sepultura numerada, como a casa em que viveu... Não, por Satanás! Os partidários do Conselheiro lembraram-se dos piratas românticos, sacudiram as sandálias à porta da civilização e saíram à vida livre.

A vida livre, para evitar a morte igualmente livre, precisa comer, e daí alguns possíveis assaltos. Assim também o amor livre. Eles não irão às vilas pedir moças em casamento. Suponho que se casam a cavalo, levando as noivas à garupa, enquanto as mães ficam soluçando e gritando à porta das casas ou à beira dos rios."

Esse é um trecho da "Canção de Piratas", escrita por Machado de Assis, em 1894, e citada na abertura do do Fórum Internacional de Cultura Digital, realizado na semana passada.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Instinto...

Essa coisa da gravidez mexeu demais comigo. Sabe aquele papo de "quando for com seu filho, vc não vai querer"? Isso é sério galera, muito sério.

Pois é...Estou com a barriguinha começando a aparecer...E olho ao meu redor, p/ esse mundo maluco e penso que agora tem mais um na jogada, o MEU filho. E aí, e aí vc não quer mais se sujeitar, não quer mais passar por apertos, vc não pensa mais por você e pelo mundo só...

Cada um pensa com sua cabeça. Uns sentem isso e pensam que agora tem que ficar quietos para subir na vida para dar coisas mais caras(que eles julgam melhores) aos seus filhos, outros juram que nunca mais vão fumar um baseado(num moralismo esquizofrênico), uns se curvam às ordens que recebem e até matam por seus empregos (dizendo que é por seus filhos), outros largam as suas bandeiras e murcham seus sonhos...Alguns deixam seus filhos para lutar, pensando que melhorando o mundo para todos, melhorarão p/ eles também...São escolhas de como administrar o instinto de proteção...

O pessoal tem dito p/ mim "larga essa história de política agora, vai se estressar a toa, vai perder seu tempo, pelo menos agora que está grávida" ou então "vocês vão seguir num relacionamento aberto? Mas e a criança, como ela vai lidar com isso? Você não vai prestar concurso mais? E a escola particular, como vão pagar?"...

Isso para mim não faz absolutamente nenhum sentido. A gravidez me deu uma força, uma coragem, uma dignidade que eu desconhecia; não existe mais essa de brincar de revolução, de brincar de luta, de discursar e não agir. Não existe mais questionar a família por questionar, falar mal do mercado e do consumo, ser radical em palavras.

Eu brigo agora por tudo o que discursava (e fazia um pouco) antes, e brigo mais, porque agora brigo por essa criança também. Agora, tenho a obrigação de não abaixar a cabeça, pois a mágica força da vida está dentro de mim, esperando o mundo que eu vou dar. Agora não é mais a minha felicidade em jogo, não é mais um mundo melhor pelo coletivo, não é mais a utopia pela utopia, agora é a vida que eu quero proporcionar a essa nova pessoinha, a educação que quero dar, e, acima de tudo, o exemplo que eu quero ser. Agora se trata da maior coisa pela qual nós, individualmente, podemos brigar; e a sensação disso é muito louca.

Não quero oferecer a esse ser, que ainda é uma parte de mim, um mundo qualquer. A começar do começo - parto de cócoras sim, só se realmente não for possível. Pais que constroem liberdade entre eles; revoluções que temos que fazer todos os dias por dentro de nossas mentes construir uma sociedade nova; dizer não, não e não aos ataques que nos fazem, enquanto seres humanos, enquanto seres vivos; indignar-se, e jamais perder a sensibilidade de se indignar.

Mães que querem ser mães tem no seu instinto algo de arisco exatamente por isso: para que jamais abaixem as cabeças no risco de sua prole.

E esse mundo é um risco a qualquer prole...

sábado, 31 de outubro de 2009

Laicidade, liberdade sexual, liberdade religiosa e legalização das drogas

Hoje dei uma remexida nos meus emails atrás de coisas sobre homofobia, machismo, racismo...Uma palavra que permeava todos essas palavras sempre era religião.
Disse Marx, leitor de Feuerbach(não sei se escrevi certo) que "A Religião é o Ópio do Povo". Comunistas mais ortodoxos defendem que não existe nada além de matéria, e Deus seria algo impossível, uma construção humana para oprimir, explorar e nos encher de guerra.

Eu, pessoalmente, sempre fui do tipo "crédula"; fui católica até os 11 anos, daquelas que vai a Igreja e se confessa para o padre, porque acreditava naquela igualdade pregada. Aula de História de Idade Média me mostrou a Inquisição, e eu entrei na primeira crise. Revoltada, os hormônios a flor da pele, a TV que já se impunha com sua machista "religião da beleza", e pela primeira vez eu disse que não existia Deus.
Com a morte de meu pai, fui aos espíritas, e me reencontrei com a religião; ia aos estudos, tentava ao máximo praticar seus preceitos....E então, entrei na faculdade, e tive contato com outra coisa que, contraditoriamente, às vezes parece religião - Marxismo - e entrei em outra crise: Deus não existe! Comecei a contestar o próprio espiritismo, e minha depressão piorou bastante nessa época, com a certeza de reencontrar meu pai e minha (na época, recentemente) falecida avó ruindo por completo...O processo depois foi se constituindo num despertar para um não Deus, que começou meu processo de melhora da depressão - a culpa que sentia por ser uma "vagabunda", a vergonha de meu desejo por mulheres, a ideologia machista que eu nunca entendi e até então não sabia desconstruir, tudo foi se esclarecendo com meu amadurecimento político, se acalmando, se transformando em esperança de melhora, em força para brigar...E eu fui amadurecendo essas posições todas...Deixando espiritualismos de lado, sem fechar o diálogo com pessoas espiritualizadas.

Com o tempo, eu fui mudando minha posição de "deus não existe" para "não vou me preocupar com essas coisas". Comecei a acreditar em laicidade, a não-religião, como a única forma de promover a liberdade religiosa e sexual(já que boa parte das religiões oprimem esta dimensão humana de alguma forma) em termos de sociedade. Não vejo razões para suprimir a religião das pessoas, se elas sentem essa necessidade de explicar aquilo que não é explicável pelos nossos olhos... Mas vejo razões inúmeras e incontáveis para negar à religião, qualquer que seja, as instâncias de decisão, reguladoras e mantenedoras da sociedade - hoje, o Estado. Religião, qualquer que seja, tem que estar no seu devido lugar, deve ter espaço entre aqueles que nela acreditam, bem longe de espaços que lhe permitam maior poder que o individual.

Religião regendo legislações impedem qualquer tentativa de democracia, seja ela cultural, religiosa, étnica e sexual- como se já não bastasse todo resto que torna a democracia uma grande piada... O que nossa Constituição tem de laica, se proibimos o aborto com o conceito de vida da Igreja Católica, impomos a monogamia (sabiam que você é um fora da lei se quiser ter um casamento a três?), há tolerância e invisibilidade sobre a discriminação e a depredação dos espaços religiosos do candomblé, umbanda e outras que não por acaso tem origem na mescla com culturas africanas, fazemos piadas com judeus e índios, matamos 190 pessoas de orientações sexuais não hetero em um ano e fechamos os olhos para os estupradores de criancinha de batina?

O fato é que as religiões que buscam poder, o controle das mentes e dos corpos para explorá-los, atormentam os Estados até hoje. E os iluministas e sua laicidade não sairam vitoriosos ainda por aqui, afinal, somos filhos, enquanto AL, dos países de resistência católica da Europa: Portugal e Espanha. Hoje somos vergonhosamente machistas, homofóbicos, e, contraditoriamente a nossa pluralidade cultural e religiosa, nos permitimos ao domínio do Papa e do Edir Macedo.

A nova Constituição da Bolívia tem uma posição fantástica em relação ao isso, ao definir o respeito às diversas culturas pré-colombianas que estão por lá - inclusive, definindo seus vários idiomas como oficiais, para além do Espanhol.

Falando em Bolívia, entendi outra coisa interessante quando fui para lá. Há, além das razões econômicas do Capital para a proibição das drogas(lembrando que boa parte delas foi invenção da indústria farmacêutica), uma razão cultural. Desde a colonização espanhola se tentou proibir o uso da folha de coca, fundamental nas culturas milenares andinas e em outras culturas da América Latina, com funções diversas para esses povos, de medicinais a ritualísticas. Justo nesta planta a indústria estadunidense foi fuxicar, e encontrou a cocaína, que não tem nada a ver com essas culturas. O Ocidente a extraiu por meio de processos químicos agressivos e impossíveis nos recursos não farmacêuticos, a usou como remédio e depois a proibiu para jogá-la nas mãos das classes mais baixas da sociedade e aliená-las da forma mais cruel possível(cocaína é uma das piores drogas, em termos bioquímicos). Além disso, com sua proibição, as famílias que se organizaram na sua produção, de países em que não era interessante o desenvolvimento econômico, foram novamente proibidas de plantar o que era natural de sua cultura, colocadas no limbo da exploração por outras monoculturas ou simplesmente na miséria. Hoje, a Bolívia conseguiu novamente ter a produção de sua "hoja de coca" na legalidade. Com essa história, imagine o que é subjugar um povo e suas culturas, pelo meio "sutil" da proibição daquilo que lhe é próprio? Imaginem os impactos que teria sobre nossa cultura a proibição do vinho, a bebida de Cristo, citada tantas vezes na bíblia?

Outro bom exemplo da não laicidade e criminalização das drogas como meio de "criminalização étnica" é o caso da maconha, amplamente usada por diferentes nações indígenas, e que possui diversos efeitos benéficos ao organismo, se usada das formas certas. A maconha não vicia, pode ser plantada em qualquer vasinho, combate dores de cabeça, relaxa, poderia ser um bom remédio natural para anorexia e problemas de insônia; porém, continua nas mãos do tráfico, que enche de porcarias qualquer baseado e garante seu consumo massivo e prejudicial para a classe que tem que ser alienada; a criminalização impossibilita a produção caseira, devido à repressão. O consumo esporádico de maconha dá margem à criação artística, a novos estados de consciência e percepção de mundo, o que gera reflexão e riscos para o status quo. É mais interessante que ela desmoralize e torne culturas inteiras "criminosas", é mais lucrativo manter as pessoas doentes, hipócritas e preconceituosas. Um Estado verdadeiramente laico, afastado do mercado, não permitiria o consumo da droga aceita em uma religião(ou medicina, como a patética medicina alopática) e criminalizaria a outra, sob qualquer desculpa. E me lembro da música do Gabrirel Pensador, que fala do Cachimbo da Paz, em que um indígena é condenado por fumar um baseado, que não por acaso tem a ver com "paz" na sua cultura...

Alteridade em relação às etnias, liberdade sexual e liberdade religiosa passam, em termos de sociedade, pela laicidade, pelo debate sério de legalização das drogas, pelo combate ao Capital e pela educação do povo. Sem esses fatores, qualquer teoria que se proponha a proporcionar a emancipação do ser humano não passa de lenda - e a democracia dentro do neo-liberalismo é bem assim...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Nu Pedagógico

"Indecente
É você ter que ficar
Despido de cultura
Daí não tem jeito
Quando a coisa fica dura
Sem roupa, sem saúde
Sem casa, tudo é tão imoral
A barriga pelada
É que é a vergonha nacional
Vai!"
Ultraje a Rigor, Pelado

Caros Amigos,
Anuncio com grande orgulho que algumas entidades e sindicatos de professores de São Paulo não ficarão na palhaçada de "comemorar" o Dia do Professor este ano.
Sairão para protestar contra a medíocre condição de trabalho de nossa profissão em frente à Secretaria de Educação do Estado, NUS!
Isso mesmo, peladinhos, peladinhas, protestando pela "nudez" do Estado de São Paulo(PSDB há 300 anos aqui) com relação a educação. Estou orgulhosíssima, espero que o protesto seja bom e cheio, e que a Tropa de Choque, presença garantidíssima com certeza, não bata em muita gente. Galera, vão pelados, mas vão de tênis de corrida, porque o carequinha maléfico do Serra e seus cachorros não perdoarão ninguém!
Meu único desgosto é que não poderei ir - gravidez e Tropa de Choque não combinam, seria um aborto certo(ou no mínimo passar mal a ponto de vomitar minhas víceras, já que eu mal consigo comer) sob gás lacrimogênio dentro de prédio - como fizeram na USP, e eu quase morri intoxicada pelo medo, e outros quitutes horrorosos da repressão que impera por aqui.
Mas o papai vai, peladinho de preferência...
Quero ver agora quem realmente defende a educação por aqui, vejamos se os integrantes de certos grupos partidários não envolvidos na decisão de construir este ato disponibilizarão ônibus para que o pessoal da Unicamp vá - talvez seja como a greve, que eles ficaram sabendo um mês depois...
Oportunismos a parte, estou doidinha para ver as tarjas pretas na televisão - quero ver com que cara de pau vão condenar as professoras por ficarem peladas, depois de transmitir banheira do Gugu, os apelativos comerciais de cerveja, as novelas recheadas de sexo no horário nobre e outras aberrações lucrativas da mercantilização do sexo.
Adorei, meu apoio total às professoras e à forma de protesto; querem nos tolhir de manifestação, agora é a palhaçada de avisar a prefeitura de SP por passeatas ou atos(acreditam nisso? O Kassab tem cada uma...), lei de greve, proibição de festas na universidade e na moradia estudantil, proibição dos professores de dar entrevista em SP(pois é, sabia que professor não pode dar entrevista aqui no estado?)...Toma essa, ditadura disfarçada de demo-cracia! A única demo-cracia que vejo aqui é o governo do diabo mesmo! Afinal, Demo-cracia combina muito bem mesmo com CapEtalismo...
Estamos na Ditadura do Mercado...Nu? Depende, quanto vai ter de lucro? Nu na Playboy pode...Aacabar com a repressão sexual? Vocês estão loucos, quem compraria Playboy sem repressão sexual? Nu da gostosona plastificada pode, nu da professora cansada protestando, que não pode nem quer um par de peitos de silicone, é putaria...
Só quero ver...
Espero que ninguém se machuque, de verdade...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Recomendação de livro...

Resenha Jornalística
Leila Diniz - Uma Revolução na Praia
Coleção: PERFIS BRASILEIROS
Autor: SANTOS, JOAQUIM FERREIRA DOS
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
O livro da vez é a nova biografia da atriz Leila Diniz, lançado no ano passado pela Companhia das Letras. Com base em relatos de amigos, colegas de trabalho e familiares, trechos de seus diários e documentação dos lugares em que ela trabalhou, o autor, Joaquim Ferreira dos Santos, foi absolutamente feliz na reconstrução da história desta incrível mulher.
Leila Diniz era uma carioca, filha de um dos líderes do Partido Comunista, e, depois de muito ler sobre educação libertária e passar por um período como professora, inicia por acaso sua carreira de atriz, em uma peça infantil. Fez algumas peças e filmes, mas seu reconhecimento vem com o filme feito por seu ex-marido, o diretor Domingos de Oliveira - nada mais, nada menos, que "Todas as mulheres do mundo". Após sua estréia do cinema, ela vai das praias de Ipanema para os estúdios de uma nova e ainda pobre emissora de televisão fazer novela - a Rede Globo - sendo posteriormente demitida por moralismos típicos de quem é financiado pelos militares. Exatamente por quebrar tabus, questionar a moral e ser livre, seu trabalho como atriz não se compara a revolução que fez no comportamento feminino. Odiada pelos direitosos moralistas e pela esquerda da época, que ainda achava aquele papo de sexualidade coisa de pequeno burguês, odiada pelas feministas que diziam que ela fazia o jogo dos homens, Leila fez muito mais pela transformação de nossa sociedade ainda machista e retrógrada, simplesmente por exibir num biquini sua barriga grávida de mulher solteira e bem resolvida, em plena ditadura militar. Foi "chamada a depor" no DOPS por seu comportamento alegre e livre, mas escapou por pouco. Sua entrevista cheia de asteriscos no lugar de seus palavrões, falando de sexo livremente, no poêmico jornal O Pasquim em 1969 fez com que os militares lançassem um decreto de censura a imprensa que ficou conhecido como "Decreto Leila Diniz".
Leitura agradável, história fascinante e divertida, que remonta a história de nosso país. Vale a pena conferir.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Greve, Movimento Estudantil e o medo do escuro

"Não vim aqui querendo provar nada,
Não tenho nada p/ dizer também
Só vim curtir meu rockzinho antigo
Que não tem perigo de assustar ninguém"

Dá-lhe Raulzito!!!

Esta foi a música que eu, depois da 3ªfeira em que acabou a greve do 1º semestre desse ano, mais ouvi, para destilar a raiva que senti ao ver argumentações do tipo "Não dá para fazer greve nas férias" como justificativas para votarmos o fim da greve. Acho que nunca saí tão exausta e tão revoltada por um comentário que ouvi dentro de um movimento - nem as feministas que não dão de 4 porque isso é "machismo", nem quando eu ouvi as palavras "progresso", "evolução humana" e "hábitos civilizados" para justificar a aculturação das culturas dos "homens do campo" no Brasil dentro de um projeto que se propõe a fazer educação popular, nem quando me disseram que esse papo de gay vai se resolver no comunismo.


Pois bem, quem começou a greve com a pauta política não-salarial foram os estudantes...Tiramos greve por todos os absurdos que ocorrem, e eu achei demais: finalmente, vamos falar para o mundo dos trabalhos, das provas, das produções acadêmicas pararem, pararemos com essa rotina maluca que não nos deixa tempo a estudar e ler algo que seja fora da academia, pararemos com a rotina que não nos dá tempo a reflexão, a criação, a análise de que tipo de formação nos estão dando, enfim vamos parar e pensar que educação se oferece neste país para nós mesmos e para a nossa sociedade, e acima de tudo protestar e manifestar que esta escola, estas instituições que são a renomada Unicamp e as estaduais paulistas, não são exatamente aquelas que queremos...

Claro, essa reflexão foi iniciada por mais um entre tantos projetos escrotamente neo-liberais pro(im)postos pelos governos tucanos nesses incontáveis e lastimátveis anos, nesta merda de estado que é São Paulo...Enfim, paramos para discutir a Univesp, o projeto de Universidade 100% a distância...

Pois bem, grupos se juntaram segundo suas afinidades políticas. Havia quem não queria que fizéssemos greve, dizendo que não era o momento....

Para mim, faltam motivos é para não se fazer greve, e todos nós que temos um pouquinho de senso crítico sabemos que a picaretagem é institucionalizada na universidade...Afinal, uma instituição que tanto valor dá ao argumento de autoridade, que baseia seu padrão de "qualidade" enquanto instituição formadora na quantidade de professores doutores, mas que os coloca em condições tais - seja por ter seu trabalho precarizado por colocá-lo nos moldes e nas condições do mercado e do lucro, seja por colocar um ser que quer ficar enfiado no laboratório para dar aquela aula que ele tanto odeia, seja por institucionalizar o "migué" de se colocar professores ainda não formados segundo seus próprios e "incontestáveis" títulos de referência - que, por mais que boa vontade se tenha, fica impossível seu exercício e compromisso com a educação que a própria instituição propôs...louco isso, não?

Voltando a greve, esse pessoal, quer por achar que não estávamos maduros o suficiente, quer por terem uma curiosa ordem de fora da universidade e do movimento estudantil, simplesmente acabaram ficando em maioria nas instâncias deliberativas de que atividade teríamos para a greve. Chamaram então, com sua crença nos argumentos de autoridade de que os acadêmicos saberiam muito mais que a gente, todos os dias, milhões de aulas públicas, com vários temas...Aulas públicas....Todas as propostas de grupos de estudos, de nós mesmos discutindo sem a "tutela" de um professor ou doutorando, discussões sobre como poderíamos construir uma educação diferente, uma outra proposta, tudo foi em absoluto BOICOTADO. Isso mesmo, boicote. Típico de política cinza, de gente que ainda não tomou - seja pelo exercício comum do não questionar, seja por interesses particulares - o movimento social, a realidade do mundo, nas próprias mãos. Não defendo que nós não estudemos mais, que a Academia não tem nada que preste - mas acho-a uma parte da argumentação, e não a verdade e a vida. Nós colocamos aulas públicas de professores que fingiram estar do nosso lado, mas apenas deram as aulas que já haviam planejado antes da greve como "atividade de greve", mas não paramos para discutir entre nós mesmos que educação queremos ter, que educação temos; não paramos para criar - não paramos nem mesmo para nos conhecer!!!!!!!!!!!Que absurdo, se um dos nossos maiores problemas é que não nos conhecemos enquanto seres humanos - eu estudo com 46 pessoas e sei o nome de quantas? 10, 15?

Sem contar o discurso que eu não engoli até agora de que "arte despolitiza o movimento" quando propusemos uma comissão para discussão e produção artísticas - que a meu ver, e na visão de muita gente que do meu lado estava, tem a propriedade fantástica de expressar mais de nós, de nos sensibilizar e trazer a reflexão, de nos abrir a cabeça para as possibilidades de criação, o que nos faz humanos, essa dimensão que está sendo perdida com a indústria cultural - imagine o que seria de nossa capacidade criativa e imaginativa se pudessemos todos os dias parar para a inspiração, o sonho, o devaneio....A arte só foi aceita enquanto instrumento de convencimento - credo! É a lógica do Capital para a arte, exatamente a mesma...Vide o cinema e Hollywood...

Mas não, nós paramos para discutir um ponto muitíssimo específico da merda de educação que temos, tiramos vários pontos em cada um dos lugares da Unicamp (falta de professor, picaretagem de professor, não assistência estudantil, Univesp, blá blá blá), e não questionamos minimamente a lógica pela qual construímos o movimento, o que significava delegarmos o "conhecimento das causas" completamente aos professores, o estudo completamente a ouvi-los sem refletir, sem sonhar, sem sair do mesmo ponto!! Fiz greve para parar as aulas e repensar as coisas...Tive um monte de aulas com os mesmos de sempre, não discuti, não repensei, não saímos do mesmo ponto.
E no fim, como nos estruturamos na mesma lógica que o Capital e o mercado, não nos aprofundamos na discussão, e não combatemos de verdade o ponto central do negócio, que é o projeto neo-liberal de educação...

Isso, claro, considerando quem estava no movimento, porque com quem estava fora isso tudo foi muito pior - com estes, simplesmente, não conseguimos nem ao menos mostrar a ligação entre os problemas de cada ponto da universidade, a lógica neoliberal e o que vemos como problema nisso - apelamos para chamá-los à "maturidade", e nomeá-los como "não-solidários", para a incontestabilidade da "autoridade da assembléia", parecíamos as velhas do Rotary, ridículo!!!

E aí, tacamos pedras nos anti grevistas, que, apesar de seu raso debate, tinham um movimento mais divertido que o nosso (o que conta muito nos nossos tempos de propaganda), e um argumento muito mais fácil de se entender com a lógica em que as pessoas estão inseridas que o nosso....No fim, justificamos as coisas do mesmo jeito que se justifica o "criminoso nato" - "Ah, estamos num contexto alienado hoje, né?"...É uma falta de senso esperar pessoas "naturalmente combativas" acordem, não existem pessoas assim, estamos na ilusão, na alienação, na narcotização que o mercado proporciona - precisamos de mais que argumentos morais para tirar as pessoas do prazer ilusório e efêmero do consumo...

E falo isso porque sei que 70% da comunidade universitária é de classe média para cima, e, portanto, não sofre diretamente na pele o enorme problema da desigualdade social e do acúmulo de riqueza, o que os faz menos sensíveis a questão.

E depois, sofremos a repressão nojenta dentro da USP...Eu fiquei absolutamente assustada...Mas o que mais importa é que a estratégia da repressão deu muito certo - não precisaram bater duas vezes, o movimento que tinha uma discussão política não tão boa se desmantelou em "discutir repressão"...O movimento lutava por uma coisa, e de repente, passou a lutar contra a repressão dele mesmo...os professores entraram em greve para tirar a polícia do campus, e, com a saída física da tropa, eles saíram da greve - mas o decreto que legitima a volta deles aos campus das universidades está lá, intocado, pronto para colocar a polícia a nos tacar gás lacrimogênio dentro de prédio de novo...

E no fim, o fim do desmantelamento - em vez de reconstruir o movimento, de refazer propostas, apesar das idéias de, para aproveitar que íamos para nossas cidades, fazermos um mutirão entre quem estaria no movimento por várias cidades do estado e do país a discutir educação, univesp, e todas as novas iniciativas para a educação pública com a população nos centros urbanos, ou então de estudarmos bastante já que não estaríamos aqui precisando mobilizar e garantir que a greve continuaria, produzirmos textos por contato virtual, enfim, apesar de todas as propostas de mobilização no que seriam as nossas "férias", como as assembléias são discursos de surdo e uma boa parte vai apenas com ordens vindas de organizações oportunistas que fazem os estudantes que delas participam massa de manobra, tive que ouvir o disparate, a indignante posição de "não tem como mobilizar nas férias". Pois eu digo o contrário - GREVE NÃO TIRA FÉRIAS!

Claro, tem o pessoal que furou a greve....Medo de fazer greve??Isso é radicalizar, ser marxista, ser revolucionário??? Esqueceram de contar que, antes de ser filósofo, pai da sociologia, escritor de "O Capital", Marx era um militante!!! E aqui faço minhas pazes com Marx, com quem briguei nessa época por ouvir suas citações em bocas de falsos leitores seus. E esses falsos leitores seus são os que negam sua condição de classe média, geralmente brancos, para falar que são mais ou menos revolucionários, como se isso fosse mais importante que as atitudes e posturas que temos. Se não temos coragem de fazer greve e enfrentar a repressão de um 0 na nota, imagine de enfrentar a polícia e suas armas letais, ou mesmo a grana chantagista dos lobbistas em Brasília(já que alguns acreditam em mudanças pela via eleitoral)...

Bom, depois dessa exaustiva terça e de minhas exaustivas 2 semanas intensas de movimento estudantil, eu não furei a greve, mas também deixei de me mobilizar em torno deste tipo de movimento...Fui p/ cama, fazer minha revolução por lá...Quando encontrei um pessoal com mais senso e menos interesse, me reuni, e me reúno até agora...
Vamos ver como sai, estou atrasada para ir p/ lá agora...

Intés!
(texto escrito há umas 3 semanas atrás, hehehe)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Educação Sexual e Diversidade

Caros Amigos,
Compartilho com vocês nosso trabalho final de Antropologia e Educação, na íntegra, que foi sobre Educação e Diversidade Sexual...
A autoria só podia ser de três porra loucas da sala, um beijo enorme p/ J.J. e p/ Chris: Christiane Silvério Frazatto, Jonatan Jackson Sacramento
E um beijo p/ Sel, que me introduziu no devaneio delicioso da Antropologia...

Trabalho Final - Educação Sexual para a Diversidade

“Bom! Vá lá, vai ver
Que é pelas crianças
Mas quem essa besta pensa
Que é prá decidir?
Depois aprende por aí
Que nem eu aprendi...
Tão distorcido
Que é uma sorte eu não
Ser pervertido”
Sexo, Ultraje a Rigor

Apresentação
Este trabalho se propõe a analisar o que hoje temos como educação sexual e, a partir disso,
problematizá-la se é isso que se faz necessário para uma formação para a diversidade.
A escolha de tal tema deu-se a partir de lembranças vividas pelos componentes do grupo, ao
rememorarem as práticas vividas em tais aulas que se caracterizavam, muitas vezes, como
insuficientes e/ou incoerentes.
Tal trabalho partiu das nossas experiências vividas nas escolas – a partir das lembranças que
impulsionaram a escolha do tema – e considerou a concepção da sexualidade na nossa sociedade
hoje, para discutir e analisar a proposta curricular de educação sexual no Brasil, os “Parâmetros
Curriculares Nacionais” para Orientação Sexual e refletir sobre o papel do educador neste processo.

1. Introdução
Para falar de sexualidade, é fundamental falar em corpo, desejo, paixão, prazer, vida
repressão, poder, preconceito, morte, controle, gênero, pecado, orientação sexual, construção de
papéis sexuais, saúde (dentro dela, as doenças sexualmente transmissíveis e AIDS), enfim, de todas
as representações sociais que giram em torno do tema na sociedade.
A sexualidade pode ser vista como um ‘dispositivo de poder’, o qual está presente em todas
as relações, seja de homens e mulheres, de professores e alunos, de médicos e pacientes e etc.
Segundo o filósofo francês Michael Foucault, as concepções médico- higienistas,
influenciadas pela medicina social do século XVIII surgida na Europa, atuaram no Brasil do século
XIX como um verdadeiro dispositivo de sexualidade nas relações já ditas. Essas concepções não
estão fora do âmbito escolar.
Os estudos sobre a educação sexual -ainda e em sua maioria- tentam seguir um método dito
‘adequado, controlado e disciplinado’ dentro das escolas, pois ainda encaram a questão da
sexualidade de maneira preconceituosa e estereotipada, partindo do ponto de vista da moral e da
religião. Porém, no contexto que as DST´s e a AIDS ameaçam a saúde pública, a partir da
reivindicação dos movimentos feminista e LGTTB e da Revolução Sexual dos anos 60, o tema da
educação sexual vem se mostrando conteúdo fundamental na escola.
Foucault, em suas pesquisas explica que, entendendo a sexualidade como mecanismo de
poder, e este, sendo executado nas instituições (Igrejas, família, escolas), é quem faz as discussões da produção de uma sexualidade para as pessoas; portanto sua fala, ou supressão, nada mais é que uma forma de controlar o assunto. E com isso se explica o porquê a sexualidade pode ser vista como um ‘dispositivo de poder’.
Sendo o tema da sexualidade polêmico, tende-se a desafiar o papel dos professores em
qualquer nível escolar, visto que há a exigência de inclusão de educação sexual nos currículos
escolares. Assim, o campo educacional freqüentemente rejeita, desqualifica e abafa o assunto.
Devido a algumas posturas contrárias a essas, foi publicado o livro “O corpo educado:
pedagogias da sexualidade”, de Guacira Lopes Louro. A obra permite ao leitor aproximar-se mais e melhor das novas tendências dos debates sobre sexualidade e das dimensões sociais do corpo, como as pedagogias escolares, o corpo e a sexualidade. No livro, Louro abre espaço para que outros professores possam contar suas vivências e suas idéias. Entre eles há a professora canadense Debora Britzman, que faz revisão das diferentes formas de educação sexual: a “normal”, higienizada e controladora; a “crítica” feita pelos preocupados em questionar as hierarquias do sexo; e a “ainda não tolerada”. Para essa última, a canadense propõe uma discussão para além da biologia, anatomia, cultura e papel sexual: a fantasia, o Eros e as vicissitudes da vida. Assim ela indaga: “será que a pedagogia pode começar com essas surpresas?”, “pode o sexo ser educado e a educação ser sexuada?”, “que está em jogo quando os jovens e os adultos nos apresentam quando eles moldam suas vidas? E o que ocorre se o que está em jogo são os limites de nossos conhecimentos?”. Ela desafia, portanto, até onde o nosso olhar pode atingir e procura instigar uma curiosidade para além dos padrões feitos pela sociedade. Principalmente porque, a questão da sexualidade antes de ser ‘na’ e ‘para’ a educação, é uma questão da própria sociedade; logo, como a educação atua dentro da sociedade, está interagindo com as influências sugeridas por ela.
Hoje, após a Revolução Sexual dos anos 60, o movimento feminista conquistando espaço e
o movimento pela Diversidade Sexual e todos os novos comportamentos postos, e principalmente
com o problema de saúde pública gerado pelo aumento das DST’s/AIDS e da “gravidez nãodesejada”
no país, há uma demanda por discutir sexualidade, tanto como parte das políticas de
promoção da saúde como uma tentativa de abrir a caixa dura do tabu. Cria-se então para a
instituição formadora do cidadão da nossa sociedade, a escola, a responsabilidade de se ocupar
deste novo horizonte, e buscar uma educação sexual.

2. Antropologia, Sexualidade e Educação
2.1 Antropologia e Diversidade
Buscando este “ensino e formação para a diversidade” é importante nos atermos ao que hoje
conhecemos por diversidade. Não devemos concebê-la e nos contentarmos da maneira liberal ou
humanista que esta nos é apresentada – onde a tolerância, o respeito e a convivência harmônica
devem ser enfatizadas nas práticas pedagógicas. Ao contrário, devemos abordá-la, como nos diz
SILVA (2001), de modo crítico, problematizando-as e permanentemente colocando-as em questão.
Para que isso ocorra, a antropologia (LAPLANTINE, 2007) nos dá alicerce teórico para o
desenvolvimento da aprendizagem em conjunto, onde poderemos trabalhar as relações de conflito x
harmonia, relação igualitária x autoritarismo e integrar as diferenças identitárias, tomando sempre a
identidade como relacional e contrastiva.
2.2 Sexualidade e Educação
Se investigada a maneira como se deu a inserção da sexualidade como um Tema Transversal
no currículo escolar, percebe-se que a escola foi chamada como um espaço de intervenção na
sexualidade de crianças e jovens. Como afirma ALTMANN (ano), a sexualidade, quando vista
como um problema social, ou de saúde pública, cria a necessidade da inclusão desta temática na
escola – pois esta é, ainda, a grande instituição que forma novos homens e mulheres. Tal inclusão,
deve-se ao aumento do número de casos de “gravidez indesejada” e crescente discriminação dos
casos de HIV.
O que se vê então, é a escola como um espaço destacado das tecnologias governamentais –
sejam elas, leis, decretos, etc. - e o sistema escolar sendo chamado para intervir no comportamento
sexual dos jovens sem no entanto, problematizar essas práticas.
A partir disso, a sexualidade vista como um problema, dá outras características ao
desenvolver do processo pedagógico, sendo ainda cheia de tabus e discriminação. Mas, como
deverá caminhar este processo?
Tudo o que fazemos, pensamos, falamos, sofre influência da imagem que temos de nós
mesmos. Tal imagem segundo MORENO (1999), não fabricamos do nada, mas a construímos a
partir do outro, a partir de modelos e padrões sociais previamente estabelecidos.
Esses mesmos padrões e modelos não podem ser modificados via decretos ou leis, mas se
faz necessário uma mudança mais profunda no sentido de modificar a mente dos indivíduos; e uma
maneira muito eficaz para isso é a educação.
A partir disso, parte-se do ponto que uma educação sexual deve ser baseada em princípios
claros de inclusão e resistência, e que deva oferecer uma alternativa reflexiva e crítica ao que
atualmente é posta pelos meios de comunicação de massa, pela propaganda do mercado, pelo
discurso moralista de algumas religiões sobre o que é a sexualidade. Tal inclusão e resistência deve
ser pautada em um interesse politicamente interessado na descontinuidade de desigualdades como a
sexual, a de gênero, de etnia, classe, raça, religião, etc.
Ou seja, o principal papel de uma educação sexual, como afirma FURLANI (2003), é
desestabilizar as verdades ditas como “únicas”, a hegemonia do modelo heterossexual, da divisão
machista do comportamento sexual, mostrando o jogo de interesses implícitos neste modelo – e a
partir disso, apresentar várias possibilidades sexuais existentes no meio social, cultural e político da
vida humana, sempre problematizando a maneira como estas são significadas e produzem efeito
sobre a existências das pessoas.

3. Educação Sexual e Currículo
3.1 O PCN de Orientação Sexual
- Pontos de partida
O documento inicia buscando considerar “a sexualidade como algo inerente à vida e à saúde,
que se expressa no ser humano, do nascimento até a morte.”(PCN - Orientação Sexual), e cita o direito
ao prazer e ao exercício da sexualidade, relações de gênero, etc. Na justificativa, parte-se da
premissa de que a sexualidade está em todos os lugares, desde o corpo até a mídia (inclusive na escola),
e isso gera uma ansiedade e curiosidade nos educandos; por isso, é fundamental trabalhá-la
para que o a criança, o adolescente e o jovem possam escolher sobre seu corpo e sua própria sexualidade,
com esclarecimento e auto estima, durante toda a vida. Esse trabalho perpassaria os temas de
DST’s/AIDS, abuso sexual, direitos sexuais e reprodutivos, gravidez e contracepção, que são parte
também das diretrizes de políticas públicas para a promoção da saúde. O objetivo desta perspectiva
na parte inicial do PCN visa a formação do cidadão para uma sociedade pluralista e democrática
que se pretende construir.
Em “Concepção do Tema”, se utiliza a concepção de sexualidade da Organização Mundial
de Saúde de 1975, em que, sendo a saúde um direito humano fundamental, a saúde sexual também
deve estar considerada um direito humano fundamental. Em seguida há uma discussão sobre sexualidade
na infância e adolescência.
- Orientação sexual como tema transversal
A Educação Sexual aparece como tema transversal em “Orientação Sexual”, porque a
sexualidade é colocada como fenômeno intrínseco ao ser humano, e portanto se manifesta em toda
a vivência escolar, não podendo ser trabalhada como conhecimento restrito de uma única disciplina.
Por isso o PCN ressalta que manifestações espontâneas da sexualidade, que seguramente ocorrerão,
devem ser aproveitadas para um trabalho educativo em sexualidade.
Também há a possibilidade de se trabalhar a temática isolada, com um espaço dedicado
exclusivamente à ela em carga-horária, a partir do 3º ciclo do Fundamental.
- A Postura do Professor
Por esse motivo, há uma parte no PCN dedicada a postura do educador; ele deve ter uma
formação específica para tratar da sexualidade, o que inclui refletir sobre suas próprias dificuldades
acerca do tema; a partir disso, ele poderá ter uma postura aberta ao diálogo, que reconheça as
diferentes formas de manifestação da sexualidade, e que vise o esclarecimento e o respeito.
Também é fundamental que o professor cuide para não pregar seus valores pessoais em sala, nem
admitir que se invada a sua privacidade. Reconhece-se que deve existir uma relação de confiança
entre professor e aluno para desenvolver o tema. E esta postura é independente da área em que
atuem.
- O Trabalho Pedagógico
Inicialmente, trata-se de como trabalhar a temática a partir das manifestações da sexualidade
das crianças, adolescentes e jovens na escola. Propõe-se a contextualização destas, de onde seria um
ambiente melhor para fazê-las, colocando o que cabe fazer em determinadas situações e o que não
cabe, sem condenar ou aprovar as atitudes. O principal foco é a problematização, o questionamento
e a ampliação dos caminhos e saberes na sexualidade, para que os alunos se posicionem, escolham e
tenham preservada sua intimidade.
Também aparece no PCN a necessidade de se abordar as mensagens que vêm da mídia, da
família e de diversas instituições, para informar, esclarecer do ponto de vista científico, promover a
reflexão sobre os diversos valores envolvidos, e possibilitar a formação de opinião dos alunos a partir
de seus próprios valores.
Os conteúdos são divididos em três principais blocos: “Corpo: matriz da sexualidade; Relações
de Gênero; Prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis/Aids”, que devem ser necessariamente
trabalhados no Ensino Fundamental. Neles também se sugere em quais disciplinas poderiam
ser encaixadas as partes do tema.
Ao se abordar a questão nos 3º e 4º ciclo do fundamental, considerando o aumento do interesse
e da necessidade de posicionamento, e presença mais cotidiana da sexualidade, há a demanda
por se tratar em um espaço próprio a Orientação Sexual. Não há uma formação específica exigida
para o educador que for trabalhar nesta área, podendo ser inclusive orientador ou coordenador pedagógico.
O programa seria montado de acordo com cada turma, e não por uma instância maior.

4. Conclusão
Tendo observado, em nossas próprias vivências escolares e nas vivências escolares de todos
ao nosso redor; observando os dados de violência contra GLBT’s, que cresceu 55% de 2007 para
2008 segundo GRUPO GAY DA BAHIA(2009), o aumento dos casos de AIDS entre mulheres e a
alarmante situação da gravidez na adolescência; observando também a insistência dos tabus
machistas, misóginos, heteronormativos e homofóbicos em toda a sociedade, concluímos que as
políticas educacionais pela educação sexual ainda têm um longo caminho a trilhar para uma
formação do cidadão pluralista e democrático.
Pensando na perspectiva lançada pelo PCN, é fácil perceber porque ele tem pouca
penetração na escola, apesar do discurso “reivindicatório” da sociedade em se tratar este tema; o
PCN centra no educador a responsabilidade por desenvolver este conteúdo, que já é difícil por si
mesmo. Este educador, porém, acima de não ter formação específica para isso, tem péssimas
condições de trabalho. Esperar que ele, que quase não discutiu sexualidade na sua formação (ainda
não há programas distribuídos para todos os professores neste tipo de formação, muito menos há
algum tipo de disciplina enquanto grade curricular obrigatória nos cursos de Pedagogia e de
licenciaturas para discussão do tema; há cursos de formação continuada em alguns municípios, mas
isso ainda é pontual), sujeito aos baixos salários, instabilidade constante no emprego, com uma
carga de trabalho que o inviabiliza de refletir sobre suas práticas em sala, que tem sobre seus
ombros a carga de cumprir conteúdos, com pouco tempo para construir uma relação forte e de
confiança com seus alunos, seja encarregado de desenvolver este conteúdo do ponto da pluralidade
e democracia é no mínimo ingenuidade.
Com isso, a temática acaba caindo apenas para Ciências/Biologia, por já existirem aulas em
que é inevitável falar do assunto, mas sempre aparece com uma perspectiva reprodutiva e/ou
patologizada. Esse isolamento nestas disciplinas acaba por minar ainda mais a discussão da
pluralidade, da escolha e da diversidade sexual, reforçando os velhos padrões moralistas da nossa
sociedade. Outra possibilidade de ocorrência está nas aulas específicas de educação sexual, em que
geralmente o sexo é encarado como algo para se ter cuidado antes de se ter prazer, em que se
discute pouco as práticas, as culturas relacionadas ao sexo, a diversidade sexual, as formas de se
obter prazer e muito doenças, gravidez, de forma opressiva, enfocando não a consciência do próprio
corpo e sim a culpa, o medo e a ansiedade.
Por não valorizar o trabalho do professor e nem dar a ele uma formação mínima para encarar
o assunto, por ainda não ter quebrado seus próprios tabus, e por ainda a escola ainda não consegue
promover uma educação sexual capaz de abarcar as premissas do PCN, nem da Diversidade Sexual.


Bibliografia
ALTMANN, Helena. 2003. Orientação sexual em uma escola: recortes de corpos e de gênero.
Cadernos Pagu, 21, p. 281-315. Campinas.
BONATO, N. M. Da C. 1996. Educação (sexual) e sexualidade: o velado e o aparente. Dissertação
de Mestrado, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.
CARVALHO, M. P. De. Março 2000. O Corpo Educado: Pedagogias da Sexualidade (resenha de
obra). Cadernos de Pesquisa, 100, p. 240-242. São Paulo.
FURLANI, Jimena. Educação Sexual: possibilidades didáticas. In: GOELLNER, Silvana Vilodre,
LOURO, Guacira Lopes, NECKEL, Jane Felipe (org). 2003. Corpo, Gênero e Sexualidade: um
debate contemporâneo na educação. Petrópolis, RJ: Vozes.
LAPLANTINE, François. 2007. Aprender Antropologia. São Paulo, Brasiliense. (20º reimp.)
MORENO, Montserrat. 1999. Como se ensina a ser menina: o sexismo na escola. São Paulo,
Moderna; Campinas, Editora da Unicamp.
SILVA, Tomaz Tadeu da. 2001. Documentos de Identidade – Uma introdução às teorias do
currículo. Belo Horizonte. Autêntica.
http://www.ggb.org.br/assassinatosHomossexuaisBrasil_2008_pressRelease.html
(acessado em 16/07/2009)
http://www.mj.gov.br/sedh/homofobia/planolgbt.pdf
(acessado em 16/07/2009)
http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/orientacao.pdf
(acessado em 16/07/2009)

Liberdade sexual e Revolução

Vale esclarecer alguns pontinhos sobre meu último post, que gerou um comentário do colega J.L. Tejo:

Sobre seu comentário em meu blog: em momento nenhum defendi a liberdade sexual como liberdade em seu sentido mais amplo...Estou apenas me referindo à plasticidade do capitalismo em relação aos movimentos de liberdade sexual, como foi cooptado o próprio movimento hippie, como os movimentos pela diversidade sexual, como o movimento feminista, e como o próprio mercado nos aliena e ilude, com uma falaciosa liberdade...Não estou falando em liberdade como apenas liberdade sexual, mas ela também é parte da revolução e do fim do Capital.

E digo mais: liberdade é coisa corpórea. Esse papo capitalista de que somos livres para escolher é uma grande bobagem. Não há como falar em liberdade e emancipação humana com metade da humanidade morrendo de inanição, de sede, de doenças resolvíveis com o mínimo de saneamento básico. A pior ditadura é a fome.

Se eu acreditasse em militância só pela liberdade sexual, não seria pró-Cuba, nem teria tanto contato com o conhecimento popular, em que essa dimensão, pela configuração de nossa cristã colonização, está muitíssimo distante.

Sou militante em movimento de educação popular e arte livre, e estou militando para construir um momento revolucionário, de quebra e transformação do Capital em liberdade. Sem esse papo de democracia, que se propõe a falar de liberdade mas só tem sido instrumento de alienação política e dominação cultural e econômica de gordos capitalistas: não tenho muito medo da ditadura do proletariado não.

Agora, revolução para o fim do Capital sem revolução para o fim do machismo, do racismo, da homofobia, da exploração do meio ambiente e da dominação religiosa, não será revolução. Se é para libertar o ser humano da fome, que libertemos as mulheres e os homens dos padrões de comportamento, as mulheres dos olhos roxos e vaginas violadas, libertemo-nos dos padrões e rótulos de desejo, identidade e amor, sejamos todos da única raça humana, libertemos o meio ambiente de nossos venenos e dos chicotes, libertemos as pessoas desse maldito padrão irracional cristão para que elas sejam atéias, taoístas e até cristãs conscientes se elas quiserem.

Revolucionário que faz piada inferiorizando a mulher, rindo de gay(que na verdade é quase a mesma coisa, ou até pior), ou tendo surto de ciúmes possessivo sobre sua bela namorada sem combater e repensar seus sentimentos estará, inevitavelmente, reproduzindo a dominação do Capital, que inventou a família monogâmica, heterossexual e patriarcal para a própria fixação da propriedade privada, como o próprio Marx tão bem descreveu.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A mercantilização da liberdade Sexual

Vocês, caros leitores classe média, se algum dia foram do tipo mais "baladeiro" e menso monogâmico, sabem bem: já foram num motel?
É um dos lugares que mais gosto de ir...você chega, geralmente de carro, moto ou a pé(mas só fui de carro), tem uma janelinha geralmente escura(vc não vê quem te atende) com um buraco embaixo do vidro, os preços e as horas que vc terá para ficar lá numa tabela iluminada, e pede o tipo de quarto que te apetece ou que seu bolso pode pagar. Ela te dá uma chave e vc entra em um lugar com muitas garagens cobertas; entra na garagem e fecha a porta, ninguém vê o modelo de seu carro/moto. E sobe num quarto, sempre bonito e limpo, com quadros eróticos e bom...o resto é por sua conta...Se for pedir alguma coisa, seja algo para comer ou algo para comer melhor(hahahahah), tudo é colocado em uma caixinha com portas dos dois lados; a atendente abre a porta, coloca o pedido, fecha a porta; você abre a porta do outro lado e pega o pedido...
Quando for sair, o mesmo esquema de não ver ninguém que te atende; eles fazem a inspeção p/ ver se vc não roubou nada, p/ ver se vc consumiu algum dos produtos disponíveis no quarto(sais de banho, camisinhas, etc) e te dão o valor. Se vc pagar com cartão, o comprovante de pagamento vem com qualquer nome que não seja de motel - já vi uns indicarem "moda unissex", "pizzaria", nome da cidade, mas nunca, jamais "motel dos prazeres"...
Se puder pagar, você poderá gritar, sujar todos os lençóis e colchões de tudo o que seu fetiche mandar, levar quem vc quiser p/ cama(homem, mulher, transgênero, travesti, a vizinha, o/a amante, a mulher, o marido, o/a namorada(o), um grupo de amigos pervertidos e malucos escondidos no carro - claro, se tiver dinheiro, vá p/ uma suíte de swing), poderá fazer aquele sexo por qualquer lado, de qualquer jeito, vestir cueca de elefante e roupa de dominatrix...tudo pelas horas mágicas muito bem pagas em que vc é livre entre 4 paredes...e ninguém vai saber do seu crime ali, ninguém. Seu casinho, sua curiosidade não hetero, seu fetiche de ser dominado, seus gritos, seu sonho de ser lambido com leite condensado - tudo segredo, o risco de encontrar o fofoqueiro da esquina, o padre da Igreja, a mãe, é restrito aos 15 minutos de entrada na suíte e saída da suíte. Bela liberdade.

Liberdade Sexual, afinal, é muito mais que isso. Muito mais do que caçar numa balada uma pessoa em quem gozar, sem se importar com seu prazer, com seu ser humano; muito mais do que poder fazer desde que bem pago e escondido, sustentando uma indústria nojenta, um ramo do mercado, a sociedade da mentira, da anestesia, do medo. Liberdade Sexual é poder, independente do quanto tem na carteira, do que tem no meio das pernas, do que quer ter no meio das pernas, de quem se quer na cama, manifestar-se, amar e conhecer a si mesmo, sem esconderijos, sem amarras, sem preço. E isso motel nenhum, balada nenhuma, academia e cosméticos natura nenhum nos dará. A mercantilização dos movimentos de liberdade sexual nos fez escravos do mercado, mas não libertos da moral cristã de culpa e pecado do sexo, do desejo; e ainda explorou altamente a ditadura da beleza, do corpo, elevando-a em seu mais alto grau.

E nada pode ser mais cruel que a ditadura que se impõe, no Capital, aos nossos corpos, à imaginação, ao desejo, ao amor, à humanidade. Por ter me retido por tanto tempo nessa falsa idéia de liberdade sexual que se compra a cada esquina, por ter por tanto tempo me alienado de meu desespero de liberdade, por ter ludibriado meus sentidos, por tudo o que tive que passar para me dar conta disso, eu jamais perdoarei o mercado e o Capitalismo, sua plasticidade irritante, sua falácia constante. Porque, por mais livre que eu possa ser no quarto de um motel, eu continuo sendo vítma de assédio sexual, continuo sendo a possível morta num ataque de neo nazistas por ser "livre", continuo tendo que calar para alguns lados da sociedade sobre meu amor livre, continuo ouvindo piadas machistas...

A merda a liberdade de consumo!! Eu quero emancipação humana!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sobre o racismo

Enviado por mim no email da minha sala, após o nojento ocorrido no Carrefour de Osasco, segue abaixo reportagem.

Na verdade, isso estava engasgado na minha garganta, depois que eu vi uma foto no orkut de uma colega de sala, indo p/ uma festa a fantasia, com um sinal de reverência e dois amigos fantasiados de, nada mais, nada menos, que Ku Klux Klan.

Ter opiniões diferentes, defender o Capitalismo/Anarquismo/Socialismo/Budismo/Catolicismo ou qualquer outra teoria, faz parte do negócio, faz parte da discussão, da construção do ser humano....

Agora, é completamente absurdo defender(e eu considero a piada, neste caso, uma apologia) em alguma medida, grupos de extermínio, como o caso do KKK. É inadmissível, assustador, escroto.

Este texto é, na verdade, revolta acumulada.

Aí vai:

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Se há uma coisa para a qual devemos ser completamente intolerantes, é o racismo.

Quando finalmente vamos tomar vergonha na cara e de uma vez por todas eliminar esse absurdo, que tanto mal já causou a nossa humanidade, da conduta política do estado, da sociedade, das pessoas individualmente?

Mas o fato, como tão bem percebeu Malcom X e tantos outros, é que sem racismo não há capitalismo - e aqui não falo em cor da pele, pois afinal, os judeus que morreram nas mãos dos nazistas eram "brancos", e os tutsis que morreram em Ruanda nas mãos dos hutus eram "negros". A acumulação do Capital se apropriou de tal forma das velhas opressões, que é impossível desatrelar uma coisa da outra, e hoje o capitalismo diz que combater o racismo é vender bonequinhas negras, cosméticos para a pele negra, e eleger pela democracia burguesa um presidente negro.

Nada disso impede que cresça a guerra entre palestinos e judeus, a blitz que pára meu colega negro na rua mas não pára meu colega branco, e os movimentos neo nazistas que espancam, agridem e matam nordestinos e negros pelos centros urbanos de nossas cidades. Isso tem acontecido com mais frequência que nós, enquanto sociedade civil, queremos assumir.

Tolerância com racismo é ser dele um cúmplice. Repudiar ações como essa do Carrefour é uma obrigação nossa enquanto seres humanos, independente da cor de nossa pele, de nossa etnia, de nossa classe social.

E vale lembrar a quem se julgar "branco" num país como o Brasil e num continente como a América Latina, que somos produto de miscigenação absoluta (afinal, brancos em massa só chegaram por aqui neste século, e portanto, temos um passado de miscigenação do homem branco com os indígenas e negros muito mais forte). A possível cor "branca" de nossas peles é produto de uma política de embranquecimento da população, a criar uma classe média não negra, e portanto, brancos, negros, indígenas enquanto "raça" é, mais do que em qualquer outra parte do mundo, completamente estapafúrdia e infundada por aqui...

Aos neo nazistas espalhados pelo nosso continente, desde contando piadas sem graça até os campos de batalha em que espancam gente na rua, sinto muito: se querem o extermínio das "raças inferiores", comecem exterminando a si mesmos, já que vocês de raça pura nada têm.

E aos que acham que nada tem de racistas, vale um exame de consciência e do inconsciente escravista (que tal uma leitura da psicologia p/ esse lado também?) que temos para ver até que ponto não nos sujeitamos à lógica absurda que paira nossas mentes brasileiras, que vivem negando que são racistas, mas atravessam a rua a noite ao ver um negro passar, contam suas piadinhas racistas em mesa de bar e morrem de desgosto ao ver seu filho com uma namoradinha negra.

Às respostas neo-liberais e liberais a respeito do racismo, possíveis de surgir pelo meu pressuposto de que só fora do Capital (e portanto do capitalismo, já que estamos neste momento histórico) há aniquilamento do racismo, estou aberta a discussão.

Atés revoltados.

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Reportagem:
>>Manifestantes protestam contra racismo no Carrefour de Osasco
>>
>>Homem negro foi espancado e acusado de 'roubar' o próprio carro, um
>> Ecosport, pelos seguranças da loja
>>
>>SÃO PAULO - Dezenas de pessoas se reuniram no estacionamento da unidade de
>> Osasco dos supermercados Carrefour na manhã deste sábado, 22, para
>> protestar contra a agressão sofrida pelo vigia e técnico em eletrônica
>> Januário Alves de Santana, de 39 anos, na quarta-feira, 19. O cliente do
>> supermercado foi confundido com um ladrão pelos seguranças, que o
>> agrediram o acusaram de "roubar" seu próprio carro, um EcoSport.
>>Os manifestantes levaram uma faixa branca de cerca de 30 metros com os
>> dizeres "Onde estão os negros?" e a estenderam no estacionamento do
>> supermercado. Alguns carros exibiam protetores de para-brisa com a frase
>> "Carrefour racista" nas cores da logomarca da rede.
>>
>>O advogado de Santana, Dojival Vieira, vai entrar com uma ação de
>> indenização por danos morais contra o Carrefour e contra o Estado.
>> "Queremos que os cinco seguranças e os três policiais sejam identificados
>> e responsabilizados. Esses casos de racismo não podem mais acontecer num
>> País onde a metade da população é negra ou parda."
>>
>>O Carrefour decidiu afastar a empresa Nacional de Segurança Ltda., que
>> prestava serviços em algumas lojas de São Paulo e o gerente da unidade de
>> Osasco.
>>
>>
>>Protesto ocorreu no estacionamento do supermercado. Foto: Evelson de
>> Freitas
>>
>>
>>Carros exibiram protetores com frase "Carrefour racista". Foto: Evelson de
>> Freitas
>>
>>
>>Foto: Evelson de Freitas
>>
>>
>>Foto: Evelson de Freitas
>>Fonte: Estadão

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sobre a mulher, Direitos Humanos e Democracia

EP132 - Educação, Democracia e Direitos Humanos
Resenha relacionando o filme “Desmundo”, o texto de Bosi, Alfredo “Dialético da Colonização” e a questão dos Direitos Humanos.
O filme trata do início da colonização do Brasil, sob a ótica de uma portuguesa que vem ao Novo Mundo com um grupo de mulheres, obrigadas a casar-se com os homens portugueses que aqui estavam, para colocá-los na “vida cristã” de casado e constituir família. O filme evidencia principalmente o machismo nas relações do início de nossa colonização, que se dará tanto na esfera dos escravos como na fundação de uma classe dirigente na colônia.
Estes homens vêm para explorar a terra e seu povo, e o fazem em todos os sentidos; a miscigenação do brasileiro tem aí suas primeiras origens. O contato deste homem branco com os diversos indígenas que estão aqui se dará com uma relação de poder, seja pela cruz e a aculturação do índio, seja pela espada e o extermínio de quem não se submetesse a cultura e modo de produção europeus. Vem da Europa então a estrutura familiar monogâmica e patriarcal, que pressupõe a mulher enquanto posse do homem, enquanto procriadora e mantenedora dos cuidados domésticos e da vida privada, ou então enquanto “corruptora” da alma “pura” do homem, que se vê perdido e acaba por ter uma conduta poligâmica – aí está o machismo que justifica a exploração sexual, a violência, o estupro, a inferioridade moral da mulher. Esse conjunto de valores machistas resultará aqui no Brasil na miscigenação pela exploração sexual das escravas indígenas e mais tarde das escravas negras, na relação de poder e aculturação que nada tinham de anulação heróica da cultura européia pelos colonizadores portugueses (como havia sido proposto por Gylberto Freire e Sérgio Buarque de Hollanda).
Com esta formação moral machista da sociedade, institucionalizada e repetida nestes 5 séculos desde o dito “descobrimento”, ou melhor, desde a dominação cultural (pensando no sentido de “cultura” das páginas 16 e 17 do texto já referido) da já então reacionária Igreja européia até os valores atuais de mercantilização do corpo feminino, é impossível que se garantam os mínimos direitos da pessoa humana, inclusive de integridade física, da mulher enquanto ser humano. Não se mudam séculos de exploração e poder em 60 anos, pois isto requer uma mudança – que é progressiva e que culminará, se nela for investida a devida energia – geral nos valores e na ética da sociedade. Por isso, a luta pela emancipação feminina, que vai desde a Lei Maria da Penha e a Delegacia da Mulher(que ajudou e ajuda muito no julgamento dos crimes contra a mulher, que antes eram estupradas e submetidas ao julgamento moral do comprimento de suas saias) passando pelas leis trabalhistas e indo até a luta pelos plenos direitos sexuais e reprodutivos (programas de educação sexual não moralistas que esclareçam homens e mulheres sobre o funcionamento dos próprios corpos para o prazer e a reprodução, planejamento familiar e métodos contraceptivos incentivados pelo estado, legalização do aborto, casamento homossexual, enfim), é fundamental a efetivação dos Direitos Humanos no Brasil e no mundo.A questão a que me proponho agora é imaginar se estes Direitos, do ponto de vista da mulher e de qualquer outro ser humano, são possíveis em uma cultura em que o Capital domina e comanda o coletivo – o que, nas atuais circunstâncias de Capitalismo Financeiro, se concretiza nas relações humanas e de produção mercadológicas, em que seus “Direitos” são compráveis. A escolha e a liberdade do ser humano estará condicionada ao que ele, enquanto pertencente a uma determinada classe social que receberá um crédito bancário, poderá consumir de acordo com seu sexo, “raça”, religião, orientação sexual. E este condicionamento resultante da liberdade de mercado – você escolhe se puder comprar - acaba por contradizer a própria prática dita democrática, pois a escolha do indivíduo não se dá em um contexto em que ele tem plenas condições de discernir, refletir e assim escolher.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sobre o sensível e a arte

Cá estou eu estudando, mas tive que parar para falar porque me lembrei de muitas coisas...

O texto disparador foi "Modesta proposta para proteger os jovens dos produtos da poesia", de Hans Magnus Enzensberger (Livro: Mediocridade e loucura e outros ensaios)...Já li algumas poucas coisas desse cara e tudo que li até hoje foi um tesão de epifanias consecutivas...

Ele está falando da interpretação "correta" e seus riscos, sua autoridade despótica e nojenta dos críticos de arte, da leitura(e interpretarei isso como "leitura de mundo", num sentido bem Paulo Freire mesmo) enquanto algo tão livre e tão microscopicamente dependente de cada partícula de universo que há em cada ser humano, que chega a ser anárquico...Texto delicioso e fantástico, que me fez lembrar muitas coisas...

O primeiro fato que me lembrei foi a Vernissage, há uns 10 anos atrás, da exposição "Cabeças", da qual um quadro meu participou porque era a exposição dos alunos, e eu fazia aulas de pintura na época...Eu sou um verdadeiro desastre nas artes manuais, e eu tinha meus 11 anos na época, obviamente meu quadro era um quadro de criança, com uma maturidade de uma criança que quer fazer cabeças coloridas felizes em uma festa...E só.
Então, estava eu lá, orgulhosíssima de estar em uma exposição (acontece que nessa época, por ser boa aluna mas ser "feia" e um verdadeiro desastre em competições esportivas, eu tinha um enorme orgulho intelectual, uma arrogância nojenta típica dos nerds que eu só fui começar a desfazer nos meus humilhantes 4 anos de Química e nas minhas reflexões sobre beleza e esporte além do mercado...enfim...), e veio uma mulher, uma psicóloga, e fez uma enorme interpretação "psicológica" do meu quadro, dizendo que expressava sentimentos maduros da minha psiqué, e que expressava a coletividade, a percepção das pessoas como diferentes e o universo individual de cada um, as cores produziam um efeito do meu inconsciente, e um monte de outras interpretações DELA que meu ego confirmou, como se eu realmente tivesse pensado algum dia naquilo tudo...Eu era uma criança, pelo amor de Deus! Era só uma "festa" retratada, as cores eram cores porque eu adoro colorido, e a cabeça que representava meu pai era verde não porque eu queria expressar tal sentimento, e sim porque meu pai gostava muito de verde e ponto, mas isso no fim pouco importa à quem vai ver o quadro. Eu confirmei tudo pelo meu enorme "orgulho nerd intelectual", o ego inflado por uma "especialista" em mente humana que tinha visto uma inteligência sobrenatural do autor do quadro, exatamente como o autor do texto diz que os autores traem seus leitores ao serem cúmplices dessa interpretação "correta" da leitura...

Lembrei-me também de um dia, vendo uma cena montada por um grupo de teatro lá de Santos, que assisti em um lugar mágico chamado "Café Teatro Rolidei"*, e um amigo meu engenheiro me disse: "Isa, eu nunca entendo nada dessas coisas artísticas, do que querem dizer...me explica?", e eu, no meu orgulho intelectual nerd de atriz de teatro amador (na época eu estava num grupo de teatro há um ano), apesar de não estar entendendo bosta nenhuma, interrompi o deleite que eu estava sentindo (era uma cena bonita demais, com poucas falas bastante desconexas, mas a atriz olhava tão longe e sorria tanto que era intrigantemente inexplicável a sensação de alegria que a cena dava) para dar explicações vazias de filmes de Hollywood - como não bastasse ser orgulhosa, eu era bem tapada...hehehe...

Tive que me despir desse orgulho para voltar a dança, para saboreá-la de verdade como a saboreio hoje, ainda que ande ultimamente bem atrapalhada com as técnicas...

Esse lance de que a arte não deve ter interpretações "corretas" é ótimo. Lembrei-me de uma discussão recente com o Capi(meu namorado, p/ quem não sabe...) sobre o filme surreal "Um cão andaluz", do Buñuel. Eu não entendi nada do filme, mas morri de aflição o filme todo. E o Capi me deu a seguinte sacada: não é para entender, é para sentir. "Arte é para sentir". Fato, é disso que trata a estética, a arte: criar algo para sensibilizar o espírito, para desencadear emoções e nos colocar o desafio de sermos mais humanos, de refletir, de nos intrigar e enlouquecer no inexplicável...nenhum outro ser é capaz disso, e andamos correndo cada vez mais o risco de perder nossa capacidade estética enquanto nos voltamos à incessante produção insensível e irreflexiva - e logo estaremos como animais, num Admirável Mundo Novo...

Essa necessária verbalização de tudo, conceituação, páginas e páginas de explicação sobre obras artísticas. Tudo nós temos que verbalizar...será? Isso é desumanizante - e fazemos isso com a arte e com o que sentimos, fazemos isso com o amor, o desejo, com Deus... está lá a ciência bestialmente procurando o DNA de Jesus Cristo no Santo Sudário, endocrinologistas dosando hormônios do "estar apaixonado" (e o amor vira umas doses a mais de oxitocina, que absurdo!!), geneticistas e sociólogos provando por A+B o porque uma pessoa deseja alguém do mesmo sexo, acadêmicos do IA tentando conceituar que Chico Buarque queria dizer isso ou aquilo e blá blá blá...Socorro!!!!

Eu não faço idéia de como se explicaria uma escobilla (trecho do baile Flamenco em que se sapateia, particularmente minha parte preferida do baile), mal entendo o que se canta na música, não sei porque os compassos do tangos se dividem em 4 tempos e o da soleá em 12...E isso pouco importa, não é nada disso que me faz dançar e nem saber das técnicas é o que faz a minha dança arte(não estou negando o valor da técnica). Eu sinto a dança, ela entra em mim e me move, me desperta, mexe em algo inexplicável que me motiva a reflexão, a ação, o movimento, e o que eu sinto ao dançar ou assistir a um espetáculo é que faz daquilo uma arte. Isso vale para a capoeira, para o amor pela minha mãe, para meu desejo por doces, para minha revolta...

Numa sociedade em que o que sentimos é sempre subjugado a uma razão científica, sempre colocado de lado em nome da produção e do mercado, em que não escolhemos o que consumimos - simplesmente por estarmos alienados a tudo o que é produzido, não temos idéia da onde vem nosso chester de natal, ou como funciona nossa câmera digital, caímos na armadilha da tecnologia do especialista, e nem o coletivo nem ninguém domina o todo - a arte corre o sério risco de perder seu maior trunfo, o sensível...cada vez mais ela vira uma coisa funcional, que serve a um determinado fim, seja ele o fim dos dinamites ou da alienação do ser. Onde está a nossa humanidade?

E aí, realmente, fica muito fácil cair no "para que serve a poesia?"; retiramos da poesia e das artes sua essência, e a colocamos como simplesmente apologia, bomba, alienação...Não temos mais o livre sentir, não sentimos as dores de cabeça porque estamos cheios de aspirinas, seja no corpo, seja nas interpretações. E assim, discriminamos as interpretações "certas" e "erradas", ao invés de trabalharmos nossos sentidos...

Assustador, terrivelmente assustador...


*quem for a Santos, não perca...Funciona no Teatro Municipal de Santos, tem uma entrada salgada de 15 reais mas vale a pena - é um bar temático em que você é atendido por personagens, interpretados por um grupo de teatro; tem banda e dancinhas engraçadas, e no meio da noite fazem cenas teatrais; além do espaço ser um enorme cenário e de ter vários figurinos que todo mundo pode vestir; e os drinks são deliciosos, tem muitas opções sem álcool tb; a grana toda vai para custos básicos e projetos de fomento a arte na cidade, os atores são voluntários...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Saudades...

Eu ando com saudades de Cuba...
Não sei porquê...
Um docinho cubano:
http://www.youtube.com/watch?v=bJ4NOXz3gjA&feature=related

domingo, 9 de agosto de 2009

Um conto...

Acabo de ler um conto que minha colega de classe me enviou.
Disse que se lembrou de mim quando leu, e não foi por acaso.
Dentre tudo que me revolta num conto desses, dentre todas as armadilhas que apareceram nele e eu já caí algum dia, o que mais me assusta e que com certeza sustenta a homofobia, o machismo e o racismo que o conto denuncia, é a forma como é encarado o desejo, o sexo, o amor e as relações humanas.
Estou em choque com meu passado, e tenho um louco desejo de destruir o que querem que eu seja.
Conto de Alice Walker.
Obrigada, Bel!!
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Um esposo de meia idade chega em casa depois de um longo dia no
escritório. Sua esposa o recebe na porta com a notícia de que o jantar
está pronto.. Ele se sente grato. Primeiro, no entanto, ele precisa ir
ao banheiro. No banheiro, sentando-se na banqueta, abre um número da
revista Jiveboy que trouxe para casa em sua pasta. Há uma pose de um
par de mulheres que o excita particularmente. Ele examina as jovens
mulheres - louras, talvez (a loucura nacional), com cintas elásticas e
olhos convidativos - e acaricia seu pênis. No mesmo instante, seus
intestinos remexem-se com vontade de defecar. Ele fica no banheiro
durante luxuriantes dez minutos. Sai de lá aliviado, relaxado -
faminto e pronto para o jantar.
Sua esposa, usando mais tarde o banheiro, encontra a revista levemente
molhada. Ela a apanha com emoções contraditórias. É uma mulher morena,
com cabelos e olhos pretos. Examina as loura e as ruivas. Será que ele
pensa nelas, indaga, quando está fazendo amor comigo?
- Por que você precisa disso? - ela pergunta.
- Isso não significa nada - ele responde.
- Mas isso me magoa de alguma maneira - ela diz.
- Você está sendo a) boba; b) quadrada e c) ridícula - ele diz. - Você
sabe que eu te amo.
Ela não pode dizer nada a ele: Mas elas não são eu, essas mulheres.
Ela não pode dizer que tem ciúmes das fotos nas páginas da revista.
Que ela se sente invisível. Rejeitada. Negligenciada. Ao invés disso,
diz para si mesma: Ele está certo. Eu tenho de amadurecer. Entra na
linha. Nadar com a corrente.

Ele acha que a entende, o que ela estava tentando dizer. É a Jiveboy,
ele pensa. As mulheres louras.
No dia seguinte, ele traz para casa a Jivers, uma revista negra, cheia
de mulheres negras e mulatas. Fica no banheiro outros luxuriantes dez
minutos.

Ela fica olhando, segurando a revista: na capa estão as pernas e os
sapatos de um homem negro bem-vestido, carregando uma pasta e um Wall
Street Journal enrolado na mão. A seus pés - ela vira a capa da
revista uma e outra vez para entender exatamente a pose da foto - está
uma mulher, uma mulher de pele escura como a dela, enrolada e
contorcendo-se de tal maneira que sua cabeça quase não é visível. Só o
seu maravilhoso corpo - suas costas e derrière - de tal maneira que
ela parece um monte de excremento humano aos pés do homem.
Ele vai em viagem de negócios a Nova York. Leva também sua esposa. Ele
está excitantemente descobrindo a Rua 42 com ela. "Olhe", diz. "Como
tudo é livre aqui! Que diferença de Boston!" (a pequena cidade onde
moram). Ele está fascinado com as prostitutas louras, modernas, com
seus rufiões negros, marchando em bandos pela rua. Fascinado com as
diminutas saias das prostitutas negras, seus longos cabelos,
inevitavelmente falsos e louros. Ela caminha um pouco atrás dele, para
que ele veja primeiro essas maravilhas. Ele não repara, até dobrar
uma esquina, que ela parou em frente de uma vitrina que atraiu seu
olhar. Enquanto estava parada, sozinha, olhando, dois rufiões, cada um
por sua vez, perguntam-lhe de qual estábulo ela faz parte, se é que
faz parte de algum. Ou simplesmente: "Tá trabalhando?"
Ele volta rapidamente e a segura pelo cotovelo. Faz cara feia para o
cumprimento implícito nessas perguntas, depois o divide com sua
mulher: " Você é bem espertinha!"
Ela está paralisada. Seu rosto reflete sofrimento e assombro. "Mas
olhe", ela diz apontando. Quatro grandes bonecas de plástico - uma
Farrah Fawcett magrinha (assim ela pensou) em pose para uma inspeção
anal; uma oriental, com os olhos estranhamente fechados e a boca
vermelha, num beijo, aberta como uma concha de sucção; uma enorme
mulher esquimó, com pele ao redor do seu pescoço, tornozelos e vagina;
e uma mulher negra, vestindo uma pele de leopardo, incluindo o rabo.
As bonecas são todas de tamanho natural, e a eficiência de seus
genitais de borracha está explicada com detalhes num cartão visível
através do vidro.
Para ela isso é um pesadelo - provavelmente porque todas as bonecas
estão sorrindo. Ela as verá pelo resto da vida. Para ele a visão
também é chocante, mas desperta uma lasciva curiosidade. Ele
retornará, um outro dia, sozinho. Enquanto isso, deve evitar que ela
veja essas coisas, ele decide, puxando-a bruscamente para uma outra
rua.

Mais tarde, no quarto de hotel, ela vê na televisão duas cantoras
negras cantando seus últimos sucessos: a primeira mulher, vestida de
dourado (porque sua música agora é "ouro puro"!) está usando uma
corrente em volta do tornozelo - a esposa imagina que vê uma corrente
- porque a mulher está cantando: "Liberte-me de minha liberdade,
acorrente-me a uma árvore!"
- O que você acha disso? - ela pergunta ao esposo.
- Ela é uma idiota - ele diz.
Mas quando a segunda mulher canta: "Posição, aponte, fogo, meu nome é
desejo", com armas e foguetes disparando em torno dela, ele acha que o
verso "Acerte-me com seu amor" explica tudo.
Ela se sente desanimada

Ela olha no espelho o seu corpo escuro e roliço, cabelos crespos e
olhos pretos e conclui, bobamente, que não é bonita. E que tampouco é
moderna. Entre os seus vários problemas está o fato de que não gosta
que ninguém use a palavra "crioulo", e tem medo da maconha. Essas
limitações, ela sente, a tornam velha, muito parecida com sua mãe que
gosta de sexo (ela recentemente descobriu isso), mas é profundamente
religiosa e acha, por exemplo, que jogo de cartas é pecado e o álcool,
mortal. Seu marido não acharia sua mãe sexy, ela pensa. Já que ela
mesma está envelhecendo, esse pensamento a assusta. Mas,
surpreendentemente, enquanto observa a si mesma, no espelho,
transformar-se na mãe, ela descobre que acha a mãe - que
cuidadosamente trança seus cabelos grisalhos de tamanho médio, nem
fino nem grosso, toda noite antes de ir para a cama; tranças que seu
pai ainda consegue desfazer durante a noite - muito sexy .
No mesmo instante ela se sentiu reconfortada.
Resolveu lutar.

- Você é a única mulher negra do mundo que se preocupa com coisas
assim - ele lhe diz, sem saber de sua resolução, e mal-humorado com
seus meses de silenciosa reflexão.
Ela diz: - Olha, pessoa de cor, leia este ensaio de Audre Lorde.
Ele se recusa. Ela insiste.
Ele chega à frase sobre Lorde "movendo-se na luz do sol contra o corpo
de uma mulher que amo", e pára. - Espere um minuto - ele diz -, que
nome esquisito para um homem é Audre. Certamente eles queriam dizer
André.
- É o nome de uma mulher - ela diz. - Leia o resto.
- Nenhum sapatão pode me dizer coisas que interessem - ele diz,
fechando as páginas.
Ela estava calmamente esperando por isso. Ela pegou a Jiveboy e a
Jivers. Nas duas, tem mulher trepando com mulher que nem conhece. Ela
pega de novo o ensaio e lê:

Isso me leva à última consideração sobre o erótico. Compartir o poder
dos sentimentos de cada um é diferente de usar os sentimentos do outro
como usamos Kleenex. E quando olhamos para trás, a partir de nossa
própria experiência, erótica ou não, nós usamos, mais do que
compartimos, os sentimentos daqueles outros que participam da
experiência conosco. E o uso, sem o consentimento do usado, é abuso.

Ele olha para ela ressentido, porque ela está lendo e relendo esse
texto, silenciosamente, concentrada, para si mesma, segurando as
páginas com as fotos das falsas lésbicas (um dos tipos de pose que
mais o excitam, embora inconscientemente) no colo, absorta. Ele
compreende que já não pode mais tê-la sexualmente da maneira como a
tinha desde o segundo ano de casamento, como se o corpo dela
pertencesse a outra pessoa. Ele vê, no fina; do caminho, a
dissolução do casamento, uma procura constante por corpos mais
perfeitos, ou esposas mais tolas. Ele se sente oprimido pela
incipiente luta dela, e sente como se, de alguma maneira, essa sua
luta para mudar o prazer que ele sente fosse uma violação de seus
direitos.
Agora ela está ocupada afixando as palavras de Audre Lorde no armário
sobre a pia da cozinha.
Quando eles fazem amor, ela tenta olhá-lo nos olhos, mas ele se recusa
a devolver seu olhar.
Pela primeira vez ele se conscientiza de que o prazer de gozar sem ela
é amargo e solitário. É como se comesse sozinho um doce roubado, atrás
do celeiro. E no entanto, ele pensa vorazmente, é melhor que nada, o
que considera como um benefício que a luta dela trouxe a ele.
No dia seguinte, ela está lendo um outro ensaio, quando ele chega em
casa do trabalho. Chama-se "Uma Subversão Silenciosa", e é de Luisah
Teish.
- Outra sapatão? - ele pergunta.
- Outra de suas irmãs - ela responde e começa a ler, mesmo antes de
lhe servir o jantar:

Durante o movimento do Poder Negro, boa parte da educação cultural se
concentrou no físico negro. Uma das realizações deste período foi a
popularização do estilo africano de cabelo e a moda do natural. Junto
com esse novo penteado veio uma nova auto-imagem e uma nova maneira de
se relacionar. Então a indústria cinematográfica lançou "Superfly",
e o visual de Jesus Cristo, as cabeças Konked, e uma atitude similar
assolou a comunidade negra. Filmes como "Shaft" e "Lady sings the
Blues" retratavam os "heróis" negros como cheiradores de cocaína,
tolos inconseqüentes. Nesses filmes a mulher negra é sempre vítima de
uma rede de violência....
Um teatro popular em Berkeley apresentou um filme pornô intitulado
"Slaves of Love" (Escravas do Amor). O cartaz publicitário mostrava
duas mulheres negras, nuas, acorrentadas, e um homem branco de pé
sobre elas com um chicote! Como tal material pornográfico racista
escapou à atenção dos militantes negros revela um problema...

Como sempre, ele nem escuta á afirmação sobre as mulheres.
- O que essa puta sabe sobre o movimento do Poder Negro? - ele se
encoleriza. Está furioso com sua esposa por conhecê-lo há tanto
tempo e tão bem. Ela sabe, por exemplo, que foi por causa do Movimento
do Poder Negro (e na verdade do Movimento dos Direitos Civis antes), e
não exatamente por ter sido militante, que ele consegue manter seu
emprego burguês. Ela se lembra de quando o cabelo dele era afro. Agora
está apenas anelado. Ele começou a pensar que, por ela o conhecer como
era, ele não consegue fazer amor com ela como ela é. De alguma
maneira, em algum canto firmemente reprimido de sua mente, ele
considera que sua esposa continua negra, enquanto ele se sente como se
tivesse mudado para outro plano.
(Esta idéia, um lampejo que lhe ocorreu naquele instante, amedronta-o
tanto que por vários anos ele resistirá a ela. Se a tivesse aceitado
de uma vez, por mais perturbadora que fosse, isso o teria ajudado a
entender a irracionalidade de sua aceitação da pornografia usada
contra as mulheres negras: que ele havia separado a si mesmo de sua
própria negritude ao tentar identificar as mulheres negras apenas por
seu sexo.)
A esposa nunca havia se considerado uma feminista - embora fosse, com
certeza, uma "mulherista". Mulherista é feminista,só que mais comum (a
autora deste texto é mulherista). Ela fica, portanto, surpresa quando
o marido a ataca chamando-a de "feminista liberada", "lacaia da mulher
branca", "fantoche" nas mãos de Gloria Steinem, incipiente
queimadora-de-sutiã! Que conexão seria possível, ele queria
saber,entre ela e as mulheres brancas - essas bruxas
ultra-privilegiadas (ele havia lido recentemente a Newsweek) que agora
marchavam e pregavam as suas merdas puritanas pra cima e pra baixo no
Times Square!
(Ele se lembra apenas da liberdade que sentiu quando estava lá; não se
lembra que ela ficou parada diante da vitrina de bonecas de plástico.)
E se ela fosse fazer todas essas novas ligações com sapatões e
brancas, aonde isso o levaria, o homem negro, o mais brutalizado e
oprimido ser humano na face da terra? (Será porque ele agora pode
cobiçar as mulheres brancas em liberdade e ela não tem uma válvula de
escape semelhante, que ele pensa nela como ainda negra e nele como uma
outra coisa? Esse pensamento está por detrás do que ele está dizendo,
mas sua mulher desconhece isso.) Ela não sabe que é por causa desses
mesmos corpos brancos que ele foi linchado no passado e ainda é
linchado, pela polícia e pelo sistema penitenciário dos Estados
Unidos, dezenas de vezes por ano até hoje?
Astuciosamente, a esposa reservou o ensaio de Tracey A. Gardner para
esse momento. Porque Tracey A. Gardner pensou sobre tudo isso, não
apenas como está acontecendo presentemente. mas historicamente, e ela
tem clareza sobre todos os abusos cometidos contra ela como pessoa
negra e como mulher, e é destemida e é fria - ela está furiosa. A
esposa,mais inclinada à depressão e à auto-abnegação do que à fúria,
aquece-se no fogo da raiva altamente contagiosa de Gardner.
Ela começa a ler:
Porque, do meu ponto de vista, o racismo está em todo lugar, incluindo
o movimento das mulheres, e realmente precisarei dizer algo sobre isso
quando não o encontrar... e a primeira vez em que isso ocorrer, eu
lhes direi.

O marido, surpreso, acha isso muito engraçado, para não dizer
pertinente. Ele bate no joelho e senta-se. Está louco para fazer
algum tipo de comentário positivo ao que disse a sapatão, mas nada lhe
ocorre.

A escravidão na América apoiou-se na negação da humanidade dos povos
negros, e no solapamento de nosso senso de nação e de família, no
despojamento do papel do homem negro como protetor e mantenedor, e na
ordenação das mulheres negras no sistema americano de dominação do
macho branco...
-Em outras palavras - ela diz, - os homens brancos pensam que devem
estar por cima. Outros homens sabem como saborear a vida em outras
posições.
O fim da Guerra Civil trouxe o fim de uma certa 'forma' de escravidão
par os povos negros. Também trouxe o fim de qualquer 'segurança no
emprego' e a perda da proteção do dono de escravos. Os negros eram
agora caça livre, e a aterrorização e a humilhação do povo negro,
especialmente do homem negro, começaram de outra forma. Agora o homem
negro podia ter sua família e provar seu valor, mas ele não tinha os
meios para sustentar ou proteger nem a ela, nem a si mesmo...

Enquanto ela lê, ele se sente envergonhado e percebe o profundo
embaraço da esposa, por ele e por si mesma. Pela história deles
juntos. Mas obstinadamente ela continua a ler:

Depois da Guerra Civil, a justiça popular, que significava que
normalmente não seriam precisos nem julgamento nem provas, começou seu
domínio na forma de castração, morte na fogueira, decapitação e
linchamento dos homens negros. Cerca de 5.000 pessoas brancas iam
assistir a esses eventos como se fossem a uma celebração. (Ela pára,
suspira: decapitação?) Mais de 2000 homens negros foram linchados num
período de 10 anos de 1889 a 1899. Também houve um número grande de
mulheres negras linchadas. (Ela lê essa frase rapidamente e a
esquece.) Mais de 50% dos homens negros linchados eram acusados de
violação ou tentativa de violação.


Ele não consegue imaginar uma mulher sendo linchada. Nunca havia nem
mesmo considerado a possibilidade. Talvez seja por isso que a imagem
de uma mulher negra acorrentada e ferida o excita ao invés de
horrorizá-lo? É o fato de nunca ter terminado o linchamento de seu
corpo que força a esposa, no momento, a passar por cima do registro
histórico. Ela não está preparada para ligar o seu próprio marido com
a continuação daquele passado.
Ela lê:

Se um homem negro tivesse relações sexuais com uma mulher branca
aquiescente, era violação (Por que estou sempre lendo sobre, pensando
sobre, preocupando-me sobre, meu homem ter relações sexuais com
mulheres brancas? Ela pensa, desesperadamente, enquanto lê). Se ele
insultasse uma mulher branca com o olhar, era uma tentativa de
violação.

- Sim - ela diz, suavemente, como em apoio a sua obstinada leitura -,
eu li Ida B. ...como é mesmo o nome dela?

Com os linchamentos, o homem branco estava mostrando que odiava o
homem negro carnalmente, biologicamente; ele odiava sua cor, seus
traços, seus genitais. Assim ele atacava o corpo do homem negro, e
como um amante enlouquecido, mutilava sua carne, violava-o da maneira
mais íntima e pornográfica...
Eu acredito que esse tratamento obsceno, desumano, do homem negro pelo
homem branco, tem uma correlação direta com o tratamento
progressivamente obsceno e desumano das mulheres, particularmente das
mulheres brancas, na pornografia e na vida real. As mulheres brancas,
trabalhando por seu próprio crescimento e identidade, sua própria
sexualidade, tornaram-se, num certo sentido, arrogantemente negras.
Como os homens negros ameaçam a masculinidade do homem branco e o seu
poder, agora também o fazem as mulheres.

-Essa garota está tramando alguma coisa - diz o esposo, mas, pela
primeira vez na vida, ele pensa que quando não está pensando em foder
com as mulheres brancas - fantasiando com as revistas ou paquerando-as
nas ruas - ele muitas vezes pensa nas maneiras de humilhá-las. Então
ele pensa que, considerando sua história como um homem negro na
América, não é surpreendente que tenha confundido trepar com elas com
humilhá-las. Mas o que isso tem a ver com a maneira como ele se vê a
si mesmo? Este pensamento abafa o seu aplauso secreto para Gardner, e
ele lança um olhar confuso e desconcertado para sua esposa. Ele sabe
que fazer amor com sua mulher como ela realmente é, com quem ela
realmente é - na verdade, fazer amor com qualquer outro ser humano
como ele realmente é -, vai exigir um olhar escrutinador-de-alma para
dentro de si mesmo, e só pensar nisso literalmente arrepia seu cabelo.
Sua esposa continua:

Alguns negros, cheios das perspectivas e dos valores dos homens
brancos, vêem a mulher branca ou Deusa Loura como parte da imagem
americana do sucesso. Algumas vezes, quando está com a mulher negra,
ele se envergonha do modo como ela tem sido tratada e como ele tem
sido impotente, e como sempre tiveram de trabalhar juntos e proteger
um ao outro . (Sim, ela pensa, nós sempre fomos tudo o que temos, até
agora. Ele pensa: Nós ainda somos tudo o que temos, só que agora
podemos viver sem permitir a nós mesmos a consciência disso.) Frantz
Fanon diz sobre as mulheres brancas: "Ao me amar, ela me prova que sou
merecedor do amor branco. Eu sou amado como um homem branco. Eu esposo
a beleza culta, branca, a branca brancura. Quando minhas mãos
incansáveis acariciam seus seios brancos, elas se apossam da
civilização e da dignidade brancas e as tornam minhas." (Ela não pode
acreditar que ele quis escrever "dignidade branca".)

Ela pára, olha para seu esposo: - E então como deve se sentir uma
mulher negra quando o seu homem negro deixa um Playboy na mesa do
café?

Pela primeira vez ele entende completamente uma frase que sua esposa
leu no dia anterior: "A indústria pornográfica explora o corpo das
mulheres negras de uma maneira qualitativamente diferente de como
explora as mulheres brancas", porque ela está mostrando a capa de
Jivers para ele e perguntando: "Com que essa mulher se parece?"
O que ele tinha se recusado a ver - pois ver revelaria uma outra área
na qual ele se acha incapaz de proteger ou defender as mulheres negras
- é que, enquanto as mulheres brancas são retratadas como "objetos",
as mulheres negras são retratadas como "animais". Enquanto as mulheres
brancas são representadas pelo menos como corpos humanos, senão como
seres, as mulheres negras são representadas como merda.
Ele começa a se sentir mal. Pois compreende que comprou muitas, senão
todas, as publicidades sobre mulheres negras e brancas. E depois
disso, inevitavelmente, ele comprou a publicidade sobre si mesmo. Na
pornografia o homem negro é retratado como capaz de foder qualquer
coisa... até um pedaço de merda. Ele é definido apenas pelo tamanho,
prontidão e promiscuidade de seu pênis.

No entanto, ele ainda não sabe fazer amor sem as fantasias com as
quais as revistas e os filmes o alimentaram. Esses filmes e revistas
(cuja caracterização dos personagens é irrelevante ou antiética no que
lhe diz respeito) que se insinuaram entre ele e sua esposa, fazendo
com que a totalidade do corpo dela, sua inteira realidade corporal se
tornasse estranha para ele. Apertá-la com luxúria significa
automaticamente fechar os olhos. Fechar os olhos e... ele sorri com
amargura... sonhar com a Inglaterra.
Durante todos esses anos ele tem fodido a si mesmo.

No começo, lendo Lorde juntos, eles recusaram a idéia de se separarem.
Depois, descobriram que precisavam de um tempo separados para clarear
a cabeça, desvendar as feridas, se curarem. De qualquer modo, ele se
sente incapaz de forçar uma resposta; ele não quer que ela o faça. Ela
parte por uns tempos. Sozinho, ele logo procura ansiosamente a revista
que havia jogado fora. Ele se masturba furiosamente diante daquelas
lindas mulheres, espalhadas como melões a sua frente (ele começa a
perceber como os estereótipos mudam). mas ele não pode negar o que
sabe - ou que sabe que sua esposa sabe, caminhando em alguma praia num
país negro, onde todas as mulheres são descoradas e alisadas, e os
homens nunca olham para si mesmos; e são feios, de qualquer maneira,
na sua imitação do homem branco.
Muito antes que ela volte, ele lê os seus livros e pensa sobre ela - e
em sua luta sozinha e no medo e no medo que ele tem de comparti-la - e
quando ela volta, é sessenta por cento o corpo dela que ele move na
luz do sol, a própria carne negra dela confirmada pelo brilho dos
olhos dele.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Conhecimento Popular...

Um bolo, um café, um fim de tarde. Sento-me à mesa com seu Tião, caboclo de 72 anos de histórias para contar, jardineiro, poeta e educador.
Depois desses 5 meses de convivência, conversas, risadas, eu aprendi demais com o seu Tião, e quero aprender mais ainda. Muito além de complicadas aulas de botânica, estética de poesia, incompreensíveis textos de filósofos da economia, teorias inúmeras sobre o aprendizado da criança e a afetividade na escola, muito além dos partidos "revolucionários" que disputam seus cargos nos três poderes, dos gritos surdos do movimento estudantil, dos remédios com nomes químicos complicados, está o seu Tião e seu conhecimento popular, de quem viveu e VIVE muito...Seu Tião me ensinando sobre as luas boas para plantar, me ensinando a cozinhar melhor e mais saudável, me contando como funciona a política "cinza" e a "propriedade intelectual" de seu projeto nas escolas, seu Tião me contando que conhece gerações e gerações que pegou no colo, seu Tião sonhando e FAZENDO o coletivo e a revolução acontecer, seu Tião e os chás que curam tudo, a dama da noite na frente da casa como repelente de mosquitos, seu Tião e suas histórias gostosas de anos com mochila nas costas, seu Tião recitando poesias de autoria própria antes dos mais deliciosos almoços...

E ele me diz: aproveite a vida, porque ela passa rápido, eu estou aproveitando a minha. Ele me fala isso como se fosse, para o resto do mundo, um jovem de 20 anos...Muito diferente do discurso derrotista dos infelizes de 40, que acham que a felicidade está nos 20 anos...Nunca vi o seu Tião lamentar seus 72 anos, nunca vi alguém achar que ele tivesse mais de 50, nunca vi o seu Tião deixar de ir uma única sexta feira dançar forró...O que, aliás, ele faz deliciosamente bem.

E detalhe: ele faz absolutamente TUDO a pé. Vai trabalhar, comprar mudas p/ jardim, supermercado, forró. A pé. Isso me impressiona muito, eu que sempre fui meio preguiçosa e medrosa de andar na rua. Só anda de busão se vai ao centro.
O seu Tião é uma das pessoas mais sábias que conheço, seguramente. E uma das pessoas mais revolucionárias com certeza. Seu Tião lida com mundo partindo do pressuposto de que o ser humano é bom, e isso eu acho o mais fantástico de tudo. Não é uma fé tola, vazia, cultuando livros, filósofos, deuses, imagens, é a fé de quem conhece tanto do mundo e dos homens que consegue distinguir sistema e natureza humana. Trabalha com crianças, jovens, presos, deficientes, políticos de muita grana, trabalha com gente suficientemente diferente para saber que as pessoas estão contaminadas pelo sistema que criaram, mas não são naturalmente ruins. Essa não amargura com o mundo, essa alegria intrínseca, essa vivacidade que dizem alguns ser "juvenil", me inspira, me alegra, me dá uma esperança...

Não é a toa que o sei Tião me lembra a minha avó...Como eu sinto a presença dela quando estou com ele...A relação com a terra(minha vó entendia tudo de chás, xaropes, e sempre tinha uma arruda em casa), as frases sábias da cultura popular, as piadas - quase sempre cheias de palavrões e de cunho sexual - que ela contava morrendo de rir, as costuras que ela fazia, a comida deliciosa e cheirosíssima que ela fazia(como a do seu Tião...), o jeito meio debochado e absolutamente sincero de falar de sexo comigo...Eu me lembro do cheiro doce do quarto dela, perfumado e cheio de bonequinhas, de ir comprar pano no centro com ela e meu pai, lembro do carinho que consegui dar p/ ela, da mão dela quando ela falava(um gesto típico dela, geminianos sempre mexem muito as mãos), do sotaque meio pernambucano e meio carioca...Mas mais do que isso tudo, eu lembro do exemplo que ela é para mim, como é o seu Tião...

Com tudo o que sofreu minha avó, ela não se vendeu, nunca. Me lembro da minha última conversa com ela...Num leito de hospital, por um maldito câncer, uma tarde de sexta feira, sem nunca perder o senso de humor:
- Mas Isadora, vc gosta mesmo daquele rapaz, que sua mãe fala?
- Não vó, não(mentiraaaaaaaaaa, huahuahuhua)...
- É, eu não dei sorte no amor não...
Adendo - minha vó namorou meu avô, um português mulherengo e machistão típico, que, como era de se esperar, arrumou outra...e minha avó não aceitou que ele tivesse outra...Quando descobriu, tomou um porre de rum e mandou ele catar coquinho, mesmo com uma filha e o estigma de mãe solteira; encontrou outro que a prometeu mundos e fundos, foi afastada da minha mãe, que morou um bom tempo com meu avô por isso(não sei exatamente porque, só sei que minha mãe e minha avó ficaram um tempão longe e que tem a ver com esse outro namorado da minha avó) e esse outro foi embora e sumiu, deixando-a com outro filho nos braços...enfim, um covarde imbecil...E minha vó era uma nordestina não branca, sem casa própria, que morava onde trabalhava e criou assim meu tio...
- Uma vez, Isadora, apareceu um advogado, bonitão, rico, não queria saber se eu tinha filho, se eu era virgem, se eu tive estudo ou não, ele queria casar comigo...
- Ué, vó, mas por que a senhora não casou com ele, ele podia ter te dado muita coisa!
Ela me olhou com uma cara de "é óbvio" e disse:
- E Isadora, como eu ia casar com ele se eu não o amava?

É, aprendi muito mais com eles que com os postulados da matemática.
Minha avó me dizia que tinha estudado burrologia, se dizia burra, mas sempre me perguntava como escrevia uma palavra tal, como funcionavam as coisas, que era tal coisa e o que era outra...A prática da reflexão constante dela me inspirava a ir pesquisar e descobrir o mundo...
Eles dois sabiam/sabem muito mais, e me ensinam tudo assim, sem um único dia de faculdade.

Coletivo, amor, reflexão, bom humor, felicidade? Esses valores errados eles me ensinaram, e eu me emociono de lembrar dessas coisas...Isso é o conhecimento popular.